sexta-feira, 27 de julho de 2012

Essas indecifráveis agências de risco

Cesar Vanucci *

“Que poder misterioso é esse que aciona essa agência com nome de absorvente feminino (Moody’s) a distribuir pontuações pra Deus e todo mundo?”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Percorro os jornais, os registros especializados em economia, imaginando que, nalgum instante, possa topar com algum questionamento critico às ações desenvolvidas pelas tais agências de risco. Ou seja, esses organismos que frequentam o noticiário econômico com a mesma constância com que socialite marca presença em coluna mundana e que se atribuem, sabe-se lá a serviço de quem, o “direito” de sair por aí distribuindo notas classificatórias sobre o desempenho de paises inteiros e de instituições que compõem essa engrenagem complexa e indecifrável conhecida por “mercado”.
Nada encontro, na busca empreendida, do que procuro. Sinto-me, assim, mais intrigado ainda diante da passividade com que se costuma aceitar por aí, sem contestações, assimilando-as como se fossem dogmas de fé de tempos medievais, as avaliações emitidas por tão esdrúxulos órgãos.
À falta de quem melhor provido de conhecimento de causa consiga dar resposta plausível às minhas interrogações, faço-me sempre perguntas sobre como foram e por quem foram criadas essas agências ditas de risco? Por qual veneranda razão seus juízos de valores são assim, sem mais essa nem aquela, acolhidos reverentemente em influentes setores da atividade política e econômica, soando nesses círculos como proclamas daqueles tempos passados em que à patuleia ignara, conhecida por súditos, nada restava a mais se não o dever de se curvar à soberana vontade real.
Desconfiado de que por traz disso tudo o que existe mesmo, no duro da batatolina, não passa de maquiavélica aprontação patrocinada pela poderosa máfia da megaespeculação, agindo nas sombras, pergunto-me também, duvidando obviamente da eficácia do trabalho das agencias de risco, qual o motivo pelo qual elas não vieram a público, com suas notas classificatórias e prognósticos levados a sério por tanta gente, pra alertar as incontáveis vitimas do escândalo da “bolha imobiliária”, quanto ao tsunami que andou devastando a economia mundial algum tempo atrás.


Algumas manjadas ongs estrangeiras, ditas ambientalistas, comprometidas até a medula com movimentos conspiratórios voltados para o nefando propósito de internacionalização da Amazônia, andam propagando que a Rio+20 foi um rotundo fracasso. E que a Presidenta brasileira Dilma Rousseff é a grande culpada pelo alegado fracasso.
Na ilustração da despropositada assertiva, em que fixam a mira em alvo errado, fingindo desconhecer quem são os verdadeiros e principais atores desse processo de violência contínua contra os valores ecológicos e a vida, as organizações citadas utilizam uma foto de Dilma extraída de seu antigo prontuário como presa política. Ou seja, uma foto feita no período em que foi submetida a torturas inenarráveis nos porões da ditadura.
Os que tomam ciência da panfletagem das ongs não conseguem alcançar os motivos que levaram as impertinentes ongs a optarem por tão descabida forma de retratar a Presidenta.



Super-humano


“A maior parte de nossa memória está fora de nós...”
(Marcel Proust)

A televisão vem mostrando uma série surpreendente: “Os super-humanos”. São personagens de carne e osso providos de faculdades especiais, no plano mental, na condição atlética, em habilidades incomuns.

Há algumas décadas atrás conheci alguém assim. Se ainda entre nós, estaria certeiramente atraindo as câmeras dos produtores desse programa.

Os tempos eram outros. A televisão não passava de experiência incipiente, coisa de estrangeiro. O rádio, sim, era o veículo de comunicação com poder de penetração, mas limitado na capacidade de cobertura dos acontecimentos em regiões distantes. O Brasil ainda não havia despertado para as conquistas do desenvolvimento, incrementadas sobretudo na “era JK”. Incontáveis registros de fatos relevantes passavam desapercebidos, diferentemente do que hoje  ocorre, do grande público em escala nacional. Ficavam circunscritos a ambientes mais fechados. Mesmo quando divulgados com intensidade, naturalmente relativa, alcançavam ressonância reduzida, se consideradas as dimensões continentais do país.

