sábado, 29 de agosto de 2015

Relembrando a tragédia nuclear

                                                 
Cesar Vanucci

“Meu Deus! O que foi que nós fizemos!"
(Robert Lewis, copiloto da fortaleza voadora
 que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima)

O mundo relembra, agora em agosto, o apavorante episódio que, há 70 anos, fez de Hiroshima e Nagasaki cidades-símbolos do holocausto. Os artefatos nucleares despejados sobre os dois populosos centros urbanos mataram quase 250 mil pessoas de uma só vez. Outras centenas de milhares ficaram para sempre contaminadas pela mortífera radiação. Só entre agosto e dezembro de 1945 foram registradas 140 mil mortes provocadas pelas reverberações das bombas.

A colossal tragédia tem sido, ao longo dos tempos, analisada em livros, reportagens, tribunas, atos cívicos, exposições, por historiadores, dirigentes políticos, militares, educadores, cientistas, gente do povo, pessoas que apertaram o fatídico botão naquela manhã de agosto de 1945 e, também, como não poderia deixar de ser, pelas vítimas sobreviventes.

São relembranças que carregam no bojo uma profusão de versões. Há a versão dos vencidos e a versão dos vencedores. A versão dos estrategistas. A de cientistas, que se ocupam com entusiasmo dos avanços tecnológicos da física e do ingresso da humanidade na enigmática era nuclear. E a dos humanistas, preocupados com os enfoques demasiadamente técnicos da questão. Existem, ainda, versões militar, jurídica, ética e moral. Todas escoradas numa superabundância de argumentos solidamente plantados nas mentes de seus porta-vozes.

Alega-se de um lado que, se os Estados Unidos não tivessem optado pela bomba, a invasão do Japão teria custado o sacrifício de 500 mil vidas americanas. Reforça-se a alegação com o argumento de que havia uma nova arma para ser empregada e que o país chegou primeiro que os adversários na disputa pelo domínio nuclear. Em contraposição, afiança-se que a estimativa de baixas na provável invasão foi ardilosamente exagerada, de modo a provocar comoção e justificar o lançamento da carga explosiva que encurtou o conflito. Os Estados Unidos bem que poderiam ter promovido, com a presença de observadores neutros e de representantes nipônicos, uma demonstração prévia do poder catastrófico da arma. O ato valeria como um ultimato e ao adversário, comprovadamente fragilizado àquela altura, não restaria outra alternativa que não a capitulação.

No extenso capítulo da condenação à atitude dos vencedores sustenta-se ainda que a bomba foi lançada menos com o intuito de levar o Japão à rendição e mais com o sentido de protocolar um recado claro e explícito à União Soviética. Uma espécie de carta de apresentação, com currículo e referências à mostra, para o pós-guerra. Para a desgastante “guerra fria” que se estendeu, com muito sofrimento e crescente angústia, sobretudo depois que a Rússia passou também a integrar o “clube atômico”, até a perestroika, a glasnot, a derrubada do famigerado “muro de Berlim” e o consequente desmoronamento da estrutura comunista. Os anos de chumbo da “guerra fria” foram marcados, todos sabem, pela ampliação do clube atômico, que absorveu como novos associados não apenas, como já mencionado, a antiga União Soviética, mas ainda a Inglaterra, a França, a China, a Índia, o Paquistão, o Israel, a Coréia do Norte e sabe-se lá mais quem... Só que os arsenais montados fizeram dos modelos disparados contra os alvos japoneses meras peças de museu.

Um outro argumento contestatório à posição estadunidense está contido na seguinte indagação: por que o repeteco, dias depois de Hiroshima, da bomba de Nagasaki? Uma única bomba não teria sido suficiente para dobrar a arrogância do Império do Sol Nascente?

Nesta hora em que afloram relembranças do histórico acontecimento, não há como esquecer a atuação dos cientistas engajados no projeto concebido em Los Alamos. Receosos de que Hitler chegasse primeiro à construção da bomba - já que vários deles haviam dado os primeiros passos nesse sentido à época em que colaboraram com o esforço de guerra nazista -, eles fizeram um apelo a Roosevelt para que apressasse as pesquisas. Depois dos eventos de Hiroshima e Nagasaki muitos deles, caso de Robert Oppenheimer, propuseram a abolição das armas atômicas, pagando um preço elevado pela ousadia. A questão já havia escapulido ao seu controle.




Haja ogiva nuclear!

    
Cesar Vanucci                                                                         

“Bella matribus detestata – As guerras detestadas pelas mães"
 (Horácio, 658 a-C)

O estoque das armas de destruição em massa é cada dia mais volumoso. O tal acordo de não proliferação de armas nucleares só vale de verdade para os países que ainda não as possuem. Os integrantes do fechadíssimo “clube atômico” monitoram com rigor policialesco as ações dos demais países, procurando dificultar-lhes até mesmo a aquisição de conhecimentos relacionados com o emprego pacífico da energia nuclear para fins de desenvolvimento econômico e social. O Brasil que o diga.
Atribuem, por antecipação, a responsabilidade por suposta tragédia nuclear futura a terceiros, não detentores da mortífera tecnologia, “esquecidos” de que na única vez na história humana em que bombas atômicas caíram sobre populações civis, destruindo cidades e matando centenas de milhares de pessoas, a iniciativa de lançá-las foi tomada justamente por um dos membros do “clube”, que por sinal, tal como seus ilustres parceiros, continuou a armazenar febrilmente novos e mais arrasadores artefatos. Estimativas recentes acusam que os integrantes do fechadíssimo  “clube atômico”, nove países, mantêm estocadas  apenasmente 15 mil ogivas nucleares. Estes os números atribuídos a cada um deles: Rússia, 7.5 mil ogivas; EUA, 7.2 mil; França, 300; China, 250; Inglaterra, 215; Paquistão, 120; Índia, 110; Israel, 80; Coréia do Norte, 10. Como se vê, quantidade mais que suficiente para devastar não apenas o planeta, mas toda a Via Láctea, minha Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja!

