quinta-feira, 13 de agosto de 2020


A palavra dos Bispos

Cesar Vanucci

“Todos (...) seremos julgados pelas ações ou omissões.”
(Trecho de documento divulgado por quase duas
centenas de Bispos e Arcebispos da Igreja Católica no Brasil)

Com a clarividência que é de se esperar de uma liderança espiritual verdadeiramente compromissada com sua nobre missão apostólica, centenas de Bispos, Arcebispos, Cardeal entre eles, tornaram pública uma candente manifestação sobre a conjuntura política e social brasileira. O documento, intitulado “Carta ao povo de Deus”, começa por lembrar que nosso País atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, vivendo “uma tempestade perfeita”.
A tempestade, sustentam os Prelados, combina “uma crise sem precedentes na saúde” e um “avassalador colapso na economia”, com tensões que pressionam “fundamentos da República”, provocadas em grande medida pela equivocada atuação dos governantes. Tudo isso – ressalta-se – conduz a uma profunda crise política e de governança.
Sem meias palavras, os signatários da Carta, quase duas centenas de dirigentes eclesiásticos da Igreja Católica, asseveram que a avaliação do cenário político permite perceber, sem paixões, com nitidez, “a incapacidade e a inabilidade do governo federal em enfrentar essas crises.” “Assistimos sistematicamente – pontua-se no documento – a discursos antidemocráticos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortos pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino.”
Os dirigentes religiosos declaram-se sumamente preocupados, também, com “o caos socioeconômico que se avizinha, trazendo desemprego e carestia, projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam a manutenção do poder a qualquer preço”. Afirmam, peremptoriamente, que os discurso e posicionamentos adotados “não se baseiam nos princípios éticos e morais, tampouco suportam ser confrontados com a tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.
Com foco na necessidade urgente das reformas estruturais, os Bispos e Arcebispos condenam as alterações promovidas na Previdência Social e legislação trabalhista. Segundo alegam, ambas, “tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo.” Enfatizando que o Brasil carece de reformas, explicam que as medidas almejadas pela comunidade não poderão oferecer resultados que “piorem a vida dos pobres, desprotejam vulneráveis”.
Criticam, ainda, “a liberação do uso de agrotóxicos antes proibidos e o afrouxamento do controle de desmatamentos”, atitudes que “não favorecem o bem comum e a paz social”. O documento classifica de “insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”. O “sistema do atual governo” - diz ainda o texto – não coloca no centro das cogitações a pessoa humana e o bem geral, “mas a defesa intransigente da economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”.
O pronunciamento menciona, também, que “o desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia” é de maneira a causar estarrecimento, ficando visíveis nas demonstrações hostis à educação pública e no “apelo a ideias obscurantistas”.
Na manifestação ganha destaque o que é classificado como “uso da religião para manipular sentimentos e crenças, provocando tensões entre igrejas”. “Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário”, segue o documento.
Os religiosos pedem serenidade, compreensão, disposição de luta a todos que detenham influência nas decisões voltadas para a causa do desenvolvimento, no sentido de contribuírem para a abertura de “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade objetivando seja restabelecido o respeito à Constituição Federal  e ao Estado Democrático de Direito.”
Sublinham, por derradeiro, que “todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador”.
Assim falaram os Bispos. Com sabedoria traduziram, na “Carta ao Povo de Deus”, anseios legítimos de segmentos majoritários da sociedade.

Um comentário:

Paulo Miranda disse...

Prezado César,


o triste é o outro lado da moeada, desse sestércio: a maioria dos nossos Bispos não assinou o documento, após cuja divulgação, verifiquei em páginas diocesanas do Estado de MG sem lograr encontrar uma única menção a esse mais que urgente e necessário clamor...

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