Nessa época, em ambiente interiorano, fase da adolescência, tomei conhecimento do maior fenômeno de memorização de textos de que já ouvi falar. O assim chamado “Salão Grená” da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, Uberaba, funcionava como um centro cultural. Provido de 500 poltronas, localizado em ponto estratégico do centro urbano, abrigava eventos artísticos, culturais, mesas-redondas, por aí. Para boa parte das promoções realizadas havia cobertura radiofônica, o que ampliava, consideravelmente, a divulgação. A emissora, pioneira na região, pertencia ao grupo “Lavoura e Comércio”, criado pelo saudoso jornalista Quintiliano Jardim. O jornal diário circulou por mais de cem anos, até o comecinho deste século.

Colegial fissurado em manifestações culturais, vi atuar, no local, numa série de aplaudidas audições, um cidadão dotado de capacidade inigualável para memorizar textos. Jamais tive notícia, nem antes nem depois de conhecê-lo, de ninguém com predicado – ou que outro termo possa existir para classificar seu desempenho – em condições ligeiras de igualá-lo naquilo que fazia.

Ele reproduzia, com absoluta exatidão, palavra por palavra, detendo-se nas pausas recomendadas pela pontuação, textos inteiros, de qualquer natureza, verso ou prosa, com ou sem menção de números, lidos cuidadosamente por outrem. Discursos, poemas, trechos de romance, trabalhos técnicos, tudo era absorvido com precisão. E, ao depois, repetido. A reação da platéia oscilava entre a perplexidade e o deslumbramento. Lembro-me bem de que, ao anunciá-lo, o mestre de cerimônia narrava saborosas historietas, alusivas a demonstrações dadas pelo nosso personagem, em respeitáveis ambientes freqüentados por líderes políticos e intelectuais de renome. Nem bem o expositor, debaixo de aplausos, dava por finda a fala nesses encontros e já o cidadão dono de memória prodigiosa surgia em cena, solicitando permissão para usar da palavra. Em tom sério, pondo todo mundo confuso e nervoso, “garantia” que o texto apresentado não passava de “descarado plágio”. Tanto isso “era verdade”, acrescentava ele, confessando-se o “verdadeiro autor” do texto, que iria repeti-lo, ali, naquele mesmo momento, parcial ou integralmente, sílaba por sílaba. A atmosfera pesada reinante só se desfazia quando, entre risos e pedidos de desculpas, surgia a explicação acerca dos inacreditáveis dons de memorização do “inoportuno” aparteante.

Nunca me esqueci do nome desse cidadão, tão vigorosa a impressão que deixou registrada, de suas habilidades incomuns, no espírito dos que testemunharam essas proezas nas diversas vezes em que se apresentou no “Salão Grená”: Eurícledes Formiga. Os anos se amontoaram, nada mais ouvi contar, adiante, a seu respeito. Até que, algum dia, um conhecido falou-me da existência em Belo Horizonte de um centro espírita que traz esse nome como patrono. Imaginei naturalmente tratar-se da mesma pessoa. Mas, tanto quanto me recorde, naqueles tempos, a fantástica condição de produzir “reprografia cerebral” de Euricledes, reconhecida como inexplicável e extraordinário fenômeno, não se achava vinculada a nenhuma atividade de cunho religioso.

Comentei o fato com um grande amigo e dele colhi, a respeito do Euricledes Formiga, um sugestivo depoimento, que prometo reproduzir na sequência.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


Convite - II ENCONTRO CULTURAL DA AML






sexta-feira, 20 de julho de 2012

II Encontro Cultural da AML





A descoberta do “bóson de Higgs”

Cesar Vanucci “

“Superamos uma etapa em nossa compreensão da Natureza.”
(Cientista Rolf Heur, diretor-geral do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares)

Os intensos rumores dos últimos meses em torno de uma descoberta cientifica extraordinária no campo da física quântica parecem haver se confirmado. Cientistas vinculados aos programas do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares admitiram a existência de uma nova partícula subatômica, descrita como sendo o chamado “bóson de Higgs”, também conhecido como a “Partícula de Deus”, elemento que ajudaria a explicar o que dá tamanho e forma a toda a matéria existente no Universo.

