sexta-feira, 25 de janeiro de 2013






Efeito Xandico

Cesar Vanucci *

“A aplicação da justiça é regida
pelo respeito aos princípios basilares.”
(Domenico Rosa, professor)

Por “efeito Xandico” compreenda-se a postura altiva, isenta, de cidadão de conduta retilínea calcada na ética. Alguém que conserve apreço intransigente aos valores e princípios que conferem dignidade à aventura humana, quando da apreciação de atos que projetem incongruências, conveniências espúrias, pragmatismos perversos e outras mazelas do jogo mundano.

Xandico deriva de Alexandre. No caso, o Alexandre de que se fala é o inolvidável Arcebispo de Uberaba, Alexandre Gonçalves Amaral, falecido há uma década. Homem de sabedoria incomum, em vivência encharcada de apostolicidade. Dono de fala eletrizante, didática e bem humorada, sempre adequada ao momento, à platéia, à faixa etária, ao ambiente cultural. Cidadão que nutria apego apaixonante aos princípios. Bispo mais moço à época da sagração, foi o religioso com o maior tempo de presença eclesial no mundo inteiro na fase outonal da existência.

Xandico era o apelido carinhoso, ganho nos tempos da meninice, pelo qual se fez conhecido nas relações familiares e dos amigos chegados. As atitudes e decisões deste ser humano especial, de presença refulgente no cenário da inteligência e da cultura, deram origem à expressão que encima o comentário, definida linhas atrás em sua essência, que costumo empregar com alguma assiduidade.

Nas definições recentes do Supremo Tribunal Federal no tocante ao “mensalão” anotei sinais comportamentais, implicando em apreço aos princípios sobretudo do Ministro relator, hoje na presidência da Corte, que me fizeram lembrar posições assumidas por Xandico em momentos cruciais. Isso conduziu-me a compor possível cenário para outras manifestações a serem tomadas pela instituição em futuros julgamentos. Refiro-me de forma especial ao “mensalão” mineiro, apontado como modelo matricial do processo que acaba de ser julgado e que teve também como eficiente operador o publicitário Marcos Valério.

Narro aqui episódio demonstrativo do que chamo “efeito Xandico”. Na administração JK como governador de Minas, ocorreu, em dado momento, elevação substancial nas alíquotas de imposto. O pessoal da Receita abusou, apertando com excesso policialesco os cravelhos da fiscalização. A indignação dos contribuintes foi enorme. Acabou desembocando, deploravelmente, na depredação da Delegacia Regional da Secretaria da Fazenda em Uberaba. À reação colérica, obviamente condenada pelos mais sensatos, seguiu-se violenta repressão policial, alvejando, como sói acontecer nesses momentos, criaturas humildes. Alexandre já vinha se ocupando em incandescentes artigos do criticável desempenho dos agentes do Fisco. Profligou a irrefletida explosão popular, lastimando ao mesmo tempo que pessoas ingênuas estivessem sendo submetidas a maus tratos na cadeia. Sua palavra ressoou forte. As violências cessaram. O Secretário José Maria Alkmin procurou-o em nome do governo, para um entendimento. Ouviu do Bispo o que pode ser classificado como uma senhora descompostura. O episódio ganhou a mídia. Os artigos do Bispo, batendo duro e firme no governo pessedista de JK, foram reproduzidos, a mando da oposição udenista, toda jubilosa, nos principais jornais do país.

Na sequência, representantes da oposição, Milton Campos e Pedro Aleixo entre eles, encaminharam a Alexandre uma mensagem de aplausos pela posição assumida, acompanhada, ingênua e inadvertidamente, de pedido para que interferisse no sentido de convencer um de seus partidários a aceitar a candidatura a Prefeito de Uberaba.

