sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Califado e sua sinistra proposta

Cesar Vanucci

“Usar o nome de Deus para justificar
a violência e o ódio é uma blasfêmia".
(Papa Francisco)

O chamado “Califado Islâmico”, autor de sinistra proposta de destruição implacável dos valores humanísticos que conferem dignidade à aventura humana, continua a espalhar o horror por onde consegue implantar núcleos operacionais acionados por  fanáticos militantes. Ocupando áreas no oeste da Síria, norte do Iraque e frações territoriais da Líbia, estimadas em até 250 mil quilômetros quadrados – um Reino Unido inteiro –, ramificou-se em regiões da África e de outras partes do Oriente Médio, além de criar células atuantes em lugares incertos e não sabidos de países do continente europeu.

As pretensões dessa organização terrorista, que se nutre ideologicamente de rançosas e distorcidas interpretações dos textos sagrados islâmicos para atos hediondos volta e meia cometidos, é transformar-se num movimento de abrangência global. Com vistas a consolidar tal objetivo empenha-se em conquistar mentes sectárias receptivas à nefanda ideia de disseminação de retrógrados conceitos fundamentalistas de vida por tudo quanto é canto do planeta.

A origem do “Califado” remonta às manobras guerrilheiras constituídas no Afeganistão com base nas “madastras talebãs” para combater a invasão russa. Tal qual aconteceu com componentes da Al Qaeda, os extremados partidários do Al-Tawhid wa al Jihad, durante largo período aliados dos ferozes seguidores de Osama bin Laden, fizeram parte das fileiras dos combatentes afegãos favorecidos pela incrementada ajuda militar e financeira do Ocidente, sobretudo dos Estados Unidos. Com a retirada dos russos do território afegão, eles passaram a considerar o governo americano o principal inimigo, igualzinho fez a Al Qaeda, organização da qual se desligaram mais adiante.

Considerados ainda mais extremados que os antigos companheiros da ainda bastante atuante Al Qaeda, os integrantes do “Estado Islâmico” cultuam a imagem de seu fundador, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, morto em 2006 num bombardeio.  O herdeiro de Zarqawi nos dias atuais é Abu Bakr al-Baghdadi. Ele sucede bin Laden no topo da lista dos “inimigos públicos”. Proclamou-se, em ato realizado numa mesquita iraquiana, “califa de todos os muçulmanos”. Invocou na ocasião uma palavra basilar do fundador do movimento: “A fagulha foi acesa aqui no Iraque e seu calor irá intensificar-se, se Alá assim o permitir”. Comandando verdadeiro exército intoxicado pelo fanatismo, com participação majoritária árabe, mas formado também, segundo algumas estimativas, por mais de 30 mil europeus, boa parte deles recrutados em regiões marcadas pela exclusão social, o sanguinário Califa ameaça o mundo inteiro com “guerra santa” sem quartel.

Pouco importa a esse tresloucado dirigente da amedrontadora falange, ou aos seus belicosos comparsas, o que o resto do mundo pensa a respeito de suas horripilantes ideias. Pouco lhes importa a repulsa que as ações do Califado provocam na consciência internacional e, de modo particularizado, na comunidade muçulmana. Comunidade muçulmana essa que nega, peremptoriamente, legitimidade às descabidas versões introduzidas pelo EI em trechos do Alcorão. Contra tudo e contra todos, o Califado acena com o desvario terrorista como “instrumento eficaz” na derrubada dos valores e conceitos celebrados por homens e mulheres de boa vontade em todas as latitudes, pertencentes a todas as culturas religiosas, etnias e nacionalidades, como conquistas definitivas da civilização humana.

Os aterrorizantes atentados na França, os de agora e os de janeiro passado, os brutais atentados na Nigéria, a derrubada criminosa do avião russo de passageiros no Sinai, as explosões mortíferas em Beirute, episódios mais recentes nessa escalada de ódio solto, levantam previsões arrepiantes. Na conclamação de líderes qualificados em prol da necessidade de se montar uma estratégia mundial eficiente no enfrentamento das ameaças do EI, há quem identifique, nos acontecimentos de agora, perturbadores sinais de gestação de um conflito bélico de proporções inimagináveis. Chega-se até a falar em III Guerra Mundial. Deus nos livre e nos guarde dessa calamitosa perspectiva!

Como é que o Chico soube?

Cesar Vanucci

“Estou boquiaberto. Chico Xavier
anteviu este nosso encontro.”
(Augusto Cesar Vanucci, setembro de 80)


A comemoração do Dia Nacional do Combate ao Câncer, nesta sexta-feira, 27 de novembro, tem por objetivo conscientizar a população sobre práticas preventivas no combate à enfermidade que a cada ano, só no Brasil, registra cerca de meio milhão de novos pacientes. O diagnóstico precoce é apontado pelos especialistas como fator primordial no processo de cura. Em Minas operam numerosas instituições benemerentes constituídas com o propósito de assistir as pessoas nessa área da saúde pública. Várias são reconhecidas, no apreço comunitário, como referências importantes, em razão dos serviços prestados. Caso, para ficar num exemplo, do Mário Penna, com seu bem aparelhado complexo médico-hospitalar e eficiente estrutura de assistência social.

A menção dessa organização estimula-me a contar aqui um instigante episódio, conhecido de pouquíssimas pessoas. Um registro especial recuado, de conotações mágicas, na trajetória de realizações do hoje Instituto Mário Penna.

Atendendo a convite do Lions Clube Inconfidência, à época presidido pelo engenheiro Reginaldo Sólon Santos, Augusto Cesar Vanucci esteve em Belo Horizonte, em setembro de 1980, para uma palestra na Casa da Indústria.

O então diretor do núcleo de programas musicais e humorísticos da Rede Globo fez uma exposição, para plateia numerosa, sobre as infinitas perspectivas que se abririam, no futuro, na comunicação social, em consequência dos velozes avanços tecnológicos da era eletrônica.

Na recepção no aeroporto, Augusto Cesar, que acabara de conquistar o cobiçado “Emmy” nos Estados Unidos pelo programa “Arca de Noé - Vinicius para crianças”, aludiu ao fato de haver estado, horas antes, em São Paulo, com seu grande amigo Chico Xavier, cujo nome estava lançando, numa campanha nacional, ao Prêmio Nobel da Paz.