As imagens que percorreram o mundo, à hora da revelação em Genebra, para platéia constituída dos mais renomados cientistas do mundo, acerca do “bóson de Higgs”, deram a medida exata da magnitude da descoberta. Pelos aplausos entusiásticos e semblantes emocionados dos físicos ficou muito bem evidenciado que uma barreira transcendente no campo das pesquisas acabara de ser magistralmente transposta. O clima de exultação à volta do britânico Peter Higgs, cientista de 83 anos que, desde 1964, postula por dedução a existência da célebre partícula que leva seu nome, dimensionou também o significado histórico da divulgação feita. “Superamos uma nova etapa em nossa compreensão da Natureza. Esta partícula permitirá descobrir outros mistérios de nosso universo”, asseverou, eufórico, o cientista Rolf Heuer, diretor-geral da instituição (CEPN) em que se acha instalado o “grande colisor de hádrons” (LHC), o maior acelerador de partículas do mundo, onde foram desenvolvidas as pesquisas.

Arrisco, ancorado apenasmente na intuição, bastante consciente do elevado grau de meu analfabetismo cientifico, um singelo palpite: a descoberta, por mais avançada que tenha sido, não deverá representar, ao contrário do que muita gente tem sustentado, resposta definitiva para questões verdadeiramente essenciais da aventura humana. Em meu modesto entendimento das coisas, o atual estágio espiritual da humanidade não oferece condições para que a ciência, ou qualquer outro valioso instrumento nascido da inteligência humana, consiga decifrar por completo, de forma convincente, a charada da existência. Isso vai ter que ficar pra mais adiante.  Bem mais adiante nessa extensa caminhada humana, tão pontilhada de situações inexplicáveis. O “bóson de Higgs”, independentemente das extraordinárias faculdades que lhe sejam atribuídas, mesmo que os sábios o apontem como elemento-chave da estrutura fundamental da matéria, passará a ser enxergado, dentro em breve, em sua real proporção. Noutras palavras, como uma nova, importantíssima e promissora vereda no complexo esquema de identificação dos elementos componentes das chamadas partículas elementais. Assim como já aconteceu no passado com o átomo. A expressão “Partícula de Deus”, com que resolveram açodadamente batizá-lo, acabará sendo vista como um exagero colossal na descrição de suas singulares propriedades.



Tonico porteiro

“Como se arranjaria o Tonico, porteiro do prédio,
em circunstâncias parecidas?”
(Pergunta da filha mais nova do personagem da historinha)


A crise de tosse convulsiva, produzindo desconforto no corpo todo e acúleos fortes na musculatura abdominal, acordou de madrugada a casa inteira. Como não fosse possível debelá-la na base do xarope caseiro, ele tomou a decisão, com a mulher e os filhos, de deslocar-se até uma clínica de emergência. Pediu pelo telefone um carro de praça, juntou às pressas, por precaução, algumas peças de vestuário e utensílios de higiene pessoal e partiu rumo ao posto de atendimento contatado pelo telefone, em busca do médico indicado no guia do plano de saúde. Tossindo, espirrando, assoando o nariz e escarrando sem parar, apresentou-se no plantão da clínica. Forneceu as informações cadastrais solicitadas pelo sonolento plantonista, preencheu ficha, assinou autorização de consulta e ficou a aguardar, na sala de estar, ao lado de outros pacientes, o momento da chamada de seu nome. Já no consultório, depois de uns bons minutos de espera, descreveu para o médico seus incômodos presentes e passados para as anotações de praxe, no prontuário.

Foi submetido, na sequência, a exames introdutórios, envolvendo tomada de pressão, auscultação do peito, avaliação das condições da respiração, introdução de instrumentos no nariz, ouvido, garganta, por aí. Em outra sala, tirou chapas radiográficas em diversas posições. No desfecho dos procedimentos clínicos, o médico desfez, para seu alívio, a hipótese de uma enfermidade carecedora de atenções mais severas. Diagnosticou o incômodo como uma sinusite rebelde, mas passageira, prescrevendo uma pá de medicamentos.

