sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Cuidar bem da Amazônia

 Cesar Vanucci

“Falar em garimpar em território indígena serve a quem?
O governo deveria estar falando em processos para vigiar a Amazônia pra valer”. 
(Roberto Brant, presidente do Instituto CNA – Confederação Nacional da Agricultura)

A Amazônia é manchete mundial. Comportando incontáveis e bem diversificados enfoques, as considerações suscitadas pela momentosa questão são, que nem a fabulosa floresta, de vastidão imensurável. Cuidemos, neste comentário, de anotar três itens essenciais. Primeiro: a Amazônia é brasileira. Fim de papo. Ponto final. Segundo: são indisfarçáveis, estridentemente reconhecíveis, as demonstrações da inaceitável cobiça internacional pela fantástica reserva de recursos naturais valiosíssimos abrigada no solo e subsolo do dadivoso território. Terceiro: as queimadas e desmatamento, lastimavelmente crescentes, são realidade irrecusável. Geram compreensíveis preocupações. Carecem ser confrontadas com vigor, competência profissional e espírito crítico. Não com bravatas e espalhafato demagógico e inconsequente.

Postos assim os fatos, imperioso admitir que a opinião pública sente-se apoderada, na hora presente, de grande mal-estar e desconforto. E tudo isso por causa da notória inabilidade política e diplomática do governo brasileiro na condução do efervescente debate planetário travado, no momento, sobre os danos ambientais decorrentes da destruição de áreas de considerável tamanho da maior floresta tropical do mundo.

As repercussões estrondosamente negativas registradas dentro, mas, sobretudo, fora do país, por atos e declarações despropositados de elementos da cúpula governamental, a respeito do meio ambiente, clamam por reflexões responsáveis. E, também, por urgentes mudanças de rumos. O bom-senso, ancorado em legítimo sentimento nacional, recomenda que os desatinos e a intolerância cedam lugar a estudos e reavaliações conscientes de cunho político, diplomático, científico e técnico.

Tema de tamanha magnitude, no foco prioritário das preocupações da sociedade humana, a questão ambiental, como um todo e igualmente no importante caso específico da Amazônia, necessita ser encarada com suprema seriedade. Sem, logicamente, questionamentos ridículos e arrogantes por parte das lideranças providas de poder decisório. Sem arroubos demagógicos. Sem interpretações distorcidas dos acontecimentos, nem com o emprego de zombaria como réplica a pareceres emitidos por instituições com sólida reputação no monitoramento dos candentes problemas ecológicos.

A ameaça ambiental que ronda a humanidade é extremamente grave. A propagação sistemática, petuante, de versões desconexas a respeito é nociva ao interesse coletivo. Denota, no mais das vezes, imperdoável desconhecimento de causa. Completa ausência de sensibilidade social. De quebra, indigência intelectual.

Chegado o momento, sem mais delongas, de refrear o deletério processo do desmatamento na Amazônia. Urge colocar em execução, inteligentemente, políticas de desenvolvimento planejado, de sustentabilidade econômica, com positivos reflexos sociais, nesta prodigiosa região do mapa-mundi. Uma região que, por superiores desígnios, tocou ao Brasil e aos brasileiros – e tão somente a eles – administrar, pelo que é lícito se aguardar, com firmeza, competência e responsabilidade. Com atenção centrada no bem-estar de nossa gente e, por extensão, da coletividade humana de maneira geral.

As providências estratégicas reclamadas implicam – é o óbvio ululante – na defesa intransigente, indormida, dos direitos soberanos, inalienáveis, de que o nosso país é, legitimamente, detentor para com esta magnífica porção territorial do planeta. Cuidar bem da Amazônia implica em protegê-la, com uma combinação de medidas abarcando amplos setores operacionais, das ameaças externas inocultáveis, volta e meia detectadas, em pronunciamentos e atos descabidos, ostensivos ou dissimulados, constantes da atuação geopolítica das grandes potências. Mas implica, também, em colocar um definitivo basta nas criminosas devastações da floresta, desencadeadas por ganância negocial, em flagrante colisão com os interesses fundamentais da Nação.

Cuidar bem da Amazônia implica ainda em obstaculizar pra valer as práticas clandestinas predatórias, carregadas de violência contra nativos, envolvendo grileiros, madeireiros, garimpeiros e outros aventureiros engajados na exploração ilícita das riquezas concentradas no pedaço.

Tempos confusos
Cesar Vanucci

“A confusão era geral!”
(Machado de Assis, “Dom Casmurro”)

Tempos danados de confusos. Machado de Assis complementaria: A confusão é geral! Zelosos encarregados das políticas de revisionismo da história, nesta nova era que se auto-proclama redentora, não esmorecem no diuturno e fatigante afã de fornecer à ignara patuléia suas “versões corretas” dos fatos.

A Terra é, irretorquivelmente, plana. Equivocam-se “redondamente” os homens de ciência que insistem em sustentar ponto de vista diferenciado. Há sérias controvérsias, por outro lado, quanto às afirmações de que o ser humano teria, algum tempo atrás, deixado impressas suas pegadas no solo lunar. Albert Einstein e outros personagens, guindados no conceito popular a elevados patamares nos domínios da sabedoria filosófica e científica, não merecem ser sempre levados a sério. Costumam proclamar teorias discutíveis, muitas delas – como atestam inesperadamente modernos filósofos – clamando por urgentes correções. O aquecimento global, por exemplo, é falácia pura. Foi engendrada por ideólogos subversivos, inimigos ostensivos da sadia moral e dos bons costumes.

Correntes fundamentalistas de pensamento “mais evoluído” cuidam, com abnegação e afinco, da reinterpretação das leis da vida. Uma maneira altamente eficaz de combater a poluição ambiental é promover campanhas educativas com o salutar objetivo de reduzir pra valer o volume exagerado das descargas diárias nos vasos sanitários domésticos e públicos. Volume esse, como sabido, provocado por descomedida e indisciplinada frequência, por parte de todos, aos ditos-cujos aparelhos. Quanto às queimadas florestais, elas são de proporção liliputiana. E, consoante sérias suspeitas, levantadas por gente realmente entendida dessas coisas, podem estar sendo articuladas por grupos ambientalistas de araque. Pessoal interessado em bagunçar o coreto e desfazer a excelente imagem que, sobretudo na atualidade, se tem do Brasil no exterior. De conseguinte, colocam-se ao desamparo das razões convincentes as injustas decisões concernentes a corte de verbas internacionais destinadas à proteção ambiental, recentemente anunciadas. Está claro que se trata de retaliações antidemocráticas praticadas por perigosos extremistas que compõem o ultraconservador governo da Alemanha, e, também, o governo da Noruega, país que, aliás, no novo Atlas, fica situado na Dinamarca.

