sexta-feira, 30 de setembro de 2011

C O N V I T E

DIA MUNDIAL DO SERVIÇO LEONISTICO

Dia 8 (oito) de outubro, sábado, 9h30m (nove horas e trinta minutos), no Auditório JK na Cidade Administrativa, homenagem da Governadoria, Clubes e Academia Mineira de Leonismo, do Distrito LC-4, a Mulheres de destaque na sociedade mineira.
Os frequentadores deste Blog são convidados a participar.

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Outros infortúnios à vista


Cesar Vanucci *

“O mundo árabe continua em um estado fluido,
no qual mesmo imprevistos de menor porte podem ter desdobramentos imprevisíveis e incontroláveis.”
(Antônio Luiz M. C. Costa, jornalista)


As coisas lá pras bandas árabes continuam danadas de confusas. Não poucos observadores dos acontecimentos registrados nas convulsionadas paragens se acham apoderados de dúvidas e temores com relação a eventuais desvios de rumo no percurso da assim chamada “primavera árabe”, um movimento popular acolhido com enormes esperança e simpatia.

O sintomático emudecimento das agências noticiosas sobre o que passou a rolar no Egito, no Iêmen, Tunísia, Jordânia, Bahrein, até certo ponto, também, Síria, depois das passeatas e comícios que sacudiram as ruas, na maior parte dos casos, reprimidos com ferocidade pelas forças de segurança, deixa um bocado de gente com a pulga atrás da orelha.

As confabulações em torno da implantação de regras democráticas no jogo político avançaram? A livre expressão de idéias vem sendo garantida nesses territórios? As vozes de todos os grupos étnicos e de todas as correntes políticas e religiosas vêm se fazendo ouvir em aglomerações públicas, nos recintos fechados ou ao ar livre? Foram efetivamente banidas do pedaço as restrições, as censuras, as penalizações severas aos que assumam posições divergentes das versões dos fatos trazidas ao conhecimento público pelos detentores do poder? São perguntas que cruzam os ares à cata de respostas em meio a uma enxurrada de procederes contraditórios detectados em reações assumidas por protagonistas de dentro e de fora dos preocupantes eventos. Das armações engendradas nas estratégias das grandes potências, interessadas em não perderem o poder de influência na região, não importa as facções que se apossem do timão político, já temos dado algumas informações aqui neste espaço. Seria oportuno falar, agora, então, dos grupos que estão preenchendo os vazios de comando criados com a retirada de cena dos déspotas destronados. O caso, por exemplo, de Muamar Kaddafi, também conhecido por conta da truculência bárbara e extravagâncias administrativas por “cachorro louco”. O chefe do governo provisório instalado na Líbia ainda parcialmente conturbada, Mustafá Abdul Jalil, ex-ministro do tirano deposto, numa das primeiras decisões, já deixou evidenciada a linha retrograda, de puro maniqueísmo fundamentalista, que seu governo cogita implantar nos domínios recém conquistados. Articulado, percebe-se logo, com religiosos radicais, anunciou, pra estupefação geral, que a “sharia”, ou seja, uma abusiva interpretação da lei islâmica, constituirá o novo fundamento jurídico do Estado libio. Pelo édito lançado, prevalecerão no país, para mulheres, as mesmas regras repulsivas vigorantes na assustadora rotina mundana da Arábia Saudita e Afeganistão, para só falar de dois países imersos em concepção feudalica medieval, dominados por fanáticos religiosos. Na coibição de crimes contra o patrimônio e os bons costumes, se apelará também para “castigos exemplares”, sob forma de apedrejamento e amputação. Que a misericórdia de Alá se compadeça da sofrida população líbia, protegendo-a dessa nova onda de insânias e infortúnios à vista!



Fala de estadista


“O desemprego golpeia as famílias,
tira a esperança e deixa a violência e a dor.”
(Dilma Rousseff, Presidenta da República)

Indoutrodia definiram-na como uma das personagens femininas mais representativas do mundo contemporâneo. Após a fala de Dilma, a primeira de uma mulher na abertura oficial da Assembléia Geral das Nações Unidas, a admiração universal pela conduta da Presidenta brasileira só fez, com toda certeza, crescer.

Pronunciamento de estadista. Sob numerosos aspectos, de conteúdo nitidamente superior ao de outros mandatários brasileiros convocados, como reza a tradição desde a criação da ONU, a proferirem anualmente a alocução inaugural nas assembléias gerais da instituição. Contundente, sem se afastar do toque diplomático ajustável às circunstâncias, o discurso da Presidenta confere realce, com clareza e objetividade, a itens candentes de nossa realidade política, social e econômica. Entre os pontos enfocados, ao jeito de uma bronca mais do que compreensível, como reconheceram qualificados observadores, Dilma Rousseff cobrou enfaticamente das grandes potências uma solução coletiva para a crise mundial. Lembrou que “essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países”. Propôs, então, debaixo de aplausos, “um novo tipo de cooperação, entre países emergentes” – caso do Brasil e demais integrantes dos chamados BRICs – “e países desenvolvidos”. Uma proposta interpretada naturalmente, pelas lideranças mais lúcidas da opinião pública mundial, como esplêndida “oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais”, como acentuado na vibrante fala.

Interrompida repetidas vezes pelas manifestações calorosas da platéia, Dilma deixou registrado não ser por falta de recursos financeiros que os líderes das grandes potências ainda não souberam encontrar soluções para os problemas que angustiam a humanidade. Explicou, com precisão, o motivo das coisas não funcionarem a contento: “É, permita-me dizer, por falta de recursos políticos e de clareza de idéias.” Reportando-se ao aflitivo problema do desemprego, lembrou que “enquanto muitos governos se encolhem, a face mais amarga da crise, o desemprego, se amplia.” Trata-se de drama – pontuou – que “golpeia as famílias, tira a esperança e deixa a violência e a dor.”

Defendendo a presença permanente do Brasil no Conselho de Segurança da ONU, a chefe do governo brasileiro assinalou que a legitimidade do órgão se subordina, cada dia mais, à necessidade de sua reformulação. Um debate, afinal de contas, que já se espicha por décadas e que, no ver da comunidade internacional, não pode ser protelado indefinidamente. Louvando o ingresso do Sudão do Sul como novo integrante das Nações Unidas, lastimou, com toda razão, não poder, naquela mesma hora, saudar também a chegada à ONU da Palestina, com o desfrute em plenitude dos direitos de um Estado soberano associado.

Recebeu verdadeira ovação ao dizer estas palavras: “Assim como a maioria dos países nesta Assembléia, acreditamos que é chegado o momento de termos a Palestina aqui representada a pleno título.” Acrescentou, com firmeza e sensatez: “Apenas uma Palestina livre e soberana poderá atender os legítimos anseios de Israel por paz com seus vizinhos, segurança em suas fronteiras e estabilidade política em seu entorno regional.” Nada mais exato, convenhamos, na análise da problemática da turbulenta região.