Nosso paciente, voltando a enfrentar a noite fria e garoenta, tornou de novo um carro de praça, rodou alguns quarteirões até localizar uma drogaria de plantão. Deparou-se, na aquisição dos remédios, com situação extremamente desconfortável, pra lá de surpreendente. O atendimento no plantão de emergência noturna da drogaria, pertencente a uma rede poderosa, é feito na calçada fronteiriça à porta de entrada do estabelecimento. O farmacêutico, ou o vendedor, do lado de dentro, ouve, anota, cobra e entrega a mercadoria. O freguês permanece do lado de fora, ao relento. No caso em foco, nosso personagem permaneceu exposto ao vento gélido de uma das madrugadas em que os termômetros acusaram os índices mais baixos dos últimos tempos.

Mas eis que, concluída a operação da compra dos remédios, o paciente retornou ao aconchego do lar dando andamento às medidas terapêuticas recomendadas. Fez direitinho as contas, na ponta do lápis, constatando haver desembolsado, entre corridas de carro e remédios, o equivalente ao valor de um salário mínimo. Isso sem levar em conta o dispêndio mensal com a manutenção do plano de saúde. Por mera curiosidade, ligou noutra farmácia e constatou, tomado de santa ira, que os medicamentos poderiam ter sido adquiridos a valores menores, caso houvesse feito antes uma tomada de preços.

Todas essas indesejáveis circunstâncias à volta da crise de tosse, em plena madrugada de um domingo friorento, levaram a filha mais nova, estudante de Sociologia na PUC, a fazer uma observação que adicionou às vicissitudes do momento outra dilacerante preocupação :

-   Paiê, escuta aqui. O senhor gastou, relativamente, os tubos pra comprar um tiquinho de tranquilidade. Dispõe de seguro saúde e de dinheiro para transporte e para aviar receita de custos abusivos. Eu fico aqui matutando como é que o Tonico se arranjaria no seu lugar”.
-  “Mas de que Tonico você tá falando, minha filha?”
-  “Uai! Do Tonico porteiro, aqui do prédio. Como é que ele, trabalhador de salário mínimo, se arranjaria, repito, ganhando a mixaria que ganha, não contando com plano saúde, nem dinheiro para transporte e remédio, não sabendo a quem se dirigir, caso, de repente, se visse acometido do mesmo incômodo que tirou o senhor e nós todos da cama, nesta madrugada de domingo?”

Menos por causa da tosse, da extorsão na compra de remédios, dos incômodos todos, mas mais, muito mais, por culpa da indagação da filha, o personagem da historinha aqui narrada não teve como, jeito maneira, o resto da noite, retomar o sono.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Quebrando jejum

Cesar Vanucci *

“Muitas novelas da nossa televisão são reveladoras de uma
efervescência artística que enaltece a inteligência criativa do brasileiro.”
(Antônio Luiz da Costa)

Havia jurado de pés juntos, algum tempo atrás, não mais acompanhar um capítulo que fosse de qualquer novela. Tudo por conta das estripulias jurídicas encaixadas no enredo daquele seriado em que a excepcional atriz Fernanda Montenegro viveu o papel de mãe do excelente ator Tony Ramos.
A facilidade com que, valendo-se de artimanhas que não lograriam ludibriar na vida real nem mesmo um garoto de pré-primário, os vilões protagonizados pelos bons atores Reinaldo Gianechini e Mariana Ximenes se apoderaram do controle de gigantesco complexo industrial, passando pra traz os donos do negócio e seu experiente corpo de advogados deixou-me, mais do que atônito, injuriado. Façam-me o favor. Sei perfeitamente, como qualquer outra pessoa, que as tramas folhetinescas nutrem-se naturalmente de uma alentada dose de fantasia. Mas até pra isso, vamos e venhamos, há que se estabelecer um limite, nascido do bom senso, que não pode assim, sem mais, nem menos, como ocorreu no caso em tela, ser estridentemente ultrapassado.
Posteriormente, amigos que viram e apreciaram muito a minissérie “Rei David” incentivaram-me a retroceder na “inabalável” decisão de não mais assistir novela. Prometi ver e opinar, mas acabei não o fazendo, apesar das referencias positivas recolhidas a respeito do trabalho de qualidade ascendente do núcleo de dramaturgia da Record.
Mas agora, tocado, sobretudo, pela lembrança das inesquecíveis imagens da “Gabriela” exibida anos atrás, que trazia no elenco, entre outros, Sonia Braga, Armando Bogus e Paulo Gracindo, resolvi botar termo ao jejum de noveleiro e encarar os primeiros capítulos do novo seriado com o mesmo título e tema do saboroso romance do genial Jorge Amado. Confesso, em honesta manifestação, que gostei do que vi. Supunha que a tarefa de reviver a contento os personagens de Gabriela, do turco Nacib e do coronel Ramiro, da primeira novela, pudesse representar proeza não apenas difícil, mas impossível. Constatei que, todavia, a tarefa confiada a Juliana Paz, Humberto Martins e Antonio Fagundes vem sendo executada com esmero e brilho. E isso sem mencionar a boa performance do restante do time de atores e atrizes. A fotografia merece um registro à parte. É simplesmente deslumbrante. Tudo faz crer, à vista do exposto, que essa segunda versão de “Gabriela” se manterá no mesmo patamar da primeira. Ou seja, uma produção requintada, brasileiríssima na concepção e execução, amostra eloquente a mais do excepcional poder criativo de nossa dramaturgia televisiva. Uma dramaturgia que vem alcançando, com contribuição valiosa da Rede Globo, níveis de superações surpreendentes, como ficou patenteado, entre outros momentos, no desempenho do saudoso Armando Bogus no papel do turco Nacib, inquestionavelmente superior ao do famoso Marcelo Mastroiani no filme baseado na mesma trama.