O tsunami que o fato provocou, vou te contar! Alexandre disse poucas e boas aos autores da mensagem, repelindo com veemência a proposta para que se tornasse “cabo eleitoral” udenista. Foi a vez dos pessedistas cuidarem de reproduzir, nos maiores jornais, os artigos em que o Bispo espinafrou os udenistas. O que estivera posto em jogo o tempo todo e que o pragmatismo político dos dois lados encontrou dificuldades em entender era uma questão essencial, em conflito com suas conveniências. Uma questão de respeito a princípios.

Antevejo para breve um acontecimento especial, baseado também em questões de principio. Conservando-se fiel aos valores da equidade jurídica, da isenção e da ética, o STF não vai ter como deixar de colocar em pauta o processo do outro mensalão. O de Minas. Vem daí que os meios de comunicação, com certeza, não terão como se esquivar de concentrar microfones e refletores nas sessões de julgamento. Os votos dos Ministros ganharão, consequentemente, estardalhante divulgação, como já ocorreu no episódio passado. A opinião pública ficará acompanhando o desenrolar do julgamento com indormida atenção, naturalmente solidária com o Supremo em sua disposição saneadora.

Os políticos situacionistas diante do indiciamento e eventual condenação dos adversários cuidarão de promover, certeiramente, como os oposicionistas procederam num quadro inverso, ruidosas manifestações.

Olha aí o “efeito Xandico” em ação.


Boas falas

Cesar Vanucci*

“Quando é que alguém vai bolar no horário
nobre da tevê o jornal da Boa Noticia?”
(Agripina Cordeiro Leite, telespectadora)

Na tentativa de atenuar um tiquinho o fato inexorável de a gente pisar no ano novo com o gosto acre de cabo de guarda-chuva na boca, tantas as coisas negativas que andaram (e andam ainda, muitas delas) pintando no pedaço, azoretando a paciência dos desprotegidos cidadãos, achamos de bom alvitre, como era de costume dizer-se em tempos de antanho, listar neste espaço algumas iniciativas de cunho positivo colocadas em prática ultimamente, mas que não fizeram jus a registros à altura no noticiário nosso (habitualmente catastrófico) de cada dia.

˜ Quem utiliza amiúde avião de carreira nas viagens tem se confrontado, prazerosamente, com rigorosa pontualidade, dir-se-ia suíça, nas partidas e chegadas de voos. Não era bem assim que tudo rolava até outro dia. Sem estardalhaço, a situação sofreu alteração pra melhor. Claro, com intervenção bem sucedida dos organismos competentes, que conseguiram desfazer o cenário abagunçado das operações de navegação aérea que as imagens da televisão costumavam mostrar insistentemente num passado recente.

˜ Dizia-se, pouco tempo atrás, que o Brasil não estava se preparando adequadamente para a Copa Mundial de Futebol. A entrega para funcionamento pleno, nos prazos estipulados, de vários estádios que serão palco das partidas programadas - caso, por exemplo, do Mineirão - revela que as preocupações então trazidas a público não deixaram, de certo modo, de ser marcadas por toque um tanto quanto alarmista.

˜ Malgrado os juros bancários na boca do caixa, ou seja as taxas pagas pelo consumidor por empréstimos contraídos nos guichês das agências não tenham ainda chegado, em virtude da tradicional ganância (somada com caturrice) dos banqueiros, aos patamares preconizados na política econômica vigente, não se pode desconhecer que reduções significativas, puxadas sobretudo pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, estão ocorrendo nos custos financeiros. Taí situação que favorece em muito o sistema produtivo e o cidadão comum. Alvíssaras!

˜ A queda de 20 por cento nas taxas de energia elétrica, decretada meio na marra pelo governo, arrostando indisfarçável má vontade dos operadores do sistema, ávidos por lucros polpudos que remunerem à altura das expectativas seus acionistas, representa conquista econômica e social da maior relevância. Que o digam os setores beneficiados, ou seja, a Nação inteira! Pena não seja anotada com o destaque necessário, por motivos incompreensíveis (ou compreensíveis até demais) pela grande mídia.