Antes da assembleia do Lions, os dirigentes do Inconfidência foram procurados pelo casal Adalberto e Beatriz Ferraz, ambos de saudosa memória. Os dois expressaram o desejo de contato especial com Augusto, a fim de inteirá-lo de um problema social aflitivo e de verificar a possibilidade do mesmo se engajar, com outras pessoas de boa vontade, na busca de solução para o assunto. Ficou acertado que, após a palestra, o encontro seria promovido. Ato contínuo, na secretaria da Fiemg, foi elaborado um ofício, assinado por mim, por Beatriz, Adalberto, Reginaldo e esposa Julinha, narrando o caso. Augusto só veio a tomar conhecimento dos fatos depois de levantada a assembleia e, aí sim, ser convidado para uma reunião, numa pequena sala, com o grupo reduzido dos signatários do oficio.

Na reunião, o casal Ferraz - valorosos voluntários da obra – reportou-se à situação extremamente dramática vivida pelo Mário Penna, hospital criado na base do idealismo e abnegação por um punhado de pessoas abrasadas pelo sentimento da solidariedade social. Concluído o relato concernente ao aflitivo drama enfrentado pela instituição, Augusto Cesar, possuído de grande emoção, fez uma revelação que deixou todo mundo estupefato.

Começou dizendo desconhecer, até aquele momento, a existência do Mário Penna. Informou, na sequência, que em São Paulo  Chico Xavier lhe pedira, com empenho, com aquele tom suave de voz todo seu, que não deixasse, jeito maneira, de atender a um apelo angustiado que lhe seria feito, em Belo Horizonte, no sentido de prestar ajuda a uma organização dedicada a assistir cancerosos carentes. “Estou boquiaberto”, asseverou. “O Chico anteviu este nosso encontro”.

Os desdobramentos dessa incrível história podem ser assim sintetizados. Augusto colocou-se, com ardor e entusiasmo, a serviço da causa. Tornou-se um de seus benfeitores. O “Fantástico”, programa que criou e dirigia, reservou espaço, em edições sucessivas, ao problema das dificuldades do Mário Penna em sustentar-se financeiramente. A organização foi inserida entre as beneficiárias do “Criança Esperança.” No Palácio das Artes e no Mineirinho foram realizados, um atrás do outro, espetáculos de artistas famosos, inclusive do exterior, com renda exclusivamente destinada à assistência oncológica prestada pelo Mário Penna aos menos favorecidos. As reportagens na televisão estimularam o governo federal a carrear recursos para a obra. O hospital Luxemburgo surgiu dentro desse contexto.

Desnecessário, a esta altura, enfatizar que, em hora alguma, Chico Xavier foi procurado, por qualquer dos elementos que conduziram o papo com Augusto Cesar naquela noite, para atuar como intermediário na busca do generoso auxílio concedido. A misteriosa intercessão do ilustre personagem correu por conta de desígnios situados muito além dos parâmetros aceitos pela lógica comum nas rotinas da convivência humana.













OS EMMYS CONQUISTADOS PELA ARTE BRASILEIRA


No artigo acima publicado, “Como é que o Chico soube?” aludo ao fato de que o mano Augusto Cesar Vanucci foi o primeiro brasileiro a conquistar o Emmy em Hollywood. A partir dali, até nossos dias, artistas brasileiros, integrantes das equipes da Rede Globo, arrebataram outras treze estatuetas. O Emmy é o mais cobiçado troféu da televisão mundial.


Vejam abaixo um registro dessas conquistas, na reprodução de reportagem divulgada no “Bom Dia Brasil”, edição do dia 24 de novembro.

http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/videos/t/edicoes/v/tv-globo-ganha-dois-premios-emmy-internacional-que-e-o-oscar-da-tv-mundial/4629766/

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Espantoso recado



Cesar Vanucci

“Há muito mais coisas entre o Céu e a Terra
 do que pode imaginar nossa vã filosofia.”
(Shakespeare)


As mensagens dos leitores são iguarias saboreadas com especial deleite pelos praticantes do oficio da escrita. Mesmo quando as observações registradas fiquem em desacordo com as ideias expostas. Se todos os que acompanham com habitualidade os textos dos articulistas se dessem conta do prazer proporcionado por esse gênero de manifestação é certo que um proveitoso diálogo, com valiosas sugestões, poderia ser estabelecido entre as partes.

Falo disso para anotar, com satisfação, mensagem encaminhada pelo leitor Clésio Lima, reportando-se a uma história por mim narrada há um bocado de tempo, por ele considerada “comprovação irretorquível da continuidade da vida após a morte”. Atendendo à sua solicitação, reproduzo-a linhas abaixo.

Em meados de 1965, vim de muda para Belo Horizonte. Advogado do SESI em Uberaba fui distinguido, pelo saudoso Fábio de Araújo Motta, com convite para assumir a Superintendência Geral da Federação das Indústrias. Dias antes da partida recebi carinhosa homenagem, organizada por instituições classistas e culturais, entre elas a ACIU - Associação Comercial e Industrial de Uberaba, à época presidida por amigo de infância, dinâmico empresário, homem de muita sensibilidade social, Aurélio Luiz da Costa.

Alguns meses transcorridos fui surpreendido com a infausta notícia da morte de Aurélio, por afogamento, num rio que banhava as terras de sua fazenda em Mato Grosso, trazida pelo amigo Joaquim Roberto Leão Borges, valoroso deputado estadual, de saudosa memória. A convite de Leão Borges, acompanhei-o a Uberaba, participando da cerimônia de despedida do dileto companheiro que havia “partido primeiro”. No avião, em tom confidencial, pedindo-me reserva, Joaquim expressou preocupação quanto a rumores circulantes em torno da hipótese de que Aurélio houvesse sido vítima de um atentado. Por força da imprecisão e inconsistência dos dados colhidos a respeito, estava havendo compreensível relutância dos parentes em pedir a abertura de um inquérito formal. Guardei a informação debaixo de reserva. Não abordei jamais o assunto com nenhuma outra pessoa, a não ser o próprio Joaquim Roberto e, ao que me lembre, em apenas uma outra oportunidade.