Uma dica para os telespectadores: está valendo a pena sintonizar a “TV Universitária”, graças à esplêndida programação cultural que vem colocando no ar, notadamente em função das produções da TV Sesc. Dia desses, deleitei-me, de modo especial, com um grupo de dança contemporânea de São Paulo e suas arrebatantes coreografias baseadas no repertório da “bossa nova”, e, na seqüência, com um outro espetáculo musical conduzido por Artur Verocay, compositor e arranjador do primeiro time. Verocay reuniu, em apresentações inesquecíveis, entre outros craques, Nivaldo Ornellas, Danilo Caymi e Célia.


Eta, mundo velho de guerra!

“Não se deve julgar Deus por este mundo,
pois é um esboço dele que não deu certo.”
(Van Gogh)

Este mundo velho de guerra sem porteira, em seu frenético giro pelas vastidões cósmicas repletas de inexplicabilidades, continua a expor, dramaticamente, os contrassensos, as emoções sofridas, as reações amalucadas, os despropósitos das multidões que o povoam.

Pra onde quer que o olhar se volte tem algo desconcertante pintando no pedaço. Nos convulsionados territórios do Oriente, onde prevalece sempre uma confusão das arábias, nem se fala! No Iraque, sabidamente “democratizado” e “pacificado” pelas forças de ocupação da coalizão anglo-americana, os carros-bomba explodem todos os dias em locais de grandes aglomerações, ampliando as estatísticas apavorantes de um morticínio sem data pra acabar.

No Afeganistão, as tropas da OTAN e as milícias talebãs e seus aliados da sinistra “Al Qaeda” confrontam-se em batalhas que preferencialmente escolhem vitimas na indefesa população civil. Nenhum dos contendores sente-se à vontade para proclamar vitória. O domínio de certas zonas urbanas pertence a um dos lados. O controle de imensas áreas de população rarefeita ao adversário. Igualzinho ocorreu, anos atrás, quando os invasores desse país onde judas perdeu as botas foram os russos. O cenário social e econômico, por outro lado, tanto tempo transcorrido desde a invasão, não se alterou um tiquinho que seja. A miséria campeia, os direitos humanos, sobretudo das mulheres, são clamorosamente espezinhados. Já as plantações de papoula, essenciais à produção de heroína que abastece os “mercados” ocidentais, são toleradas quando não incentivadas, representando fonte de renda para os clãs feudais que partilham o poder. E uma pergunta incômoda permanece suspensa permanentemente no ar: quem, afinal de contas, responde pelo suprimento das armas que dão sustentação ao esforço de guerra dos fanáticos guerreiros talebãs? A resposta poderá ser aterrorizante.

