sexta-feira, 24 de agosto de 2018


Historinhas do cotidiano (I)

 

Cesar Vanucci 

 Aí, o bicho pegou!”
(Antônio Maria, narrando episódio em que se fez passar por Vinícius de Moraes)

- O apreciado compositor e cantor Toquinho, parceiro do inesquecível Vinícius de Moraes, relatou algum tempo atrás, em espetáculo no Palácio das Artes, divertido episódio. Amigo próximo do poeta-músico, o talentoso cronista, também aplaudido musicista (“A noite de meu bem”, em parceria com Dolores Duran), Antônio Maria, já não mais entre nós, pegou no Rio de Janeiro um avião com o destino de Belo Horizonte. Mulherengo e boêmio incorrigível, empavonou-se todo ao acomodar-se em poltrona ao lado de uma jovem de elogiáveis encantos. Fez de tudo para ser notado pela companheira de viagem. Mas a moça não dava a menor pelota para suas provocações verbais e gestuais. Eis que, de repente, ela saca da bolsa e põe-se, compenetrada, a ler um livro de poemas de Vinícius de Moraes. Antônio Maria, matreiro como ele só, divisou ali a “ensancha oportunosa” para a almejada aproximação. Pigarreou forte, mode que chamar atenção da passageira. Ao depois, esforçando-se por introduzir na fala toque de comovente modéstia, penetrando com o olhar os olhos da interlocutora, confessou-se extremamente lisonjeado com a preferência. Diante da surpresa e encantamento da moça, declarou-se o autor do livro. Ele próprio, Vinícius de Moraes. O clima, dali pra frente, como seria de se esperar, mudou da água pro vinho. Alias, foi regado mesmo a bom vinho, de marca italiana, o jantar que, horas depois, na acolhedora suíte do hotel em que se achava hospedado, ofereceu à fã embevecida do poeta. Os sucessos da noite, tocados na base da ternura, admiração e irrefreável ardor físico, deixou registro memorável na história romântica do irreverente Maria. Manhã seguinte, ele apressou-se em passar notícia do ocorrido, tintim por tintim, pelo telefone, ao amigo Vinícius. O poeta mostrou-se ávido por saber logo dos “finalmentes” do inusitado entrevero amoroso: “E como foi seu desempenho, hein, seu pilantra?” Ao que Antônio Maria, num desabafo desconsolado, posto que sincero, largou a revelação: - Aí, meu caro, o bicho pegou. Na hora H, do vamos ver, você, Vinícius, falhou feio!


Nos idos de 50, “O Dia” e a “Luta Democrática”, jornais cariocas de grande tiragem, direcionados para público leitor menos exigente, davam ênfase em manchetes garrafais a relatos de fatos chocantes, picantes, bizarros, extraídos da conturbada rotina policial. Da criatividade dos editores brotavam, de maneira a prender a atenção dos leitores, títulos incríveis. Alguns, antológicos. Como este da “Luta”, a propósito de um caso banal de intoxicação alimentar sofrida por uma jovem depois de ingerir um “cachorro quente” num ponto de venda ambulante: “Cachorro faz mal à moça”. Ou este outro, de “O Dia”, narrando a história de um cara flagrado no leito conjugal com esposa alheia. Em letras menores, na manchetinha, “Marido traído tenta castrar rival com uma faca”; e em letras encorpadas, quase tomando meia página: “Se não desse um pulinho pra traz, babau!”


ocorrência, com pedido de indenização, encaminhada ao setor de liquidação de sinistros da seguradora, focalizava situação pra lá de invulgar. Ao pular uma cerca no pomar do sítio, o lavrador embaraçou-se, desastrada e dolorosamente, no arame farpado, disso resultando a perfuração, com danos irremediáveis, dos óvulos genitais. O “acidente pessoal” ficou devidamente configurado, justificando-se plenamente a indenização prevista na apólice. O técnico da seguradora, nada obstante, com a pulga atrás da orelha, carregou por largo espaço de tempo depois de efetuado o pagamento da soma devida ao segurado, um “diadema” sherloqueano “retroz” a respeito das circunstâncias que deram origem ao acidente. Fuçando o quanto pôde o caso, acabou descobrindo, num contato em mesa de boteco com o próprio beneficiário da apólice, que o lance da castração correra de modo bem diferente. O lavrador, realmente, “pulou a cerca”, mas – bem entendido - no sentido figurado. Aproveitando a ausência do vizinho, violou descerimoniosamente, com óbvio concurso da sedutora esposa do dito cujo, o nono mandamento. No auge da xumbregância, explodiu a tragédia. A mola do colchão desprendeu-se. Tomou forma de estilete e produziu todo o horrorizante estrago.


Festa de invulgar fulgor

Cesar Vanucci

“... a história de um povo é o registro da incomparável energia
que suas infinitas aspirações infundem nos corações dos homens.”
(Maria Inês de Moraes Marreco, escritora)

A crônica acadêmica mineira registrou, dias atrás, um momento de invulgar fulgor. Na “Casa de São Francisco de Assis”, sede oficial da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, prestigiada por figuras de elevada projeção na vida cultural, aconteceu a posse, como integrante dos quadros da respeitável confraria, da escritora e professora Maria Inês de Moraes Marreco. A acadêmica empossada é mestre em Literatura, fundadora da IDEA – Casa de Cultura e presidente emérita da Academia Feminina Mineira de Letras.