Os Direitos Humanos, tão vilipendiados em tantas partes deste planeta, mereceram também de Dilma, no histórico discurso, um registro significativo. Ela expressou veemente repudio às repressões brutais que vitimam populações civis, sublinhando, com amargura, que o mundo vê-se às voltas, hoje, com as pungentes consequências de intervenções que só se aprestam a agravar os conflitos, além de possibilitar “a infiltração do terrorismo onde ele não existia.” Disso advêm novos ciclos de violência, com a multiplicação assustadora de vítimas civis.



Declarações memoráveis


“O desarmamento nuclear é fundamental para a
segurança pilar do Tratado de não Proliferação.”
(Presidenta Dilma Rousseff)

A fala incisiva da Presidenta Rousseff, acolhida com manifesta simpatia pelos representantes dos países presentes à sessão inaugural da Assembléia Geral da ONU, contemplou vários outros temas palpitantes, além dos focalizados em nosso último artigo. O papel da mulher no mundo contemporâneo, assunto por ela tratado com ênfase na campanha eleitoral passada, em meio a borrascas de incompreensões ditadas por uma mídia hostil e por adversários raivosos, ocupou largo espaço no aplaudido pronunciamento.

Dilma reportou-se a atuação fundamental das mulheres brasileiras na superação das desigualdades sociais. Lembrou que “nossos programas de distribuição de renda têm nas mães a figura central”, por serem elas que cuidam dos recursos que permitem às famílias investir na saúde e na educação de seus filhos. Reconheceu sensatamente que o Brasil, como os demais países, “ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher”. Confessou-se orgulhosa de representar, além das mulheres brasileiras, “todas as mulheres do mundo: as anônimas que passam fome, aquelas que padecem de doenças, as que sofrem violência e são discriminadas, aquelas cujo trabalho no lar cria gerações futuras.” No arremate dessa edificante linha de considerações, registrou: “Junto minha voz à voz das mulheres que ousaram lutar e participar da vida profissional e política e conquistaram espaço de poder.”

O momento do discurso que parece haver provocado o mais forte impacto emocional na atenta platéia foi aquele em que Dilma Rousseff, assegurando que o governo brasileiro irá, até o final de sua gestão, erradicar a pobreza extrema, asseverou que a melhor política de desenvolvimento “é o combate à pobreza”, convidando todos os países a participarem da Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável programada, em 2012, para o Rio de Janeiro.

Logo na sequência, a voz compreensivelmente embargada, fez questão de reafirmar as crenças humanísticas que constituem seu ideal de vida: “Como mulher que sofreu tortura no cárcere, sei como são importantes os valores da Democracia, da Justiça, dos Direitos Humanos e da Liberdade. É com esperança de que esses valores continuem inspirando o trabalho desta Casa das Nações que tenho a honra e iniciar o debate desta Assembléia.”

Horas depois do histórico discurso proferido na abertura solene da Assembléia Geral, a Presidenta Dilma Rousseff reocupou as atenções dos representantes dos países membros da ONU com outro memorável pronunciamento em que conclamou o mundo a abolir as armas nucleares. As agências noticiosas classificaram a declaração como a mais peremptória já ouvida na ONU, por parte de um chefe de Estado, sobre o sempre momentoso tema, debatido com extrema hipocrisia, como é notório, pelas grandes potências. “O desarmamento nuclear é fundamental para a segurança pilar do Tratado de não Proliferação, cuja observância as potências nucleares devem ao mundo”, afirmou.

Disse mais: “A segurança desse acervo militar nuclear merece tanta consideração quanto a dos materiais utilizados para fins pacíficos. Seria, sem dúvida, necessário para fins de segurança fiscalizar ambos. É imperativo ter no horizonte previsível a eliminação completa e irreversível das armas nucleares. A ONU deve preocupar-se com isso.”

Outra fala da Presidenta, sem sombra de dúvida, memorável.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)



sábado, 24 de setembro de 2011

Só mesmo Nonô!

Cesar Vanucci *

“Mestra Julia me deu (...) o dom de oferecer
sem orgulho e de receber com humildade.”
(Juscelino Kubitschek de Oliveira)


Focalizando em comentário recente a excepcional performance governamental do Presidente Lula, aludimos ao extraordinário trabalho executado, no século passado, por um outro Presidente que deixou marcas indeléveis na crônica política brasileira. Ele mesmo, JK. Fomos interpelados, na sequência, por universitária nascida nos anos 80, admiradora confessa de Lula, que demonstrou interesse em conhecer alguma coisa a mais sobre o construtor de Brasília, nascido em 12 de setembro de 1902 e falecido em circunstâncias trágicas, em 22 de agosto de 1976.

Com o propósito de satisfazer a curiosidade da pessoa mencionada, confiados ainda que entre os benevolentes leitores muitos possam também se interessar por informações concernentes a Juscelino, resolvemos a partir de hoje contar neste espaço histórias de Nonô, o mineiro de Diamantina. Um governante que, tal qual Lula, soube entrelaçar o espírito desenvolvimentista, o sentimento de brasilidade e a sensibilidade social nas metas de trabalho. Um cidadão que, por causa disso mesmo, como se repetiria depois com Lula, enfrentou borrascas de incompreensões urdidas por adversários raiventos, inconformados com sua liderança carismática.

“Só mesmo Nonô para fazer tudo isso!” A sugestiva frase foi dita por Dona Júlia Kubitschek, mãe de Juscelino, ao contemplar Brasília de uma janela do Alvorada. É citada em “JK, o Artista do Impossível”, livro de Cláudio Bojunga. Um esplêndido documentário da vida e obra do grande estadista, onde colhemos várias informações que permeiam estes comentários.

Olhando Brasília, não temos como não reverenciar, em clima de exultação cívica, o personagem mais fascinante da História brasileira do século XX. Natural de Diamantina, JK conquistou lugar de realce entre os estadistas que deixaram impressa sua marca na construção de um mundo melhor.

Diamantina, região mineradora, é um monumento barroco de extraordinária beleza. Um centro de efervescente cultura, genuinamente brasileira. Num ensaio magistral sobre a formação do povo mineiro, Paulo Pinheiro Chagas lembra que a mineração foi um desdobramento natural das bandeiras. E que a cultura dominante nas zonas mineradoras apontou sempre na direção da democracia e da indústria. O autor comprova o acerto da tese nos exemplos de insubmissão cívica de Felipe dos Santos, Tiradentes e Teófilo Otoni que sonharam com uma política de industrialização para o país. É legítimo extrair-se desse encadeamento de conceitos que Juscelino, “provindo da região das lavras, se formou ao calor dessas tradições. Ouviu, no recolhimento dos serões domésticos, a história dramática do nosso destino. Desse modo, o natal de sua imaginação haveria de impregnar-se de elementos definitivos”, como registra Pinheiro Chagas.