Por outro lado, analistas em estratégias militares garantem que existem, hoje, em poder dessas mesmas potências, artefatos químicos tão eficazes quanto as armas atômicas, para “garantir”, se for da vontade dos “senhores das guerras”, o extermínio de qualquer vestígio de vida sobre a superfície planetária. Uma ligeira amostra dos danos de que essa parafernália bélica é capaz de provocar foi dada – oportuno recordar - nos conflitos do Vietnã e Golfo Pérsico (mais recentemente na guerra civil síria) e na guerra Irã-Iraque. Aquela mesmo em que o finado ditador Saddan Hussein pôde contar com copioso fornecimento de armas e sólido apoio logístico de seus antigos aliados e futuros arqui-inimigos estadunidenses.

A bomba de hidrogênio, mais devastadora do que a atômica, ainda não foi testada em campo de batalha. Existe em quantidade suficiente para também acabar com o mundo várias vezes. São coisas assim que fazem com que os guerreiros vocacionados se imaginem sempre, em sua paranoia destrutiva, próximos do Armagedon. Farejar o Armagedon é postura natural para os espíritos deformados que fazem das guerras um grande negócio. Não sei se alguém, dentre os eventuais leitores destas linhas, se recorda de um estapafúrdio lance mostrado anos atrás nos jornais televisivos, quando do conflito Irã-Iraque. Um empresário paulista, cheio de empáfia, fornecedor de equipamentos bélicos a um dos litigantes, envergando uniforme de campanha iraquiano, aprestou-se desajeitadamente, diante das câmeras de televisão, a fazer o papel de improvisado “comentarista de guerra”. Empunhando uma vareta sobre imenso mapa, vangloriou-se da eficácia mortífera dos instrumentos produzidos em suas fábricas. O homem babava de contentamento, em delirante fantasia, com as revelações sobre os tremendos estragos que “suas” armas estavam em condições de provocar. Sentia-se um pouco dono do mundo. Uma cena arrepiante, essa proporcionada pelo mercador de armas. A história mostra que tem gente poderosa espalhada por esse mundo de Deus, onde o diabo costuma plantar enclaves, raciocinando e agindo nos mesmos moldes do babaca supracitado. Nem todos talvez possuídos da ânsia tresloucada de exibir via televisiva seus pendores belicistas e primitivismo intelectual. Gente de altíssima periculosidade. Sempre de prontidão para atear fogo em tudo.

Hiroshima e Nagasaki, alvos civis atingidos em cheio em agosto de 1945 pela insanidade bélica, legaram-nos uma mensagem. Mensagem contra todas as guerras. Não só contra a guerra atômica. Um clamor pela paz, originário dos recantos mais generosos da alma, em todas as latitudes. Bem apreendido, pode levar o ser humano a refletir melhor sobre suas origens e destino. Permite-lhe até sonhar com aquele instante ideal na aventura terrena em que toda a dinheirama gasta para produzir morte possa vir a ser aplicada na celebração da vida. Em favor de pesquisas e ações que elevem os padrões do bem-estar, promovam a cura de doenças e a erradicação da miséria. São estas, aliás, as guerras que carecem, na verdade, ser combatidas com supremo ardor por todos.

Palavra de Hiroshima e Nagasaki!




Relembrando a segunda guerra


Cesar Vanucci

“Nunca houve guerra boa, nem paz ruim.”
(Benjamim Franklin)

Como o tempo voa! Cidadãos do mundo em todas as partes relembram, nos dias que correm, os 70 anos já transcorridos do desfecho da segunda guerra mundial. Evocações de toda sorte, abrangendo versões as mais variadas, são recolocadas como informações históricas e como temas palpitantes ajustados a reflexões e debates.

Todos somos levados a comentar alguma coisa a respeito da carnificina que devastou meio mundo e produziu a aterrorizante estatística de 52 milhões de túmulos. Mais da metade das baixas humanas ocorreu nas nevadas estepes russas. As tropas alemãs concentraram ali seu maior poderio de fogo. A heroica resistência da população, em circunstâncias extremas de sacrifício, estabeleceu naquela frente de batalha um dos suportes fundamentais para a reviravolta operada nos rumos do conflito. O estupendo esforço bélico dos Estados Unidos, a partir, sobretudo, do traiçoeiro ataque nipônico a Pearl Harbour, foi outro fator de influência decisiva na alteração do destino da guerra. Por conta dessas e de outras contribuições da comunidade das nações à causa antinazista, a humanidade conseguiu impedir que a sinistra marca da suástica se estendesse, como se chegou a temer em certo momento das hostilidades, a todos os continentes.

A guerra deixou também gravado na memória coletiva símbolo da perversidade suprema, da ferocidade máxima, do ódio elevado a culminâncias paroxísticas. Um símbolo conhecido por Adolf Hitler. Ninguém, em toda a vasta trajetória humana, conseguiu espalhar, por tantos lugares, ao mesmo tempo, tantos malefícios acumulados. Suas ideias de expansionismo com inspirações racistas, encontrando desafortunadamente acolhida em amplas parcelas das sociedades alemã e austríaca de então, geraram o holocausto. Por não serem enfrentadas com o devido vigor por lideranças mundiais influentes, à época da ascensão nazista ao centro do poder político germânico, arrastaram o mundo ao monstruoso confronto.

Nas relembranças dos setenta anos do fim da guerra estão sendo feitas leituras novas e releituras de histórias que focalizam figuras e episódios relevantes ligados às experiências sofridas daquela quadra da existência humana. Fala-se muito de Hitler e parceiros. Fala-se, também, dos homens responsáveis pela valorosa coligação aliada que pôs fim ao desvario das forças do Eixo. Entre eles, Roosevelt, Churchill, De Gaule, Stalin.

