quarta-feira, 5 de agosto de 2020


Os “camisas pardas” tupiniquins

Cesar Vanucci

“São rinocerontes. Não pensam. Racistas e adeptos do totalitarismo”. (Eugène Ionesco, dramaturgo, sobre o nazismo)

Tem continuidade a narrativa do encontro de próceres da Ku Klux Klan e coligados para avaliação das passeatas contra o racismo.  O relato – já explicado – é ficcional. Qualquer semelhança com fatos reais não passa de mera coincidência.

O Grão-Mestre da KKK declarou-se amargurado com “as execráveis e subversivas manifestações”. Espumando ódio, deplorou “o malefício que as algazarras acarretam, afrontando o sentimento da sociedade, favorável à prevalência, no relacionamento social, dos princípios da pureza eugênica”. Convidou o coordenador do Birô latino americano da Klan a transmitir à plateia informações acerca das “admiráveis reações aos descalabros antirracistas e impertinências democráticas, ocorridas no Brasil, levadas avante por grupo decidido de adeptos das propostas redentoras de desmantelamento das falidas estruturas republicanas”. Na dissertação, entrecortada de aplausos frenéticos, o coordenador do Birô reportou-se “aos épicos eventos conduzidos pelos parceiros brasileiros”. Esclareceu que eles se dizem em número de 300. “Embora não somem, se tanto, um terço disso, pelo desassombro na conduta, vale por milhares de combatentes. Indicado para cargo de projeção, um deles recitou, na televisão, sem vacilos, trechos inteiros das falas do inolvidável pensador Joseph Goebbels.” “Só de recordar a performance – sublinhou – lambuzo-me de emoção, tal a similaridade da alocução com aquelas arrebatantes prédicas de nossos comícios de Munique e Berlim.”

O Grão-Mestre atalhou o expositor “para proclamar jubilosamente” que “ao brilhante interprete de Goebbels será conferido o ‘Grande Colar da Suástica Escarlate’, instituído para perenizar feitos grandeloquentes”.

O coordenador prosseguiu: “Dezenas de camisas pardas, traquejados no emprego das redes sociais para difundir magistrais ‘fakes’, inclusive com o concurso de robôs; sabendo esculhambar impecavelmente, de modo anônimo, os representantes do desmoralizado sistema democrático; partícipes ativos  de minicomícios de achincalhe ao carcomido regime das liberdades públicas, promoveram, em Brasília, uma soberba manifestação de culto adolfista. Sob o manto estrelado da noite, ao som de tambores, portando máscaras venezianas, carregando archotes, entoando mantras supremacistas, postularam, com altivez, a implantação de ditadura e o controle policial dos órgãos de comunicação. A coreografia caprichada, lembrando o célebre ‘passo de ganso’, recompôs as cenas memoráveis das marchas dos gloriosos tempos do Terceiro Reich”.

O Grão-Mestre voltou a intervir: - “Conferiremos o Grande Colar também, a esses audazes correligionários de nossa santa cruzada”. Indagou: - “Algum fato relevante a mais?” – “Sim, Venerável, tenho mais um episódio extraordinário. O dirigente de um órgão cultural, jornalista, berrou alto e bom som que a escravidão é uma baita mentira propagada por esquerdopatas. O distinto pontuou que os negros foram sempre bem tratados e que a liderança negra comprometeu-se sordidamente com procedimentos malsãos. Condenou ainda a absurda comemoração do dia da ‘Consciência Negra’, propondo que as pessoas favoráveis à tão descabida celebração sejam deportadas para o Congo”.

O Grão-Mestre, exultante, puxando aplausos, garantiu que “também esse notável pensador será contemplado com a máxima condecoração”. Acrescentou o propósito de “convidá-lo a fazer parte de nossa assessoria de comunicação, para ajudar-nos a mostrar ao universo a farsa histórica do holocausto, propaganda subversiva contraposta aos sublimes valores raciais”. Nesse ponto o expositor achou por bem esclarecer, que “no caso em foco, existe um porém, todavia, contudo...”
- “Do que está mesmo falando? Desembuche logo!” - tornou o Grão-Mestre.
- “O cara das declarações não é bem um dos nossos”.
- “Como assim?”
- “É... negro! Convertido!”
- “Negro?”
- “Sim, como a noite”.
- “Com essa eu não contava. Isso muda tudo. Mantenham-se as demais condecorações. Mas, quanto a esse lance específico o ‘manual da supremacia ariana’ veda a concessão do Colar. Cuidemos de arranjar outro tipo de homenagem. Acode-me uma idéia: remeter ao dito cujo, na data natalícia, um cartão de congratulações.  Eu assino. Melhor pensando, a assinatura será delegada  ao encarregado do expediente da secretaria”.

Esta historieta ficcional fica por aqui.

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