Em atmosfera cultural tão propícia, os dons naturais do futuro líder afloraram com impetuosidade. Sua inquietação cívica, sentimento de nacionalidade e visão transcendente da vida ganharam constantes estímulos e força. Assim modelou-se sua personalidade, rica em virtudes humanísticas. O ambiente familiar influiu poderosamente na formação do caráter de JK. Ele mal conheceu o pai, falecido quando não havia ainda chegado aos três anos de idade. Seu tio-avô, João Nepomuceno, atuou na política e se fez também conhecido pelos pendores literários. Dona Júlia, professora, era carinhosamente chamada pelo filho de “anjo protetor”. Seu enorme carinho pela mãe retrata-se nestas palavras: “Mestra Júlia me deu o bem da vida (...) o dom do exemplo, o de madrugar e o de trabalhar; o de persistir no esforço e na dignidade sem esperar compreensão e tolerância; o de oferecer sem orgulho e o de receber com humildade; o de amar a justiça e exaltar a coragem.” Era também afeiçoado à irmã, Maria da Conceição, Naná, figura de exponencial importância em sua preparação para a vida. Na esposa, Sara, companheira dos bons e dos maus momentos, encontrou ajuda inestimável.

Juscelino frequentou o Seminário na terra natal. Aprendeu o gosto pela leitura. Experimentou, “por juvenil curiosidade”, como confessou, o alfabeto Morse. Substituía telegrafistas, a cinco tostões por hora, quando estes deixavam a tenda de trabalho para um cafezinho. Fez concurso e passou para telegrafista. Registrou, a propósito: “Batendo o Morse e o Baudot – ligeiro e certo, de meia noite às seis da manhã – ao longo de oito anos, pude oferecer à Mestra Júlia a minha vocação: o médico que decidira ser.”

José Maria Alkimin, amigo nas futuras andanças políticas, fazia parte da turma de telegrafistas. Em 1927, tendo como companheiros Odilon Bherens e Pedro Nava, JK colou grau como médico. Tornou-se sócio do cunhado, Júlio Soares, médico conceituado, de influência preponderante nos rumos assumidos em sua trajetória pública.

Depois de especialização profissional na Europa, veio a ser nomeado chefe do Serviço de Urologia da Polícia Militar, recebendo divisas de capitão. Chegaria, mais tarde, ao posto de coronel médico. Benedito Valadares nomeou-o chefe de gabinete, incluindo-o, em 1934, na chapa para deputado federal. Foi o mais votado entre os candidatos mineiros à Câmara dos Deputados. Alguns amigos figuraram também entre os eleitos: José Maria Alkimin, Pedro Aleixo, Negrão de Lima, Gabriel Passos, seu concunhado e, mais tarde, seu oponente ao governo de Minas.



Estilo juscelinista de administrar


“JK era alegre como uma janela aberta.”
(Paulo Pinheiro Chagas)


O golpe dado por Vargas em 10 de novembro abalou os “devaneios democráticos de Juscelino”, segundo o biógrafo Cláudio Bojunga. O Estado Novo era um regime híbrido, sem ideologia, acentuava ele.

Por volta de 1940, Valadares convocou Juscelino de volta à política. Convidou-o a ocupar a Prefeitura de BH. O convite foi a princípio recusado. JK escudou-se em sua notória aversão às ditaduras. Consta que Valadares, no afã de quebrar-lhe a resistência, garantiu que a redemocratização estava a caminho. Recebendo acerbas críticas por aceitar o cargo, Juscelino tomou posse. O Brasil começou a conhecer, a partir dali, arrojado empreendedor público, o mais criativo tocador de obras governamentais de sua história. Anunciando que ia administrar na rua, e não fechado no gabinete, ele promoveu, em curtíssimo tempo, verdadeira revolução urbana. Uma antecipação, em dimensões provincianas, do que viria a fazer mais tarde na vastidão territorial do Brasil. A audácia administrativa deixou os belorizontinos boquiabertos. Eles estavam habituados a ritmos menos trepidantes na esfera do serviço público. O primeiro trator empregado em obra urbana levou às ruas milhares de curiosos. Juscelino revolveu a fisionomia arquitetônica de Belô. Num lance administrativo ousado para a época, criou a Pampulha. Introduziu nessa parte da Capital referenciais arquitetônicos de vanguarda, nascidos de suas agudas percepções e de sua vocação conquistadora do futuro. E, também, dos traços geniais, carregados de beleza, de Oscar Niemeyer. O arquiteto, que se tornaria mundialmente famoso, iria acompanhá-lo, anos afora, em outras viagens grandiosas pelos caminhos do desbravamento territorial e da integração cultural. Em um ano, a área pavimentada urbana já equivalia a mais de 1/3 de todo o calçamento feito desde a inauguração da Capital.

A ação indormida, fecunda em frutos, do revolucionário Prefeito polarizou no Nonô, de Diamantina, as atenções dos mineiros de outras regiões. Após a queda da ditadura Vargas, candidato a deputado federal, Juscelino obteve a segunda maior votação em Belo Horizonte, superado apenas pelos votos dados a Getúlio, que mesmo afastado do poder conseguiu se eleger, nos termos da legislação eleitoral vigente, senador (por dois Estados) e deputado (por sete).

Em 1950, pregando democracia e anunciando hidrelétricas, industrialização, escolas, rodovias, incentivos à cultura e artes, ensino técnico, JK chegou ao Palácio da Liberdade. Sua campanha eletrizou o eleitorado. Cruzou os céus, num pequeno avião, descendo em todos os lugares que dispunham de campos de pouso. Houve dias em que participou, com sua palavra empolgante, de dez comícios. O binômio “Energia e Transportes” sacudiu o Estado. Virou marca do governo mais operoso da história. Acabou significando, como testemunha Pinheiro Chagas, “um provérbio das aspirações de Minas”. O mesmo historiador faz do JK governador instigante descrição: “Ele era alegre como uma janela aberta!” Uma historieta lapidar que dá a medida do “estilo juscelinista” de administrar. Tristão da Cunha, Secretário da Agricultura, solicitou autorização para a compra de 40 mil enxadas. Envolvendo-o num abraço, Juscelino pediu-lhe não o levasse a mal, mas do que gostaria mesmo era de poder assinar uma autorização para a compra de 40 mil tratores. Disse isso e explodiu numa ruidosa gargalhada, conta seu biógrafo Cláudio Bojunga.