Magistrais pronunciamentos compuseram a agenda do encontro. Elisabeth Fernandes Rennó de Castro Santos, que acumula a presidência da Academia Mineira de Letras com a presidência do Conselho Superior da AMULMIG, na saudação à colega acadêmica enalteceu a grandeza literária e humana que ilumina a trajetória de Maria Inês. Apontou-a como “artífice da palavra plena, estudada, burilada, expressividade do seu fazer literário denso e profundo.” Anotou, a esse propósito: “Ela escuta o silêncio. Ele a contempla com sussurros de encantamento.

Mais adiante, na aplaudida fala, sublinhou: “Com a palavra usada em sua pureza e correção, as Academias são sustentadas nas suas realizações, na ascensão de uma força e de um patamar que as caracterizam, coroadas pelas vozes do construir criativo. Como visão mágica do mundo a palavra reúne o encantamento verbal e imagético em busca da plenitude.” (...) “O papel de uma Academia de Letras é conquistar e propiciar a visão global da vida adquiridas por suas promoções culturais, palestras, seminários, publicações, encimados pela dignidade humana, acima da vulgaridade e da repetição. Pela visão crítica e pela reflexão persegue-se um pensar mais profundo.”

Depois de referir-se ao belo e amplo currículo da empossanda, cujo conteúdo traduz capacidade e sabedoria, enumerando seus títulos, alentado acervo de publicações literárias, distinções e prêmios conquistados, Elisabeth Rennó anotou que “a Palavra, mais que o ensinamento formal, pelo caráter de arquipotência, dá origem ao ser integral e ao acontecer.” Exprimiu o anseio de “que a nossa Palavra, instrumental primeiro do escritor e do professor, esteja voltada para as exigências do corpo e do espírito, na acepção tomista de que o ser é composto de corpo e alma.” (...) “Os novos tempos impõem o questionamento às ideias que surgem desordenadamente na revolução dos costumes. Esta é a tarefa ingente que pesa sobre os ombros do educador: como oleiro, criar por suas mãos, o indivíduo responsável através do barro modelado pela Palavra.”

No mesmo requintado padrão de ideias impregnadas de sentimento humanístico e rica vivência cultural, Maria Inês de Moraes Marreco afiançou, no começo de seu discurso de posse, fazer-se imprescindível a arregimentação das “vozes do passado e seus valores para proclamação e a permanência da escrita”. Explicou que é missão da inteligência avivar, resguardar e registrar, “pela escrita, nossas lendas, nossos sonhos e nossas utopias, assegurando nossas culturas e a condição daqueles que nos precederam.” Frisou também constituir obrigação dos intelectuais investir no futuro, “impedir que nossas histórias sejam esquecidas pela pressa do cotidiano atribulado e negligente.” Noutro trecho de seu apreciado pronunciamento lembrou que “a história da nossa aldeia não deve ser menos importante que a história do nosso país, mesmo porque, uma não substitui a outra.” Aduziu: “Um povo que ignora seus antepassados desconhece os fatos mais importantes de sua história pátria e a história de um povo é o registro da incomparável energia que suas infinitas aspirações infundem nos corações dos homens.”

Ao apresentar relato da vida do Padre José de Anchieta, patrono da Cadeira que passa a ocupar na Amulmig, comentou: “No poliedrico contexto brasileiro, desde as diversas manifestações autoctones amerindias moldadas pela imposição cultural do elemento colonizador ibérico, confrontadas com as várias culturas africanas, constituindo-se assim, as bases primordiais da miscigenação etnica e cultural conformadora da Nação brasileira – igualmente enriquecida a posteriori de outros efluvios foraneos, notadamente europeus e orientais de médio e extremo oriente – escritores como José de Alencar debateram questões da nacionalidade noplano da criação literária com a clareza das tematicas apontadas por Machado de Assis, com destaque para José de Anchieta, natural de Tenerife, e não obstante, considerado o primeiro escritor brasileiro dentre tantos outros.” Assinalou que José de Anchieta, como nenhum outro de sua época, penetrou no coração do Brasil. Ao longo de 44 anos, dominou o alvorecer deste continente, “enquanto ia escrevendo na areia os poemas dedicados à Virgem que as ondas apagavam.” (...)  “Cedeu à posteridade intangíveis recursos e a certeza de sermos personagens de nossa própria história.”

No arremate da eletrizante alocução, afirmou: “É provida de memórias e de emoção que envergo o título de acadêmica efetiva nesta instituição.” (...) “Eleva-me pertencer a esse núcleo cuja defesa dos valores civilizatórios soube manter intacta a tradição que se sabe moderna.”