O novo nome da fome, seja por todos anotado, é “fakenews”. A expressão “fakes” ajusta-se, igualmente, na avaliação de doutos viventes, aos desnorteantes diálogos travados por impolutos membros da Justiça acertando procedimentos condenatórios prévios em processos ainda à espera da coleta definitiva de provas pra fins de julgamento. As “fakes” vêm sendo, ainda, empregadas – ora, veja, pois! - na divulgação dos alarmantes e crescentes índices de desemprego. O que pretendem alguns, maldosamente, com essa “divulgação distorcida” é diminuir os efeitos positivos da promissora, nunca vista dantes, arrancada desenvolvimentista destes nossos tempos recentes. Já a liberação de polpudas verbas a parlamentares e a distribuição generosa de cargos, à hora das votações cruciais no Congresso, nada têm a ver, obviamente, com aquele descarado “toma cá, dá lá” doutros tempos. Configuram, sim, louvável combinação de respeitáveis interesses cívicos e republicanos com vistas ao bem-estar geral. De outra parte, a designação de parentes próximos para cargos públicos relevantes não pode ser caracterizada, jeito maneira, como ato de nepotismo. Isso acabou de vez. Nepotismo era  aquela manobra ignóbil que os adversários políticos – e tão somente eles – tinham por hábito praticar, deplorável e impunemente, quando encastelados no poder.

Por derradeiro, delineiam-se alvissareiras as expectativas de que até o final da metade do século, por aí, possa ser devidamente deslindado o penumbroso mistério que envolve o atentado cometido contra a vereadora Marielle Franco e seu assessor Anderson Pedro Gomes. É perfeitamente explicável o silêncio de tumba etrusca, baixado sobre o rigoroso inquérito aberto para apurações a partir do momento em que surgiram evidências de participação na trama criminosa de ilustres componentes da operosa falange de milicianos cariocas. Falange, todo mundo tá careca de saber, responsável por bem sucedidos empreendimentos comunitários em áreas densamente povoadas na região metropolitana da assim chamada “Cidade Maravilhosa”. O sepulcral mutismo detectado, não cabem duvidas, decorre da elogiável preocupação das autoridades competentes possam ser prejudicados, em detrimento da justiça, os diligentes trabalhos investigatórios em curso.
Tempos danados de confusos!


Manifestações dos amáveis leitores


Klinger Almeida
Caro amigo Cesar Vanucci, boa noite!
Às vezes, ou sempre, as aparências nos enganam.
Lendo seus comentários, na série de artigos, sobre a obra “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, de Yuval Noah Harari, fiquei numa “calça justa”.
Em 28 de janeiro passado, escrevi uma crônica, lastreado em editorial e artigo publicado na Veja, rebatendo um posicionamento de Yuval a respeito da natureza do Livre-Arbítrio, e concluí: “A meu ver, a erudição de Yuval navega por águas turvas. Vai encalhar.
Fui precipitado?! Lendo suas crônicas, embora panorâmicas sobre a obra do autor, vi que você fez um aprofundamento interpretativo. Vou ler “Sapiens...” E, mantendo meu enfoque sobre o Livre-Arbítrio, estou propenso a corrigir minha conclusão (ver crônica em anexo).
Saudações Rosianas, Klinger Sobreira de Almeida – Cel PM Ref


JAIR BARBOSA DA COSTA
Tão endividado ando, meu caro Vanucci, de alguns retornos a seus blogues.
Mas é mesmo assim - planejamos e Deus executa o que Ele quer. Um montão de tarefas outras, como receber filhas que vivem fora, conviver com elas etc .
Certo é que desejo manifestar minha alegria pelo fato de, mais uma vez, toparmos na mesma esquina dos sabores filosóficos. Esse bispo francês, tão aborrecido pelo Vaticano, Pierre Chardin, por não absorver sua visão de Deus, pleno no cosmos por Ele criado, e buscou provar cientificamente a existência do
Criador, desmitificando a concepção humana de um Pai distante -  faz parte de minhas essências internalizadas na mente prática, a ponto de aconselhá-lo a meu neto Raphael, quase menino ainda, todavia, inteiramente voltado a indagações dessa natureza. Aliás, faz poucos dias, levei-lhe O despertar dos mágicos, e alguns escritos de Teilhard de Chardin. 
Agora, mando ao neto seu Blog sobre o grande pensador. 

Hoje só quis manifestar-lhe essa oportunidade oferecida ao querido filósofo-mirim por você.
Agradecido, abraço-o fraternamente, JairBCosta.

Diva Moreira
Os temas são maravilhosos. Ando muito triste e abalada com a destruição da Floresta Amazônica. Até minha PA se elevou. Os tempos são tristíssimos e duríssimos. Certamente os assuntos que você está tratando vão ser um alívio para a alma da gente.
Abraços e bom final de semana,
diva 

JAIR BARBOSA DA COSTA 
Caríssimo Presidente Vanucci, boa-noite. Apresso-me em manifestar minha alegria de ler seu blog em que sempre há o que interessa de verdade. Escolho algum dos variados temas abordados para uma curta apreciação. Hoje, por exemplo, sua preciosa análise do livro Sapiens - uma breve história da humanidade, do renomado escritor Yuval Noah Harari. Curiosas chamadas para detalhes que marcam, através dos tempos, grandes diferenças entre o que parece ser e o que de fato foi (ou continua sendo, com outros nomes?). Essa hierarquia social do Código Hamurabi é estupendamente estúpida: uma ordem hierárquica "formada por homens superiores, homens comuns e escravos" - os primeiros ficavam com todas as coisas, os segundos, com a sobra e "os escravos, com uma surra, se reclamassem". Outra: que diabo de igualdade é esta dos americanos, estabelecida em 1776, ao instuir divisão em que "as mulheres ficam desprovidas de autoridade"? Isso sem contar a cara-de-pau dessa gente que não se constrange de ser, por escrito, hipócrita. Sua leitura e síntese movadora de Sapiens... empurram para a livraria o leitor sedento de novidades valorosas na literatura universal. É o que irei fazer nos próximos dias. Grande abraço fraterno, Jair Barbosa da Costa

  
Zaíra Melillo Martins
Prezado Dr. Vanucci,
Gosto imensamente dos seus inteligentes textos. De quebra, ainda apresenta outros de grande valor. Adorei ler "O Valioso Tempo dos Maduros", de Mário de Andrade. Foi um precioso "presente" para nós todos, na maturidade da vida. Grande sabedoria!
Meu abraço cordial.
Zaíra MM 





sexta-feira, 23 de agosto de 2019


Sempre em nome de Deus

Cesar Vanucci
“Que pensará Deus de nós?”
(Raul de Leoni, poeta)

Tem disso. Muito disso por aí. Tem gente que, apoderada de delirantes certezas, imagina-se mais cristã que Jesus Cristo. Mais católica que o Papa. Mais conhecedora das propostas reformistas protestantes que Martinho Lutero.