A morte trágica de Getúlio, em agosto de 54, no desdobramento de uma crise político-militar de proporções, surpreendeu-o candidato à Presidência. JK contava com a simpatia de Getúlio, que já o havia apoiado na campanha em Minas. O governador mineiro acolheu o então Presidente com todas as honras e envolvente calor humano, na última viagem que fez antes do desfecho fatídico da crise que o retirou de cena. Juscelino foi o único governador presente no velório de Vargas.

Com destemor e altivez, JK venceu as virulentas resistências à sua candidatura. Adversários ardilosos se esmeravam em inçar-lhe de obstáculos difíceis o percurso em direção ao Catete. Lançavam mão de manobras as mais solertes e de casuísmos os mais despudorados. Nessa quadra da vida brasileira, agigantou-se aos olhos da Nação a figura do líder corajoso, a quem Deus despojara do sentimento do medo, conforme tantas vezes proclamou. As urnas consagraram-lhe o nome.


50 anos em 5



“Denunciei o FMI como um instrumento de retrocesso.”
(Juscelino Kubitschek de Oliveira)


Com habilidade, desassombro cívico, conduzindo-se exemplarmente dentro dos postulados da democracia, Juscelino superou as resistências e até mesmo complôs militares contra sua posse. Enfrentou de peito aberto os inimigos, venceu-os e perdoou-os, num gesto de magnanimidade que deixou estampada sua autoridade moral e grandeza d’alma.

Seu programa de metas, consubstanciado em um novo “provérbio”, entusiasticamente assimilado na consciência das ruas – “50 anos em 5” – conquistou mentes e corações. Aos 54 anos, ele colocava a serviço do Brasil e de sua gente uma imagem de energia, determinação e doação pessoal arrebatadora. Ao assumir o governo, nosso Produto Interno Bruto era de pouca expressão. Nossa renda “per capita” não passava de 230 dólares. Os avanços industriais eram considerados tímidos.


Rapidamente, as coisas começaram a mudar. Para melhor. A industrialização ganhou impulso notável. O sistema rodoviário foi consideravelmente ampliado. A capacidade de geração de energia quase duplicou. O asfalto rasgou, em nova versão do bandeirantismo, regiões potencialmente ricas, de rarefeita povoação. Surgiram novas refinarias. A implantação da indústria automobilística espalhou empregos e progresso por todos os lados. A produção de cimento, celulose, alumínio, álcalis, entre outros itens, expandiu. A indústria naval redimensionou a capacidade produtiva. O país ingressou na era da tecnologia de ponta. Conquistou mercados. Implantou indústrias de base. Não houve setor algum da produção nacional que não recebesse os estímulos da “varinha de condão”, propondo crescimento, emprego e progresso, acionada pelo Nonô, de Diamantina. O homem providencial fez o brasileiro acreditar no Brasil e ensinou o estrangeiro a encarar nosso país com admiração. Em meados do século XX, com metas ousadas, Juscelino preparou a entrada do país no futuro.

Febricitante conjunto de obras, espalhando progresso e criando riquezas, mostrava uma face entusiasmante da postura governamental. Mas, como se já não lhe bastasse esta condição inigualável de fazedor de obras Juscelino oferecia ainda, ao Brasil e ao mundo, outras facetas admiráveis como ser humano vocacionado. Assumiu inconteste liderança continental, ao desenvolver, precursoramente, um esquema de integração regional latino-americana através da Operação Pan-americana. Reagiu, com santa indignação e bravura cívica, às impertinentes exigências do Fundo Monetário Internacional.

“Decidi romper as negociações e denunciei o Fundo Monetário Internacional como um instrumento de retrocesso e do atraso internacional”, anotou nas memórias. Com carisma, palavra convincente e irradiante simpatia conquistou multidões. Era aclamado entre celebridades da cultura, da arte e do esporte, junto às lideranças operárias e empresariais, nas classes mais abastadas, na classe média e junto ao povão, como o governante “bossa nova”. O título carinhoso brotou da gratidão das ruas. O povo não ocultava o orgulho pela oportunidade que JK deu aos compatriotas de poderem exercitar sua cidadania e de exibir ao resto do mundo, em termos pujantes, sua identidade nacional.

Brasília, erguida do nada, foi meta-síntese. “Um monumento à vida”, dizia. Jamais o mundo viu coisa igual. Em pouco mais de três anos, o Planalto Central, grande “vazio demográfico” no país-continente, viu irromper das entranhas da terra, por força da obstinação e crenças do grande estadista, a Capital da Esperança. Brasília significou tudo isto: a grande marcha para o oeste. Uma invasão do futuro. Um instante precioso, inigualável, de integração nacional e interiorização do desenvolvimento.

Em que pese seu significado para o País, a implantação da Capital, prevista na Constituição e sonhada profeticamente por Dom Bosco, atiçou a ira de empedernidos adversários e provocou inacreditáveis e belicosas manifestações. Nesses núcleos inconformados, dominados por cega e doentia paixão, Brasília era apontada como uma ode ao desperdício, refletindo inconsequência administrativa.

De certa feita, em Nova Iorque, com o manifesto intuito de provocação, indagaram de Juscelino quais os motivos que o haviam levado a construir Brasília. Numa resposta estupenda, ele resumiu o sentido de sua missão: “Os mesmos motivos pelos quais vocês, americanos, estão construindo uma estrada para a Lua.”



JK, símbolo de muita coisa



“Sua aventura vital foi extraordinária.”
(Afonso Arinos, adversário político, descrevendo JK)


Na Presidência e, depois, na extenuante e dolorida jornada do exílio, Nonô estabeleceu ligações de convivência fraternal com personalidades mundiais de todos os continentes. Nas palestras para as quais era frequentemente convidado, em diferentes partes do mundo, reservava sempre uma palavra otimista à sua terra natal.

Converteu em amigos rancorosos inimigos. O caso mais famoso é o de Carlos Lacerda, que veio a ser seu companheiro na chamada “Frente Ampla”, uma tentativa das lideranças políticas de expressão, banidas do jogo político pela ditadura de 64, de devolverem o Brasil à democracia. Estas palavras, um retrato perfeito, sem retoque, de JK, pertencem a Lacerda: “Esse homem de paz era um combatente. Porque era um verdadeiro renovador, era também generoso. No horror à vingança, à mesquinharia, à mediocridade, fundou sua atitude diante da vida.”