˜ O ideal mesmo, não há duvidar, seria desmatamento nenhum. Mas essa queda acentuada nos índices de devastação da floresta amazônica é lance merecedor, sim, de alguma celebração. As últimas medições feitas por satélites no imenso oceano verde brasileiro são reveladoras de que a ação oficial concernente ao assunto vem se mostrando positiva.

˜ Tem-se como certo que nosso país executa presentemente o maior programa de implantação de moradias populares da história contemporânea. Essa grandiosa empreitada social é acompanhada com admiração e interesse em todas as partes do mundo. 2011 foi outro ano de recordes no setor de construções. Os valores dos financiamentos liberados pela Caixa são impressionantes.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Arapongagem em escala mundial

Cesar Vanucci *

“A prepotência das grandes nações tem gerado, ao longo
dos tempos, muitos infortúnios na convivência universal.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Contra o voto de alguns poucos parlamentares, o Congresso dos EUA acaba de revalidar lei dos tempos de Bush autorizando a escuta telefônica e o monitoramento de comunicação eletrônica, incluindo e-mails, com dispensa de autorização judicial, de qualquer cidadão, de qualquer nacionalidade, em qualquer ponto do mundo, por parte dos órgãos de segurança do país. A decisão é de jeito a trazer preocupações de bom tamanho à comunidade das nações. A missão atribuída aos serviços de inteligência estadunidenses, implicando em indisfarçável ato de prepotência, tende fatalmente a violentar a soberania de outros paises.

Uma indagação que não pode deixar de ser feita: como é que é processado o serviço de monitoramento da comunicação eletrônica e da escuta telefônica levado a efeito? A arapongagem eletrônica efetuada, representando invasão de privacidade de pessoas e organizações as mais diversificadas, se vale naturalmente de tecnologia avançadíssima mode que possa o trabalho atingir os resultados almejados. Tão óbvia constatação introduz no espírito popular a incômoda impressão - mais do que isso, talvez, a certeza - de que os Estados Unidos detêm um complexo sofisticado de coleta de informações que nas diligências executadas utiliza recursos à margem de normas, convenções e regulamentos consagrados oficialmente no relacionamento internacional.

A essa altura do enredo chame-se a atenção do distinto público para a presença em cena do famoso Echelon. Muita gente se recusa a aceitar a existência do “Echelon”. Acha que tudo não passaria de papo furado, história fantasiosa, “conto da carochinha”, estimulados por alguma “teoria conspiratória”. Mas um bocado de pessoas tem o “Echelon” na conta de coisa muito séria. O sistema funciona há anos. Sob múltiplos aspectos, mete baita medo. As operações promovidas materializam as sombrias previsões (ou serão predições?) de George Orwell no instigante “1984”. O livro descreve a atmosfera asfixiante de uma sociedade futurista, onde os cidadãos são alvo de feroz monitoramento. Fala de um sistema que vasculha permanentemente todas as engrenagens da comunicação humana, não poupando nem mesmo a intimidade dos lares. Ao “Grande Irmão” (Big Brother) é facultado o controle absoluto de tudo. Das mentes, dos corações e, até mesmo, das vidas. O cinema aproveitou o tema em fita estrelada por Richard Burton.

Os que crêem na existência do Echelon explicam que o esquema é servido por tecnologia altamente sofisticada. Suas atividades são centralizadas secretamente numa agência denominada NSA. Recorrendo a satélites aperfeiçoadissimos, os monitores têm acesso a todo som e imagem produzidos em qualquer parte do planeta e que estejam conectados às redes de alcance mundial, telefonia e internet incluídas. O Echelon trabalha no atacado com base em palavras-chave, não importando os idiomas. As palavras podem traduzir, teoricamente, intenções e procedimentos que justifiquem ações repressivas.

