sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O espírito invejável do Natal

Cesar Vanucci*
  
 "Natal. Apagam-se as luzes, acendem-se as esperanças”
(Eva Reis, poeta)

O Natal é, por excelência, a época que melhor se identifica com o conceito ideal de vida proposto por Akira Kuruosawa, quando fala, com fascínio na voz e no olhar, do “mundo invejável dos corações fervorosos”. O cineasta, sem propósito preconcebido, de vez que emprega a harmoniosa expressão num contexto cultural não influenciado pelo sentimento dominante nas celebrações natalinas, confere ressonância humanística à mensagem de definitiva beleza que chega do fundo e do alto dos tempos. A transcendência desta mensagem, de origem divina e conteúdo cósmico, abrasa os corações e concita as criaturas de boa vontade a se empenharem na construção de um mundo melhor, não apenas com vistas à conquista, aqui e agora, da pátria terrena.

Como conceber, com os olhos da esperança, esse mundo invejável? Ele será, seguramente, povoado de amor fraterno e não de ódio destruidor, de apaixonante solidariedade social e não de desapiedado utilitarismo. De justiça removedora de desigualdades e não de injustiça que só faz, o tempo todo, aguçá-las. De contemplação ecumênica e democrática dos contrastes de opinião existentes no relacionamento das ruas e não de imposição autoritária, nascida em ambientes fechados e acinzentados, em favor de doutrina política única ou de pensamento religioso sectário. De crença nos valores espirituais, garantidores da dignidade e não de desprezo solene a preciosos dons humanos, em nome de posturas preconceituosas e desagregadoras. Não fosse tudo isto tradução fiel das condições de vida imaginadas em sua peregrinação de amor pela mais sábia e poderosa das criaturas, o Deus que há dois mil anos se fez carpinteiro.

A realidade impiedosa de nossos tempos mostra que a distância do alvo a atingir, na aspiração dos corações fervorosos, é medida por consideráveis anos-luz. Muitas as estruturas da convivência humana em estado de desarranjo. Esquecida das lições do saber eterno, a humanidade tem avançado celeremente na edificação de um mundo mecanicista, onde a tecnologia assume, na encruzilhada de decisões cruciais, caminhos de duvidosa eficácia para o atingimento da promoção humana. O exemplo é contundente e não é único. Nas preocupações políticas e científicas, o conhecimento da desintegração do átomo está mais próximo da fabricação de artefatos bélicos do que da criação do bem-estar. Percebe-se, em muitos países e de forma clara no Brasil, que as políticas econômicas objetivando o desenvolvimento relegam a plano inferior a amplitude humana e os aspectos sociais.

Vem sendo esquecida a lição singela de que o homem é o princípio, meio e fim de tudo. Não existe para servir à política ou à economia. Estas é que foram colocadas em seu caminho para servi-lo.

A sabedoria cristã – o mesmo se pode dizer da sabedoria de outras correntes do pensamento religioso – orienta o ser humano no sentido de que se apegue a um ponto de equilíbrio, em meio às naturais discordâncias provocadas pela efervescência intelectual, inerente à vida. Essa busca pressupõe o domínio da serenidade. É reveladora da incompatibilidade visceral da mensagem cristã, ou espiritual, com as posições extremadas e fanatizadas. Um economista britânico, Fritz Schmacher, lembra que “o ponto essencial da vida econômica e da vida em geral é que ela exige constantemente a conciliação ativa dos opostos”. Arremata magistralmente: “Há na vida econômica e social muitos problemas de opostos que, embora de difícil solução, podem ser transcendidos pela sabedoria”. Nada mais exato. É na sabedoria eterna que se encontram lenitivo e solução para conflitos existenciais do tipo desenvolvimento técnico versus desemprego, ou versus poluição ambiental. Ou o ponto de equilíbrio que garanta, a um só tempo, a desejável estabilidade e as transformações reclamadas pelo progresso; o respeito à tradição e o apreço às propostas renovadoras.

Como preconiza o pensador, “nossa felicidade e nossa saúde” podem depender de “buscarmos simultaneamente atividades ou metas mutuamente opostas.”

Isso tudo remete, na idealização de um mundo melhor, mais justo e generoso, à necessidade de se dar à técnica uma feição humana, de se fortalecer os avanços econômicos com a ampliação dos benefícios sociais, de se estabelecer cooperação com a natureza, em vez de desbaratar as dádivas deixadas por Deus no solo e subsolo deste planeta azul.

Comecei estas maldigitadas com o pensamento do cineasta japonês. Vou concluí-las com a evocação da cena de um filme americano, dirigido por John Ford, que focaliza uma batalha na Guerra da Secessão. Num dado instante, as tropas rivais, com suas emoções ensandecidas, guarnecendo trincheiras separadas a tiro de fuzil, são arrebatadas por um misterioso e avassalador sentimento de ternura. Baixam as armas, abandonam as posições e se confraternizam ruidosamente. Voltam a se engalfinhar mais adiante, na maior das truculências. O que interessa aqui é captar a atmosfera daquele momento mágico da pausa conciliatória, da temporária cessação das hostilidades. Ele tem a ver, simbolicamente, com o espírito de Natal. Que mais, muito mais do que o “espírito do Natal”, deveria ser, para todo sempre, estado de espírito indissociável da aventura humana.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

AMOR TOTAL

Cesar Vanucci

“Ame até doer.”
(Madre Teresa de Calcutá)
  
Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus amigos. Seguem junto meus votos de um Feliz Ano Novo pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras.

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O granfino insolente, / O moço inconsequente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos.

E sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão sionista, irmão islamita... / de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos / E se confessarem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira / E que viu se esvaírem os sonhos de uma vida inteira.