Tem muito disso por aí. Pessoas que se julgam, com mórbido fervor, em condições de explicar melhor os conceitos budistas que o Dalai Lama. Interpretar para islamitas, com exatidão que poderia haver faltado ao profeta Maomé, os versículos do Alcorão. Passar aos adeptos, de forma mais convincente que os integrantes do colégio teológico de rabinos de Telavive, os preceitos contidos na Torá. Ou fazer leitura mais precisa das revelações expressas na obra espiritista de Alan Kardec que o próprio autor.

Tem muito disso espalhado por aí. O radicalismo fundamentalista, uma contrafação incendiária do autêntico sentimento religioso, vem sendo responsável, no curso da caminhada humana, por barbaridades sem conta. Coloca-se atrás de carnificinas bélicas, expurgos étnicos, raivosas manifestações racistas, desavenças aterrorizantes na relação comunitária. Estribando-se em dogmatismo rançoso, propaga ensinamentos doutrinários desatinados, na base do “crê ou morre”. Respalda atrocidades, em nome de Deus. Justifica violações abomináveis. Repele a prática da concórdia e da tolerância contida nas percepções humanísticas e ecumênicas. Violenta os direitos fundamentais e promove agressões constantes à livre expressão das ideias. Ampara ações virulentas do terrorismo sem causa.

Um mergulho nas águas revoltas da história traz à tona infindáveis registros de situações apavorantes, provocadas pelo extremismo colérico dos integristas religiosos das mais diferenciadas colorações. As cruzadas, a Inquisição, os conflitos banhados de sangue entre católicos e protestantes em dolorosos períodos da Europa medieval, os cruéis processos de colonização cultural e econômica levados a cabo, séculos atrás, nas regiões das chamadas descobertas européias, são, entre outros vestígios contundentes, lembranças de ações fundamentalistas impiedosas.

A rebelde Irlanda, componente da comunidade britânica das nações, foi palco, até poucos anos atrás, de confronto tribal pavoroso. Os litigantes, dizendo-se cristãos, sentiam-se inteiramente à vontade, agarrados a mórbidas convicções, para promover o lançamento de petardos explosivos nas casas e escolas dos adversários. Tudo em nome de Deus. O mundo acostumou-se a ver o dilacerado e feudal Afeganistão como cenário de conflitos perpétuos e virulências terroristas cotidianas, tornadas tenebroso produto de exportação. Nesse pedaço do mundo, parcialmente dominado pelas ferozes milícias talibãs, o fanatismo desvairado reduziu a estilhaços o maior conjunto existente no planeta de imagens de Buda esculpidas na rocha.

O desatino fundamentalista revela-se disposto, também, numa outra escala, a destruir documentos e símbolos representativos de culturas religiosas alvo de sua perversa hostilidade. O leitor haverá de se recordar de uma cena estarrecedora produzida por tresloucado pastor, algum tempo atrás, diante das câmeras de televisão. Destilando ódio e vociferando asneiras, o dito cujo espatifou uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil. Recebo de um leitor texto atribuído a um desses cidadãos que se auto-intitulam pregoeiros da “verdadeira verdade religiosa”. Trata-se de conclamação, em tom de “guerra santa”, para que seus seguidores dêem sumiço a livros e outros símbolos de crenças religiosas consideradas heréticas, que lhes caiam inadvertidamente às mãos. Na peroração intolerante chega-se até mesmo a classificar a ioga como manifestação elucubrada em redutos dominados pelo maligno.

Também recentemente, eu próprio vi e ouvi, com estes olhos e ouvidos que a terra um dia vai comer - só que, dependendo de minha exclusiva vontade, daqui muitos anos ainda – um fanático de carteirinha, membro de outro agrupamento do multifacetado integrismo religioso, a trovejar na telinha arrepiantes conselhos. Olhos latejantes, empapado de suor, gesticulante, voz tonitruante, o homem propunha, aos prosélitos, ditames de vida reputados de pios, imaculados e castos. Mais ou menos nesta linha: às irmãs de fé, para que se acautelassem, não permitindo, jeito maneira, aos maridos cometessem o “pecado” de cerrar as portas dos escritórios quando do ingresso, nesses locais de trabalho, de pessoas do sexo oposto; aos irmãos de fé, para que agissem que nem os escoteiros, permanecendo alertas e vigilantes, ao lado das respectivas consortes, quando ocorresse a “ameaça” da presença de pessoa do sexo masculino em seus lares, convocada para prestação de serviços profissionais, ou a título de mera visita social. O prudente aconselhamento se embasava na “louvável preocupação” de não deixar marido e mulher expostos, salvaguardando a sacralidade matrimonial, a tentações que pudessem brotar, eventualmente, de uma coisa tão pecaminosa, como seja a espúria aproximação, para inocente papear, de um homem e de uma mulher.

Valha-nos Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja!


Será que estamos mesmo sós no universo?
                       
Cesar Vanucci

“Universo, irmão mal conhecido.”
(Jean Wahl, poeta)

A aventura humana é tecida de infindáveis interrogações. As perguntas espocam em número infinitamente superior às respostas. Num contexto desses, de proporções colossais, a ciência é gota. Os fenômenos investigados, na longa espera da decifração, são um oceano.

Na hora em que telescópios super poderosos em matéria de propriedades tecnológicas apropriadas pelo homem, devassando interrogativamente o espaço sideral, dão-nos conta da existência, em pontos distantes de outras galáxias, de corpos celestes ostentando características assemelhadas às deste nosso planeta azul, é perfeitamente compreensível e natural o reacender da sempre momentosa discussão em torno da existência de vida inteligente nas demais paragens da infinitude cósmica. Embora intuída pela grande maioria das pessoas, a tese da pluralidade de mundos habitados ainda não é oficialmente admitida pela ortodoxia científica, sendo raivosamente contestada pelas aguerridas falanges do integrismo religioso.