Em buscas que efetuei, compulsando material copioso, não consegui (ainda) descobrir respostas convincentes para alguns quesitos acerca de fatos intrigantes relacionados com a segunda guerra. Ao citá-los aqui, hoje, coloco-me na expectativa de que algum leitor, com maiores conhecimentos sobre o assunto, possa prestar-me ajuda. O primeiro item diz respeito ao pacto Hitler-Stalin. Por que foi feito e por que foi repentinamente desfeito? Quais circunstâncias impeliram a Alemanha a desviar-se de seu propósito de invadir a Inglaterra, na fase dos bombardeios maciços contra Londres, com a metade da Europa já ocupada, e partir para a abertura da frente de batalha no terreno dos antigos aliados, os russos? Qual a razão dos historiadores não se aprofundarem nas revelações, de Jacques Bergier e Louis Pauwells, pertinentes à presença de milhares de combatentes tibetanos, envergando uniformes alemães, nos últimos redutos de defesa da cidadela de Hitler? Isso teria a ver com a suposição de que nazistas proeminentes fizessem parte de uma sociedade esotérica denominada Thule, com origens antiquíssimas em Lhasa? Por quais motivos os “criminosos de guerra” japoneses, tão cruéis quanto os alemães, não tiveram julgamento em moldes semelhantes aos dos dirigentes nazistas? Cientistas e diplomatas de países neutros propuseram ao governo dos Estados Unidos que convocasse líderes militares japoneses, colocando-os a par do poder destrutivo da bomba atômica, antes de lançá-la sobre alvos  civis em Hiroshima e Nagazaki. Truman não aceitou essa sugestão como meio de se chegar à rendição japonesa. Por quê?





sexta-feira, 21 de agosto de 2015



Jogo do faz-de-conta

Cesar Vanucci

“A falta de turismo é a ruína
mais antiga dos países jovens”
Sofocleto (1926)

Relendo comentário publicado há um bocado de tempo sobre a “proibição do jogo”, dei-me conta de sua palpitante atualidade, o que me induz a aqui reproduzi-lo.

Parece que o cara era dinamarquês. Representava poderoso grupo turístico europeu interessado em estender até nossos pagos suas atividades. Tudo apontava nesta direção. Nos estudos feitos, o Brasil despontava como local ideal para expansão de negócios na esfera de lazer. As infraestruturas montadas, as inigualáveis potencialidades para práticas de diversão saudável, a exuberância da natureza, avessa às catástrofes inesperadas nascidas da fúria dos elementos, tudo isso estava sendo levado em conta.

O “país do futuro”, no anúncio batismal de Stefan Zweig, se credenciara na avaliação dos especialistas como endereço perfeito para arrojados programas relativos à “indústria do futuro”, conforme o batismo dado, de outro lado, ao turismo por John Naisbitt. O contato visual com a realidade só fez robustecer no espírito do nosso personagem a viabilidade do projeto. O que à distância parecia bastante promissor, próximo se convertia em possibilidade estupenda. O que o simpático gringo não conseguiu assimilar bem foi a explicação de que não se podia cogitar da vinculação do jogo aos projetos, de vez que no Brasil a proibição do jogo é “uma questão fechada”. Tentou argumentar com o fato de que no resto do mundo o procedimento é diferente. O jogo em tudo quanto é canto do planeta é indissociável da atividade turística. Não no Brasil, redarguiram. O jogo nestas paragens é proibido e está acabado...

Mas o homem, virando e mexendo aqui e ali, perdidinho da silva, aturdido com as cenas projetadas diante do olhar inquiridor, encontrando dificuldade para desenvolver raciocínio coerente danou a tropeçar, no dia-a-dia do povo, com circunstâncias inusitadas e surpreendentes. O que contemplava não batia nadica de nada com o que lhe diziam. No país do “jogo proibido” funcionava, sim, senhor, uma descomunal casa de tavolagem.

Ali estavam, escancaradas, as mil e uma modalidades de apostas das casas lotéricas, os bingos; as rifas e os sorteios; o engenhoso “jogo do bicho”, ostensivo que nem umbigo de vedete de teatro rebolado; as mesas de carteado espalhadas pelos clubes; os cassinos, não tão clandestinos assim, operando desembaraçadamente em inúmeras regiões. De espanto em espanto, o cidadão chegou à conclusão de que a situação era de um surrealismo único, difícil, senão impossível, de ser explicada a representantes de outras culturas.


Tudo, nesse desconcertante capítulo revelador da inconsistência humana, não passava de um colossal faz-de-conta. A lei proibitiva, concluiu, já incorporando aí o linguajar da terra, não havia “pegado”. As autoridades encarregadas da fiscalização fazem-de-conta que a proibição é pra valer. O homem comum faz-de-conta que as apostas diárias, arrebatando alguns trocados da algibeira, pertencem a outro departamento, nada tendo a ver com a “jogatina de azar”, matéria sabidamente proibida. Figuras respeitáveis reagem sempre melindradas às provocações frequentes dos prefeitos de cidades providas de atrações turísticas quando trazem a debate o incômodo tema da reabertura dos cassinos. “Então, essa gente não aprende que o jogo entre nós é proibido?”. E o faz-de-conta vai sendo acrescido constantemente de penduricalhos grotescos, lances verbais de bolor farisaico que deixam as pessoas de bom senso mareadas. “Não há tatu que guente!”, como se dizia em tempos de antigamente.


Jogo proibido, pois sim!

Cesar Vanucci

“Nada mais farisaica do que essa história da proibição do jogo no Brasil.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)


Esse incrível jogo do faz-de-conta sentenciando que o jogo é matéria proibida no Brasil, farisaicamente propagado, conforme acentuamos no artigo anterior, pode servir a muitos interesses. Seguramente, não aos da coletividade. Já foi longe demais da conta.  A jogatina está aí, à vista geral, desafiadoramente postada diante dos que, no uso de legítima prerrogativa democrática, não a apreciam, ou dos que, ao contrário, com ela convivem em clima de deleite.

O enquadramento pessoal deste desajeitado escrita, confesso logo, é no time dos que não se ligam no questionável prazer do mundo das apostas. Uma única mão de canastra é capaz de me deixar mais sonolento do que muitos telespectadores costumam ficar quando assistem por mais de cinco minutos aquelas enfadonhas corridas de carro mostradas na telinha. Meu compromisso com o jogo, essa atividade, ressalte-se outra vez, vetada pela lei, fica limitado a uma que outra tentativa de abiscoitar o prêmio acumulado da mega sena, naqueles dias em que as filas viram quarteirão, porque também tenho direito a sonhar, como temente filho de Deus, uai! Em Katmandu, Nepal, onde o jogo é liberado e se joga muito menos do que por estas bandas, manipulei, sem entusiasmo, em certa ocasião, uma máquina qualquer no cassino do hotel. Dei sorte: embolsei alguns punhados de dólares. Dariam para dez dias de refeições em excelentes restaurantes nepaleses. Não dariam pra um jantar em ambientes chiques nos pontos turísticos mais badalados destas bandas. Dá pra entender porque Katmandu atraia, até recentemente pelo menos, mais turistas do que, por exemplo, o Rio, ou Salvador, por aí....

