sexta-feira, 21 de agosto de 2015



Jogo do faz-de-conta

Cesar Vanucci

“A falta de turismo é a ruína
mais antiga dos países jovens”
Sofocleto (1926)

Relendo comentário publicado há um bocado de tempo sobre a “proibição do jogo”, dei-me conta de sua palpitante atualidade, o que me induz a aqui reproduzi-lo.

Parece que o cara era dinamarquês. Representava poderoso grupo turístico europeu interessado em estender até nossos pagos suas atividades. Tudo apontava nesta direção. Nos estudos feitos, o Brasil despontava como local ideal para expansão de negócios na esfera de lazer. As infraestruturas montadas, as inigualáveis potencialidades para práticas de diversão saudável, a exuberância da natureza, avessa às catástrofes inesperadas nascidas da fúria dos elementos, tudo isso estava sendo levado em conta.

O “país do futuro”, no anúncio batismal de Stefan Zweig, se credenciara na avaliação dos especialistas como endereço perfeito para arrojados programas relativos à “indústria do futuro”, conforme o batismo dado, de outro lado, ao turismo por John Naisbitt. O contato visual com a realidade só fez robustecer no espírito do nosso personagem a viabilidade do projeto. O que à distância parecia bastante promissor, próximo se convertia em possibilidade estupenda. O que o simpático gringo não conseguiu assimilar bem foi a explicação de que não se podia cogitar da vinculação do jogo aos projetos, de vez que no Brasil a proibição do jogo é “uma questão fechada”. Tentou argumentar com o fato de que no resto do mundo o procedimento é diferente. O jogo em tudo quanto é canto do planeta é indissociável da atividade turística. Não no Brasil, redarguiram. O jogo nestas paragens é proibido e está acabado...

Mas o homem, virando e mexendo aqui e ali, perdidinho da silva, aturdido com as cenas projetadas diante do olhar inquiridor, encontrando dificuldade para desenvolver raciocínio coerente danou a tropeçar, no dia-a-dia do povo, com circunstâncias inusitadas e surpreendentes. O que contemplava não batia nadica de nada com o que lhe diziam. No país do “jogo proibido” funcionava, sim, senhor, uma descomunal casa de tavolagem.

Ali estavam, escancaradas, as mil e uma modalidades de apostas das casas lotéricas, os bingos; as rifas e os sorteios; o engenhoso “jogo do bicho”, ostensivo que nem umbigo de vedete de teatro rebolado; as mesas de carteado espalhadas pelos clubes; os cassinos, não tão clandestinos assim, operando desembaraçadamente em inúmeras regiões. De espanto em espanto, o cidadão chegou à conclusão de que a situação era de um surrealismo único, difícil, senão impossível, de ser explicada a representantes de outras culturas.


Tudo, nesse desconcertante capítulo revelador da inconsistência humana, não passava de um colossal faz-de-conta. A lei proibitiva, concluiu, já incorporando aí o linguajar da terra, não havia “pegado”. As autoridades encarregadas da fiscalização fazem-de-conta que a proibição é pra valer. O homem comum faz-de-conta que as apostas diárias, arrebatando alguns trocados da algibeira, pertencem a outro departamento, nada tendo a ver com a “jogatina de azar”, matéria sabidamente proibida. Figuras respeitáveis reagem sempre melindradas às provocações frequentes dos prefeitos de cidades providas de atrações turísticas quando trazem a debate o incômodo tema da reabertura dos cassinos. “Então, essa gente não aprende que o jogo entre nós é proibido?”. E o faz-de-conta vai sendo acrescido constantemente de penduricalhos grotescos, lances verbais de bolor farisaico que deixam as pessoas de bom senso mareadas. “Não há tatu que guente!”, como se dizia em tempos de antigamente.


Jogo proibido, pois sim!

Cesar Vanucci

“Nada mais farisaica do que essa história da proibição do jogo no Brasil.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)


Esse incrível jogo do faz-de-conta sentenciando que o jogo é matéria proibida no Brasil, farisaicamente propagado, conforme acentuamos no artigo anterior, pode servir a muitos interesses. Seguramente, não aos da coletividade. Já foi longe demais da conta.  A jogatina está aí, à vista geral, desafiadoramente postada diante dos que, no uso de legítima prerrogativa democrática, não a apreciam, ou dos que, ao contrário, com ela convivem em clima de deleite.