Hoje já não é bem mais assim. Mesmo que se leve em conta o patrulhamento ostensivo no campo das ideias largamente praticado pelas correntes fundamentalistas radicais. Mas tempos houveram em que as pessoas de mente aberta cuidavam de trancar a sete cadeados suas crenças na “sacrílega” hipótese linhas acima aventada. Resguardavam-se, com justificáveis temores, das consequências práticas de ideias “tão extravagantes” virem a cair nos ouvidos de zelosos e temidos guardiães dos conhecimentos científicos e religiosos dogmaticamente consolidados. A crônica histórica está coalhada de doloridas manifestações inquisitoriais das mais diversificadas tendências

A ortodoxia científica, mesclada de fanatice religiosa, fixava conceitos inamovíveis. Contestá-los representava risco a que ninguém queria, obviamente, se expor.  As proclamações de um luminar qualquer, revestido de pompa e autoridade, tinham força de inabalável mandamento divino. Ái daquele que ousasse contradizer, por exemplo, a “certeza” de que, lá no inatingível ponto em que as águas do mar (povoadas de terríveis monstros) e o horizonte se fundem, ficava a borda de um precipício aterrorizante! Ou a assertiva de que o sol e os demais corpos celestiais do firmamento giravam em torno da Terra! Ainda agora não há quem, “redondamente” equivocado, sustente a tese da “terra plana”?

Retomemos o papo sobre as descobertas, nos confins cósmicos, de mais de um astro de configuração similar ao nosso planeta. Muitas especulações, a partir dessas constatações, emergem a respeito da possibilidade de se abrigarem, nesses longínquos ermos, espécies de vida inteligente como as que conhecemos aqui. A inviabilidade de respostas a curto ou a médio prazo,  considerados sobretudo os milhares de anos-luz que separam um planeta do outro, gera logicamente um monte de elucubrações. Vamos supor que os locais apontados favoreçam o desenvolvimento de civilizações com as mesmas peculiaridades oferecidas pela nossa morada terrena. A evolução tecnológica desenvolvida ali se situaria em estágio superior ou estágio inferior ao daqui? Adiante. Conservemos sob mira a transformação assombrosa que este nosso mundo velho de guerra experimentou nas últimas décadas. Suposições a respeito do que poderia vir a acontecer, em matéria de mudanças, num ciclo evolutivo de mil ou dois mil anos a mais, remetem-nos, naturalmente, a projeções e perspectivas fantásticas. Não apenas tão fantásticas quanto a gente consiga imaginar. Mas muito mais fantásticas do que a gente jamais conseguirá imaginar.

A ciência garante (será mesmo?) não dispor ainda de elementos para proclamar oficialmente a existência de vida inteligente fora do orbe terráqueo. Sob esse aspecto, os estrondosos avanços tecnológicos espaciais valeram pouco. Continuaríamos, praticamente, a propósito, no mesmo patamar informativo científico dos remotos momentos da censura ameaçadora que impedia a discussão aberta, transparente, do instigante tema. Isso, todavia, não é de natureza a impedir que muita gente, já consciente de sua cidadania cósmica, em diferentes cantos desta imensa pátria terrena, paradoxalmente uma ilhotinha perdida num oceano infinito, repleto de situações inexplicáveis, composto de zilhões de astros - entre eles os tais planetas que guardam similitudes com o nosso -, aceite, pacificamente a ideia de que estamos sós no universo. “Aceite” a ideia sem franzir o sobrecenho, sorriso maroto pendurado nos lábios, em sinal de desbordante dúvida.





quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Um escritor na crista da onda

Cesar Vanucci

“Não existe justiça na história!”
(Yuval Noah Harari, pensador israelense)

Nas imediações da passagem dos quarenta anos de vida, apoderado de impulso jovem próprio da idade - neste meu específico caso, impulso duplicado face à circunstância de a referida contagem de idade estar ocorrendo já pela segunda vez consecutiva -, tomei a “inabalável decisão” de não mais festejar o aniversário natalício. A deliberação só foi “definitiva” enquanto durou... Coisa de pouquíssimas horas. Gente querida à volta interveio, vigorosa e carinhosamente, pra mode quê a data não passasse, jeito maneira, despercebida. Entre eles, o conterrâneo e amigo fraterno de décadas, festejado acadêmico e poeta, desembargador João Quintino. Acontece que o supracitado cidadão faz questão, há um bocado de anos, infalivelmente, próximo ao 2 de agosto, de presentear-me com versos gratulatórios de bela feitura poética.

Anoto com satisfação, depois desta singela explicação, que a costumeira celebração da data revela-se-me sempre propícia à ampliação da biblioteca, de razoável dimensão, que emoldura as paredes de minha modesta tenda de trabalho. Lugar em que, bastante consciente de minhas notórias limitações, dedico-me ao aprendizado do oficio da escrita.

Na recente comemoração do começo de agosto, amiga dileta ofertou-me a obra completa de um escritor israelense. Alguém que anda surfando hoje a crista da onda literária. Alguém que vem acumulando, com inovadoras teorias, estrondoso sucesso mundo afora. “O cara é fera”, assegura um conhecido que, muito antes deste desajeitado escriba, tomou conhecimento do agigantado porte intelectual de Yuval Noah Harari. Tendo pouco mais de 40 anos, o escritor já se notabilizou por promover inteligente junção da filosofia, história e ciência em buscas voltadas à decifração de desconcertantes enigmas da fascinante, posto que exageradamente conturbada, aventura humana. Peagadê por Oxford, professor na Universidade Hebraica de Jerusalém, assestou penetrante olhar na remota antiguidade, fixando ainda sua acesa intuição no futuro da caminhada humana. Consagrou-se, em substanciosas narrativas, aclamadas por críticos e leitores, a explicar o sentido da vida, esforçando-se por responder a perguntas do tipo “quem somos”, “para onde vamos”. Nas análises trazidas a lume, oferece instigante antevisão do destino da civilização a partir da estupenda epopéia tecnológica dos tempos contemporâneos. Somando vários milhões de exemplares vendidos em uma centena de países, 400 mil só no Brasil, o livro “Sapiens - Uma breve história da humanidade” vem sendo apontado como obra prima pela elite da inteligência. O pensador sueco Henning Mankell (40 milhões de exemplares de livros publicados) refere-se assim a “Sapiens”: “Brilhante. Provavelmente o melhor livro – e eu já li muitos – sobre a história da humanidade. Nunca li nada melhor. E fico triste em pensar nas pessoas que não vão lê-lo”.