Mas regressemos ao nosso “faz-de-conta”. Imaginemos, para fins de argumentação, que não exista mesmo jogo no Brasil, patrocinado ou não por organismos oficiais; que o “jogo do bicho” seja coisa do passado; que a sena ainda não foi inventada, que ninguém se interessa por bancar bingo, carteado, assim por diante. Ainda assim, senhores e senhoras, soa inteiramente fora de propósito, econômica e socialmente, não se cogitar da ”abertura do jogo”. Bem avaliados os prós e contras, as vantagens seriam infinitamente maiores do que os inconvenientes. O turismo receberia notável incremento. As atividades à volta da “indústria do lazer” seriam largamente incentivadas. Ganhariam as agências de viagem, a rede hoteleira, as empresas de transporte e de eventos, a construção civil, convocada a criar e ampliar espaços físicos na melhoria do arcabouço turístico, os setores artísticos, incumbidos da organização de espetáculos etc. etc. etc. Conheço um mundão de gente, da mais alta respeitabilidade, bem abonada financeiramente, que carimba a curtos intervalos seus passaportes, nas direções mais variadas, aqui perto e lá longe, para desfrutar dos prazeres de cassinos em conjuntos hoteleiros de altíssimo requinte. Parte dessa dinheirama gasta fora poderia estar movimentando atividades lucrativas por aqui mesmo.

Admitamos, estendendo o raciocínio, que algo negativo pudesse resultar da liberação do jogo vinculado ao turismo. Será que os resultados seriam mais perversos do que as consequências do excesso por consumo do tabaco ou do álcool? Abstêmio e não fumante, nem por isso mostro-me favorável a que se proíba a venda de álcool e cigarro. A decisão correta no caso do jogo é partir para pesada taxação social. Tascar alíquota elevada pra cima. Orientar as pessoas, se e quando necessário, por intermédio de campanhas educativas inteligentes.

Crie-se, como se faz em outros lugares, regulamentação que defina critérios seletivos no acesso ás bancas de aposta alta. Determine-se controle eficaz para que parcela ponderável do dinheiro investido em jogos - o do bicho entre eles - seja efetivamente canalizada para meritórios fins sociais, e não venha a tomar destinação imprópria. Mas abra-se o jogo. Acabe-se, vez por todas, com essa tremenda farsa, que tanto constrangimento e desconforto traz ao caráter nacional.

Voltando à historia contada no primeiro artigo, o jogo não pode constituir charada que brasileiro não consiga explicar e que dinamarquês não consiga decifrar.

 

Noites paulistanas
Luiz Gonzaga Belluzzo *

 (Três garotos negros parados por policiais... E a surpresa dos PMs ao descobrir 

que um deles era poliglota e morava em Estocolmo)


Noite paulistana na Vila Ré. Noite gelada, regada pela garoa. Os primos Ygor, de 16 anos, Cayré, 17, e Yago, 13, saem do fast-food. Entre comentários sobre as vitórias do Palmeiras e brincadeiras, os garotos voltam para casa, a casa da avó, a corintiana Márcia.
No caminho são abordados por uma viatura da Polícia Militar. Brecada brusca, roda direita junto à guia. Portas fechadas ruidosamente. Os coturnos triscando o asfalto. Mãos nos coldres.
Gritos e safanões. “Mãos na parede, pernas abertas!”, berram os policiais. Giram os cassetetes para intimidar os meninos. Em seguida, batem no fígado da rapaziada, enquanto fazem a revista. Não encontram coisa alguma além dos celulares e dos tostões que sobraram dos burgers e batatas fritas.
Começa o interrogatório. Primeiro Cayré, aluno da Fatec, curso profissionalizante de Comércio Exterior. “Aonde vai, moleque?” “Pra casa da minha avó, logo ali, dois quarteirões pra frente.”
“E você, menino?” Yago responde que está na 7ª série.
“Também mora na casa da vovó, hein?” Yago responde com um meneio de cabeça. A voz quase não sai. O meganha insiste. Yago consegue emitir um quase inaudível sim.
Os policiais ainda rodam o cassetete. Chegam nos 16 anos de Ygor. O garoto observa os fardados da altura de 1,90 metro. “E você, grandão, também vai pra casa da vovó?” Ygor responde que sim, em um sotaque de erres e esses carregados. O meganha tem um esgar de estranhamento. Os três “investigados” sintonizaram a sensação de perplexidade da patrulha: um negro com sotaque. Os olhares e os sestros faciais dos policiais denunciavam febris imaginações. Tratar-se-ia de um haitiano, um desses negros imigrantes que roubam os empregos dos brasileiros, ou talvez um africano trapaceiro? Ainda, pior, um crioulo venezuelano empenhado em preparar a revolução bolivariana?
Ygor percebe os desencontros que atormentavam o cérebro do fardado, moreno escuro. Rapidamente, completa: “Eu ‘morro’ em Estocolmo”.
A desconfiança se converte à surpresa. “Estocolmo?”,  pergunta o mais fortinho e mais simpático dos policiais.
“Estocolmo, na Suécia”, explica Ygor. 
“Você fala inglês?” , atalha o outro, o mais carrancudo. Ygor confessa: “Falo sueco, inglês e espanhol, ‘esjtou’ aprendendo alemão. Quero ‘esjtudarr engenharria e trabalharr’ numa empresa alemã”.
Knock down. Abalroado pelo complexo de vira-lata, o policial apoia a retaguarda na viatura e, num murmúrio, anuncia: “Ah, então, bem, estão liberados”.
Yago, Cayré e Ygor chegam em casa. Contam a história. A avó pergunta a Yago, o menino de 13 anos: Você ficou assustado? “Não, vó. Meu pai já disse que isso sempre acontece com os negros.”