Na Líbia, onde o terror imperante nos tempos da ditadura Kadafi foi devidamente substituído pelo terror implantado pelos sucessores de Kadafi, as bandeiras da Al Qaeda tremulam em prédios públicos. E os “parceiros” das diferentes correntes ideológicas encasteladas no governo “democrático” instituído em Trípoli são protagonistas de frequentes escaramuças onde o sangue jorra pra valer.

A tremenda encrenca síria, de motivação tribal, acumula atrocidades inenarráveis produzidas por um regime despótico, de décadas. A reação inflamada contra o que já pode ser visto como uma guerra civil não consegue deter a mortandade. E, para muitos analistas, a retórica das grandes potencias camufla o desejo de deixar as coisas correrem pra ver só como é que ficam, avaliada a variável geopolítica de que a retirada de cena do empedernido ditador Bashar al-Assad possa dar acesso ao poder de grupos mais indigestos, se é possível conceber-se ainda tamanha provação a mais para o povo sírio.

O Egito é bem um exemplo eloquente de recuos deploráveis na marcha para a democracia. Os militares, verdadeiros donos do poder desde os tempos de Mubarak, não parecem dispostos a abrir mão de seus privilégios. Dissolveram o Congresso, atribuíram-se prerrogativas de legislar, julgar e de gerenciar os negócios públicos, tornando quase que decorativa a posição do presidente recentemente eleito. Com a mobilização popular nas praças, reprimida mas ainda demonstrando alguma capacidade de resistência, a situação na terra dos faraós só tende, futuramente, a complicar-se.

Dos demais países alcançados pela hoje declinante onda da “primavera árabe”, a grande mídia ocupa-se pouco. Teme-se estejam ocorrendo nalguns lugares retrocessos funestos. Da Arábia Saudita, reino tão fechado quanto a Coréia do Norte, o que se sabe com certeza é que o autoritarismo feudal imposto aos súditos pela realeza não se mostra realmente disposto a quaisquer concessões na linha do respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana.

E tem, por último, uma revelação incrível, esta chegada do conturbado Oriente Médio, onde as “negociações de paz” permanecem em compasso de espera apesar das resoluções sucessivas da ONU em favor da criação do Estado da Palestina, todas elas, também, sucessivamente desrespeitadas. Sem o alarde que fato tão relevante, face às naturais implicações geopolíticas embutidas, faz por merecer, a Alemanha vendeu seis submarinos nucleares para o Estado de Israel. Três deles já estão em operação e carregam ogivas capazes de varrer qualquer lugar do mapa. O complexo midiático conservou-se mudo e quedo que nem penedo a respeito. As grandes potencias também preferiram o silêncio. Silêncio danado de estridente.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A arte de engolir sapo

Cesar Vanucci *

“Não estou a fim. Estou cascando fora!”
(J.S. Rodrigues da Cunha, saudoso homem público uberabense,
ao reagir a uma proposta política de correligionários)


“Dizem por ai que política é a arte de engolir sapo. Não estou a fim. Estou cascando fora!” Quem me dizia isso, botando desencanto na fala, na varanda de seu palacete, no cair da tarde de uma sexta-feira de agosto no distante ano de 1959, era o saudoso J.S. Rodrigues da Cunha. Ele estava anunciando, em primeiríssima mão para o jovem repórter a intenção de descalçar as chuteiras no futebol da política. Combativo vereador à Câmara de Uberaba, líder da bancada da UDN, partido de penetração reduzida nas faixas populares do eleitorado, o farmacêutico Joanico, como se fazia conhecido na roda dos amigos, havia construído uma bela legenda de vivência cívica e de conduta ética em sua trajetória política.

Convocaram-no, tempos antes, a integrar grupo de trabalho, composto de outros personagens ilustres da comunidade uberabense, Gentil Afonso de Almeida e Argeu do Carmo Russo, com a incumbência de investigar maracutaia de proporções denunciada pelo desassombrado “Correio Católico”, diário com 12 mil assinantes criado pelo inolvidável Arcebispo Alexandre Gonçalves Amaral. Conhecida como “panamá dos terrenos”, a maracutaia configurava “ação entre amigos do rei”, processada no âmbito da administração municipal, que redundou clamorosamente na transferência fraudulenta de vastas glebas urbanas pertencentes ao patrimônio público a espertalhões de alto coturno, garantindo-lhes fortunas apreciáveis.