Seja por derradeiro ressaltado que outras esplêndidas manifestações foram também ouvidas no curso da cerimônia. As duas que acabo de mencionar oferecem significativa amostra do que foi mais esta outra festa da inteligência e cultura, merecedora de aplausos, promovida no âmbito da valorosa Amulmig.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018


Flagrantes da hora política

Cesar Vanucci

“No curto espaço de tempo reservado à propaganda
eleitoral, os ilustres candidatos vão ter que explicar a que vêm.”
(Domingos Justino Pinto, educador)

l Com a abertura da temporada das entrevistas e debates com os candidatos a Presidente, os eleitores estão tendo oportunidade de conhecer mais de perto as ideias e propostas dos que disputarão nas urnas sua preferência e simpatia. Pelo que já deu pra perceber até agora, Ciro Gomes, do PDT, vem levando nítida vantagem, com relação aos oponentes, em matéria de conhecimento de causa, vivência pública, capacidade para expor planos e projetos e em expender argumentos a respeito de questões relevantes, de ordem administrativa e política, trazidas à mesa de debates pelos entrevistadores. Verifico também que esta mesma impressão ganha corpo até entre pessoas que criticam o ex-governador do Ceará, por vezes com veemência, pelas atitudes temperamentais ao mesmo imputadas amiúde. Não me surpreenderá nadica de nada qualquer relato acerca de eventual crescimento dos índices do candidato nas pesquisas vindouras.

l Está certo. Pesquisa é uma coisa, eleição é outra coisa. Cabe, aliás, relembrar que, em mais de uma ocasião, os resultados numa e noutra situação, como se diz no popular, acabaram não conjuminando... Mas mesmo com a salvaguarda de que elas exprimam tendências momentâneas, suscetíveis, por conseguinte, às chuvas e trovoadas de possíveis alterações, as consultas prévias aos eleitores sobre em quem pretendem votar não podem deixar de ser consideradas um tipo de manifestação da vontade popular que reclama de observadores qualificados análises e interpretações cuidadosas. A preferência manifesta, há meses num crescente, pelos nomes de Lula a Presidência e de Dilma para o Senado em Minas Gerais, com números bem superiores aos contendores, merece por certo aprofundada reflexão. Qual o verdadeiro significado disso tudo? De outra parte, a circunstância de a candidatura Jair Bolsonaro despontar, nas mesmíssimas pesquisas, neste preciso momento, mesmo que os índices ostentados não sejam muito significativos, à frente dos outros contendores na hipótese da ausência na pugna eletiva do ex-presidente, é um outro indicador a pedir  análise circunstanciada.


l Ninguém em sã consciência deseja, obviamente, nesta quadra da vida nacional, que a instabilidade política, social e econômica se agrave. Esse papo de “quanto pior, melhor” afronta o bom senso, alveja a cidadania. Consulta apenas conveniências deletérias detectadas nas lateralidades ideológicas incendiárias. Eleições à vista, o que toca a todos nós é aguardar, com serenidade e esperança, a possibilidade que a democracia alentadoramente nos proporciona de poder buscar, pelo voto consciente, legítima e inteligentemente, a almejada correção dos desacertos acumulados em nossa trajetória como Nação vocacionada a desempenhar papel de grandeza no cenário internacional. Tudo isso devidamente considerado, é bom, entretanto, não perder de mira o que se segue. Se a impopularidade dos detentores do poder político  é de molde a afetar a capacidade administrativa, como de certo modo ficou positivado no episódio do impedimento de Dilma Rousseff, a Nação encontra razões de sobra para externar preocupações na hora presente. Todas as avaliações sobre a atuação do governo Michel Temer, procedidas pelos institutos de pesquisas, envolvendo manifestações sobre o grau de confiança nele depositado pelos diversos segmentos comunitários, acusam ausência flagrante de empatia e existência de avolumada dose de desconfiança no sentimento popular. Mesmo contando com relativa boa vontade da mídia, satisfatório apoio parlamentar – sabe-se lá à custa de que ordem de compromissos! – e de razoável ajuda das lideranças representativas das classes produtoras, os dirigentes do poder central amargam as vicissitudes de um descrédito popular nunca, dantes, jamais registrado em nossa crônica republicana. Isso aí!

l O eleitor consciente está calvo de saber que a correção de rumos ardentemente almejada pela sociedade nas eleições que se avizinham passa, obrigatoriamente, pela escolha de candidatos que saibam projetar o autêntico sentimento nacional. Cidadãos de ilibada reputação, dotados de capacidade de liderança, inteligência, cultura, engenho criativo, sensibilidade social, visão empreendedorista. Além disso, claro está, providos de espírito aberto, sólida formação democrática, avessos a preconceitos de raça, de gênero, de credo, prontos para confrontar posturas malévolas nascidas do obscurantismo cultural, da fanatice e radicalismos.


Dois pronunciamentos memoráveis

Cesar Vanucci

“... os homens não são meros valores quantitativos.”
(Aristóteles Atheniense, mestre do Direito)

Deparo-me em publicações recentes, originárias de uma mesma fonte matricial do saber jurídico mineiro, a OAB, com dois memoráveis pronunciamentos. A revista “Vanguarda”, editada pela “Caixa de Assistência dos Advogados de Minas Gerais”, órgão vinculado à OAB, estampa o discurso proferido pelo advogado Aristóteles Atheniense, patrono da “16ª Conferência da Advocacia Mineira” realizada em Juiz de Fora.