Ygor foi morar na Suécia aos 6 anos. A mãe, Viviane, passista da Nenê de Vila Matilde, trabalhava em um call center em São Paulo. Casou-se com um sueco, médico psiquiatra, hoje funcionário de um hospital em Estocolmo. Há dez anos na Suécia, o menino usufruiu todas as benesses do Estado de Bem-Estar.  Saúde, educação, treinamento esportivo, atendimento psicológico. Adquiriu cidadania sueca. Só vem ao Brasil para visitar a avó e matar as saudades do Verdão, paixões que não abandonou e que não o abandonam. 
Não quer voltar. A trombada policial só confirmou a sensação de não se adequar a uma sociedade hipócrita, violenta e racista. Os policiais que abordaram os meninos dificilmente seriam aceitos como brancos em uma inspeção ariana ou anglo-saxã. Nos anos de chumbo da ditadura, a professora exilada, tez mediterrânea, fazia inscrição em Oxford. A funcionária da universidade inglesa perguntou: “Cor?” A professora respondeu “branca”. Depois de registrar as respostas, a inglesa perguntou: “A senhora se considera realmente branca?”
Os policiais morenos assumem a “branquice” da alma. O “negro de alma branca”, expressão que trai a síndrome de Estocolmo. O submetido entrega-se às simpatias pelo opressor. A intimidação e o espezinhamento seculares  escancaram sua verdade.

Os bem-intencionados, cultos e provavelmente brancos, os de cima, lamentam intelectualmente a exclusão como fenômeno socioeconômico. Mas suas boas intenções não alcançam compreender a dor profunda infligida aos negros brasileiros de carne e osso maltratados no calvário cotidiano da exclusão e da discriminação.
Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital
    (Extraído da "CartaCapital", edição de 29 de julho 2015)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

CONVITE AOS AMIGOS DO

BLOG DOVANUCCI



O futuro é aqui

Cesar Vanucci

“O Brasil permanece o Brasil.”
(Domenico de Masi, sociólogo de renome mundial)

Domenico de Masi, o nome dele. Sociólogo italiano de renome universal, não esconde a paixão pelo Brasil. Manifesta tal sentimento, outra vez mais, num depoimento dado em Roma a Roberto D’Ávila. Abra-se parêntesis para anotar que o competente entrevistador citado sobressai-se, em relação a inúmeros colegas de profissão, pela circunstância de saber conduzir sua tarefa sem importunar o interlocutor, deixando-o à vontade para expressar livremente as ideias. Na entrevista divulgada pela “Globo News”, Masi recoloca a tese sustentada no livro “O futuro chegou – modelos de vida para uma sociedade desorientada”.

E de que tese está mesmo a falar, com convicto fervor, o consagrado pensador? Perpassando, em meticulosa análise estendida por oitocentas páginas pelos sistemas de convivência social que mais acentuadamente marcaram a história nestes dois mil e quinze anos da era cristã, Domenico focaliza quinze modelos socioeconômicos e religiosos testados pela humanidade. Batiza-os com títulos que enfatizam traços peculiares da essência de cada um.

Estes os modelos apontados: 1. O modelo indiano – Humanismo espiritual; 2. O modelo chinês –  Grandeza composta; 3. O modelo japonês – O refinamento do guerreiro; 4. O modelo clássico – Equilíbrio e beleza; 5. O modelo hebraico – O povo de Deus; 6. O modelo católico – A felicidade não é desta terra; 7. O modelo muçulmano – Fé e conquista; 8. O modelo protestante – Graça e rigor; 9. O modelo iluminista – Razão e progresso; 10. O modelo liberal – Mão invisível e sem preconceito; 11. O modelo industrial capitalista – Produzir para consumir; 12. O modelo industrial socialista – Reformismo, cooperação, felicidade: 13. O modelo industrial comunista – Revolução, coletivismo, terror; 14. O modelo pós-industrial – Sociedade programada e virtual; 15. O modelo brasileiro – O futuro chegou.
O estudo discorre sobre virtudes e equívocos dos modelos globais já experimentados, desembocando na conclusão de que o progresso civilizatório só pode ser medido pela qualidade de vida das pessoas.  E que isso só é mesmo alcançado na plenitude com práticas de relacionamento humano ancoradas no ócio criativo, na meditação, no lazer, na contemplação da beleza, na amizade, na solidariedade e na convivência fraternal. O Brasil, por força de estupendas virtudes, entende ele, encaixa-se soberbamente num modelo ideal que a humanidade carece adotar visando a própria sobrevivência. Melhor dizendo, projeta esplendidamente esse modelo nas coisas que faz.

“Não obstante o traço colonizador da Europa e Estados Unidos, o Brasil permanece o Brasil e os aspectos originais e melhores da brasilidade continuam a prevalecer sobre os importados e negativos”, assevera o pensador. Acrescenta que os conceitos expendidos constituem a suma de estudos aprofundados de muitos anos da realidade brasileira. Masi ressalta, a propósito, que o juízo de valores assimilado derivou de valiosa contribuição trazida pela leitura das obras de intelectuais brasileiros, por ele classificados como pensadores de vanguarda no mundo contemporâneo. São citados, entre vários outros, Gilberto Freire, Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Cristovam Buarque, Caio Prado Junior, Fernando Henrique Cardoso. Darcy Ribeiro é aquinhoado pelo sociólogo italiano com especial louvação. Ele assinala que os trabalhos desse mineiro de inteligência fulgurante ajudaram-no a conhecer melhor as entranhas de nosso processo civilizatório a partir do caldeamento racial. Masi reporta-se, ainda, aos estudos de Stefan Zweig sobre a vida brasileira. Esse intelectual austríaco também encantou-se com o país, exaltando-o como “O país do futuro”. A respeito da expressão, Masi registra que, antes de Zweig, o escritor brasileiro Jorge Amado, utilizou-a abundantemente em suas criações literárias.

Domenico de Masi aposta, esperançoso, no modelo brasileiro como saída futura para os desafios de uma sociedade desorientada. Considera, no complexo estudo, que os lances culturais dominantes na vida brasileira situam-nos, entre todos os países do mundo, como o mais preparado para definir novas formas de relacionamento diante dos conflitos pós-industriais. Enaltece a circunstância de que o Brasil “nos cinco séculos de sua história europeizada, exilou seus dois imperadores, substituiu a monarquia pela República, levou ao poder ditadores e os destituiu, sempre recorrendo a grandes movimentos de rua, sem degenerar em guerra civil”. Os argumentos utilizados para fundamentar seu empolgamento com o Brasil contêm poder contaminador mais que suficiente para induzir-nos, todos nós, a promover sinceros esforços no sentido de redescobrir as potencialidades e virtualidades inseridas no dna da Nação.