JS conseguira levar a termo a missão, em quase dois anos de estafante trabalho. Num relatório corajoso expôs, tintim por tintim, toda a tramóia, relacionando os culpados pelo malfeito, vários deles “cidadãos acima de qualquer suspeita”. Agregou com esse posicionamento um registro dignificante a mais em seu reluzente currículo como servidor público. Uma reviravolta inesperada no cenário das composições político-partidárias, naquele período pré-eleitoral, operada na véspera de seu depoimento-desabafo, deixara-o transtornado, impelindo-o à decisão de cascar fora. Os personagens políticos acusados no relatório, até então adversários ferrenhos da UDN, pelos dirigentes desta legenda alvo permanente de ferinas criticas, resolveram de uma hora para outra transferir-se de mala e cuia, como resultado de estranhíssimos arranjos de bastidores, para a corrente partidária de JS. Um senhor despropósito! A cúpula da UDN, mandando às urtigas coerência e ética, estava a exigir-lhe, agora, que botasse um “fim honroso” ao (a esta altura) “malsinado” inquérito. Afinal de contas, os “inimigos inconciliáveis”, tão detestados, estavam sendo acolhidos fraternalmente no seio udenista como “companheiros de infância”. JS não se conteve. Disse poucas e boas aos correligionários que o procuraram em sua casa. Alguns, por sinal, parentes próximos. Na sequência, renunciou à atividade partidária. Dominado por compreensível indignação, temeroso quanto à possibilidade de as conclusões do inquérito permanecerem pra sempre ocultas, tomou a corajosa deliberação de entregar cópia do relatório ao deputado Mário Palmério, do PTB. O parlamentar levou pros comícios os pormenores do escândalo, tornando o candente assunto o mote de uma campanha sucessória memorável. Com o estrondoso apoio dos eleitores, fez como se costumava dizer em tempos de outrora “barba, cabelo e bigode”, ao conquistar na eleição todos os cargos relevantes em jogo. O “panamá dos terrenos” ficou conhecido da população em consequência desse expediente e das divulgações do “Correio Católico”. Mas, verdade seja dita, os ilícitos cometidos jamais, em tempo algum, foram devidamente examinados nas esferas competentes. Aos seus autores restou a confortável certeza de que, naquele episódio trevoso, ao contrário do que proclama famoso adágio, o crime realmente compensou.

Estou retirando dos escaninhos da memória este episódio, relembrando reverentemente a figura impoluta de JS, para sublinhar algo momentoso e especial. Observador atento das tricas e futricas da vida pública, cansei-me de ver que, realmente, em não poucas ocasiões, a política - que é, na essência, a mais nobre das artes - costuma mesmo influenciar pessoas, apostando pesado em suas fragilidades e incoerências, para que engulam sapos. Como, agora, vem de acontecer, lamentavelmente, com Lula, no instante em que nosso mais festejado líder político assume a questionável atitude de selar entendimento, em troca de alguns minutos de televisão, com o notório Paulo Salim Maluf. Estou calvo de saber que se ele, Lula, não o fizesse, seus adversários em São Paulo iriam substituí-lo, sem vacilações, nesse mesmíssimo desconfortável acerto partidário. Sei ainda que a crônica política está abarrotada de histórias parecidas, igualmente deploráveis, envolvendo figuras de realce de diferentes correntes políticas. Mas, sinceramente, acho que teria pegado bem melhor pra Lula, caso houvesse se comportado, nesse lance, como o Joanico se comportou no episódio lá de Uberaba, recusando-se altivamente a engolir o sapo trazido na bandeja pelos correligionários.



Conchavos ao rés do chão

“Os conchavos em troca de tempo no horário eleitoral precisam ser revistos.”
(Marco Antônio Carvalho, da Fundação Getulio Vargas)

O aperto de mão de Lula e Maluf permaneceu por mais tempo sob os holofotes da mídia, mas não pode ser enxergado, de maneira alguma, como amostra isolada de pactos políticos desconcertantes – pra se rotular, obviamente, de forma bastante benévola os fatos -, envolvendo figuras políticas de proa no contexto pré-eleitoral. Para tudo quanto é canto que se voltem os olhares, observadores dão-se conta de alianças tidas como impossíveis, celebradas em clima artificial de euforia cívica, reunindo adversários figadais de campanhas passadas.