O acompanhamento desse incalculável volume de dados, de circulação incessante, é apontado como de significativa ajuda na identificação de situações que constituam ameaças. Caso, por exemplo, de eventuais ações terroristas. Mas como diz o ditado, madeira que dá em Chico, dá também em Francisco. O processo pode aprestar-se, ainda, a outras conveniências despojadas de nobreza. Enquadradas no “vale-tudo” do jogo geo-político-econômico. Revelam-se compreensíveis, à vista disso, os temores de que armações perversas possam ser articuladas, nesses monitoramentos, contra os interesses de Estados e organizações vulneráveis, alcançando até mesmo, quem sabe, lideranças regionais que se mostrem “suspeitosas” aos “olhares vigilantes” do Echelon. Ou seja, nessa nova versão da vida posta a imitar a arte, aos olhares do “Grande Irmão”.


Espionagem via eletrônica

 “A espionagem talvez fosse tolerável se pudesse ser
 exercida por pessoas decentes; mas a infâmia necessária
da pessoa pode fazer julgar da infâmia da coisa.”
(Montesquieu)

No comentário anterior, focalizando o ato de revalidação pelo Congresso dos EUA de uma lei dos tempos de Bush que autoriza a escuta telefônica e o monitoramento da comunicação eletrônica em escala mundial, falamos do Echelon, um sistema de arapongagem, operado pela Agência de Segurança Nacional (NSA) daquele país, cuja existência é negada e admitida por muitos e desconhecida da grande maioria.

O Echelon já foi objeto de avaliação crítica no Parlamento europeu e no próprio Congresso estadunidense. No Brasil, chegou a ser debatido, com discrição, na esfera parlamentar.

O respeitado jornalista Aldo Novak revelou, tempos atrás, em interessante trabalho, que por meio do Echelon a Agência de Segurança Nacional (NSA), dos Estados Unidos, está apta a acessar quaisquer transmissões de televisão, emissões de rádio, inclusive portáteis e de curta distância, e informações veiculadas por meio de faxes e correio eletrônico. Dois episódios apontados pelo jornalista ilustram os perigos embutidos no esquema. O Vaticano denunciou, algum tempo atrás, o que foi classificado por um porta-voz de violação da intimidade do então Papa João Paulo II. Todos os indícios de inominável devassamento dos domínios domésticos pontifícios apontaram na direção do “Projeto Echelon”.

Num outro incidente, também ocorrido há tempos, pacata família estadunidense teve a casa subitamente invadida por tropas de choque, à cata de terroristas e de bombas de alto poder destrutivo. Desfeito o mal-entendido, apurou-se que tudo brotara de inocente conversa telefônica, em que a palavra-chave “bomba” teria sido utilizada de forma perdulária. Decodificada pela parafernália eletrônica, a
conversa de duas pacatas comadres soou, aos ouvidos de zelosos agentes, especializados no combate a práticas terroristas, como tenebrosa conspiração. Acionar a Swat foi a ação recomendada por uma vigilância dominada pela paranóia.

As revelações acerca da avantajada xeretagem do Echelon foram corroboradas pelo famoso programa “60 minutos”. Os repórteres da CBS apuraram que a expressão Echelon corresponde a uma rede global de satélites e computadores estruturada com o fito de espionar tudo, em tudo quanto é canto do planeta. Controlada pela NSA, organização secretissima, dotada de poderes superiores aos da própria CIA, o dispositivo montado conta com sofisticadíssima rede de satélites em condições de fotografar, de grandes altitudes, com incrível nível de definição, cenas que ocorrem na superfície de qualquer recanto do globo. Está capacitado a captar, mediante parafernália eletrônica avançadíssima, dados de qualquer natureza, por mais protegidos que sejam, processados em computador. Pode, em suma, imiscuir-se na vida de qualquer pessoa.


A revalidação da lei da arapongagem eletrônica na escala preconizada pelo Congresso dos EUA só faz fortalecer a idéia da existência do Echelon. Isso recomenda a criação de regras jurídicas poderosas, por parte da comunidade das nações, que coloquem ao abrigo de sinistras maquinações a dignidade do ser humano. Sem o que estaremos todos contribuindo para que conquistas seculares, de conteúdo humanístico e espiritual, possam ser, de repente, arrastadas de roldão nas correntezas do obscurantismo e da insensatez, com fundamento em uma ciência e numa tecnologia que, volta e meia, a serviço da prepotência de governantes com vocação imperial, são flagradas em descompasso com os valores éticos que devem reger a aventura humana.

 * Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A pizza desejada por muitos

Cesar Vanucci *

“As conclusões aqui, são nada, um vazio.”
(Deputado Odair Cunha, relator da CPI)

˜ As fartas evidências de que o escândalo que tem como pivô o banqueiro de bicho Carlinhos Cachoeira suplanta em extensão e gravidade o próprio “mensalão” recentemente julgado pelo STF, não foram suficientes para impedir que a CPI sobre o assunto terminasse melancolicamente em pizza. Pizza brotinho, com disse alguém.
Gente de dentro e de fora do governo, políticos graduados da situação e da oposição, setores influentes da mídia somaram forças para impedir a conclusão do trabalho investigatório parlamentar nos termos adequados. As provas reunidas conduziam inapelavelmente à necessidade de indiciamentos que passaram, a partir de certa hora, a ser considerados inconvenientes tanto para a oposição, quanto para a situação. Bem como, também, deploravelmente, para certos órgãos da grande midia, embaraçados diante do envolvimento até a medula de alguns jornalistas nas maquiavélicas tramas criminosas de Carlinhos.
Os arranjos de bastidores resultaram num parecer conclusivo (do relator) vazio de conteúdo. Ficou fácil derrubá-lo na votação da Comissão. A substituição do texto por um raquítico memorando, elaborado a gosto na undécima hora, desprovido de um mínimo de respeito à natureza da investigação, deu-se com o indisfarçável intento de cavar uma sepultura bem funda para a CPI. Ninguém acabou sendo indiciado. Nem os mais manjados atores políticos do enredo mafioso, o ex-senador Demóstenes Torres e o governador de Goiás, Marconi Perillo. Nem tampouco a empreiteira utilizada como fachada para uma montoeira de negócios escusos. Apesar do acúmulo escandaloso de indícios acerca da mancomunação de todos com as ações ilícitas do perigoso contraventor. Este aí, por sua vez, posto novamente em liberdade, já anda anunciando a disposição de, seguindo o “meritório” exemplo de outro malfeitor, Marcos Valério, negociar penas mais brandas, caso isso se revele realmente necessário, em troca de uma “delação premiada”. Um artificiozinho que lhe assegure, talvez, o “sagrado” direito de zerar o prontuário e ganhar um atestado legal de “regeneração súbita”.

˜ A “síndrome de faroeste” sobrepaira ameaçadoramente sobre a vida estadunidense. O anunciado propósito do Presidente Obama, dando eco a clamor de ponderáveis parcelas da opinião pública, no sentido da adoção de medidas restritivas na venda de armas, vem provocando virulentas reações, por mais incrível que possa parecer. Grupos poderosos, contando inexplicavelmente com certo apoio popular e com algum apoio significativo da mídia, resistem em atmosfera de exacerbada indignação à idéia de se criar obstáculos à venda de armas nos termos em que a operação se processa atualmente. Querem que tudo permaneça como está em nome do sagrado “direito individual” de cada pessoa em possuir as armas que quiser e puder adquirir para se defender de ameaças que supostamente rondem o seu sossego. A prevalecer a tresloucada tese por eles sustentada, qualquer individuo continuará investido das condições de poder encomendar pelo telefone, para entrega domiciliar rápida, um rifle automático, ou mesmo uma bazuca, sem que se sinta na obrigação de explicar pra quem quer que seja as razões de seu procedimento. A arma – afiançam – é um produto de utilidade doméstica. Como geladeira, ou televisão. Impedir o cidadão de adquiri-la significa inadmissível invasão de privacidade, ora, veja, pois!
Obama vai se expor a nova saraivada de violências verbais, tal como aconteceu nas eleições, caso persista na louvável determinação de desarmar o país na tentativa de reduzir as tragédias amiúde provocadas por enlouquecidos atiradores solitários com acesso desembaraçado a verdadeiros arsenais bélicos.