Mais Domenico de Masi na sequência.


Concepção poética da vida

Cesar Vanucci

“Ninguém teria bombardeado as Torres
Gêmeas se elas estivessem localizadas no Brasil.”
(Domenico de Masi)

Lançar no papel resumo fiel da tese sustentada por Domenico de Masi em “O futuro chegou”, na qual o Brasil é apontado como o lugar onde pontificam os valores humanísticos capazes de assegurarem à sociedade pós-industrial o modelo universal, ecumênico e mestiço ideal para que a espécie humana sobreviva, afigura-se tarefa impossível.

O que dá, sim, pra ser feito é registrar, singelamente, como ligeira amostra do colossal conjunto de argumentos alinhados, algumas sugestivas frases, colhidas ao acaso, indicativas dos pontos essenciais abordados no estudo. São ditos reveladores, todos eles, de que o Brasil, a partir de certo momento, aprendeu “a observar a si próprio produzindo ótimas análises de antropologia e sociologia, de economia e de política”.

Reconhecendo, como cita Gilberto Freyre, que nosso país vive o sincretismo dos opostos, o matrimônio daquilo que é inconciliável à primeira vista, Domenico anota que “a mistura de fatores tão diversos, que em outros contextos resultaria destrutiva”, no caso brasileiro é benéfica. “O conceito de “brasilidade” – aduz – remete imediatamente ao encontro e à relação interpessoal. As relações englobam os indivíduos. O individualismo assume uma acepção negativa. Viver significa ter relações sociais. Saudade significa interrupção infeliz dessas relações.”

O sociólogo fascinado pelo Brasil vai fundo na análise do modo de ser da gente brasileira. Eis o que afiança: “À harmonia do físico, à sensualidade e à saúde acrescentam-se qualidades psicológicas como a amizade, a cordialidade, o senso de hospitalidade, a sociabilidade, a generosidade, o bom humor, a alegria, o otimismo, a espontaneidade, a criatividade. Por isso, a cultura brasileira é amada em todo o mundo: nunca ninguém teria bombardeado as Torres Gêmeas se elas estivessem localizadas no Brasil.”

Pra admitir, mais adiante, coisas assim: “Muitos são os elementos que conseguem amalgamar as diversidades oferecendo ao interior e exterior uma imagem unitária do país.” (...) “A natureza exuberante (...) faz do Brasil um país tropical orgânico.”(...) “No plano social, o papel unificante é desempenhado pela estrutura federativa dos Estados (...), pela língua geral, pelo sincretismo cultural (...), pela sexualidade sem sentimento de culpa (...), pela notável capacidade de reciclagem cultural (...).”

Para o famoso sociólogo o Brasil é um país permanentemente aberto ao novo e às mudanças. Sabe confrontar a realidade com sentimento positivo mesmo nos piores momentos. Ele assevera ainda que o país atravessa um momento mágico, “uma situação única em relação ao seu passado e ao seu futuro.” No momento em que os modelos-mito testados pela humanidade entram em crise profunda, “o gigante latino-americano está sozinho consigo mesmo.” Por ser um país que “antecipa situações que a sociedade industrial tende a globalizar”, por representar “exemplo eloquente” de uma nação que vive em paz com as nações com as quais faz fronteiras, o modelo de vida derivado de seu jeito especial de ser “cultiva uma concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade.” E isso tudo aflora apesar das mazelas sociais amplamente detectadas, como a violência, a escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, a corrupção sistêmica e a carência de infraestrutura.

Domenico proclama que o Brasil oferece ao mundo os ingredientes básicos para a estruturação de uma nova ordem universal, por ser um país que “nunca fez guerra de poder com o resto do mundo.” Acrescenta que “isto lhe confere uma nobreza única e amorosa porque, como diz Lacan, o contrário do amor não é o ódio, mas o poder.”

Por isso, conclui, nosso país está em condições de gerir o modelo inédito de que o mundo tanto precisa.

Os outros e nós

Cesar Vanucci

“Somos um dos povos mais
sensatos e inteligentes do mundo.”
(Alberto Torres)


Diz aí: qual seria mesmo o estado de espírito do caríssimo leitor, como cidadão brasileiro, se se desse conta, de repente, não mais que de repente, que centenas ou até milhares de jovens patrícios, a pretextos variados - desencanto com a vida, frustração social, por exemplo -, todos impregnados de fanatice religiosa, resolvessem pegar o boné e se mandarem para os confins das arábias, alistando-se nas fileiras do chamado Califado do Terror?

Pois bem, cidadãos de numerosos países europeus, sem esquecer de citar outras regiões nas proximidades desses conflitos que estremecem o mundo, defrontam-se presentemente com o atordoante drama do fornecimento em caráter “regular” de mão de obra para as forças armadas jihadistas. Nos cálculos de observadores qualificados, os recrutas de procedência europeia, moças e moços, sem se perder de vista a sugestiva anotação de que também muitos norte-americanos têm se alistado na “Legião estrangeira” em ação na Síria, Líbia e Iraque, já ultrapassam a casa dos 20 mil. Dá pra imaginar a colossal encrenca que tais elementos, ideologicamente intoxicados pelos insanos conceitos de vida de sua grei, estarão em condições potenciais de armar nos próprios territórios de origem, na hipótese de um retorno até mesmo decretado com finalidades perversas pelas lideranças do movimento? Falo disso tudo, naturalmente chocado como ser humano com os rumos extraviados deste mundo do bom Deus, onde o diabo costuma também fincar seus enclaves, para chamar a preciosa atenção dos leitores com relação a um tremendo equívoco laborado por muita gente. Esse pessoal insiste em proclamar, alto e bom som, que os problemas confrontados por nós, brasileiros, em matéria de convivência social, são infinitamente mais graves do que os de outros países. Pois, sim!

O problemão acima apontado, sem falar de inúmeros outros problemas que atormentam a comunidade europeia, deixa claro que as coisas não são bem assim. As situações difíceis por aqui enfrentadas não projetam, na maior parte, o mesmo teor de contundência social irremissível que se nota tantas vezes por lá. Atentar pra isso.