Para apreciação e reflexão do distinto leitorado, tomo a liberdade de alinhar na sequência alguns trechos emblemáticos da fala de Yuval Noah Harari. Sustentando que “não existe justiça na história”, o autor esclarece que, nos milênios posteriores à revolução agrícola os seres humanos cuidaram de se organizar em redes de cooperação em massa, “criando ordens imaginadas e desenvolvendo sistemas de escrita”. Junta, a propósito dessa observação, o comentário crítico vindo abaixo. “O aparecimento de tais redes foi, pra muitos, uma vantagem duvidosa. As ordens imaginadas que sustentavam essas redes nunca foram neutras nem justas. Elas dividiram as pessoas em pretensos grupos, dispostos em uma hierarquia. Os níveis superiores desfrutavam de privilégios e de poder, enquanto os inferiores sofriam discriminação e opressão. O Código Hamurabi, por exemplo, estabelecia uma ordem hierárquica formada por homens superiores, homens comuns e escravos. Os superiores ficavam com todas as coisas boas da vida. Os homens comuns ficavam com o que sobrava. Os escravos ficavam com uma surra, se reclamassem”.

Nos desdobramentos dos conceitos expendidos, Harari assinala que “apesar de sua proclamação da igualdade entre todos os homens, a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776 também estabeleceu uma divisão”. “Criou – salienta – uma hierarquia entre homens, que se beneficiavam dela, e mulheres, que ficaram desprovidas de autoridade”. Diz mais: “Criou uma hierarquia entre homens, que desfrutavam de liberdade, e negros e indígenas, considerados humanos de uma espécie inferior, não compartilhando, assim, dos direitos igualitários dos homens”. Mencionando a circunstância de que os signatários da “Declaração da Independência” (Estados Unidos) eram senhores de escravos, frisa ainda que “eles não libertaram escravos depois que assinaram a Declaração nem se consideravam hipócritas”. “Em sua visão – assevera ainda o escritor israelense – os direitos dos homens pouco tinham a ver com os negros”.

É nessa toada que se desloca a incursão de Yuval Noah Harari  pela história. Reservo para artigos vindos a seguir outras informações extraídas do best-seller “Sapiens”.


A “hierarquia da riqueza”, segundo Yuval

Cesar Vanucci

“Tal hierarquia é produto da imaginação humana”.
(Yuval Noah Harari)

Como prometido, para apreciação do distinto leitorado, vamos dar continuidade, nas ligeiras anotações de hoje, ao repasse de mais alguns conceitos expendidos na obra de Yuval Noah Harari. Trata-se, como já dito, de talentoso escritor israelense, catapultado, por força da crítica e da franca acolhida de seus livros nas livrarias, à crista da onda literária contemporânea.

Em “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, publicação de quase 600 páginas, o autor proclama que a ordem imaginada constituída pelos norte-americanos em 1776, com a “Declaração da Independência”, para dar sustentação às redes de cooperação em massa organizadas pelos seres humanos com vistas ao relacionamento em comunidade, caracterizou-se pela incoerência e hipocrisia. Embora pregando, teoricamente, a igualdade de todos os homens, a referida ordem estabeleceu como regra, na prática, uma divisão social contundente. Consagrou – sublinha ele – “a hierarquia entre ricos e pobres”.

Palavras de Harari: “A maioria (...) quase não tinha problemas com a desigualdade causada por mais ricos que passavam seu dinheiro e negócios para os filhos. Na visão deles, igualdade significava apenas que as mesmas leis se aplicavam a ricos e pobres. Não tinha nada a ver com seguro-desemprego, educação integrada ou seguro-saúde. A liberdade também tinha conotações muito diferentes das que tem hoje. Em 1776, não significava que os desprivilegiados (negros, índios e muito menos, mulheres) podiam conquistar e exercer o poder.”

Yuval assinala que a “ordem norte-americana” veio endossar “a hierarquia da riqueza”, que alguns pensavam ter sido ordenada por Deus e outros viam como representação das leis imutáveis da Natureza. A Natureza, dentro dessa visão de mundo, recompensaria o mérito com riqueza, penalizando o demérito, rotulando-o de indolência.

O pensador israelense sublinha que as distinções entre homens livres e escravos, entre brancos e negros, ricos e pobres se fundamentam, na verdade, em meras ficções. Mas, mesmo assim – lembra ele –, uma lei férrea da história estabelece que a hierarquia das desigualdades negue flamejantemente tais origens ficcionais, afirmando-se natural e inevitável. Registros históricos indicam, por exemplo, “que escravidão não é uma invenção humana”. O Código de Hamurabi “reconhece” a escravidão como algo – vejam só! - emanado de Deus. E não é que o próprio Aristóteles – recorda o autor – garantia que os escravos tinham uma natureza “escrava”, ao passo que os homens livres tinham uma natureza livre”?...

Fortalecendo a argumentação em torno da tese de que a “hierarquia da riqueza”, com seus dramáticos efeitos sociais, é coisa dos homens, fruto da ganância dos homens, não um preceito divino, nem tampouco uma norma ditada pela natureza, Yuval envereda, na análise crítica, para uma outra vertente comportamental da cultura universal. Coloca na mira o apavorante regime de castas vigorante no cenário hinduísta. Acusa: “Os hindus que aderem a um sistema de castas acreditam que forças cósmicas fizeram uma casta superior a outra”. As diferenças sociopolíticas passam a ser, de acordo com esse atordoante entendimento, “tão naturais e eternas quanto as diferenças entre o sol e a lua”. Assinalando também que a cultura chinesa antiga admitia a distinção entre humanos pela implacável vontade dos deuses, já que “os aristocratas foram moldados em bela argila amarela e o restante dos homens em barro marrom”, o escritor reitera que “essas hierarquias são produto da imaginação humana”. Acrescenta: Brâmanes e Sudras não foram realmente criados por Deus. A distinção de castas – esclarece também -nasceu de leis e normas inventadas por humanos. Leis e normas humanas transformavam alguns em escravos e outros em senhores. Entre negros e brancos existem diferenças biológicas objetivas, como cor da pele e tipo de cabelo “mas não há nenhuma evidência de que essas diferenças se estendam à inteligência ou à moral”.