JK recebeu, de certa feita, a visita de John Foster Dulles, Secretário de Estado americano, expoente da assim chamada “linha dura”. Tinha dificuldades para entender os latinos e direcionava obsessivamente suas ações para o combate, conforme fazia questão de sublinhar, ao “comunismo ateu”. Cláudio Bojunga conta como foi o encontro. Depois de bom tempo de conversação, Juscelino revelou a assessores que Dulles já havia proposto nove fórmulas, todas recusadas pelo Presidente brasileiro, para uma declaração conjunta. O norte-americano insistia num documento que utilizasse surrados jargões anticomunistas. Juscelino considerava as ponderações fora de propósito. O documento, insistia, deveria conter, essencialmente, um compromisso com o desenvolvimento e a prosperidade social. A nota final não incluiu as propostas do Secretário. JK reagiu ainda à arrogância de Dulles, que queria porque queria, assinar a declaração, mesmo sendo funcionário de escalão inferior, juntamente com o Presidente do Brasil. Isso não impediu Dulles de registrar, em depoimento público, que “o Presidente do Brasil trata o desenvolvimento com a fé dos místicos.”

Desfrutando de enorme simpatia popular, JK foi instado por lideranças influentes a promover uma reforma constitucional que lhe garantisse novo mandato presidencial. Desfez, de forma categórica, essa possibilidade. Deixou o governo aureolado pelo respeito e gratidão da Nação.

Sua eleição para futuro mandato era tida como líquida e certa. Os acontecimentos político-militares posteriores, com graves desdobramentos, retiraram o Brasil dos trilhos da democracia, mergulhando-o no regime de exceção. JK foi alvejado impiedosamente. Cassaram-lhe injustamente o mandato quando representava Goiás no Senado. O último discurso que proferiu, como parlamentar, é uma obra prima de afirmação democrática e de crença nos valores nacionais. Injuriaram-no, impuseram-lhe humilhações. Fizeram de um tudo para calar-lhe a voz, numa tentativa de diminuir a importância de seu incomparável papel no teatro da história. Tudo embalde. “De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos. Juscelino estará na memória das gerações porque sua aventura vital foi extraordinária.”  Palavras de um adversário em tempos idos, Afonso Arinos.

Sua morte, num acidente automobilístico, que suscitou questionamentos ainda não de todo esclarecidos, enlutou a Nação. O Brasil parou para o adeus ao Nonô de Diamantina, filho de Da. Júlia, político bom de voto e bom de obras. Foi um predestinado. “Deus pegou um século e pôs a maior parte dele no colo do Nonô de Diamantina”, registra, liricamente, o jornalista David  Nasser, no artigo em que se despede de Juscelino. O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sintetiza, em depoimento, o pensamento da gente brasileira sobre o grande personagem: “Acho que o melhor presidente que o Brasil já teve foi Juscelino. Não acredito em quem não tem objetivos, não tem projetos, não sonha alto. Eu acredito em gente como Juscelino.” Lula fala por todos nós. O Presidente do sorriso franco e aberto deixou-nos, como herança, obras definitivas, exemplos vitais, idéias que não morrem, inspirações para as lutas em favor das transformações que a sociedade brasileira ardentemente almeja.

JK é, no sentimento das ruas, símbolo de muita coisa. Símbolo de progresso. De desenvolvimento. De empregos, justiça social, diálogo e concórdia. De intransigência na defesa da soberania nacional. De projetos arrojados na construção humana. De democracia interpretada como instrumento insubstituível nas ações econômicas e sociais. De insubmissão cívica e de nacionalismo autêntico. Por isso suas idéias são, ao mesmo tempo, a inspiração e o fanal de um Brasil que não aceita recessão nem desemprego; que repele a intromissão estrangeira em seus negócios internos; que exige fervoroso respeito no trato da coisa pública e que repudia as fórmulas discricionárias no exercício do poder.

Em suas memórias, uma cartilha de orientação cívica que deveria ser levada às salas de aula onde são preparadas as gerações futuras, JK deixa-nos lições de brasilidade: “Olhai para o mapa do Brasil. É o mapa de um país jovem, a preparar-se para assumir o papel de grande potência que lhe está reservado no mundo.”

Dona Júlia tinha razão ao dizer aquelas palavras: “Só mesmo o Nonô para fazer tudo isso!”

(E, por último, aos que se interessem conhecer a fundo a saga de Juscelino, recomendo com ênfase a magnífica obra de Cláudio Bojunga, “JK, o artista do impossível”).


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Convite aos bons amigos do blog

Semana Mundial do Serviço Leonístico

P R O G R A M A Ç Ã O



Dia 01/10/2011 - Sábado - 9h30min
Local: Auditório da FIEMG Edifício sede da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais Avenida do Contorno, 4456 - 4º andar – Belo Horizonte

Abertura da Semana Mundial do Serviço Leonístico

Sessão solene da Academia Mineira de Leonismo
Posse de novas Acadêmicas
Palestra a cargo da Sra. Ângela Maria Prata Pace Silva de Assis, Presidente da Junta Comercial de Minas Gerais
Tema: “O papel da mulher no mundo contemporâneo.”

Espetáculo de Arte
Confraternização : Café com Quitanda

Dia 08/10/2011, Sábado - 9h30min
Local: Auditório JK - Cidade Administrativa
Rodovia Prefeito Américo Giannetti  - MG 10 - S/N - Serra Verde

Dia Mundial do Serviço Leonístico

Homenagem a Mulheres de destaque em variados setores da vida comunitária
Entrega dos troféus “Lions, Solidariedade Social”
Entrega da Comenda “JK, Cultura, Desenvolvimento e Civismo” – outorgada pela Academia Mineira de Leonísmo

Espetáculo de Arte
Confraternização: Café com Quitanda

A mídia não deu destaque

Cesar Vanucci *

“Tudo que nos parece estranho, condenamo-lo.”
(Montaigne)

Quem se der ao trabalho de acompanhar as análises de alguns do mais festejados comentaristas das mídias eletrônica e impressa a respeito da conjuntura socioeconômica brasileira ficará inteirado, com abundância de dados e números, que a situação não anda nada boa. É péssima, terrível, abacadabrante, como costumava dizer o primo rico (Paulo Gracindo), no saboroso quadro radiofônico/televisivo de tempos atrás, ao primo pobre (Brandão Filho).

A idéia que a erudita avaliação invariavelmente passa é de que o País vive sempre na pior. À beira do precipício. As análises costumam enveredar para comparações com países que o douto pessoal aponta como bem sucedidos em suas políticas desenvolvimentistas. Eles, os estrangeiros – argumenta-se com indisfarçável pedantismo - é que sabem das coisas. Conhecem de cor e salteado as saídas pras crises, a solucionática para a problemática, de que nos falava mestre Dario. Mais preparados, mais criativos, mais tudo, conseguem botar em prática políticas eficientes, que não podem deixar de ser louvadas como exemplos a serem seguidos, sem vacilações, em lugares e por gente menos aquinhoados de qualificações na gestão das coisas que fazem o mundo avançar.