Apesar da desaceleração...
Apesar de haver sofrido queda de um ano para outro (2013-2014), acompanhando por sinal forte tendência mundial, o fluxo de investimentos estrangeiros diretos no país confere-nos ainda, neste justo momento, posição de realce no mapa dos negócios. Isso ajuda a explicar que, malgrado a desaceleração econômica percebida, o Brasil não é visto na programação de negócios dos capitalistas externos como um mercado a ser evitado, ao contrário do que certas análises econômicas sugerem. A Unctad (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) fornece dados que dão suporte à observação acima. Anotem este registro: o total de investimentos diretos no mundo – aquelas aplicações feitas a longo prazo nas economias regionais – despencou em cerca de 16,3 por cento ano passado, movimentando recursos de US$ 1.23 trilhão.

Já o índice da redução concernente ao Brasil foi consideravelmente menor: 2.3 por cento. “Acima apenas 4 por cento do nível da crise mundial de 2008 e 12 por cento abaixo do que foi investido entre 2005 e 2007”, segundo Luis Afonso Lima, dirigente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transacionais e da Globalização Econômica, organização incumbida de divulgar os dados da Unctad entre nós.

Pelo que fica evidenciado, o desempenho brasileiro na captação de  investimentos estrangeiros, bem superior relativamente ao da maior parte dos países elencados, permitiu, então, que no “ranking” das nações que mais recebem recursos externos, saltássemos da sétima para a sexta posição. A queda brasileira – repita-se, de 2.3 por cento no ano passado – foi também acentuadamente menor que a média de 14.4 por cento da América Latina como um todo. Bom sinal.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Convite aos amigos do 

Blog do Vanucci



Achados arqueológicos fantásticos

Cesar Vanucci

“Um motivo de alegria para toda a comunidade cientifica!”
(Luiz Carlos Ribeiro, geólogo, anunciando a implantação
 de normas que protejam o patrimônio arqueológico em Uberaba)

Os dinossauros povoaram a Terra em tempos imemoriais. Alguns cientistas falam em dezenas de milhões de anos. Herbívoros ou  carnívoros, eram seres de descomunais proporções. A expressão antediluviana empregada para indicar o período de sua presença no planeta fortalece a tese de que essa espécie desapareceu por completo em consequência de alguma alteração geológica radical. Um cataclisma que, provavelmente, eliminou toda e qualquer manifestação de vida animal.

Escavações realizadas com variados objetivos em diversos lugares acusam, de quando em vez, vestígios da existência desses gigantescos sáurios naqueles tempos longínquos da história desconhecida do mundo. Uberaba, no Triângulo Mineiro, por conta das sucessivas descobertas de fósseis, tornou-se uma referência mundial em matéria de pesquisa paleontológica.

Ainda agora, o noticiário nosso de cada dia reporta-se a sensacionais achados na região durante trabalhos de terraplenagem (bairro São Bento) destinados à construção de conjuntos residenciais. Das rochas escavadas aflorou volume apreciável de esqueletos de dinossauros, datação estimada entre 80 e 90 milhões de anos. Não é a primeira vez que uma descoberta dessa magnitude é anunciada. O município e adjacências escondem nas entranhas da terra, a começar pelo distrito de Peirópolis, estendendo-se à zona urbana, indícios fabulosos da pré-história. Há décadas isso é constatado. Acostumei-me, na infância e na adolescência passadas em Uberaba, a anotar ocorrências desse gênero. Naqueles períodos ainda não havia sido reconhecida a enorme importância científica das descobertas. Foi entre o finalzinho da década de 40 e o começo da década de 50 que se deu a implantação do sitio arqueológico de Peirópolis, com a chegada do pesquisador Lewellyn Ivor Price. O aparato técnico então montado derivou de relatos (circulantes há décadas) feitos por moradores da localidade. De outros pontos da zona rural e também da zona urbana emergiam, com frequência, “restos de bichos” com características singulares. A divulgação dos fatos ficava obviamente restrita. Lembro-me, com clareza, dos vários momentos em que tive em mãos com tempo para examiná-las peças recolhidas em diferentes sítios. Entre outros, a serra da Galga, na estrada que liga Uberaba a Uberlândia, e o terreno bem no centro da cidade onde veio a ser erguido o Uberabão. Da movimentação de terra nos dois locais, com emprego de máquinas possantes e de dinamite, brotou enorme quantidade de material pré-histórico. Não foram poucas as pessoas que recolheram amostras. Possivelmente algumas delas ainda adornem mesas ou prateleiras em residências e escritórios.

Essas descobertas mais recentes na parte urbana, segundo técnicos da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, dizem respeito num primeiro momento a vinte fósseis parcialmente articulados de dinossauros da família dos titanossauros, que teriam povoado a região entre 80 e 90 milhões de anos. O geólogo Luiz Carlos Ribeiro, coordenador da pesquisa, tornou conhecida oportuna recomendação do Ministério Público às autoridades municipais: sejam adotadas, daqui pra frente, normas de proteção do patrimônio paleontológico em obras ou serviços que impliquem em movimentação de terra. A partir de agora, por conseguinte, interessados na execução de obras tanto na zona urbana quanto na zona rural terão que estudar o solo e aviar diagnóstico das potencialidades geológicas. Pelos laudos ficará ou não comprovada a existência de matéria de interesse científico nas rochas. A medida representa ganho nas pesquisas. Uma coisa é certa: novas descobertas fatalmente ocorrerão.        



Peirópolis, Uberabão e Galga

Cesar Vanucci

"Crocodilo pré-histórico descoberto em Peirópolis."
(Dos jornais)

Retorno ao tema das descobertas pré-históricas em Uberaba, reproduzindo comentário feito há mais de dez anos.

Fiquei conhecendo o Lewellyn Ivor Price no começo das escavações. O hoje mundialmente famoso sítio de Peirópolis ainda não fazia parte da cartografia paleontológica. Em alguns de meus encontros com o cientista esteve presente o engenheiro José Domício Furtado, então diretor da Fábrica de Cimento Ponte Alta, pessoa dotada de muita largueza de ideias. O Domício foi quem primeiro me chamou a atenção para a existência em Peirópolis dos paredões de arenito recheados de fósseis. Os contatos com Price revelaram-se sumamente enriquecedores. O brilhante pesquisador resolveu presentear o repórter com revelações instigantes a propósito do trabalho de pesquisa processado naquele pedaço de chão da zona rural de Uberaba. Acabei desfrutando do privilégio de ser o primeiro jornalista a falar dos achados. Esmerei na preparação de reportagens, estampadas em jornais de vários lugares. Creio na possibilidade de recolocar as mãos em recortes dessas publicações, por meio de "escavações" a serem feitas nos guardados profissionais acumulados de algumas décadas.