Enfatizando seus 60 anos de exercício ininterrupto de atividade profissional, que o tornam decano dos advogados militantes da Justiça no Estado, o conceituado causídico valeu-se do encontro “para concitar a mocidade a reagir com as reservas de sua virilidade, de sua saúde moral, de sua coragem, em plasmar um Brasil bem diferente do atual.” O encontro em questão reuniu 4 mil profissionais do Direito, sendo considerado o maior evento do gênero já levado a efeito nas Gerais.

Dentro da mesma linha conceitual adotada acima, Aristóteles Atheniense sublinhou em sua eletrizante fala, ainda, o seguinte: “Advirto os jovens advogados para que não se deixem levar pelo marasmo, nem transijam com a estagnação ética que assola a Nação. Indago-lhes: que esperança pode sorrir uma pátria cuja geração, adormecida e sonolenta, perdeu a intuição de sua grandeza? Que esperar daqueles que fizeram do egoísmo a sua maneira de viver, asfixiados pelo imediatismo? Como conviver com uma linhagem que aderiu ao descrédito, dando mostras de desânimo, descrente de si mesma, sem confiança no dia de amanhã?” Mais adiante, ponderou: “A mocidade que perdeu o contato com as grandes realidades espirituais, com abolição destes instintos subjacentes e profundos, passou a desinteressar-se pelo país e sua história. Doravante, não produzirá fecundo e dilatado futuro. Este é obra do esforço, da ousadia, do pensamento construtivo, que levam a ação criadora e enérgica. Convenhamos que a ideia e o sentimento não bastam para produzir a vontade. É preciso alimentar, também, a vontade de querer, respaldada na inteligência.” Em outro momento, mestre Atheniense, conselheiro nato da OAB, ressaltou que “o problema vital do Brasil hodierno está em readquirir a vontade, a capacidade de dirigir, repelindo, diariamente, as tentações sedutoras que levam a um enriquecimento tão fácil, como vergonhoso.”

Disse ainda que a cultura do Direito contribui para que seja consolidada a ordem moral, o que reclama o “combate à devassidão em prol da paz jurídica, em que os órgãos de expressão nacional adquirem a plenitude de suas funções e de sua vitalidade.” Mais esta reflexão magistral é extraída do mencionado discurso: “O papel fundamental do jurista, na era da tecnologia, consiste em corrigir as distorções da mentalidade cientificista, que só compreende os números e não percebe que os homens não são meros valores quantitativos.”

O segundo pronunciamento, a que faço alusão no introito deste comentário de hoje, veio divulgado na revista “Pela Ordem”, da OAB Minas. José Afonso da Silva, mineiro de Pompéu, o autor. Com atuação centrada em São Paulo, é considerado um de nossos maiores especialistas em Direito Constitucional. Formulador de parte da doutrina constitucionalista vigente, mostra-se taxativo, numa substanciosa entrevista, rica de lições, em proclamar que o Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição, “a vem emendando, às vezes até invertendo o seu sentido.” Deixa frisado que “o trânsito em julgado se dá quando a decisão não comporta mais nenhum recurso, ordinário ou extraordinário.” Acrescenta que “essa norma não pode ser modificada nem por emenda constitucional, porque ela veicula um direito fundamental da pessoa humana, garantida pelas chamadas cláusulas pétreas.” Registra, também, “que a decisão do Supremo Tribunal Federal admitindo a execução provisória da pena antes do trânsito em julgado (depois da segunda instância) fere a Constituição.” Chama a atenção, logo após, para um fato significativo: “Como não há ninguém que possa rever as decisões do STF, pode-se dizer que essa garantia fundamental corre risco.”

Como afiançado no começo, aí estão pronunciamentos memoráveis, plenos de sabedoria e de atualidade reluzente, ambos os dois.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018


A ardente expectativa dos eleitores

Cesar Vanucci

“A democracia é, antes de tudo, um estado de espírito.”
(Pierre Mendes-France, político francês)


O que, na realidade, anda acontecendo e pode até ser previsto, a esta altura do campeonato, quando as pessoas já cuidam de desentranhar o título eleitoral da pasta de documentos recolhida à gaveta do armário?  Falar verdade, para começo de conversa, nem mesmo as criaturas de raciocínio mais lerdo alimentam ilusão quanto à possibilidade de escaparmos ilesos dessa baita encrenca gerada pelas tricas e futricas da politicagem.

 O cenário mostra-se mais sensível a palpites do que a diagnósticos. A zorra criada pelos casuísmos de sempre torna temerária qualquer análise com pretensão de ser levada a sério. Esta abertura ampla, geral e irrestrita das comportas do fisiologismo mais descarado, patrocinada pelas incorrigíveis agremiações partidárias, eleva o tom da perplexidade nas ruas. Afigura-se difícil vislumbrar, com algum grau razoável de precisão, os reais posicionamentos e ideias dos candidatos, sobretudo aos postos majoritários.