 “Muito bom, fui longe sem sair do lugar.”
(Comentário da telespectadora Elenilda Trindade, ouvindo
a interpretação de Zé Renato e Renato Braz da melodia
“Desenredo”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro)

Vou usar uma expressão cunhada por ninguém mais, ninguém menos do que Ary Barroso, o mais genial compositor de música popular do século 20. Umas quinhentas composições na bagagem. Todas lindas. Nenhuma com defeito de fabricação.

Ary, de certa feita, definiu a “Aquarela do Brasil”, segundo hino nacional brasileiro, como um “clangor de emoções”. Tomo emprestadas as sugestivas palavras para caracterizar nosso prodigioso Brasil musical. Um verdadeiro clangor de emoções que as programações da televisão e rádio teimam, por pirracice ou outra razão menor qualquer, em não projetar, como deveriam fazer, na devida dimensão.

Em atrações como “Samba na Gamboa”, da TV Brasil, “Sarau”, da Globo News, “The Voice Brasil” (título pouco inspirado) e “Som Brasil”, da TV Globo, “Senhor Brasil”, da TV Cultura e em faixas musicais do Canal Brasil, a criatividade musical incomparável de compositores, intérpretes e instrumentistas brasileiros tem sido, de alguma maneira, realçada. Mas isso é ainda considerado muito pouco quando se tem em conta o volume da divulgação habitual reservada a ritmos estrangeiros.

E não se pode perder de vista que a música estrangeira intensamente propagada nos veículos de massa oferece, no mais das vezes, não importa o gênero, padrão de qualidade que deixa sempre muito a desejar. Culpa, certeiramente, da influência negativa que as gravadoras, ávidas por venderem seus bagulhos,  exercem no sistema de divulgação, sem falar da valiosa contribuição que é dada no caso por não poucos produtores e programadores, por meio da seleção de peças de mau gosto colocadas displicentemente no ar.

Dias atrás, no Canal Brasil, assisti empolgado a um espetáculo musical rico em brasilidade, com intérpretes magistrais. Não me recorda já haver visto qualquer um deles se apresentando noutro programa de televisão, embora todos eles revelem sobejas condições para, ao contrário do que ocorre com tantos artistas de duvidoso mérito, merecer a honra de escalação frequente em atrações de grande audiência na chamada tevê aberta. Esses intérpretes são Zé Renato e Renato Braz. O show mostrado foi impecável. “Desenredo”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro, com o encaixe de um trecho do “Trem caipira”, de Vila Lobos, foi uma interpretação de tirar o fôlego. Eletrizante. Tenho zapeado, de lá pra cá, os prefixos na expectativa de reencontrar os artistas citados. Busca infrutífera. E não serão eles apenas, certeiramente, os únicos a experimentarem, neste momento, o amargor de se verem com sua arte bem brasileira mantidos à distância dos refletores, observando o espaço que, por mérito, deveria ser-lhes assegurado na programação, descerimoniosamente e obsessivamente ocupado por cantadores e cantorias estrangeiros.

Não tenho dúvida alguma em proclamar, alto e bom som, que a produção musical brasileira é, incontestavelmente, melhor do que a estrangeira. Mais uma prova dos nove fora disso tivemo-la, indoutrodia, naquele badalado espetáculo que atraiu meio milhão de pessoas à praia de Copacabana. Apresentaram-se ali Gilberto Gil e o americano Steve Wonder. A primeira parte do show, a cargo do brasileiro, foi infinitamente superior em qualidade. Mesmo não vivendo um de seus momentos mais inspirados, o autor do antológico “Aquele abraço” arrancou mais aplausos de que seu parceiro, reconhecido como celebridade mundial. Acompanhei, pela televisão, com entusiasmo, a performance de Gil. Não consegui, jeito maneira, acompanhar até o final o outro interprete. Lá pela quarta musica, danei a bocejar, entediado. Outros conhecidos confidenciaram-me haver experimentado idêntica sensação.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Por falar em delação premiada

