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sexta-feira, 1 de março de 2019



Os poetas sabem das coisas (II)


Cesar Vanucci

“Minha/ casa/ minha/ vida/ lama/ tomou!”
(Andreia Donadon Leal, poeta aldravianista)

Volto a explicar. Inspirado no tsunami de lama que varreu do mapa, em 2015, o povoado de Bento Rodrigues, e produziu danos irreparáveis noutras paragens, um grupo de versejadores de escol, filiado à corrente literária aldravianista, deu forma poética, num livro de 300 páginas intitulado “Mineralamas”, ao inconformismo e à revolta brotados da alma popular. Lamentou o acontecido em Mariana e o lamento se ajusta, também, ao que ocorreu, três anos depois, em Brumadinho.

O grupo ergueu mais do que um protesto. Valeu-se da poesia, “repórter milenar dos feitos heroicos ou dos fracassos humanos”, conforme acentuado na publicação, para emitir um brado de alerta contra a predação desatinada, com consequências sempre catastróficas, dos recursos naturais colocados à disposição do ser humano para celebrar a vida. E não para espalhar morte e destruição.

A Aldravia nada mais é do que uma forma de expressão lírica sintética, escorada em apenas seis palavras. Despontou para a vida literária na primaz da manifestação poética mineira, Mariana, por obra, arte e espírito vanguardeiro de um senhor time de intelectuais criativos e talentosos. Conquistou adeptos em todas as partes do território continental brasileiro, alcançando, ao depois, plagas outras d’além mar.

Para apreciação do culto leitorado, selecionei mais aldravias divulgadas no já citado livro. Antes, porém, de repassá-las quero aqui reproduzir texto poético de um personagem genial da literatura brasileira que, pelo visto, também sabia das coisas que costumam rolar no pedaço da exploração minerária, quando esta se processa em termos de abominável vandalização. Estou falando de Carlos Drummond de Andrade e de um poema seu de mais de trinta anos atrás: “O rio? /É doce./ A Vale?/ amarga./ Ai, antes fosse/ Mais leve a carga./ Entre estatais/ e multinacionais,/ quantos ais!/ A dívida interna./ A dívida externa. / A dívida eterna./ Quantas toneladas exportamos/ de ferro?/ Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?”

Chegam, agora, as aldravias. 
Gabriel Bicalho: “mineiro/vira/minério:/cimenta/seu/cemitério”; “dinheiro/ 
apaga/ essa/ praga/ da/ lama?”; lama/ não/ lava:/ leva/ a/ lavoura!”; “quanto/ vale/ um/ vale/ de/ lama?”. Else Dorotéa Lopes: “Nem/ casa/ de/ Deus/ lama/ perdoou.”; “reescrevam/ a/ geografia/ pois/ lama/ modificou”.Elizabeth Rennó: “nada/ mais/ restou/ além/ do/ telhado.”; “Na/ triste/ madrugada/ Mariana/ desacordada/ enlameada.”; “memórias/ apagadas/ águas/ contaminadas/ localidades/ inundadas.”Dilma Rocha de Athayde: “lama/ descendo/ apressada/ cidade/ morrendo/ soterrada.”. Cyro Mascarenhas Rodrigues: “mineradora/ insana/ haja/ lucro/ morte/lama.”; “vale/ estéril/ pela/ vale/ quanto/ vale?”Claydes Regina Ricardo Araújo: “silêncio/ dos/ pássaros/ clamor/ da/ natureza.”; “perseverança/ solidariedade/ doação/ assobio/ de/ luz.”Auxiliadora de Carvalho e Lago: “impiedade/ incapacidade/ irresponsabilidade/ gerando/ terrificante/ imagem.”Anício Claves: “lama/ abandona/ carro/ em/ telhado/ alheio.”; “mar/ de/ lama/ lama/ ao/ mar.”Joreani Adalmar Netto: “se/ todo/ mundo/ sabe/ ninguém/ viu?”; “semáforo/ diz/ adiante/ verde/ em/ extinção.”Luiz Carlos Abritta: ‘mortos/ choram/ pelos/ vivos/ à/ deriva.”; “aí!/ Mariana/ jazida/ de/ história/ mutilada!”Marcus Stoyanovith: “tragédia/ anunciada/ ganância/ confirmada/ Homem/ denunciado.”; “óxido/ vivo/ marreco/ morto/ homem/ solto.”Matusalém Dias de Moura: “jaz/ sob/ lama/ pedaço/ de/ Mariana.” “rio/ doce/ corre/ sujo/ de/ ganância.”Miriam Stella Blonski: “meio/ ambiente/ chora/ lágrimas/ de/ barro.”; “Natureza/ morta/ imagem/ petrificada/ de/ barro.”Luiz Fernando dos Santos: “pintaram/ nosso/ rio/ de/ outra/ cor.”; “lavam/ casas/ com/ lama/ altamente/ concentrada.” Luiz Poeta: “só/ rios/ secam.../ lágrimas/ nunca/ evaporam.”; “quantas/ lamas/ ainda/ teremos/ que/ chorar?”; “são/ marcos/ são/ marcas/ são/ corpos.” Maria Beatriz Del Peloso Ramos: “ganância/ econômica/ moldou/ lágrimas/ de/ barro.” Maria Lopes: “lamento/ tormento/ muito/ sofrimento/ pelo/ rompimento.” Nilze Monteiro: “abriu/ comporta/ inferno/ doce/ lembrança:/ passado.” J.B.Donadon-Leal: “sobre/ rejeitada/ lama/ sol/ resseca/ esperança.”;J.S.Ferreira: “um/ dia/ trem/ emudece/ cidade/ acorda.”