Lembro-me bem de minhas tentativas insistentes em arrancar declaração do entrevistado acerca da viabilidade de aflorar no subsolo trabalhado, de repente, um esqueleto inteiro de dinossauro. Ele encarou com sorriso benevolente o açodamento do entrevistador e discorreu, didaticamente, sobre os aspectos tremendamente complexos de sua empreitada, envolvendo a busca e seleção paciente do material soterrado, em profundidades variadas, nas grossas camadas de arenito acumuladas por milhões de anos.

Deixem-me, agora, esclarecer que esses papos amistosos com o pioneiro das escavações, sem necessidade alguma de recorrer ao carbono 14, são de datação superior a 50 anos. O sítio arqueológico ostenta hoje o nome do eminente pesquisador. E, ainda outro dia, arqueólogos que dão continuidade à obra do patrono fizeram conhecida mais uma importante descoberta: o fóssil completo de um antepassado do crocodilo, com idade que remonta à era jurássica. Além de região considerada equiparável em relevância paleontológica a áreas escavadas dos Estados Unidos, Rússia e Patagônia, na Argentina, Peirópolis coloca-se também na atualidade  sob o foco da atenção de educadores, à vista de experiências de cunho humanístico-espiritual ali conduzidas num complexo universitário que confere primazia a conceitos disseminados pelo célebre guru indiano Sai Baba.

Observo que o abundante noticiário relativo aos sucessos científicos vividos na localidade nunca faz menção, sabe-se lá por quais razões, à circunstância de que Uberaba abriga outros pontos expressivos de potencialidade arqueológica. Um deles, bem no coração da cidade.  Local totalmente inesperado: o estádio de futebol conhecido por "Uberabão" (andei defendendo, à época de sua inauguração, fosse adotada, por motivos fáceis de serem entendidos por qualquer uberabense, a denominação de "Berababão"). Quando as motoniveladoras e as cargas de dinamite iniciaram o desbastamento do terreno, para dar configuração às arquibancadas e gerais, topou-se, ali, surpreendentemente, com razoável quantidade de fósseis de animais pertencentes a períodos remotíssimos da história. O mesmo sucedeu noutra parte do município, por ocasião dos serviços de terraplenagem para ligação do trecho Uberaba–Uberlândia, na BR 106, no instante em que as máquinas revolveram as encostas da serra da Galga. Muita gente andou recolhendo, então, pedaços volumosos de esqueletos dos antiquíssimos habitantes do lugar. A serra da Galga, na beira do trepidante caminho asfáltico, ainda conserva, toda ciosa, com seu jeito de esfinge, preciosos segredos de eras primevas da história deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar também seus perturbadores enclaves.



Cuidado com o efeito manada

Alberto Dines *

A nova prisão de José Dirceu — ex-deputado, ex-ministro e cérebro da ascensão do PT ao poder — tornou ainda mais tenso o clima político. O juiz Sérgio Moro, porém, teve o cuidado de advertir que não se deve esperar para já o exame dos dossiês dos acusados com foro especial (deputados, senadores ou governadores). Os nomes deste grupo mencionados recentemente no âmbito da Operação Lava Jato o foram por acaso, resultado das delações, não valendo como sinal da abertura formal de processos na instância apropriada – o STF.

Com isso fica evidente que o esperado confronto com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, dar-se-á em outra fase da Operação – talvez a 19ª ou 22ª.

Apesar do seu extraordinário significado simbólico, neste momento José Dirceu é peça secundária no tabuleiro de xadrez. Sua segunda prisão e a consequente acoplagem entre o Mensalão e o Petrolão fatalmente pesarão nas eleições de 2016 e 2018, mas a presença de Eduardo Cunha no poleiro do poder é uma ameaça concreta, imediata, permanente, à melhoria do cenário institucional, político e econômico. A presença de um caudilho fanatizado e messiânico no comando da Casa do Povo é apavorante.

Nossa mídia vibrou na manhã da segunda-feira, 03-08, a partir do noticiário televisivo e radiofônico referente ao início da 17ª fase da Lava Jato e a ordem para prender o ex-todo-poderoso dos últimos três mandatos presidenciais. Prova da cabal evaporação do nosso senso trágico, esta euforia é um doloroso indicador da intensidade da radicalização ideológica iniciada há um ano e da irracionalidade das cassandras (de ambos os sexos) que convertem a mídia no fator exacerbador e, não, moderador.

No fim de 2003, antes mesmo de assumir a Chefia da Casa Civil da Presidência e diante de uma crise econômica tão angustiante como a atual, José Dirceu lançou no programa “Roda Viva” da TV-Cultura, a ideia de uma linha de credito especial através do BNDES para ajudar as empresas de mídia sufocadas pela falta de crédito.

Convém lembrar que àquela altura havia mais títulos nas bancas de jornais e mais empresas jornalísticas com a língua de fora – o JB, “Jornal do Brasil, o mais famoso deles. Nenhum de esquerda ou, pelo menos, “progressista”.

Nenhuma empresa ou grupo opôs-se ou condenou a manobra de Dirceu como tentativa de subjugar a imprensa. Alguns encontros foram celebrados já na esfera do BNDES procurando contornar as naturais dificuldades sempre num clima de convergência de interesses. O projeto não avançou. Felizmente para as partes e sem qualquer dissabor ou contrariedade.

Porém, doze anos depois, o político que tentou oferecer um respiro à imprensa asfixiada, sem fôlego, é linchado com incrível ferocidade pelos sobreviventes.

Ao relembrar um episódio convenientemente esquecido não se pretende minimizar os malfeitos posteriores de José Dirceu, muito menos ignorar a perversa privatização da nossa mais importante estatal.

Numa hora em que cabível seria horror ou melancolia, vale a pena acautelar-se com os perniciosos efeitos da confusão de sentimentos. Diante do adversário caído, melhor despachar as fúrias e cuidar das batalhas seguintes.

*  Escritor e Jornalista

(Extraído da edição 862 do “Observatório da Imprensa”)








A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...