Vinte anos se passaram. Numa noite de sexta-feira, durante viagem que costumava fazer quase que mensalmente em visita a familiares radicados no Rio de Janeiro, acompanhei meu saudoso irmão, Augusto Cesar Vanucci, então diretor da linha de espetáculos musicais e programas de humor da Rede Globo, a um centro espírita de Caxias. Espiritista convicto, Augusto era recebido ali como uma espécie de patrono da instituição, coordenando também ações humanitárias promovidas em favor da inclusão social.

Nessas suas idas semanais ao Centro levava sempre conhecidos e colaboradores. Fazia parte do grupo de acompanhantes daquela noite uma cantora famosa, às voltas com problemas que acreditava pudessem ser solucionados com a orientação espiritual fornecida no local. Cerca de doze sensitivos movimentaram os chamados trabalhos de incorporação mediúnica. Faziam-se intérpretes de mensagens, em sua totalidade de tom edificante, em meio a citações de passagens evangélicas de inspirado conteúdo. Ao final de cada mensagem era declinado o nome do autor, figura conhecida no meio artístico, já desapartada de nosso convívio.

Na última manifestação ouvida declinou-se também, no final, um nome: Aurélio. Tendo em conta os antecedentes exclusivamente artísticos dos outros nomes mencionados, palpitei, de mim para comigo, que o tal Aurélio tivesse sido, talvez, violoncelista da Sinfônica Brasileira. Mais não avancei em especulações, ansioso que estava, com o almejado final da extensa reunião, em poder deixar o local, para colocar, com o mano, em lugar mais apropriado, a prosa familiar em dia.

No exato momento da saída, aproximou-se, semblante acolhedor, gestos profusos de simpatia, o último dos sensitivos a se pronunciar. Foi logo dizendo que o Aurélio da derradeira mensagem era alguém que, em vida, partilhou de minha convivência. A reação sincera que tive, de pronto, foi registrar que não me lembrava de ninguém, de minhas relações, com esse nome. Sem me dar tempo para reflexão, o médium retornou à carga, revelando, para meu completo aturdimento, nada mais nada menos do que isso: o nome todo do ser desencarnado responsável pela mensagem era Aurélio Luiz da Costa, falecido há 20 anos. Ele, Aurélio, pedia-me – asseverou meu interlocutor – passasse um recado ao seu também amigo, Joaquim Roberto Leão Borges, a fim de desfazer um tremendo equívoco. Sua morte, por afogamento, no rio, fora acidental, causada por uma convulsão, e não fruto de qualquer ação criminosa.

Foi exatamente desse jeito, sem tirar nem por, que se passou essa história incrível vinda a lume por meio de um processo desconcertante e misterioso de comunicação com o além. Um processo que, naturalmente, cria para muita gente dificuldades intransponíveis de entendimento e explicação.



Argutas ponderações

Cesar Vanucci

“Há décadas mantemos a maior taxa de juros real do universo.”
(Delfim Neto)


Delfim Neto continua proporcionando com análises objetivas, despojadas do passionalismo ideológico frequentemente empregado por outros comentaristas de presença destacada na praça, uma visão bastante lúcida da política econômica vigente. Vale a pena conhecer um pouco das avaliações por ele feitas nesta hora de tantas leituras equivocadas.

A revista “CartaCapital” estampa semanalmente seus comentários. Num deles, edição nº 874, de 4 de novembro passado, deparamo-nos com revelações sumamente relevantes que convidam à reflexão.

O respeitado economista assinala que defrontamo-nos na atualidade com “a destruição do equilíbrio estrutural numa velocidade assustadora”. Depois de registrar que o déficit fiscal médio no período de 2011 a 2013 foi bem comportado (2.6 por cento do PIB), lamenta que em 2014 os efeitos do que chama de “voluntarismo” sobre a evolução da economia emergiram em plenitude, disso resultando “inacreditável aumento de 16% na relação Dívida Bruta/PIB em apenas quatro anos!” Delfim não deixa por menos: compara nossa taxa de juros a um animal teratológico. Emite conceitos a respeito que lembra a pregação persistente, desassombrada, contra o juro alto, de um personagem ilustre da história política e empresarial brasileira, o saudoso vice José Alencar. Constata: há décadas cultivamos a maior taxa de juros real do universo. Faz um prognóstico desagradável: vamos continuar a tê-la, a não ser que nos mostremos dispostos a alterar os rumos das coisas. Aponta saídas: “a coordenação entre a política fiscal, a política monetária e a política de administração da dívida pública, tecnicamente muito boa, precisa de uma mudança radical para transformar a economia brasileira numa economia “normal”, com taxa de juro real “normal”, que reflita as condições e as expectativas de um país com sólidas instituições (as nossas estão cada vez mais fortes), com uma política econômica inteligente, adotada com cuidado e respeito às restrições físicas, históricas e geográficas.”

Delfim Neto lança uma pergunta no ar. Abre aspas: como um governo que começou tão virtuoso em 2011 perdeu-se num emaranhado de intervenções setoriais que conduziram à confusão que estamos vivendo em 2015? Fecha aspas. Na resposta à própria interrogação emite a hipótese de que o governo Dilma Rousseff não entendeu corretamente a sinalização dos acontecimentos à sua volta. “A virtude de 2011 elevou a aprovação do governo Dilma a 92 por cento no início de 2012 (65% de “ótimo-bom”, mais 27% de “regular”, segundo a “Data Folha”), mas ela a leu muito mal. Apoiada nesses números iniciou uma intervenção arbitrária na taxa de juros.” Deu no que deu. Os movimentos da taxa Selic influenciaram negativamente os negócios afetos às atividades produtivas. Conclui, então: “Com o juro arbitrariamente no nível mais baixo e sua aprovação no máximo, ela aprofundou o voluntarismo ativo: emitiu a Medida Provisória 579, em setembro de 2012, com o objetivo louvável de construir a “modicidade tarifaria” e tornar o setor produtivo mais competitivo, o que, infelizmente, terminou no desastre antecipadamente anunciado... Daí para a frente, as intervenções voluntaristas se sucederam nos portos, nas concessões etc. Nunca, na história deste país, tanta boa intenção, com tanto apoio na sociedade, terminou tão mal...”

Argutas ponderações!