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019



Cesar Vanucci

“Homens/ sufocados/ pela/ lama/ que/ criaram”.
(Elizabeth Rennó, presidente da Academia Mineira de Letras)

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. A poesia é essencial. Projeta a vitalidade dos mundos visível e invisível. Feérica explosão da alma, revela-se, às vezes, suave que nem brisa.  Noutras, lembra ruflar marcial de tambores.

As narrativas poéticas alimentam sonhos. Celebram a alegria da vida. Compõem elos de fraternidade, ao ocuparem-se dos humanos tormentos. As narrativas poéticas fazem acompanhamento da peregrinação de todos nós pela pátria terrena, sem se descuidarem da espreita interrogativa dos fenômenos inexplicáveis que nos circundam.

A fala, agora, é de Shakespeare: “O olhar do poeta, girando em delírio, vai do céu para a terra, da terra para o céu; e no que a imaginação vai tomando corpo, sua pena cativa a essência das coisas conhecidas e desconhecidas, moldando-lhes a forma e dando a um nada construído no ar um nome e um ponto de referência.”

Mariana (tinha que ser lá, não é mesmo?) é o epicentro de uma efervescente corrente do pensamento poético. Por obra e arte de Gabriel Bicalho, Andreia Donadon Leal e J.B. Donadon-Leal, aglutinando outros intelectuais de reconhecido mérito, irrompeu ali, esparramando-se Brasil afora, atraindo atenções ainda noutras paragens literárias em que predomina nosso idioma, o festejado movimento dos poetas aldravianistas. Os talentosos cultores dessa modalidade de manifestação poética explicam o que vem a ser esse irradiante projeto cultural. Partindo do princípio de que o exercício da criatividade encontra guarida na poesia, chamam atenção para a “poesia sintética, criada na Primaz da poesia mineira, Mariana”.“Amálgama do caminho, da via, com a possibilidade da abertura de portas, a Aldrava – salientam eles - é a aldravia que, em seis palavras, constrói continente semântico de abrigo a múltiplas significações”.


Temos em mãos o livro Mineralamas” (IV  da coleção das Aldravias). A obra foi organizada por Andreia Donadon Leal, Gabriel Bicalho e J.B.Donadon-Leal. Sessenta poetas do movimento marcam presença nas 300 páginas da publicação, prestando tributo aos atingidos pela tragédia da Barragem do Fundão, em novembro de 2015, focando o olhar angustiado no povoado de Bento Rodrigues e em áreas situadas ao longo dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce, devastadas pelo mar de lama. Fica claro que a justa indignação expressa nas aldravias, em perfeita sincronia com o sentimento das ruas, tem validade tanto para a catástrofe de Mariana, quanto para a de Brumadinho, municípios siameses no dolorido parto da predatória exploração mineral que ronda sinistramente, em tanto lugares, a comunidade brasileira. Os poetas, consoante registram, levantam mais do que um protesto. Emitem sinais de alerta acerca das vulnerabilidades e inconveniências de projetos de desenvolvimento que se entreguem docilmente à vandalização dos recursos naturais, alvejando a dignidade humana.

Selecionamos abaixo, para desfrute do culto leitor algumas das centenas de aldravias produzidas nas páginas do “Mineralamas”. Luiz Carlos Abritta: “Barra/Longa/longa/barra/pesada/barra”;Mariana/no/céu/rejeitos/no/inferno”. Juçara Regina Viegas Valverde: “solo/ contaminado/ homens/  contaminados/ povo/ minado”. Izabel Eri Diel Camargo: “chuva/ de/ bênçãos/ conforta/ povo/ desabrigado”. Ciro Mascarenhas Rodrigues: “outrora/ doce/ rio/ agora/ amargo/ desvario”; “simbora/fauna/flora/Mariana/triste/chora”. Auxiliadora de Carvalho e Lago: “árvores/renascerão/nas/margens/haverá/ressureição”. Andreia Donadon Leal: “minerar/ pão/ sem/ estragar/ pão/ nosso”; “lama/ afamou-se/ criando/ status/ de / tissulama”. Elizabeth Rennó: “a/ lama/ revestiu/ o/ vale/verde”. Else Dorotéa Lopes: “Muitas / lágrimas / por / léguas / de /lama.”Gabriel Bicalho: “que/ assim/ fosse / lama / não/ fosse!”; “minerador/ na/ lama/ vale/ minerar/ dor?”. J.B. Donadon-Leal: “lágrima / de/ lama/ chora / perda / definitiva”; “Fundão / expõe / ferida / aberta / jamais / cicatriz”. J.S Ferreira: “Bento Rodrigues / deserto / inóspito / mar / morto / Minas”. Vilma Cunha Duarte: “mortos / e / sonhos / jazem / na / podridão”. Zaira Mellilo Martins: “vidas / ceifadas / sonhos / desfeitos / memória / mutilada”.

Como dito lá em cima, os poetas sabem das coisas.

A SAGA LANDELL MOURA

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