Cesar Vanucci *

“Esperemos com resignação pela lei que trocará o nome da cidade
mineira de Tiradentes para Joaquim Silvério dos Reis, um delator bem premiado.”
(Nilo Batista, penalista)

Delação premiada é invenção de moda que aborrece, apoquenta o regime democrático. Este artifício pseudo-legal recende a autoritarismo. Evoca lembranças arrepiantes vividas no auge do bolchevismo e do nazismo. Tempos em que se costumava festejar os feitos patrióticos de adolescentes babacas que denunciassem pais por desvios ideológicos, e de indivíduos medíocres empenhados, com frenético “ardor cívico”, em apontar às autoridades competentes, para exemplares corretivos, vizinhos suspeitos de infidelidade aos idolatrados detentores do poder constituído, salve, salve...

Mergulhando mais fundo no passado, dá também para identificar o “oficio da delação” como atividade altamente meritória do ponto de vista dos algozes da Inquisição, nos momentos mais sombrios da Idade Média. Bancar o dedo-duro, exercendo a missão com altivez e convicção do dever cumprido, já rendeu também, noutros trevosos períodos do giro do mundo, aclamações e recompensas. Os exemplos de Judas Escariotes e Joaquim Silvério dos Reis, à frente de uma chusma de alcaguetes que deixaram registros históricos de suas façanhas nesse execrável mister, ilustram admiravelmente bem o que está sendo dito.

Lanço no papel estas considerações, ao dar-me conta, tomado de perplexidade, do grau elevado de credibilidade subitamente atribuído por algumas autoridades, alguns líderes políticos e certos portavozes da chamada grande mídia, a um elemento recentemente julgado pelo STF, como principal operador do chamado “mensalão”. Tal elemento estaria disposto, segundo “informações vazadas” (como?) de importante órgão do Poder Judiciário, a contar coisas que “não teria tido chance de revelar” no longo curso do inquérito, desde que lhe fossem garantidos os questionáveis “benefícios” do famigerado instituto da “delação premiada”.

Consulto os botões de meu pijama e chego rápido à conclusão de que essa manobra aloprada de se tentar alvejar, a qualquer custo, o ex-Presidente Luiz Ignácio Lula da Silva por meio do operador-mor do “mensalão”, além de extemporânea, ultrapassa os limites do ridículo, da falta de ética. Configura oportunismo político rasteiro. E por conta disso não vai, seguramente, conseguir prosperar. Um exame mais lúcido e ponderado dos fatos apontará inexoravelmente no sentido de que a solerte manobra projetada seja interrompida! Quer pela falta de consistência de argumentos, quer pelo risco que já se pode vislumbrar em avaliações políticas insuspeitas, de que o tiro que alguns, insensatamente, se dispõem a dar, apostando todas as fichas nessa situação surreal, pode sair pela culatra.

Se Marcos Valério tivesse algo mais a dizer sobre as ações fraudulentas de que participou neste mensalão em posição de realce, a oportunidade de fazê-lo foi deixada para traz. Não fica bem para as autoridades competentes conceder-lhe crédito para, depois de julgado e condenado, em troca de suposta redução de pena, sair por ai assacando contra a dignidade alheia, como parte de um complô armado com base na politiquice que outra coisa não objetiva senão desqualificar um líder político da envergadura de Lula, com uma “proposta” de disputa inesperada extra-campo, já que nas quatro linhas parece meio difícil, por ora, desbancá-lo.