A assustadora tragédia de Mariana


Cesar Vanucci

“Perdão foi feito pra gente pedir”.
(Verso do cancioneiro popular brasileiro)


Tenho também algo a dizer sobre a espantosa tragédia de Mariana.

A esperança é a última que morre, como consta da saborosa fala das ruas. Abranda as asperezas da caminhada. Esse impulso generoso da alma bebe inspiração nas fontes humanísticas. E o humanismo, no sábio modo de pensar de Oto Maria Carpeaux, representa para o ser humano a própria razão de viver.

Mas, “pera” lá! O que têm a ver os edificantes conceitos acima alinhados - interrogarão, por certo, os condescendentes leitores destas mal datilografadas – com o aterrorizante acidente de Mariana que este desajeitado escriba se propõe a comentar? Explico tudo, com detalhes, mais adiante.

O que toca reconhecer na história reportada, antes de mais nada, é que não há mesmo como desfazer o estado calamitoso de coisas gerado a partir do rompimento das barragens. A avalancha de rejeitos de mineração consumiu vidas preciosas. Varreu do mapa povoados inteiros. Destruiu plantações. Assoreou de forma irreparável rios e pequenos cursos d’água. Danificou seriamente o meio ambiente. Estilhaçou empreendimentos produtivos. Afetou o abastecimento de água em dezenas de localidades. Arrasou monumentos históricos, entre eles a Capela de Bento Rodrigues, erguida em 1718. Em suma, instalou o caos em vastíssima extensão geográfica, revolvendo dramaticamente o cotidiano de milhares de pessoas.

É de se presumir que, a esta altura, já tenham sido mapeados e avaliados os avassaladores efeitos do tsunami que desabou da montanha de minério. Enquanto se processam as investigações dos órgãos técnicos competentes, com vistas a precisar causas e a definir responsabilidades legais, acumulam-se no ar perguntas suscitadas pela indignação e sofrimento das vitimas e pela perplexidade e inconformismo da sociedade. Paralelamente a isso, como decorrência do clima de comoção existente, assiste-se também a mais uma exemplar demonstração coletiva de solidariedade, sob a forma de substanciosa ajuda popular aos desabrigados.

Até aqui, o que se tem, em termos formais de prestação de contas, por parte do poderoso complexo empresarial responsável pela atividade minerária na região e dos setores oficiais com explícito protagonismo no palco da dolorosa ocorrência, deixa muito a desejar. Nas fugidias manifestações trazidas a público pouca coisa foi feita ou dita que possa ser considerado, mesmo com boa vontade na apreciação, em condições de amortecer ligeiramente o desencanto, pra não dizer a revolta reinante no seio da opinião pública. As apurações apontam imperdoável displicência na forma de agir dos donos do negócio da exploração mineral de Mariana, no pertinente à prevenção de riscos. A constatação soa como crítica, igualmente, à atuação dos órgãos fiscalizatórios.

O que vem de ser exposto remete a irretorquível certeza. A comunidade alvejada pelo traumatizante episódio sente-se desamparada. Reclama esclarecimentos indispensáveis até aqui sonegados.

Aí, precisamente neste ponto, é que me permito encaixar os conceitos alinhados no preâmbulo do comentário. Ponho-me a imaginar, com a força de uma aspiração legítima, carregada de inquieta esperança – eco, como não? do sentimento popular – que a qualquer momento desses, com atraso que a indulgente opinião pública saberá relevar, os dirigentes das empresas e os representantes dos órgãos públicos envolvidos no desgastante processo convocarão rede de televisão e cadeia de jornais e rádios para um mea culpa histórico. Abandonando a postura arredia assumida, que enodoa a história pessoal de cada um, farão um anúncio solene, começando com pedido de desculpas à sociedade, das providências completas que, a curto, médio e longo prazos, pretendem colocar em execução no sentido da reconstrução, reparação e compensação exigidas por essa situação terrível que virou de cabeça pra baixo a vida de tanta gente.

Perdão, como se diz na canção famosa, foi feito pra gente pedir. Quanto à esperança, repita-se, ela é a última que morre. O tempo, no caso reportado, ainda não se esvaiu de todo. Isso alenta a expectativa de que, de súbito, um sopro de bom senso e lucidez possa brotar no coração dos personagens que detêm o poder das decisões nessa tormentosa história, animando-os a adotar a atitude correta aguardada. Mesmo que eles se vejam forçados, em seus efervescentes afazeres cotidianos, a lidar por vezes com interpretações equivocadas e utilitaristas da aventura da vida. Interpretações essas suscetíveis de desencorajar gestos de grandeza como o que acima se preconiza.




O AMARGO FIM DO RIO DOCE


O Engenheiro Agrônomo Augusto César Soares dos Santos, membro da Academia Mineira de Leonismo, é o autor deste elucidativo vídeo a respeito do tsunami de lama provocado com a ruptura das barragens em área de exploração minerária de Mariana, MG.
Para assisti-lo na integra é só clicar no link abaixo.

sábado, 14 de novembro de 2015

Fosfoetanolamina, Anvisa e SUS


Cesar Vanucci 

“Ministérios da Saúde e de Ciências anunciam estudos mais
 aprofundados a respeito do composto sintetizado em São Carlos.”
(Do noticiário dos jornais)


A inflamada controvérsia em torno da aplicação da Fosfoetanolamina no tratamento do câncer trouxe um beneficio palpável. Criou as condições propicias para a efetivação de uma pesquisa oficial aprofundada, destinada a apurar a alegada eficácia da substância medicamentosa processada no Instituto de Química da USP em São Carlos.

Abriu, ainda, a chance de se poder comprovar uma certa inconsistência nas alegações sustentadas por setores científicos quanto à exigência do registro da Anvisa para a utilização da droga citada em função de determinações judiciais. Acontece que, conforme relatado abaixo, sem que ocorram quaisquer questionamentos por parte desses mesmos setores, o SUS vem gastando fortunas em remédios estrangeiros desprovidos também de registro da Anvisa, liberados igualmente pela Justiça.