Com o “desconfiômetro” focado nos esquemas empregados pelas legendas nas composições das alianças, os atônitos votantes encontram fartas razões para admitir algo que soa meio constrangedor. As semelhanças detectadas entre os concorrentes aos cargos em disputa são muito mais acentuadas do que, a princípio, seria próprio imaginar. Afinal de contas, a pugna eleitoral envolve um número elevado de legendas. As diferenças de comportamento, face a tal circunstância, deveriam ser marcantes. Dando voz ao seu inconformismo, parte das legiões que se mobilizam para ir às urnas não titubeia em sintetizar numa amarga sentença a impressão deixada pelas pregações, até aqui pelo menos, dos postulantes às funções de maior realce: farinha do mesmo saco...

Tudo quanto posto não é de molde, nada obstante, fique claro, para negar a importância fundamental da eleição que se avizinha em nosso processo evolutivo como Nação. A democracia, único regime político consentâneo com a dignidade humana, reconhece as eleições como eventos válidos para a corrigenda de desacertos eventualmente praticados pelos políticos. Já que, agora, o quadro dos contendores ao pleito de outubro se acha praticamente definido, a recomendação apropriada é tocar a bola pra frente. É compreensível, portanto, à vista disso, que o eleitorado se ponha na ardente expectativa de que os ungidos se compenetrem da necessidade de explicar melhor, com argumentos convincentes, a que vêm. A esclarecer nos devidos conformes a imensa plateia, ávida por informações, sobre suas propostas, seus projetos. Dar a conhecer suas percepções a respeito de um mundão de questões essenciais. A apontar, para um tantão de tormentosos problemas, soluções harmonizadas com as aspirações da sociedade.

O sagrado interesse coletivo espera que, nos debates, na divulgação dos programas, nas entrevistas, em toda e qualquer modalidade de manifestação endereçada aos eleitores, os candidatos digam sem rebuços, com persuasiva convicção, coisas até agora fugidias em seus contatos com as camadas populares. Interessa a todos saber as propostas que trazem na mente no sentido de promover a retomada do desenvolvimento econômico e social.

Um país com as prodigiosas potencialidades deste nosso Brasil não se conforma com o marasmo, com a impactante inação que vêm pontilhando, em tempos mais recentes, sua trajetória rica em perspectivas alvissareiras. Uma eleição no regime democrático acena com possibilidades de benfazejas transformações. Ser candidato a funções que enfeixem poderes em condições de definir rumos corretos nas mudanças sociais e econômicas almejadas exige uma sintonia fina com o genuíno sentimento nacional. Isso implica em indesviável compromisso com atitudes de defesa desassombrada de nossa soberania. Em posturas, obviamente éticas, que confiram prioridade aos objetivos sociais no esforço pela ampliação das áreas do bem-estar coletivo.

É mais do que justo, por conseguinte, aguardar-se, agora, no estreito tempo destinado à propaganda eleitoral, que os personagens escolhidos nas convenções partidárias se consagrem, com todo denodo que lhes seja possível, a expor, clara e inequivocamente, as ideias que os impulsionam a reivindicar a preferência e simpatia dos eleitores. Imprimir transparência solar à campanha pela conquista de votos representa contribuição digna de nota ao esforço que se deseja da classe política em procurar reverter, um pouco que seja, a frustração causada pelos desatinos cometidos por muitos de seus representantes.

  
As raízes milenares do machismo

Cesar Vanucci

“A mulher deve adorar o homem como a um deus.”
(Assim falou Zaratustra)

As raízes do machismo são milenares. Isso remete à evidência de que a estupidez do bípede humano não conhece limitações nem de tempo nem de espaço. Recebo, pelo correio eletrônico, um punhado de registros que têm como foco a mulher. Uma dessas mensagens abarca curiosa compilação de escritos antiquíssimos, alguns extraídos de livros sagrados. O material coloca-nos, estupefatos, diante de processos culturais tremendamente preconceituosos, rançosamente machistas, que predominaram (e em alguns lugares do mundo ainda predominam) em períodos despojados de sensibilidade social e de respeito à dignidade humana.

Assim, por exemplo, falava Zaratustra, célebre filósofo persa, pregando para fervorosos seguidores no século VII anterior a era cristã: “A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?”

As “Leis de Manu”, livro sagrado da Índia, reforçam o atordoante coral da intolerância: “Mesmo que a conduta do marido seja censurável, mesmo que este se dê a outros amores, a mulher virtuosa deve reverenciá-lo como a um deus. Durante a infância, uma mulher deve depender de seu pai, ao se casar de seu marido, se este morrer, de seus filhos e se não os tiver, de seu soberano. Uma mulher nunca deve governar a si própria.”

O célebre Código de Hamurabi, constituição nacional da Babilônia, outorgada pelo rei Hamurabi, que sustentava havê-lo concebido sob inspiração divina no século XVII a.C., não deixa por menos: “Quando uma mulher tiver conduta desordenada e deixar de cumprir suas obrigações do lar, o marido pode submetê-la à escravidão. Esta servidão pode, inclusive, ser exercida na casa de um credor de seu marido e, durante o período em que durar, é lícito a ele (ao marido) contrair novo matrimônio.”