As considerações acima projetadas são pequeníssima amostragem de um relato eletrizante proporcionado pelo escritor numa obra que se tornou um dos maiores fenômenos editorais dos últimos tempos. São bastante numerosas as abordagens a respeito dos passos cruciais dados pelos seres humanos em sua extensa caminhada pela pátria terrena. Têm como foco tanto os avanços tecnológicos extraordinários contemporâneos, quanto as práticas horripilantes, ininterruptas no trajeto percorrido, que alvejam impiedosamente a dignidade e a nobreza da vida.


Deuses insatisfeitos e irresponsáveis

Cesar Vanucci

“Somos mais poderosos do que nunca, mas
temos pouca ideia do que fazer com esse poder”.
(Yuval Noah Harari)

Agregando, com talento e criatividade, dados históricos apreciados dentro de uma ótica renovadora, informações e hipóteses de feição futurista, coligidos em estudos de vanguarda nas áreas das ciências humanas e ciências exatas, Yuval Noah Harari oferece, no livro “Sapiens”, narrativa eletrizante acerca da jornada humana na pátria terrena. Com singular fecundidade de ideias, compõe diagnósticos impressionantes das experiências econômicas, sociais e políticas vividas pelo homem sapiens ao longo dos tempos. Complementa os diagnósticos com antevisões fantásticas, inimagináveis, do futuro acenado pela chamada evolução civilizatória.

Fica impossível, numa singela resenha, enfileirar as facetas instigantes das abordagens feitas pelo autor, levados em consideração os conceitos originalíssimos que embasam o estudo. Voltando-se para pesquisas vanguardeiras relativas aos saltos tecnológicos assombrosos da era moderna, debruçando-se sobre a história transcorrida com análises enormemente inovadoras, ele levanta questionamentos cruciais. Coisas desse gênero: Num mundo crescentemente dominado por algoritmos, como acabarão se comportando as gerações futuras face aos valores humanísticos e espirituais?

A simples citação dos títulos de alguns capítulos revela a extensão e complexidade da obra. Senão, vejamos: Matéria e energia – começo da física, começo da química e começo da biologia; Evolução do gênero “homo” na África; Uso cotidiano do fogo; Revolução cognitiva e linguagem ficcional; Revolução agrícola; Religiões politeístas; Invenção da moeda; Império Persa; Império Ham na China; Budismo; Império Romano; Cristianismo; Islamismo; Capitalismo; Revolução industrial; Os humanos transcendem os limites do planeta Terra; Organismos moldados por desing inteligente e não por seleção natural; Futuro: o homo sapiens é substituído por super-humanos.

Em lúcida advertência, Yuval assegura que, na realidade, não há como se predizer o futuro. Os cenários esboçados em suas emocionantes narrativas hão que ser entendidos mais como possibilidades do que como profecias. O que merece ser levado em conta – afirma ainda – é a ideia de que as próximas etapas da caminhada humana incluirão “não só transformações tecnológicas e organizacionais, como também transformações sociais na consciência e na identidade humana”. Serão – indaga, intrigantemente – transformações tão fundamentais em condições de “colocar em dúvida o próprio termo humano?” Informa, a esse propósito, que alguns cientistas acreditam que “já em 2050 alguns humanos serão amortais”, embora “previsões menos radicais projetem essa incrível perspectiva para mais adiante: para “o próximo século ou o próximo milênio”.

Yuval considera “ingênuo imaginar que podemos simplesmente frear os projetos científicos que estão transformando o homo sapiens em um tipo diferente de ser, pois esses projetos estão inextricavelmente unidos à busca pela imortalidade – o Projeto Gilgamesh”. Lembrando que a ciência vem estudando a fundo o genoma, vem tentando conectar um cérebro a um computador, ou tentando ainda criar uma mente dentro de um computador, salienta que o Gilgamesh é o mais importante projeto da atualidade. Chama a atenção para o seguinte: apesar das coisas impressionantes que somos capazes de fazer, “continuamos sem saber ao certo quais são os nossos objetivos, e, ao que parece, estamos insatisfeitos como sempre”. Anota ainda: “Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder.” (...) “Deuses por mérito próprio, (...) “não prestamos contas a ninguém”. Arremata com uma interpelação inquietante: “Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?”

Encurtando razões: Os relatos contidos em “Sapiens” e, por extensão, em “Homo Deus – Uma breve história do amanhã”, do escritor israelense Yuval Noah Harari, não podem deixar de ser consultados pelas pessoas afeiçoadas à leitura. O pálido resumo aqui estampado, numa sequência de três artigos da substanciosa obra, impele-nos no arremate a recomendar aquilo de que fala Santo Agostinho, obviamente num outro contexto, noutros tempos, em suas “Confissões”: “Tolle, lege”. Pega e lê.





Aristoteles Atheniense  *






Os recentes pronunciamentos do presidente Jair Bolsonaro, atribuindo à OAB responsabilidade pelo desfecho insatisfatório do processo criminal instaurado quando da agressão à faca de que foi vítima, confirma o seu despreparo para o exercício da Suprema Magistratura da Nação.

Se no início de seu mandato algumas de suas propostas estarrecedoras podiam ser toleradas, agora, decorridos sete meses de sua investidura, o que assistimos é um obstinado e diário ataque ao Estado de Direito, com que exalta os crimes cometidos ao longo da ditadura militar.

Em face da avalanche do obscurantismo que tende a tomar conta do nosso País, é irrelevante indagar se a fala presidencial decorre de sua maneira de ser ou se constitui um ardil destinado a angariar prestígio junto à população.
Na sublevação que incita há uma visível parcela de ódio, que se converteu em combustível de sua preferência no ataque aos seus adversários. Ainda que a política possa gerar antagonismos, ela não prescinde de um limite às opiniões adversas, o que se torna mais grave quando a agressão atinge aos familiares do contendor ao invés de se restringir a sua animosidade na pessoa do opositor.

Em sua precipitada manifestação, Bolsonaro envolveu a figura do pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, afirmando que este teria sido trucidado por seus próprios companheiros como ativista revolucionário que era.