Os Ministérios da Saúde e da Ciência anunciaram a disposição governamental de promover o estudo, que já poderia ter sido efetuado há bastante tempo, a levar em conta a circunstância de que o composto sintetizado pelo químico Gilberto Chierice vem sendo aplicado com bons resultados, consoante copiosa documentação, desde o ano de 1995. A distribuição das cápsulas era regularmente procedida pela USP em São Paulo até o ano passado. Abruptamente foi interrompida, o que levou milhares de pessoas a recorrerem à Justiça para obter o produto. Segundo registros recentes do Fórum de São Carlos, oitocentas petições jurídicas são protocoladas diariamente requerendo a liberação da substância. As pessoas se louvam, esperançosamente, em testemunhos numerosos de pacientes que passaram pelo tratamento com a Fosfoetanolamina e que se confessam curados dos males que os afligiam. A cura ou a melhora alegadas são, contudo, questionadas por parte de muitos especialistas em oncologia. Eles sustentam a inexistência de avaliações clínicas rigorosas sob controle com seres humanos, etapa fundamental para que o composto possa vir a ser reconhecido pela Anvisa. Os defensores do emprego da droga contra argumentam com dados apurados pelos cancerologistas da equipe do químico Chierice. Garantem eles que a Fosfoetanolamina revela-se altamente eficaz na regressão de células tumorais de melanoma (câncer de pele), leucemia e cânceres de rim e cólon. A celeuma em torno da questão trouxe a público também a revelação de que, em mais de uma oportunidade, instituições científicas manifestaram interesse em ampliar as pesquisas realizadas no Instituto de Química da USP em São Carlos, mas as negociações a respeito jamais foram concretizadas. Outra informação de grande significado social liberada em razão da incandescente polêmica à volta da Fosfoetanolamina diz respeito ao manifesto propósito dos responsáveis pela distribuição das cápsulas de não usufruírem benefícios pecuniários da comercialização da fórmula. Em seu modo de entender o medicamento terá que ser gratuitamente fornecido aos interessados.

Existe um outro dado extremamente curioso relacionado com a relutância oferecida à ideia de liberação do composto. É alegado a toda hora que o produto não possui o registro legalmente exigido da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Tem ocorrido, entretanto, com frequência, a liberação por ordens judiciais de um punhado de fármacos estrangeiros sem o competente registro na Anvisa, considerados importantes para tratamentos especiais de saúde com custos elevadíssimos para o SUS. O caso do remédio conhecido por “Soliris”, indicado para amenizar as complicações de uma forma rara de anemia – a “hemoglobinúria paroxística noturna (HPN)” -, é bem elucidativo. Por exigência da Justiça, o SUS foi obrigado a adquiri-lo centenas de vezes. O medicamento – voltamos a lembrar, de origem estrangeira – custa 440 mil dólares ao ano por paciente. Em reais, 1.7 milhão de reais. De 2010 para cá, o Ministério da Saúde aplicou 554,5 milhões de reais só com o “Soliris”.
E ele não é a única fórmula medicamentosa adquirida pelo governo no exterior, a preços que custam os olhos da cara, desprovido do “de acordo” da Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

E, agora, José?


Yitzhak Frankenthal, um humanista


Cesar Vanucci 

“Perdi meu filho pelo fato de não
existir paz entre israelenses e palestinos”.
(Yitzakt Frakhentan)

O israelense Yitzhak Frankenthal é membro do seleto e invejável clube dos corações ardentes e fervorosos. Obstinado na defesa de crenças pacifistas, conserva acesa a tocha da esperança mesmo sendo forçado a encarar, o tempo todo, insanáveis situações conflitivas, ódios fratricidas, ferozes incompreensões.

Esse cidadão judeu, sionista, abonado homem de negócios, perdeu o filho primogênito há quase 20 anos de forma bastante trágica. O rapaz foi sequestrado e assassinado por radicais das fileiras do “Hamas”. Mas a incomensurável dor pela irreparável perda não se transmutou em ódio. Ao contrário, fez irromper dentro dele uma irresistível afeição à causa da Paz. “Perdi um filho querido não por culpa dos palestinos. Perdi meu filho pelo fato de não existir paz entre israelenses e palestinos”. É o que afirma sempre, com inabalável convicção, nas pregações promovidas em favor do diálogo e da conciliação.

O Instituto Arik, ong criada por Frankenthal para disseminar suas ideias, empenha-se em campanhas com motivações na psicologia social. O objetivo dessas campanhas é conscientizar a sociedade israelense da necessidade imperiosa de uma mudança coletiva de postura. “Meus compatriotas precisam reconhecer e repudiar o apego que nutrem com relação ao conflito”, assevera, acrescentando que para se conseguir a paz é preciso abrir o coração à conciliação, é preciso assumir compromissos solenes.

Numa entrevista no apreciado programa “Milênio”, da GNT, Yitzhak conta à jornalista Leila Sterenberg que procura incessantemente abrir veredas para que o ideal da convivência pacífica entre judeus e palestinos se transforme em radiosa realidade. Admite que nem sempre é bem compreendido nesses nobres propósitos. Os radicais não apreciam em nada o que faz. Vizinhos ortodoxos, adeptos como ele do sionismo, pararam de dirigir-lhe a palavra. O abnegado pacifista não considera entretanto esse o fardo mais cruel a carregar. Cruel – explica – é ter que se defrontar com o túmulo do filho. Voz solitária no princípio do trabalho a que consagrou sua vida, aglutina hoje contingente expressivo de simpatizantes dentro e fora de Israel.

Yitzhak Frankenthal assinala que são muitos os atos errôneos praticados pelo Estado de Israel contra os palestinos. Cita alguns: recusa intransigente a selar a paz; não aceitação das fronteiras estabelecidas no passado, definidas como corretas pelos dois lados; não aceitação da existência do Estado Palestino, universalmente reconhecido no concerto das nações. A solução, apontada por alguns, de um Estado único na conturbada região, de acordo com suas palavras, é puro nonsense, ridícula a mais não poder. A perspectiva de um Estado único só levará à continuidade do derramamento de sangue e acabará com Israel enquanto Estado judeu, porque a maioria da população será árabe. O maior erro praticado pelo governo israelense é permitir que a ocupação dos territórios palestinos prossiga.

Com fala serena e firme, encharcada de fé e esperança na alteração de rumos numa área sacudida pelo desvario extremista em diversificadas tendências, Frankenthal identifica-se admiravelmente com as propostas humanísticas da rica cultura hebraica. Personagem digno de todo respeito e admiração!