Essa cantilena derrotista enervante não esmorece nem diante de constatações ululantemente óbvias que esses comentaristas por dever de oficio estariam na obrigação de divulgar. Caso, por exemplo, de recente relatório econômico elaborado por um organismo internacional insuspeitissimo por mil e um motivos. Dos quais motivos para o bem informado e arguto leitor não haverá necessidade de se mencionar um único que seja. No referido relatório, essa instituição, o FMI (Fundo Monetário Internacional), mostra a evolução do endividamento, país por país, ao longo de 11 anos, começando por 2000, indicando o percentual de comprometimento do Produto Interno Bruto diante da Dívida Bruta de cada um deles, o Brasil no meio. A matemática retratada é bastante reveladora. A melhor performance, disparada, nesse capítulo de avaliação das políticas econômicas em curso nos países listados, pertence justamente ao Brasil.

Anotem ai, por favor, os números. O grau de endividamento do Japão em relação ao PIB já era sumamente desfavorável em 2000: 142,7%. Mas pulou, agora, ameaçadoramente, em 2011, para 229,1%. Nos Estados Unidos, o comprometimento do PIB com as dívidas acumuladas saltou em 11 anos de 54,8% para 99,5%. Na França, os números apurados foram esses: 57,3% no ano 2000, 87,6% em 2011. Alemanha: 59,7% - 80,1%. A variação para mais no Canadá foi menor do que a de outros países da lista dos mais desenvolvidos economicamente: 82,1% em 2000 e 84,2% em 2011. A Itália, com endividamento que já havia transposto o valor do PIB no começo da década passada, ampliou consideravelmente suas perspectivas de risco. Saiu de 109,2% em 2000, para 116,1% em 2009, 119,0% em 2010, chegando a 120,3% em 2011.

Antes de declinar os índices brasileiros, vamos reproduzir, para fins de ilustração, o que anda acontecendo com países que estão sendo na atualidade alvo de atenção especial, à vista de seu elevado grau de endividamento, por parte da Comunidade Européia. A Grécia, já em 2000, ostentava números preocupantes: 103,4%. De 2006 em diante, a situação só fez piorar: 106,6% nesse ano, 105,1% em 2007; 110,3% em 2008; 126,8% em 2009; 142% em 2010, e, agora, em 2011, nessa fase de conturbação que exigiu intervenções drásticas, 152,3%. Portugal é outro país que está a percorrer itinerário crítico. O índice de endividamento face ao PIB era de 48,5% em 2000. Num crescendo contínuo, chegou em 2011, a 90,6%.

Chega a vez de mostrar o desempenho do Brasil. O índice de 66,7% do ano 2000 sofreu variações para mais entre 2001 e 2005. Manteve-se praticamente estável daí em diante, caindo em 2010 (66,15) e 2011 (65,7%). De todos os países aqui citados, o Brasil foi o único a celebrar uma situação auspiciosamente declinante, nesses índices, segundo avaliação do FMI.

Algo assim é de molde a trazer gáudio pra todos nós, brasileiros. Mas a mídia, sobretudo no espaço ocupado pelos comentaristas econômicos mais festejados, não dá pelota para a revelação. Estranhável pacas!



Sem essa de mexer no queijo


“Mais respeito com o queijo Minas.
Ele é patrimônio cultural da Nação.”
(Deputado Adelmo Leão)


A Assembléia Legislativa de Minas, por iniciativa do deputado Adelmo Leão, promoveu uma audiência pública com o objetivo de estudar medidas eficazes no sentido de proteger a produção do queijo artesanal mineiro, no momento presente ameaçada como nunca em virtude de equívocos sem conta praticados em nome de questionáveis cuidados sanitários.

Agindo de forma desabrida e desrespeitosa, algumas autoridades, em diferentes pontos do Estado, vêm movendo uma guerra sem quartel, verdadeira “caça às bruxas”, ao queijo artesanal, com apreensões espalhafatosas, acompanhadas da destruição do produto recolhido e “enquadramento nos devidos conformes” dos produtores. Assinale-se de passagem, pequenos produtores engajados em árdua luta pela sobrevivência. Tudo isso – voltamos a lembrar - em nome de uma forma controversa de expressar preocupação com a saúde pública.

O queijo de que se está a falar é esse mesmo que o leitor costuma adquirir sempre que comparece a mercados e feiras. É esse mesmo que, antes de nós, nossos pais e, antes deles, nossos avós e bisavós, se habituaram a colocar, como alimento nutritivo de primeira ordem, degustado sempre com indizível prazer, em nossas mesas de refeições. Um item alimentício que adquiriu justificável fama nacional e internacional e que acabou virando patrimônio cultural da Nação. Pois é isso: como comprovam desoladoramente numerosos episódios, um punhado de viventes lançou-se com decidido empenho na inglória tarefa de acabar com o queijo mineiro. Os caras procuram obcecadamente por meios variados, satanizá-lo. “Descobrem”, toda hora, no processo de sua fabricação centenária, irregularidades e inconveniências que “recomendam” seja, pra todo sempre, amém, expurgado das prateleiras. Querem por que querem, sabe-se lá porque cargas d’água, desfazer as queijarias espalhadas por milhares de sítios e fazendas. Queijarias essas que asseguram, como sabido, fonte de renda nada desprezável a milhares de agricultores familiares.

A audiência pública na Assembléia colocou a dramática realidade em clamorosa evidência. Serviu para estimular reações propositivas que, introduzindo razoável dosagem de bom senso nos debates, são de molde a orientar reavaliação das posições extremadas e insensatas que vêm atazanando a vida de tanta gente.

Uma cena inacreditável e, de certo modo, hilária vivida no referido encontro aconteceu quando o representante de determinado órgão governamental, dominado por embriagadora autossuficiência, escandindo as palavras como se a mostrar superioridade inconteste sobre a patuléia ignara no domínio da matéria tratada, asseverou com todas as letras, sem se corar, que o queijo artesanal mineiro concorre para a elevação dos índices de contaminação da tuberculose, ora, ora, ora...

Foi pena que o burocrata em causa não pudesse permanecer até o final da sessão mode ouvir o pronunciamento do deputado Adelmo Leão. Colocando os pingos nos iis, debaixo de aplausos da platéia, constituída de pequenos produtores, o parlamentar reduziu a subnitrato de pó de mico a destramelada argumentação.