Nesse verdadeiro vale-tudo por adesões, um bocado de próceres políticos e candidatos chutam pra escanteio, descerimoniosamente, valores éticos e coerência ideológica. E, na sequência, transformam em aliados incondicionais adversários separados por divergências que se supunham insanáveis. Tudo isso em prol da construção de um processo de chegada a qualquer preço ao poder. Tudo, também, naturalmente, dentro do propósito de servir com acendrado espírito público às mais nobres causas da coletividade, salve, salve...

Os arranjos esdrúxulos de bastidores enxameiam o noticiário. Em São Paulo, adeptos da candidatura Haddad venceram o páreo disputado no olho eletrônico com adeptos da candidatura Serra pelo discutível apoio de Paulo Salim Maluf, cidadão procurado pela Interpol. Na capital paulista, ainda, Alfredo Nascimento, do PR, defenestrado do Ministério dos Transportes no Governo Dilma por motivos sobejamente conhecidos, foi recebido como parceiro, com pompas e galas, pelo concorrente tucano à Prefeitura. Levou consigo o companheiro Waldemar Costa Neto, acusado em processos do “colarinho branco”, articulador festejado, por sinal, da aproximação do PR com o PSDB. A respeito desses novos companheiros de ideais, o senador Aloysio Nunes, do PSDB, criticando a permanência do PR no Governo Federal, disparava indaoutrodia o seguinte: “Mudam as moscas, o fedor é o mesmo”. Repetia, com outras palavras, o que outros líderes tucanos, registraram a respeito dos antigos desafetos, agora companheiros de jornada. “É como matar os ratos da casa, mas não dedetizá-la” (deputado Fernando Francischini”, ou “junto com o afastamento de Alfredo Nascimento tem que haver punição” (Sergio Guerra, presidente do PSDB).

São reações que relembram a troca de acusações recíprocas, tempos atrás, entre Lula (“O símbolo da pouca-vergonha nacional está dizendo que quer ser presidente”) e Maluf (“Quem votar em Lula vai cometer suicídio administrativo”).

Enquanto isso, no Rio de Janeiro a surpreendente aproximação de antigos inimigos permitirá a subida no mesmo palanque do ex-prefeito César Maia, do DEM, e do ex-governador Anthony Garotinho, do PR. A aliança selada entre os dois, que já travaram acalorados embates pontilhados de acusações de corrupção, assegura sustentação às candidaturas de seus filhos a Prefeito e a vice-Prefeito.

Deslocado o foco para outras paragens, temos o caso de Gustavo Fruet. Quando pertencia às hostes tucanas, de onde bandeou para o PDT, destacou-se no Congresso pela crítica contundente a Lula e seu partido. Tendo resolvido concorrer a Prefeito de Curitiba, conta com a decisiva colaboração pra chegar lá, adivinhem só de qual partido? Exatamente, o PT. Escusado dizer que sua opinião a respeito dos antigos adversários passou por radical alteração. Antes, cobras e lagartos. Agora, louvações no capricho.

Duas outras figuras emblemáticas que também resolveram, de modo “pragmático”, como se diz por ai, rever os conceitos desairosos que permutavam, em nome dos interesses superiores da comunidade, são os alagoanos Fernando Collor (PTB), ex-presidente que se notabilizou, entre outros feitos, pelo confisco de poupança de viúva, e Ronaldo Lessa (PDT), ex-governador. Os raivosos entrechoques de outrora foram “elegantemente” deletados, na junção das forças que comandam, ora empenhadas na conquista da Prefeitura de Maceió.

Esses exemplos – amostra mínima do que rola por ai – de conchavos estranhos, ao rés do chão, indigestos pelo seu caráter fisiológico, clamam pela urgência de uma reforma política nos devidos trinques. Uma reforma que, entre outras coisas, limite o número de agremiações, elimine siglas de aluguel e obrigue as correntes políticas a nutrirem de conteúdo sua mensagem ideológica e suas propostas de trabalho.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...