Tópicos atuais


Cesar Vanucci 

“O Deputado Eduardo Cunha tá parecido com o Paulo Maluf:
nada sabe a respeito das contas abertas em bancos suíços.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Ilustre desconhecido até bem pouco tempo, o deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, faz parte hoje da galeria das celebridades. É detentor de encorpada folha corrida capaz de garantir-lhe, por longo período, posição de relevo no capítulo das malfeitorias políticas.

Suas contas secretas em paraísos fiscais, somadas às indecorosidades praticadas no exercício das funções colocam, neste momento, a prêmio a cabeça do parlamentar carioca. Nada a estranhar, por conseguinte, quanto às manifestações de desagrado de diversificados setores da opinião pública relativamente à sua participação, de forma tão incisiva pelo cargo ocupado, no conturbado processo político em desdobramento. O que provoca mesmo estranheza, melhor dizendo, demasiada estranheza, é o escancarado (ou fica melhor registrar despudorado?) empenho de alguns líderes, tanto da situação quanto da oposição, em firmar alianças com o incômodo personagem em manobras de política rasteira de bastidores, assegurando-lhe com isso condição para enfrentar e, quem sabe até, se safar da tremenda enrascada em que se meteu.

· O jornal deu, na página econômica, que o juro médio total cobrado no rotativo do cartão de crédito chegou, no último mês, a 414.3 por cento. Assim que, estupefato, tomei conhecimento do fato pulei logo para a página policial. Quis informar-me logo de quais teriam sido as providências adotadas, nas delegacias responsáveis pela repressão a crimes contra bens de terceiros, no sentido enquadrar nos devidos conformes os autores do delito.

· Uma paciente oncológica registrou observação curiosa a respeito da polêmica envolvendo o fornecimento gratuito, pela Universidade de São Carlos, das drágeas de Fosfoetanolamina. Disse, mais ou menos, o seguinte: alguns especialistas sustentam que a cápsula não deve ser fornecida pelo fato de não produzir, com relação a algumas pessoas, qualquer efeito terapêutico. Eu andei sendo submetida a sessões de quimioterapia sem lograr efeito positivo no organismo. Não seria, então, o caso de, também, deixar de ser recomendado o emprego da quimioterapia?


· Fosfoetanolamina mais uma vez. A droga sintética há duas décadas distribuída por dedicados professores e pesquisadores da Universidade de São Carlos, hoje no centro de uma polêmica em que é apontada como eficaz por numerosos pacientes oncológicos e rejeitada por ponderáveis setores científicos, atraiu – vejam só o tamanho da impertinência! – as atenções do “banditismo organizado”. Via internet, falsos profissionais de saúde “oferecem” o produto a clientes interessados, por “preços módicos”, assegurando “pronta entrega”. Minha Nossa Senhora da Abadia D’Água Suja!




sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O alerta da OMS

Cesar Vanucci

“Carne processada pode causar a doença.”
(Advertência da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer, órgão da OMS)

A Organização Mundial de Saúde (OMS) faz um alerta. Carne processada aumenta o risco de câncer. A advertência, não é de hoje transmitida por especialistas em alimentação saudável, tende a levantar, por algum tempo, acesas discussões, algumas polêmicas e, mais adiante, cair no esquecimento popular. A situação lembra aviso meteorológico sobre chegada de furacão de alto risco formado no oceano e que acaba virando tempestade tropical branda na chegada à região costeira. Não é assim que sempre rolam as coisas relativas aos aconselhamentos passados às multidões sobre mudanças de hábitos comportamentais, neste mundo permanentemente sacudido por propostas sedutoras tendo como alvo certeiro e imediato o consumismo?

O tabaco, o amianto, a fumaça de diesel, os agrotóxicos, o álcool também ocupam lugar entre os vilões que tornam a vida moderna menos encantadora do que poderia ser. Mas aquilo que é realmente feito no sentido da minimização de seus daninhos efeitos conta muito pouco no conjunto das expectativas e aflições populares.

O esforço da OMS, dando vazão a informações desse gênero, é altamente louvável, mas esbarra, mesmo produzindo alguns frutos, em poderosas e encouraçadas resistências, típicas do complexo jogo dos interesses socioeconômicos que rege tudo quanto é atividade. Uma boa amostra disso está contida nesta impressionante revelação feita há tempos. Diz a OMS que o número de fórmulas farmacêuticas essenciais para acudir todas as necessidades terapêuticas humanas não passa de 150. Da informação brota inevitável interrogação. Como é mesmo que se encaixam nesse inimaginável enredo os milhões (bota milhões nisso!) de rótulos medicamentosos genéricos, de marca, similares, sob forma de drágeas, injeções, pomadas, compostos e substancias diversificadas, gotas, e por aí vai, que abarrotam as prateleiras das farmácias espalhadas por tudo quanto é quarteirão? Hein?

Medicamento contra o câncer. A Fosfoetanolamina, substância sintetizada há mais de duas décadas no Instituto de Química da USP, em São Carlos, interior paulista, pelo professor Gilberto Chierice vem provocando acesos debates em esferas de atuação assistencial, médica, jurídica e científica. De acordo com alguns pesquisadores esse composto oferece enorme potencial no combate a células cancerígenas. Resultados promissores, no tratamento de leucemia, tumores de rim e de cólon, têm sido anunciados por setores engajados nessa prática terapêutica. Isso levantou, compreensivelmente, arrebatadora onda de esperança junto a milhares e milhares de pacientes. Mas, de outro lado, médicos cancerologistas têm se posicionado, às vezes com veemência, contrariamente ao emprego do remédio em tratamentos, argumentando inexistirem informações clínicas confiáveis a respeito de sua eficácia.

Até o ano passado a distribuição das cápsulas de Fosfoetanolamina era feita com regularidade pela Universidade de São Carlos. Pela circunstância de o medicamento não haver sido ainda oficialmente testado e, consequentemente, não estar reconhecido pela Anvisa, a produção foi interrompida. À vista desse contratempo, numerosos pacientes que colocam absoluta fé nos poderes terapêuticos do composto, resolveram recorrer à Justiça, obtendo ganho de causa em suas pretensões quanto ao fornecimento sistemático das cápsulas.