A audiência pública teve como efeito positivo a sustação, por enquanto, das medidas repressivas que tanta angustia vinham provocando, até que se consiga estabelecer, em áreas decisórias do Poder Público, um esquema racional, criativo, despojado de extravagâncias fiscalistas, para a atividade queijeira de modo a permitir a compatibilização dos interesses em jogo. O que mais importa na momentosa questão é preservar o nosso queijo artesanal como riqueza cultural brasileira. É o que ocorre, para citar exemplo frisante, com o queijo artesanal da França, também considerado patrimônio cultural. Um produto de exportação, igualmente saboroso, que frequenta, por sinal, sem penalizações, sem condenações, nossos hábitos de consumo.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Faces múltiplas do terrorismo

Cesar Vanucci *


“Os judeus patrocinam a invasão da
Europa por imigrantes islâmicos.”
(Estapafúrdia tese de Anders Breivik,
o terrorista norueguês, que se diz cristão)

A apavorante tragédia norueguesa deixa insofismavelmente evidenciado que o terrorismo fundamentalista possui faces múltiplas. E serve para recolocar no centro dos debates momentosos da história de nosso tempo a necessidade de uma tomada de posição vigorosa da sociedade humana, como um todo, no sentido de estabelecer eficazes mecanismos de controle e defesa social com relação à atuação desvairada de radicais religiosos e políticos de diferentes crenças e matizes.

Não abrindo mão, a pretexto algum, dos valores éticos e preceitos de liberdade de expressão definidos nas convicções democráticas e humanísticas que devem permear sempre a convivência saudável entre nações, grupos e pessoas, a humanidade precisa concentrar atenções prioritárias nessas falanges incendiárias de pensamento extremista, fruto de um caldo de cultura corrosiva e deletéria, que estão a estender ameaçadoras ramificações por tantas paragens deste nosso planeta azul.

Tomemos emprestada ao Islã a expressão talebã para classificar esse tipo de vivente carregado de ódio pelos semelhantes que não compartilhem de suas confusas idéias religiosas ou políticas. Essa expressão, sabemos bem, mostra-se, de modo geral, desvirtuada de seu conceito original em decorrência dos desatinos praticados por radicais religiosos de facções muçulmanas que agem sobretudo no Paquistão e Afeganistão e que engrossam as fileiras da notória Al Quaeda. Mas, tão sinistros quanto os de lá, há os talebãs de cá. Como se viu, agora, por exemplo, em Oslo. E como se tem visto em ações alarmantes, sem a mesma fúria demolidora, em numerosas ocasiões noutros diferentes lugares. Os Estados Unidos, para acrescer novo exemplo.

Não está nada difícil perceber, para quem tenha olhos para enxergar e ouvidos pra escutar, os atos espalhafatosos e os ruídos raivosos produzidos por esses talebãs de diversificadas tendências religiosas e políticas com o objetivo de convulsionar o ambiente. Eles se fazem pregoeiros, em não poucos momentos com manifesta ferocidade verbal e física, de uma ordem de coisas retrógrada, que chega a tomar a feição, como já se disse, de uma “selvageria civilizada”. Propugnam pela manutenção de notórias iniquidades sociais. Trabalham infatigavelmente a derrocada dos postulados democráticos e humanísticos que conferem dignidade a aventura humana. Racistas de nascença, incorporam às praticas cotidianas atitudes preconceituosas contra minorias indefesas. Condenam, em diligentes esforços, procedimentos e projetos que possam desembocar em almejados avanços sociais, em conquistas científicas. E por ai vai. Profligam, enfim, com exacerbação mórbida tudo que não se encaixe devidamente no catálogo de restrições rançosas que alegam vivenciar e que desejam impor aos demais como dogmas de fé, na base inquisitorial do “crê ou morre”.

Esses talebãs de carteirinha, de etnias, nacionalidades e confissões religiosas diversificadas, proclamando-se até, por vezes, hostis uns aos outros (embora não passem de farinha do mesmo saco; é só por tento no que falam e como agem) representam potencialmente riscos para a paz e harmonia na convivência comunitária. Em qualquer lugar onde estejam a disseminar as idéias estapafúrdias de sua demente interpretação do jogo da vida.

Os adeptos das teorias fundamentalistas com inclinação terrorista, não importa se afegã ou norueguesa, ou de qualquer outra nacionalidade, representam desafortunadamente, nesta quadra da existência humana, apesar de sua expressão numericamente insignificante no contexto populacional, uma parcela de indivíduos bem mais encorpada do que seria de admitir no atual estágio de nosso desenvolvimento cultural e tecnológico.




Cartão vermelho e mosca azul


“Vou demiti-lo!”
(Exclamação da Presidenta Dilma, ao tomar
conhecimento da entrevista de Jobim à revista “Piauí”)

Mesmo sabendo que o enredo político possa comportar, nas linhas gerais, razoável dose de surrealismo, não há como deixar de admitir que a passagem de Nelson Jobim pelo palco governamental foi assinalada por excesso psicodélico.

O ex-titular da Defesa protagonizou, com certeza, o único caso conhecido na crônica política internacional contemporânea em que um elemento confessadamente de oposição foi chamado a integrar, como titular de pasta de importância estratégica, uma administração governamental da qual guardou sempre frontal discordância. Dono de forte personalidade e reconhecida erudição jurídica, com seu singular jeito de ser, timbrado por embriagante autossuficiência, Jobim acumulou evidências de posicionamentos pessoais assumidamente contrários às manifestações políticas do gabinete governamental de que fez parte. As inconfidências do “Wikileaks” que puseram em polvorosa um sem número de graduados na vida pública de numerosos países, surpreenderam-no em desconfortáveis circunstâncias. Em que pesasse sua condição de responsável por um Ministério importantíssimo no contexto da soberania nacional, ele foi flagrado, em interlocuções com agentes diplomáticos estrangeiros, a criticar abertamente a política externa de seu país, tendo como alvo sobretudo o companheiro de Ministério na pasta das Relações Exteriores. Por coincidência, o mesmíssimo personagem que, após o cartão vermelho mostrado a Jobim pela Presidenta Dilma Rousseff, convidando-o a deixar o gramado, foi distinguido com o honroso convite para assumir, em seu lugar, as relevantes funções. Noutro instante de perplexidade, ouviram-no empregar em voz alta, para ser ouvido por jornalistas, palavras de inequívoco menosprezo à qualificação e capacidade de colegas, como ele, componentes da equipe responsável pela gestão dos negócios públicos brasileiros. Na sequência, voltou a provocar aturdimento com a revelação, assim sem mais, nem menos, de que seu voto, na eleição presidencial passada, foi dado ao candidato da oposição.

No arremate das trapalhadas veio aquele grosseiro achincalhe, com inocultável sabor machista, em declarações a uma revista, a duas companheiras de Ministério. A tentativa tardia de desculpar-se pelo malfeito, com a “alegação” de que a entrevistadora interpretou equivocadamente suas palavras, não colou. A Presidenta, como de resto, a opinião pública, entendeu esgotados os limites da tolerância para com o comportamento estranho, pode-se dizer mesmo belicosamente frenético, do Ministro. A consequência foi seu defenestramento.