No Alcorão, livro sagrado muçulmano, recitado por Alá a Maomé no século VI; na fala de São Paulo, apóstolo cristão no ano 67; e nas prédicas de Lutero, teólogo alemão da reforma protestante no século XVI, topamos, também, com manifestações que reservam à mulher papel de total submissão na convivência social e familiar. Alcorão: “Os homens são superiores às mulheres porque Alá outorgou-lhes a primazia sobre elas. Portanto, dai aos varões o dobro do que dai às mulheres. Os maridos que sofrerem desobediência de suas mulheres podem castigá-las, deixá-las sós em seus leitos, e até bater nelas. Não se legou ao homem maior calamidade que a mulher.” Paulo: “Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se quiserem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos.” Lutero: “O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.”

Pois não é que até Aristóteles, filósofo helênico apontado por Dante como “o mestre dos que sabem” (“Il maestro dicolor che sanno”) entra firme nessa onda de insensatez que, ao longo dos tempos, condena a mulher a uma condição servil no relacionamento social! Manjem só a babaquice proferida pelo preceptor de Alexandre, o Grande, no século IV a.C.: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.” Possuído do mesmo desvario, Henrique VII, que acumulava no século XVI as funções de rei da Inglaterra e chefe da Igreja Anglicana, é autor de proclama onde se assinala que “as crianças, os idiotas, os lunáticos e as mulheres não podem e não têm capacidade para efetuar negócios.”

A Constituição inglesa do século XVIII vinha impregnada desses mesmos xenofóbicos conceitos: “Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços,  perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.” Já bem antes desse inacreditável dispositivo constitucional britânico, um “Tratado de conduta moral e costumes da França”, editado no século XIV, fixava severos critérios a serem observados, pela “vítima”, nos casos de um homem ser molestado com “repreensão em público por uma mulher”. “Cabia-lhe, legalmente, o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado.”

A mensagem que enfeixa os textos aqui reproduzidos é arrematada, pela leitora que a enviou a este escriba, com os seguintes comentários: “Por esses escritos vê-se quão árduo foi o caminho para as mulheres chegarem aos dias de hoje em igualdade de condições com os homens. Infelizmente, em muitos países islâmicos, a situação das mulheres parece continuar a mesma retratada nesses escritos milenares”. Escritos? Melhor dizendo, estultices milenares.


Estultícias machistas milenares

Cesar Vanucci

“Tirante a mulher, o resto é paisagem.”
(Dante Milano, poeta)

As estultices milenares, muitas retiradas de textos sagrados, enfeixadas no comentário passado, alusivas às distorcidas avaliações ao longo dos tempos, em diferentes culturas, do papel da mulher na caminhada humana fizeram chover manifestações. Era de se esperar.

De perplexidade, parte delas. Caso do Pedro de Paula: “Quanta babaquice amontoada, santo Deus! Como levar a sério o que esses caras famosos pregavam pra gente?” De incredulidade, noutros casos. Andréa Cecconie, por exemplo, avisa que vai conferir a veracidade do que foi anotado na conta de afirmações pertencentes a pensadores eminentes, tipo Paulo de Tarso, Maomé, Lutero. “Não é possível que esse pessoal todo junto tivesse da mulher conceito tão ridículo e humilhante”, repica, em sua vez de falar, Thelma Garcia.

“E o tal “tratado de conduta moral e costumes da França”, adotado no século XIV, que delegou aos machos o direito de exemplar com sopapos e pontapés as mulheres que ousassem repreendê-los em público, coisa mais maluca!” reage, a seu turno, Hirand Ferreira. O próprio leitor faz menção a um dito atribuído a Nietzsche, em que tanto a mulher quanto o homem são alvejados em cheio na avaliação pessimista que o filósofo alemão tinha da condição humana: “A mulher foi o segundo erro de Deus!”

Mas, a exemplo do que ocorre noutras reações suscitadas pelas revelações estampadas no artigo, toma ainda o cuidado de juntar, para apreciação dos frequentadores deste espaço de ideias e quimeras, outras frases mais, também de celebridades, que servem, de certo modo, para contrabalançar o amontoado de asnices (acerca da mulher) pratrazmente registrado. Uma dessas novas frases: “O palpite de uma mulher é muito mais preciso que a certeza de um homem”, de ninguém nada mais, nada menos que Rudyard Kipling, o poeta do célebre “Se”. Um intelectual iluminado que, ao traçar o perfil ideal do ser humano, bolou esse primor de verso: “Se podes conservar a fé, quando à tua volta, atribuindo-te a culpa, os outros a perderam. Se, confiando em ti mesmo, aceitas sem revolta que duvidem de ti os que não te entenderam (...), és um homem!”

Patrícia Alvim é outra que confessa não haver gostado nadica de nada das “sandices lidas”. Contrapõe às chauvinistas afirmações meigos registros brotados em instantes mais inspirados da inteligência. Aqui estão: “Tirante a mulher, o resto é paisagem”, do poeta Dante Milano (1899), “Pois a mulher é a grande educadora do homem”, de Anatole France. “Mulher bela é uma graça: espanta melancolias, consola mágoas de amor”, trecho também milenar extraído do “Livro dos Cantares”, conhecido no século VI a.C.

Encurtando razões: tenho em mãos, também, mais esta manifestação de leitor não identificado rebatendo o besteirol machista coligido. O sugestivo texto a seguir apresentado, intitulado “Alma de Mulher”, é de autor não revelado.