Objeto, está visto, de inflamada controvérsia, o caso proporcionou, ainda recentemente, uma revelação de enorme significado humano e social. Os dedicados responsáveis pela preparação e distribuição do produto há mais de duas décadas, convencidíssimos de sua eficiência, defendem desprendidamente a ideia de que ele seja distribuído, gratuitamente, em alta escala, aos enfermos. Seja ressaltado também que um laboratório farmacêutico nacional se dispôs a regularizar o fornecimento do composto.



Revelações atordoantes 
saídas do forno

Cesar Vanucci

“Entre Deus e o dinheiro, o segundo é sempre o primeiro”.
(Ditado catalão)

Para um bocado de gente que se recusa, por conveniências diversificadas, absoluta alienação ou simples comodismo, a encarar o semblante assustador da realidade socioeconômica mundial, com suas escandalosas estatísticas referentes às  disparidades humanas em matéria de conforto e bem estar, aqui estão, saídas agorinha mesmo do forno, revelações atualizadíssimas de como continuam sendo distribuídas as riquezas do planeta.  Apenas 1% (um por cento) dos viventes deste mundo do bom Deus (repleto de enclaves ardilosamente montados pelo tinhoso) detém a metade dos bens produzidos coletivamente. Os noventa e nove por cento restantes, todos eles juntos da silva júnior, são “estimulados” a se contentarem com a outra metade do bolo. Assim, no mundo; assim, no Brasil.

Dessa outra metade, falando em termos globais, 3.4 bilhões de criaturas possuem patrimônio médio estimado em 38 mil reais, em contraste com o patrimônio médio pessoal calculado em 2.9 milhões de reais da minoritária parcela dos afortunados. Tais dados são extraídos de relatório elaborado pelo Banco de Credit Suisse. O estudo também assinala que a crise de 2008, com epicentro na “bolha imobiliária estadunidense”, reconhecida como a maior maracutaia da história humana em todos os tempos, acabou servindo, “só pra variar”, para enriquecer os mais ricos e empobrecer os mais pobres.

A concentração da riqueza nestes nossos tempos, por inverossímil que possa parecer, guarda semelhança com a situação reinante na Inglaterra de Charles Dickens, ou a situação da França de Victor Hugo. É o que assegura em substanciosa análise, sob o título “No Mundo de Os Miseráveis”, o jornalista Antônio Luiz M. C. Costa, do quadro de redatores da conceituada revista “CartaCapital”. No ano de 2010 – lembra ele – saiu publicado o “1º Relatório da Riqueza Global” elaborado pelo Credit Suisse. Constatação surpreendente emerge do relatório divulgado cinco anos depois, em 13 de outubro de 2015: os dados levantados são, comparativamente, bem piores. Textualmente: “a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto os do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Apesar do relativo otimismo de 2010, a metade mais pobre dos 8.4 bilhões de adultos ficou ainda mais depauperada. Agora possui menos de 1% da riqueza planetária estimada em 250.1 trilhões de dólares, enquanto o décimo mais alto controla quase 90% (87.7%, para ser exato) e o centésimo no topo, exatos 50%.”

A estupefação gerada por todos esses fabulosos números só faz crescer e de forma bem assustadora. A revista “Forbes”, mencionada na análise, informa que o número de multimilionários no orbe terráqueo cresceu de 1011, com um total de 3.6 trilhões de dólares, para 1826, com um total de valores agregados da ordem de 7.05 trilhões de dólares. Em 2010, esse seleto grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos passados eles aumentaram seus haveres para mais que o triplo.

De espanto em espanto acabamos chegando a uma outra revelação desnorteante, essa aí fornecida pelo Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz. Acompanhem, por favor, o raciocínio. Num ônibus tipo “Move” dá pra colocar os caras mais ricos do mundo, detentores de fortunas estimadas em 13.4 bilhões de dólares ou mais, dois brasileiros incluídos na lista. São apenas 85 (repita-se, oitenta e cinco).  O poder de fogo financeiro desse grupo, assegura Stiglitz, iguala-se à metade de baixo da pirâmide social. Ou seja, 3.7 bilhões de seres humanos, dos quais 2.4 bilhões de adultos, cujos patrimônios pessoais somados igualam os mesmos 2.1 trilhões de dólares dos felizardos ocupantes do veículo acima citado, valha-nos Deus, Nossa Senhora!

Diante do quadro socioeconômico que aí está, alvo de questionamentos constantes por parte das lideranças mais lúcidas da sociedade humana, caso – para ficar num único exemplo – do carismático Francisco, de Roma, não há como não deixar de reconhecer a embaraçosa exatidão do ditado popular catalão abaixo que expõe faceta perturbadora da conduta humana: entre Deus e o dinheiro, o segundo é sempre o primeiro.


(Imagens de criança síria afogada foram compartilhadas em todo o mundo com a hashtag KiyiyaVuranInsanlik — o naufrágio da humanidade)


A imagem não saiu da minha mente desde que abri os sites de notícias para conferir os acontecimentos desta quarta-feira, 2 de setembro, nesta tarde de céu nublado em Barcelona. A foto do corpo de uma criança síria, que morreu em mais um naufrágio de embarcações de refugiados que tentam chegar a Europa através do Mediterrâneo, é estarrecedora.
A criança estava em um de dois barcos que partiram com refugiados, separadamente, de Akyarlar, próximo da península turca de Bodrum. A embarcação frágil que levava o menino afundou e estima-se que 12 pessoas morreram, entre elas uma mulher e cinco crianças. Sete pessoas foram salvas e duas estão desaparecidas, sem muitas chances de serem encontradas com vida.
As imagens do seu pequeno corpo na praia, de barriga para baixo, já correram o mundo, nas manchetes dos jornais online e nas redes sociais, e causam comoção, indignação, sentimento de impotência.
Em um instante, tornaram-se as fotografias mais partilhadas com a hashtag KiyiyaVuranInsanlik — o naufrágio da humanidade. O que é a mais pura verdade! Naufrágio da humanidade que causa muita vergonha!