As suas assertivas, pela gravidade que encerram, geraram indignação nos mais diversos setores da opinião pública. Fosse pelo suposto acumpliciamento da OAB quanto à tentativa de homicídio de que foi vítima; fosse pela frivolidade da versão apresentada em relação ao desaparecimento do jovem estudante Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, em fevereiro de 1974.

Felipe Santa Cruz, ao replicar a insidiosa denúncia, reafirmou jamais haver contribuído para a frustração das investigações realizadas. Limitou-se a resguardar o sigilo profissional do advogado que assumiu a defesa do agressor, conforme estabelece a Lei 8.906/94. Adélio Bispo veio a ser declarado inimputável por se tratar de deficiente mental, conforme apurou a perícia a que foi submetido.

De acordo com o que ficou consignado no livro de memórias do ex-delegado do DOI-Codi, Cláudio Guerra, uma vez sacrificado, Fernando Augusto teve o corpo incinerado na usina Cambahyba, em Campos, no estado do Rio de Janeiro.

Segundo o jurista Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça e que chegou a presidir a Comissão da Verdade, Bolsonaro “tem de prestar contas das suas afirmações à Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, órgão vinculado ao atual Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos”. Cabe-lhe, pois, fornecer àquele órgão “os elementos que ele conhece sobre o desaparecimento do pai do presidente da Ordem. Ele deve fazer isso para a responsabilização do Estado, e não para se vangloriar ou antagonizar com um inimigo político”.

Essa mesma comissão reconheceu que Fernando morreu em 1974, “em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985”, diz o documento.

Não constitui novidade o desapreço de Bolsonaro às conclusões da Comissão da Verdade sobre as atrocidades cometidas nos porões da ditadura militar. Basta rever a justificativa que conferiu ao seu voto na sessão de impeachment de Dilma Rousseff, exaltando a figura do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, erigindo-o publicamente em seu ícone e inspirador.
As invectivas que propagou em relação ao sumiço do militante esquerdista ultrapassam os limites do bom senso. Importam numa demonstração cabal de que o antigo candidato – agora presidente – não conseguiu aspirar o ar puro da democracia desde que se instalou no Palácio da Alvorada.

O seu autoritarismo está impregnado de visões desumanas que denotam a sua incapacidade no trato dos grandes problemas nacionais. A esta altura, com baixo índice de aprovação, inferior ao obtido pelos seus antecessores, o presidente passou a gerar apreensões, inclusive aos seus aliados, quanto ao que estaria reservado ao seu governo no futuro

O respeito deve ser o requisito mínimo que um mandatário do povo brasileiro possa ter por aqueles que o elegeram. Assim, a persistir nesse comportamento insano, seremos levados a admitir que Bolsonaro, insuflando o ódio, sente-se bem em ser malquisto.

Essa inusitada opção nos leva a admitir que ele próprio tornou-se a ameaça mais grave ao seu governo, contribuindo para que ainda venha a ser enquadrado na Lei 1079/50 (art. 4º, IV).

*Advogado, Conselheiro Nato da OAB e Diretor do IAB

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Pulga atrás da orelha...

Cesar Vanucci

“As coisas que deixam a gente com a pulga atrás da orelha
são tantas, que já não dá mais nem pra saber quantas”.
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Na animada e tradicional roda de papo aos sábados, à volta da mesa de bar em Santa Efigênia, entre umas e outras comedorias e bebericagens, sem exclusão de talagadas da legítima – aquela que prostrou o guarda -, a moça rechonchudinha, de olhos verdes faiscantes e sonhadores, analista de sistema de profissão, emprega nos argumentos expendidos, mais de uma vez, a expressão “pulga atrás da orelha”. É indagada acerca da origem do dito. Confessa não saber, prometendo explicação pra depois.

No encontro da turma, semana seguinte, ela traz as informações solicitadas. Esclarece havê-las colhido na internet. “Estou (fico, ando) com a pulga atrás da orelha” é expressão bastante antiga. Há quem garanta que sua origem está plantada no finlandês antigo, mais especificamente nos termos “Tati pulgui nai trai orei”. Teria surgido de contexto envolto em mistério, vinculado a lendas vikings. Significa ter suspeitas de alguma coisa ou de alguém, alimentar desconfiança sobre um fato específico, mostrar-se intrigado quanto a determinado dado ou revelação.

Por bom pedaço de tempo da história a pulga molestou bastante os seres humanos. Verdadeira praga, favorecida pela inexistência de “inseticidas”, venenos ou qualquer outra substância eficaz para espantá-lo, o inseto se alojava em tudo quanto é canto. Formava verdadeiras colônias em almofadas, armários, infernizando a vida de todo mundo. Nos países onde predomina o idioma espanhol – que não passa mesmo de “português cadenciado por castanholas”, segundo estudiosos de linguística -, a pulga é substituída por mosca, sem que se conheça do motivo.

A expressão soa então assim “tener la mosca detras de la oreja”. Pulga ou mosca, não importa. A sensação é sempre a mesma, quando a gente se surpreende em desconforto, desconcertada, intrigada face a inesperadas circunstâncias.

Voltemos ao encontro dos sábados no bar de Santa Efigênia. Satisfeita a curiosidade acerca da sentença proferida na prosa anterior pela moça rechonchudinha de olhos verdes, faiscantes e sonhadores, alguém da patota lembrou que a conversação fiada dos sábados, contemplando temas variados, fomenta sempre substanciosos debates. Sugeriu, à vista disso, aos presentes a anotação, ali, na hora, de casos da atualidade suscetíveis de deixarem pessoas “com a pulga atrás da orelha”. Acatada de pronto, a proposta rendeu desdobramentos assaz interessantes, abaixo mencionados.

O primeiro a tomar da palavra declarou-se desconfiado “coisa que preste”, com lance, em seu modo de entender, provocado pelos critérios carregados de perfídia da geopolítica. Não há como entender – enfatizou - o silêncio sepulcral mantido pela mídia em torno do que vem rolando presentemente na Síria conflagrada. Até bem pouco tempo atrás – pontuou - o conflito, de características genocidas, era explorado em estrondosas manchetes, dia sim, outro também. De repente, não mais que de repente, caiu em total esquecimento, como se as escaramuças houvessem cessado e a paz tivesse sido alcançada. Por qual motivo?