Análise justa e caridosa da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura.

Visão apaixonante do mundo do trabalho / O gênio que bolou a espaçonave, / A mestre-escola de presença suave, / O varredor de rua, / O cientista de olhos fitos na lua, /O pesquisador em laboratório / E a enfermeira que cuida de feridas em ambulatório, / O bombeiro que conserta esgoto / E o operador de Bolsa bem posto, / O versejador de feira, / O condutor de escavadeira, / O autor de inesquecíveis canções, / O peão campeador de bravios sertões, / O operário da construção civil / E a doméstica tratada de forma servil.

Amor que procure compreender / Pessoas e coisas como são, / E não como poderiam ser. / Como são... / E não como poderiam ser.


De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal!

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


C  O  N  V  I  T  E

XIX ENCONTRO CULTURAL DA ACADEMIA

A Academia Mineira de Leonismo tem a satisfação de convidar V. Sa., familiares e amigos para o ¨XIX Encontro Cultural da Academia¨, que consistirá numa palestra do Acadêmico Daniel Antunes Júnior, Ex-Governador do Distrito LC-4, subordinada ao tema ¨VIVENDO E APRENDENDO¨, bem como numa festa de congraçamento natalino de nossa comunidade leonística e convidados.



Data:              19 de dezembro de 2013 ( quinta-feira)
Horário:         19:30 horas
Local:             Sede do Distrito LC-4
                       Av. Silva Lobo, 1820 – B. Nova Granada – BH


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Dito e feito, Madiba!

Cesar Vanucci *

Fiz tudo o que podia.”
( Nelson Mandela)

O que estamos acabando de assistir, apoderados de forte comoção e envolvente ternura, nos tributos populares dedicados a Nelson Mandela, nessa despedida ao grande herói da humanidade destes nossos confusos tempos, pode ser considerada a mais empolgante e extensa manifestação pública de celebração da vida jamais presenciada em qualquer outro lugar do mundo ou tempo da história.

É verdade que grandes festejos populares, comemorações religiosas, cívicas e esportivas, de feitos com repercussão mundial costumam mobilizar, em todos os quadrantes, enormes multidões em clima de alegria ou de outra modalidade contagiante de emoção. Mas o que as eletrizantes cenas de rua na África do Sul, com réplicas noutros países, expuseram abundantemente, na hora da despedida do líder carismático que pôs fim ao “apartheid”, foi algo muitíssimo diferente de tudo aquilo que nos tem sido dado a contemplar em gigantescas concentrações. As cenas de rua foram regidas por genuína espontaneidade e num tom devocional sem qualquer paralelo.

O adeus a Mandela foi feito de lágrimas, aplausos, danças e cantos típicos, ladainhas festivas, num feérico e colorido cenário de louvações aos valores que conferem dignidade à atividade humana. A trajetória percorrida por este homem que se doou por inteiro a uma causa essencial no processo de transformação humana, deste homem que virou lenda, mito em vida, deixa à mostra as qualidades supra-humanas de seu espírito inquebrantável. Dono de uma retidão moral que, desafortunadamente para a sociedade contemporânea, é apontada como exceção e não regra nas fileiras das lideranças políticas, ele infundiu respeito, granjeou simpatia e, até mesmo veneração, dentro e fora de seus pagos natais. E tudo graças à estoica e perene fidelidade aos ideais e princípios dos quais se fez incomparável arauto.

Combateu tenazmente o racismo, as desigualdades sociais, a falta de liberdade, injustiças de todos os feitios. Enfrentou as iras dos poderosos e resistiu com bravura indômita às violências e martírios que lhe foram infligidos. Tanto, aliás, em seu país como em outros lugares do mundo. Lugares que hoje se rendem ao fascínio de sua cintilante jornada. Por haver se insurgido contra as ignomínias cometidas pelo regime racista, foi condenado a 30 anos de cárcere. Acusado de perigoso comunista, foi arrolado em lista internacional elaborada para identificar desalmados terroristas. Seu nome figurou ao lado - para dar um exemplo assustador - do próprio mentor da Al Qaeda, exatamente, ao lado de Osama bin Laden. O presidente Ronald Reagan, dos Estados Unidos, e a Primeira Ministra Margaret Thatcher, do Reino Unido, tinham-no na conta de “inimigo da humanidade”. Referendaram todas as barbaridades proclamadas a seu respeito pelos dirigentes sul-africanos. Seja ressaltado, a propósito, mais este lance intrigante: o governo estadunidense reconhece, agora, lucidamente, pela palavra de Barack Obama, que “Mandela já não nos pertence, pertence à História”. Todavia, a Casa Branca só se animou a retirar o nome de Madiba da relação dos “terroristas mais temidos” ha cinco anos, em 2008. Àquela altura, o herói mundial africano já havia conseguido implodir o “apartheid”, já havia conseguido a unificação impecavelmente pacífica de seu país. Já havia, também, conquistado o Nobel da Paz, investigado com soluções salomônicas os crimes do racismo, promovido a reforma agrária. Já havia, por conseguinte, encantado o mundo inteiro com demonstrações pessoais de serenidade, humildade, inteireza de caráter, força moral, verticalidade de atitudes, espírito de concórdia e disposição democrática.
Nelson Mandela legou às gerações de hoje e de sempre mensagens de conteúdo humanístico e espiritual equiparáveis às dos maiores vultos da epopeia da humanidade. Tais mensagens, correspondidas nos atos que praticou, estão bem sintetizadas em conceitos como os que se seguem: “Não é hora de guerra; é chegado o momento da paz”; “Perdoar, mas não esquecer”; “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem, ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender. Se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”.

Dito e feito, Madiba!

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A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...