O destino das duas embarcações, com um total de 23 pessoas, era a ilha grega de Kos, no outro lado do Mediterrâneo. Ali, as autoridades disseram estar convencidas de que os mortos são sírios, oriundos de uma zona controlada pelo Estado Islâmico.
Kos tornou-se um ímã para milhares de pessoas que arriscam a vida para chegar à União Europeia, fugindo de guerras, conflitos e perseguições. Também outras ilhas gregas os recebem: nesta quarta-feira, 2500 refugiados, provavelmente também sírios (segundo a polícia), chegaram a Lesbos, dentro de 60 botes e outras embarcações frágeis.
Os números oficiais dizem que só neste verão europeu morreram 2500 pessoas no Mediterrâneo que tentavam encontrar uma vida melhor na Europa. Onde os líderes políticos fazem reuniões e mais reuniões para discutir o tema, sem resultar em ações concretas.
Não resta dúvida de que este é um drama humanitário sem precedentes, para o qual é preciso encontrar saídas. Um total de 107.500 pessoas — da Síria, Afeganistão, Eritreia, Iraque e Sudão do Sul — atravessaram o Mediterrâneo para alcançar a Europa, em julho de 2015, segundo a Agência Europeia de Controle Fronteiriço (Frontex). Número que é o triplo do  2014. E calcula-se que 30 mil pessoas tenham perdido a vida neste intento, segundo  a Organização Internacional das Migrações.

Diante de tamanha tragédia, o que fazer? Esta é a pergunta que mais incomoda a Europa e o mundo neste momento.




Depois que o mundo se estarreceu com a imagem da menino sírio que morreu afogado no mar após o naufrágio do barco no qual fugia com a família da Turquia para a ilha de Kos, na Grécia, o drama dos refugiados da Europa parece ter ganho, enfim, os olhares e atenção do mundo.
A história do pequeno Aylan, de 3 anos, cujo irmão Galip, de 5, e a mãe Rehana, de 35, também morreram na perigosa travessia no mar, simboliza uma realidade que vem se repetindo desde 2013. De uma gente, que fugindo da guerra e da pobreza, vem tentando chegar à Europa, tendo no seu caminho muitos obstáculos.
Recentemente, em Lampedusa, na Itália, o Papa Francisco fez um apelo ao “despertar das consciências” para combater a “globalização da indiferença”, numa referência aos refugiados. O mundo comoveu-se, mas seguiu em frente. Até ontem, espera-se.
Isso foi expressado por editoriais dos mais diversos meios de comunicação, em todo o mundo, nesta quinta-feira, 3 de setembro. O menino que morreu afogado tornou-se símbolo de muitas mortes invisíveis e anônimas, de um fluxo de pessoas desesperadas por chegar à segurança de um país em paz.
Desta tragédia, sobreviveu apenas o pai, Abdullah Kurdi, que pagou 4 mil euros pela viagem num barco de borracha de cinco metros onde iam pelo menos 12 pessoas, segundo a jornalista da emissora Al-Aaan, de Dubai, Jenan Moussa.
Sabe-se que uma hora depois de sair do ponto da costa turca mais perto de Kos, a viagem começou a tornar-se problemática. O turco que levava o barco desapareceu rapidamente. Outra hora passou e o barco acabou por afundar.
 Abdullah teria tentado agarrar-se ao barco, e ao mesmo tempo segurar a mulher e dois filhos, mas um após outro, todos foram levados pelas ondas. A única coisa de que o pai fala agora é levar a família de regresso à Síria para  poder enterrar em Kobane, de onde desesperadamente fugiu.

A família saiu de Damasco em 2012 e depois mudou-se para Kobane, tendo fugido daí para a Turquia quando a cidade foi tomada pelos jihadistas do grupo Estado Islâmico.
Uma irmã de Abdullah vive em Vancouver há mais de 20 anos e contou a um jornalista do diário canadense National Post que soube do sucedido por um telefonema de uma cunhada. Abdullah tinha ligado com a terrível notícia.
Teema contou ainda ao jornalista que tentava que a família conseguisse asilo no Canadá através de um procedimento chamado G5, em que cinco cidadãos canadenses podem apoiar uma candidatura desde que deem aos refugiados apoio emocional e financeiro. Ela conseguiu que amigos e vizinhos se juntassem para isto.
Mas para que o pedido seja aceito, os candidatos têm de ser formalmente considerados refugiados pela ONU ou por um outro estado. O problema da família é que na Turquia não conseguiram documentos para sair nem registro como refugiados – o que não é raro acontecer com curdos na Turquia.
Em junho, o pedido da família foi recusado pelas autoridades do Canadá, devido às complexidades do processo na Turquia, segundo o National Post, ou porque as autoridades consideram que os refugiados que estão neste país encontram-se em segurança, segundo a Al-Aan.
Foi depois disso que consideraram outras alternativas para sair da Turquia, e segundo a Al-Aan esta não foi a primeira tentativa. Ficar lá não era uma opção. “Os curdos sírios são muito mal tratados”, explicou ao National Post a irmã Teema, que ainda não tinha desistido de voltar a tentar outra candidatura de asilo para  o irmão e sua família.
“Esta é uma notícia horrível”, comentou um deputado do círculo local, Fin Donnelly, que acompanhou o processo de pedido de asilo. “A frustração de esperar e a resposta foram terríveis.”
Agora Abdullah Kurdi já não quer ir para o Canadá. Aos jornalistas que o ouviram à porta da necrotério da cidade de Mugla, perto de Bodrum, onde ocorreu o naufrágio, disse, em lágrimas, querer voltar para Kobane para enterrar a família. “Só isso poderá aliviar a minha dor”.

“Os meus filhos eram as crianças mais bonitas do mundo. Há alguém no mundo que não considere os seus filhos a coisa mais preciosa da vida?”, disse Abdullah. “Eu perdi tudo”.




Desenhos e mensagens direcionadas a Aylan Kurdi, o menino de 3 anos encontrado morto na turística praia turca de Bodrum, que virou símbolo do drama dos refugiados, encheram as redes sociais.
Muitas das montagens fotográficas e desenhos são cheios de ternura e também servem de denúncia, num recado direto aos líderes europeus que ainda não deram respostas plausíveis para um problema que só tem aumentado.


Confira neste link as imagens publicadas numa compilação feita pelo jornal espanhol La Vanguardia,  algumas reproduzidas aqui.

Taiza Brito: jornalista, editora do site www.taizabritomundoafora.com.br

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