Na mesma linha de raciocínio do colega, outro integrante da turma - de descendência espanhola, fez questão de frisar – se disse incomodado, com “la mosca detrás de la oreja”, por causa do comportamento indiferente da mídia e lideranças mundiais com relação a mais um fato perturbador.  As ações do famigerado EI (Estado Islâmico) parecem inteiramente concentradas, de pouco tempo pra cá, na banda de lá do planeta. Ou seja, em países periféricos do Oriente. Isso dá o que pensar. Dá margem a sinistra suspeita.  Será que, entre patrocinadores ocultos dos fanáticos extremistas e dirigentes das potências providas de poder suficiente para combatê-los e eliminá-los, não teria sido estabelecida uma trégua forjada em sombrios bastidores? Uma negociação de cláusulas mafiosas, implicando em espúrias conveniências, vantagens e concessões, mode quê impedir temporariamente fiquem alguns países do Ocidente de fora das nefandas agressões praticadas pelos desvairados terroristas? Essa é de dar calafrio, não é mesmo?

Do mesmo tipo de raciocínio se valeu o encarregado do comentário vindo na sequência. Disse ele: “A ferroada que sinto atrás da orelha fala igualmente do súbito emudecimento midiático a propósito do que vem ocorrendo nas sofridas paragens venezuelanas do caudilho Nicolas Maduro. Por quê parou o noticiário atinente aos graves problemas existentes por lá? Parou por quê?”

O que se ouviu de mais um integrante do grupo seguiu a toada dos companheiros: “Reporto-me a outra coisa danada de instigante. Incomoda-me, como cidadão, não ver ninguém de expressão exponencial na esfera internacional se esforçando por explicar o gritante desinteresse que prevalece neste momento acerca do que acontece nos chamados centros de detenção para imigrantes instalados na fronteira dos Estados Unidos com o México”. O comentário crítico foi complementado com a estarrecedora narrativa de que centenas e centenas de crianças, até de colo, separadas dos pais há um tempão, bem como adultos, de diferentes nacionalidades, recolhidos a esses centros de detenção, vêm comendo “o pão que o diabo amassou”. Vivem (modo de dizer) em “guetos” que recordam aqueles destinados a “alojar” judeus na tenebrosa era nazista. Mas – pasmo dos pasmos! - não se ouve, por parte das grandes lideranças da comunidade internacional, o clamor vigoroso contra tamanhos absurdos reclamado pela indignação da consciência humana.

Sobraram pra depois as observações do restante do grupo atinentes a coisas que andam rolando por aí e que têm deixado viventes de sensibilidade social aflorada “com a pulga atrás da orelha”.

Pulga atrás da orelha (II)

Cesar Vanucci

“Algo deve mudar para que tudo continue como está”.
(Giuseppe Tomasi di Lampedusa, pensador italiano)

Retomamos agora, como prometido, as anotações dos comentários expendidos por ocasião do costumeiro encontro semanal, aos sábados, em Santa Efigênia, de um grupo de amigos e conhecidos empenhados na troca de opiniões sobre candentes temas da atualidade. O mote do papo reportado, como dito, foi a intrigante expressão “pulga atrás da orelha”, cuja origem mereceu no artigo passado tosca explicação.

Os integrantes do grupo andaram colocando na mesa de debates, também, a controversa reforma da previdência. Traduziram surpresa, dúvida, desconfiança, ou seja, confessaram sentir uma ardente coçação de pulga (ou de mosca, consoante a versão espanhola do curioso brocardo) atrás do pavilhão auricular, diante das notícias acerca dos “excepcionais resultados”, alardeados aos quatro cantos, da medida aprovada recentemente, em primeira votação, pela Câmara dos Deputados.

Causou a todos baita estranheza, pra começo de conversa, a revelação de que a nova e polêmica Previdência Social só conseguiu contabilizar votos suficientes, mode quê garantir “tranquila” tramitação, após compromisso formal com a designação de nomes indicados por deputados para cargos a serem preenchidos na administração pública. E, pela mesma forma, depois da liberação de 2,6 bilhões de reais em emendas parlamentares... Supunha-se, inocentemente, que esse perverso esquema de aliciamento de votos já houvesse sido extirpado, morto e sepultado, da vida pública. Não é o que as lideranças que galgaram o poder juraram de pés juntos iria acontecer? “Sei não – asseverou alguém da turma do mencionado encontro dos conhecidos de Santa Efigênia –, duvido, de-o-dó, que essa reforma previdenciária, ao contrário do que vem sendo cantado cotidianamente em verso e prosa, seja mesmo capaz de fomentar a tão almejada retomada do crescimento econômico. Sei não... Esperar pra ver”.

Outro componente da patota disse vir sentindo uma fisgadinha incômoda em ponto sensível da orelha no tocante, igualmente, à citada reforma previdenciária. Parece-lhe – sublinhou – que certos setores do mundo político pretendem, apenas, com a momentosa decisão, fazer “alguma reforma” pra, de verdade, não fazer “reforma alguma”. Lembrou-se, ainda, no efervescente bate-papo do pessoal sobre o mesmo tema, que a reformulação do sistema previdenciário não contempla, hora nenhuma, por incrível que seja, a questão dos privilégios concedidos a milhares de agentes públicos dos diferentes Poderes, com maior ênfase talvez para o Judiciário, que percebem remunerações acima do teto constitucional. Nesse ponto do diálogo, irrompeu pergunta que ninguém dentre os presentes soube responder. No que acabou dando mesmo aquela “mancheteadíssima” intervenção do Supremo no sentido da realização de estudos, prometidamente urgentes e definitivos, visando a eliminar os tais auxílios-moradia e outros extravagantes penduricalhos dos holerites da enorme legião de “marajás”? Oportuno sublinhar, a propósito, que à época do estrepitoso anúncio da citada intervenção pela presidência da Alta Corte veio à tona, entre os abusos perpetrados, a desnorteante  situação abaixo descrita. Cônjuges, pertencentes à mesma categoria de servidor, possuidores ambos os dois de moradia própria, residentes numa mesma habitação, serem generosamente agraciados com auxílio-moradia em dobro. Explique quem puder: coisas assim (comportando, todo mundo ta calvo de saber, uma imensa lista) concorrem, ou não concorrem, para agigantar os gastos públicos?
Encurtando razões: estamos, ou não, a confrontar questões merecedoras de cogitação numa reforma previdenciária verdadeiramente de sola inteira, como recomendável à luz do bom senso e do espírito de justiça?

A SAGA LANDELL MOURA

O ser humano em primeiro lugar Cesar Vanucci “A economia é um meio pra se atingir um fim social.” (José Alencar Gomes da Silva, ...