Se o operador do mensalão anda mesmo disposto a revelar coisas que sabe sobre mensalões, consideradas importantes para o conhecimento da opinião pública, a hora é mais do que propicia a que comece explicar tintim por tintim tudo que aconteceu nos desdobramentos da primeira das supra-citadas tramóias. Ou seja, o famoso modelo experimental dos mensalões, praticado aqui mesmo em nossas Minas Gerais. Fontes abonadas vêm assegurando que o STF cogita dispensar a essa outra maracutaia contrária ao patrimônio público a mesma atenção que consagrou ao caso que acaba de julgar. Estando isso em vias de acontecer, a ensancha de Marcos Valério poder usar pertinentemente do verbo é mais do que oportunosa.


Era uma vez Hollywood


“Sexo ou violência. Impasse ou degradação duma arte que deu um Chaplin.”
(Paulo Mendes Campos, num registro feito décadas atrás, quando a arte cinematográfica ainda não havia atingido o grau de inconveniências observado nos dias de hoje)

Estou convencidíssimo de uma coisa e não aceito que me venham dizer que tudo não passa de saudosice piegas: Hollywood já não faz mais filmes como antigamente. Bastou trazer, para distração, num fim de semana, algumas produções dos anos 50 e 60 da Metro e Warner e chegar fácil a essa constatação, que se aplica inapelavelmente a comédias, musicais, filmes policiais, de faroeste e de aventuras. Sem esquecer as superproduções, bem melhores no passado. Os artifícios tecnológicos de hoje não conseguem, jeito maneira, estabelecer um diferencial favorável. O conteúdo pobre anula os efeitos. As cenas de violência estabelecidas amiúde num grau de paroxismo inimaginável preponderam. Numa semana inteira de filmes da era moderna mata-se mais do que em todas as guerras juntas. Assim, “não há tatu que guente!”, como é costume dizer lá nas bandas do Triângulo.

Outro ponto a considerar: a requintada indumentária que reveste as imagens de crueldade. Com adendo intrigante: as classificações etárias benevolentes atribuídas aos filmes que estampam manifestações de gosto tão duvidoso. Curioso também é perceber que essas cenas de violência incomum parecem não tocar em nada algumas organizações empenhadas, com bons propósitos, em campanhas educativas. Nunca as surpreendemos esbravejando com a mesma intensidade, frequência e veemência que reservam a autores, atores e obras brasileiras, considerados a seu juízo impróprios, quando a produção traz a marca dos estúdios de Los Angeles. E olha que o confronto, pelos critérios convencionais de avaliação, inspirados na moral e bons costumes, deixa novelas e filmes brasileiros, eventualmente apontados como picantes ou exagerados, em situação iniludivelmente vantajosa. O que não falta na atual safra de filmes da Meca do cinema são imagens horripilantes de violência, com escancarados ou subliminares estímulos ao uso de drogas e outras tantas mazelas.

Mas do que queremos mesmo falar, em suma, nestas maldigitadas, é que Hollywood já não faz filmes como antigamente. Cadê aqueles musicais fabulosos com Gene Kelly, Fred Astaire, Leslie Caron e Cyd Charisse? E os dramas com diálogos inteligentes entre o Spencer Tracy e a Katharine Hepburn? Entre Clark Gable e Vivien Leigh? O Henry Fonda e Bette Davis? Cadê aqueles enredos passados em salões de júri (“Doze homens e uma sentença”), e aqueles lances arrebatadores da conquista do oeste (“O homem que matou o facínora”), com aquelas histórias empolgantes, tão ricas em colorido humano?

No final dessa última semana vimos um musical dos bons tempos. Frank Sinatra cantou peças lindíssimas do melódico americano, o segundo estilo de música mais bonito do mundo, depois naturalmente do samba e da bossa nova. Junto com ele, alindando as cenas, lá estava a deslumbrante Rita Hayworth, cuja beleza física levou, certo dia, o célebre Cardeal Spellman a comentar, piedosamente, ter diante dos olhos prova exuberante da existência de Deus.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


A SAGA LANDELL MOURA

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO

C   O   N   V   I   T   E A Arcádia Minas Gerais, a Academia Feminina Mineira de Letras, a Academia Cordisburguense de Letras Guimarãe...