“Nada mais edificante do que ser mulher... / Mulher terna e meiga que pensa com o coração, / age pela emoção e vence pelo amor. / Que vive milhões de emoções num só dia / e transmite cada uma delas, num único olhar. / Que cobra de si em total desprendimento, a perfeição / e vive, com espírito misericordioso, arrumando desculpas / para os erros daqueles a quem ama. / Que hospeda no ventre outras almas, / dá a luz e depois fica embevecida, / diante da beleza dos filhos que gerou. / Que dá as asas, ensina a voar / mas não quer ver partir os pássaros, / mesmo sabendo que eles não mais lhe pertencem. / Que se enfeita toda e perfuma o leito, / ainda que seu amor / nem mais perceba, às vezes,  tais enternecedores detalhes. / Que como uma feiticeira / transforma em luz e sorriso / as dores que sente na alma, / só pra ninguém notar. / E ainda tem que ser forte, / pra dar os ombros / para quem neles precise chorar. / Feliz do homem que por um dia / sabe entender a Alma da Mulher!”

sábado, 4 de agosto de 2018


A ameaça da Macrobolha

Cesar Vanucci

“A Bomba de tudo (...) está pronta para estourar.”
(Carlos Drumond, jornalista)

“A Bomba de tudo” é o sugestivo título de candente análise jornalística que, esmiuçando a conjuntura política, econômica e social desse nosso mundo velho de guerra, acena pra todos nós com as perspectivas de sombrio futuro. O autor do trabalho, estampado na “CartaCapital”, jornalista Carlos Drumond, ancora-se em pareceres de conceituados especialistas mundiais na área das ciências econômicas e sociais para vaticinar que uma macrobolha de conotações financeiras, sociais, ecológicas e militares, ronda ameaçadoramente a sociedade humana.

O dispositivo desestabilizador está pronto para estourar na esteira das políticas monetárias radicais irresponsavelmente praticadas por países do chamado G-7. No entendimento de qualificados estudiosos da problemática humana destes tempos conturbados, os “donos do mundo” mostram-se morbidamente insensíveis à copiosa sinalização emitida por acontecimentos graves que vêm pipocando em tudo quanto é pedaço de chão do planeta. São indicadores ruidosos da exaustão de um “modelo de desenvolvimento” comprovadamente equivocado. Modelo que insiste em apontar como ideal na conquista do bem-estar comunitário a adoção de regras rígidas, efeitos perversos, de estabilização macroeconômica.

O enredo traçado prevê abertura comercial e financeira descomedida, desregulamentada, expansão descontrolada das assim denominadas forças de mercado, privatizações desordenadas e, quase sempre, nocivas aos interesses das coletividades. Neste ponto preciso das medidas aventadas, objeto de compreensíveis questionamentos, deparamo-nos – é importante aqui ressaltar - com o nosso país retratado de corpo inteiro dentro do figurino mostrado por conta das escolhas preferenciais procedidas pelo atual governo. Indiferente às encorpadas manifestações contrárias, refletidas em índices de descrédito e impopularidade jamais vivenciados por administradores da coisa pública na história republicana brasileira, os detentores do poder resolveram, numa guinada de 180 graus, alinhar as políticas econômicas e sociais do país com os ditames neoliberalistas mais rígidos e extremados.

A proverbial apatia parlamentar diante da emergência das reformas essenciais reclamadas pela Nação está sendo, nesta hora, como sabido, sacudida pela marcha galopante do processo de privatização da Eletrobras. A disposição oficial é promover tudo a toque de caixa. Nada de diálogo, debates, coisas tão “desimportantes”, em torno da efervescente questão. Fica visível o intento de, com a desestatização em foco, escancarar-se um portal para iniciativas assemelhadas, envolvendo outros ativos estratégicos agregados ao patrimônio da riqueza coletiva nacional, talvez a própria Petrobras, o próprio Banco do Brasil, a própria Caixa Econômica Federal, valha-nos Deus, Nossa Senhora! Corre-se avantajado risco de vermos a estatal de eletricidade oferecida a ávidos compradores, de hora para outra, naqueles mesmos moldes prejudiciais ao interesse nacional em que se deu a transferência da Vale para grupos privados, a preço de banana refugada em final de feira de subúrbio.

Voltando à macrobolha anunciada no trabalho jornalístico citado. Os alertas provêm de diferentes e insuspeitas procedências. Em abril passado, o próprio Fundo Monetário Internacional falou de seu ceticismo quanto à eventualidade de uma retomada consistente da economia mundial, tendo em vista o colossal endividamento público e privado.  “A dívida global atingiu recorde histórico e os governos devem começar a reduzi-la já”. O órgão contabilizou débitos acumulados de 164 trilhões de dólares, explicando que a situação do endividamento das economias avançadas em comparação ao PIB é pior do que as dos demais países. Índice sem precedentes: 225 por cento do PIB mundial. Acréscimo de 12 pontos percentuais com referência ao índice anterior mais elevado, em 2009, quando da eclosão da crise financeira que abalou o cenário mundial.