Tantas acabaram sendo, afinal, as aprontações de Nelson Jobim que, no espírito de muita gente, brotou até a impressão de que, com sua boquirrota e contínua presença na mídia, o ex-titular da Defesa, tocado – quem sabe – pela “mosca azul”, andou querendo mesmo firmar um conceito como protagonista político, que seja aproveitado, de certo modo, para cacifar eventuais pretensões eleitoreiras.

Ÿ Suponho que o ilustre alcaide de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, não seja o único gestor público a utilizar aeronaves fretadas para atendimento de alguns compromissos noutras regiões. Suponho, também, que existam ocasiões emergenciais, bem delineadas como tais, na lida de organizações com complexidade administrativa, em que o emprego dessa modalidade de transporte aéreo encontre fundada justificativa. Doutra parte, entendo convictamente que, adotado equivocadamente por quem quer que seja como prática usual, de modo a fazer da exceção uma regra, esse tipo de procedimento configura inapelável e indesculpavelmente esbanjamento do dinheiro do contribuinte. Todos sabemos que os aviões de carreira em nosso país são mais do que suficientes para prover as demandas rotineiras de locomoção.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Por falar em Precatórios...


Cesar Vanucci *

“Não se pode julgar a saúde financeira do setor
 público sem levar em consideração esses débitos.”
(Flávio Brando, da OAB)

Essa história dos precatórios vencidos e não pagos carece ser encarada com maior senso de responsabilidade pelos Poderes Públicos nas diferentes esferas envolvidas. O jornal “Valor Econômico” extraiu de registros da Secretaria do Tesouro Nacional informações impressionantes. Vamos lá. Alcança a altitude himalaiana dos 84 bilhões, 250 milhões e 440 mil reais, segundo tabela elaborada pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) há quase um ano, setembro de 2010, o montante global dos precatórios devidos pelos Estados e municípios brasileiros. O número de precatórios é também atordoante: quase 280 mil. Mais precisamente: 279.795.

O aspecto crucial dessa modalidade de dívida legítima à espera da benevolente atenção do devedor para que possa ser resgatada – que mantém contingente enorme de credores em clima de permanente e angustiante expectativa – é acrescido ainda de mais gravames ao interesse público quando se toma ciência de que vários Estados e municípios costumam não incluir o montante dos precatórios vencidos e não pagos no demonstrativo da dívida consolidada líquida. Alguns levam a ousadia mais longe. Embora fazendo registro dos dados no demonstrativo, “esquecem-se”, sabe-se lá porque cargas d’água, de relacioná-los no passivo quando da divulgação do balanço anual. Decorre daí que o público fica, dessa maneira, impossibilitado de inteirar-se da verdadeira situação econômico-financeira dos órgãos devedores.

Em depoimento dado ao jornalista Ribamar Oliveira, o advogado Flavio Brando, presidente da Comissão de Defesa dos Credores Públicos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), deplora com carradas de razão o fato de que essa descomunal dívida não apareça, de forma clara e transparente, na contabilidade pública, à vista dos subterfúgios adotados pelas repartições. “Tenho dito – anota ele – que não se pode julgar a saúde financeira do setor público brasileiro sem levar em consideração esses débitos.”

Representando um título emitido por determinação judicial com recomendação expressa às repartições fazendárias para que reservem recursos no orçamento destinados à quitação de dívidas específicas, o precatório vencido e não pago não entra hoje, estranhavelmente, nos cálculos da dívida líquida atribuída aos Estados e municípios, elaborada pelos organismos de controle oficial. O registro da existência do precatório só tem sido feito depois de quitado. Isso quer dizer que o débito costuma não figurar em toda amplitude nas estatísticas oficiais.

De acordo com dados do Banco Central – é esclarecido ainda– a dívida líquida dos governos estaduais e municipais alcançava em setembro passado o valor global de 409 bilhões e 200 milhões de reais. Acrescendo-se a tal valor a cifra equivalente aos precatórios a dívida líquida apontada sobe em 17 por cento, chegando aos 493 bilhões e 200 milhões de reais.

Na ocultação de dados nesse capítulo da dívida pública, um procedimento, sem sombra de dúvida, repudiável, embora desoladoramente de fácil comprovação, alguns Estados e municípios devedores chegam ao cumulo, muito à vontade, de divulgar informações diferenciadas acerca dos débitos com precatórios nas demonstrações da dívida consolidada e nos balanços anuais. Noutras palavras: subtraem contabilmente, na maior cara de pau, tais dívidas nos passivos. É o que mostra a reportagem do “Valor”.

Voltando ao montante global dos precatórios até aqui não quitados: 84 bilhões, 250 milhões e 440 mil reais equivalem a 54 bilhões, 534 milhões de dólares. Comparação inevitável: o PIB do Uruguai (2010) é de 40 milhões, 714 mil dólares, ta bem?

Já no tocante à disposição oficial em definir uma fórmula decente de quitação dos precatórios devidos, isso ai, como era de costume dizer-se em tempos de antigamente, são outros quinhentos. Dizendo melhor, outros bilhões.
* Jornalista (cantonius@click21.com.br)



Descomplicando a vida



“A vida pode ser menos complicada
do que imaginam as elites mal-acostumadas.”
(Adriana Setti)

Os que acompanham as desajeitadas elucubrações despejadas habitualmente neste espaço já se deram conta de que não me furto de exaltar a contribuição fabulosa que o mágico processo de comunicação introduzido nas relações humanas pela Internet trouxe à expansão das fronteiras do conhecimento.

Captando com abrangência ilimitada registros nascidos da criatividade, do talento e das vivências das pessoas, esta admirável conquista tecnológica destes nossos controvertidos tempos dá voz a emoções e sentimentos que, com certeira segurança, jamais encontrariam, noutras circunstâncias, ambiência e condições de ser devidamente propagados. Apresta-se à divulgação de propostas, sugestões, idéias, procedimentos de vida capazes de gerarem efeito contaminante positivo na construção de um mundo mais fraterno e solidário.

Imagino tenha sido este o propósito de Adriana Setti, que não conheço pessoalmente, autora de sugestivo depoimento, carregado de calor humano, sobre mudanças positivas ocorridas em seu círculo familiar no trato das coisas do cotidiano, mostrado a seguir. O depoimento, publicado originalmente na revista “Época”, está sendo amplamente disseminado na Internet.

“No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal muito enxuto, diga-se de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. (...)
Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. (...)
Ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida mais austero e justo da classe média européia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.
Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média européia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.
Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (...) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.
Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves, tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).
Por que estou contando isso? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.
Babás, empregadas, carro extra para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida. (...)
É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte do savoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura. (...)
Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.”

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Falando de gripe comum                                                                 Cesar Vanucci “ (...) Daí ser a venda d...