Nessa linha de advertências sobre o que está prestes a ocorrer, conforme narrado no trabalho jornalístico mencionado, as revelações mais contundentes partem de dois especialistas renomados, até recentemente gestores do “Bank for International Settlements”, “Banco de Compensações Internacionais”, reconhecido como uma espécie de banco central dos bancos centrais, Hervé Hannoun e Peter Dittus. Autores do livro “Uma revolução é necessária. A bomba-relógio do modelo G-7”, eles argumentam que “as políticas monetária, fiscal, macroeconômica, de defesa e contra o superaquecimento global têm uma característica em comum: são negligentes, imprudentes e irresponsáveis. Aprendizes de feiticeiros construíram um esquema de crescimento impulsionado pela dívida que está levando para o próximo crash financeiro”. Dizem ainda: “Essas políticas são apresentadas como sendo de interesse público. Não surpreende que a confiança nos formuladores de políticas e instituições públicas esteja se desgastando. As pessoas sentem que algo está errado com o modo como as elites do G-7 se desincumbem das suas responsabilidades. A trajetória atual (...) está levando a uma crise sistêmica que colocará em questão muitas das crenças nas quais o sistema capitalista é construído.”

O tema dá vaza a mais reflexões.



Encrencas que adoecem o mundo

Cesar Vanucci

“A mídia internacional tem culpa no cartório. Ora se tem!”
(Domingos Justino Pinto, educador)

As encrencas que adoecem o mundo são muitas. E mesmo dispondo de um formidável aparato de divulgação sobre o que rola pela aí, o ser humano carece, num sem número de circunstâncias, de informações pertinentes e tempestivas a respeito de um montão de coisas essenciais. Isso advém de descabidas interferências decretadas por conveniências espúrias. Conveniências que têm origem, no mais das vezes, na geopolítica-econômica.

Interpretações propositadamente equivocadas, omissões clamorosas, cerceamentos da liberdade de expressão, indesculpáveis sigilos, revelações truncadas: tudo isso faz parte de uma metodologia de “comunicação” empregada à pamparra com o fito de confundir o entendimento e desviar atenções.

O poderoso instrumental midiático é posto, incessantemente, a serviço dessa capciosa desfiguração da realidade. Pululam exemplos. Não é preciso retroceder muito no tempo para identificar situações tormentosas que possam ser tomadas como amostras sugestivas dessas desconcertantes reações. Vamos lá.

Dias atrás, o sinistro EI, que andava um tanto quanto ausente do noticiário, voltou a atacar. Agiu simultaneamente em muitas frentes, produzindo, como de praxe, macabras estatísticas. As vítimas dos atentados ocorridos no Paquistão, Afeganistão, Síria elevaram-se a mais de três centenas. Gente do povo, não envolvida nas escaramuças bélicas que ensanguentam a região. O noticiário acerca dessas tragédias humanitárias foi exageradamente comedido na banda de cá do planeta. Foi de uma parcimônia desnorteante. E suspeitosa. Nada daquelas manchetes estardalhantes, nascidas de compreensível indignação por parte das ruas, quando a fúria terrorista eclode, por exemplo, numa capital no Ocidente, provocando vítimas inocentes em número consideravelmente menor.

A primeira ilação a extrair dos fatos narrados, concebida em grau de constrangimento que chega a resvalar o estado de choque, é de que o Paquistão, o Afeganistão, a Síria estão demasiadamente distantes. Fazem parte de uma “periferia geográfica” enxergada com indiferença, com desdém, com menosprezo, pelos “donos do mundo”. Os habitantes desses “lugares” são de “categoria inferior”. São da “mesma laia” dos incômodos imigrantes, “de nacionalidades e etnias exóticas”, que têm sido recolhidos a essas versões modernosas de campo de concentração, conhecidas como centros de acolhimento humanitário montados pela “generosidade” de países ditos civilizados. “Eles lá”, com seus estranhos linguajares, crenças e hábitos culturais, que se entendam... É o que, de certa maneira, a manifesta má vontade da cúpula mundial diante dos infortúnios registrados naquelas longínquas paragens procura subliminarmente transmitir.

E não é que essa chocante ilação acaba remetendo muitas pessoas dotadas de poder de observação atilado e capacidade de raciocínio mais desenvolta, que conservam os aparelhos de percepção pessoal sintonizados nos acontecimentos, a estranharem o motivo de as ações do terror virem merecendo atenção escancaradamente secundária, ultimamente, no noticiário internacional? “Desconfiômetro” ligado nas marchas e contramarchas de cunho geopolítico, muitos analistas deixam no ar interrogações sobre as causas dessa cortina de silêncio que, de repente, começa a recobrir a movimentação dos fanáticos religiosos. Já há mesmo quem ouse aventar algo estarrecedor. Como sabido, misteriosas forças ocultas têm sido responsáveis por garantir até aqui a sobrevivência do ISIS, provendo-o dos recursos necessários para seus nefastos feitos. Pois bem, essas mesmas forças ocultas estariam agora concorrendo, em sórdidas articulações de bastidores, para atenuar os impactos das agressões que o nefando agrupamento terrorista promove. O fim da picada!

Há mais a dizer sobre essa questão do comportamento da mídia internacional quando minimiza a gravidade de fatos que alvejam em cheio a dignidade humana.

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...