O enquadramento pessoal deste desajeitado escrita, confesso logo, é no time dos que não se ligam no questionável prazer do mundo das apostas. Uma única mão de canastra é capaz de me deixar mais sonolento do que muitos telespectadores costumam ficar quando assistem por mais de cinco minutos aquelas enfadonhas corridas de carro mostradas na telinha. Meu compromisso com o jogo, essa atividade, ressalte-se outra vez, vetada pela lei, fica limitado a uma que outra tentativa de abiscoitar o prêmio acumulado da mega sena, naqueles dias em que as filas viram quarteirão, porque também tenho direito a sonhar, como temente filho de Deus, uai! Em Katmandu, Nepal, onde o jogo é liberado e se joga muito menos do que por estas bandas, manipulei, sem entusiasmo, em certa ocasião, uma máquina qualquer no cassino do hotel. Dei sorte: embolsei alguns punhados de dólares. Dariam para dez dias de refeições em excelentes restaurantes nepaleses. Não dariam pra um jantar em ambientes chiques nos pontos turísticos mais badalados destas bandas. Dá pra entender porque Katmandu atraia, até recentemente pelo menos, mais turistas do que, por exemplo, o Rio, ou Salvador, por aí....

Mas regressemos ao nosso “faz-de-conta”. Imaginemos, para fins de argumentação, que não exista mesmo jogo no Brasil, patrocinado ou não por organismos oficiais; que o “jogo do bicho” seja coisa do passado; que a sena ainda não foi inventada, que ninguém se interessa por bancar bingo, carteado, assim por diante. Ainda assim, senhores e senhoras, soa inteiramente fora de propósito, econômica e socialmente, não se cogitar da ”abertura do jogo”. Bem avaliados os prós e contras, as vantagens seriam infinitamente maiores do que os inconvenientes. O turismo receberia notável incremento. As atividades à volta da “indústria do lazer” seriam largamente incentivadas. Ganhariam as agências de viagem, a rede hoteleira, as empresas de transporte e de eventos, a construção civil, convocada a criar e ampliar espaços físicos na melhoria do arcabouço turístico, os setores artísticos, incumbidos da organização de espetáculos etc. etc. etc. Conheço um mundão de gente, da mais alta respeitabilidade, bem abonada financeiramente, que carimba a curtos intervalos seus passaportes, nas direções mais variadas, aqui perto e lá longe, para desfrutar dos prazeres de cassinos em conjuntos hoteleiros de altíssimo requinte. Parte dessa dinheirama gasta fora poderia estar movimentando atividades lucrativas por aqui mesmo.

Admitamos, estendendo o raciocínio, que algo negativo pudesse resultar da liberação do jogo vinculado ao turismo. Será que os resultados seriam mais perversos do que as consequências do excesso por consumo do tabaco ou do álcool? Abstêmio e não fumante, nem por isso mostro-me favorável a que se proíba a venda de álcool e cigarro. A decisão correta no caso do jogo é partir para pesada taxação social. Tascar alíquota elevada pra cima. Orientar as pessoas, se e quando necessário, por intermédio de campanhas educativas inteligentes.

Crie-se, como se faz em outros lugares, regulamentação que defina critérios seletivos no acesso ás bancas de aposta alta. Determine-se controle eficaz para que parcela ponderável do dinheiro investido em jogos - o do bicho entre eles - seja efetivamente canalizada para meritórios fins sociais, e não venha a tomar destinação imprópria. Mas abra-se o jogo. Acabe-se, vez por todas, com essa tremenda farsa, que tanto constrangimento e desconforto traz ao caráter nacional.

Voltando à historia contada no primeiro artigo, o jogo não pode constituir charada que brasileiro não consiga explicar e que dinamarquês não consiga decifrar.

 

Noites paulistanas
Luiz Gonzaga Belluzzo *

 (Três garotos negros parados por policiais... E a surpresa dos PMs ao descobrir 

que um deles era poliglota e morava em Estocolmo)


Noite paulistana na Vila Ré. Noite gelada, regada pela garoa. Os primos Ygor, de 16 anos, Cayré, 17, e Yago, 13, saem do fast-food. Entre comentários sobre as vitórias do Palmeiras e brincadeiras, os garotos voltam para casa, a casa da avó, a corintiana Márcia.
No caminho são abordados por uma viatura da Polícia Militar. Brecada brusca, roda direita junto à guia. Portas fechadas ruidosamente. Os coturnos triscando o asfalto. Mãos nos coldres.
Gritos e safanões. “Mãos na parede, pernas abertas!”, berram os policiais. Giram os cassetetes para intimidar os meninos. Em seguida, batem no fígado da rapaziada, enquanto fazem a revista. Não encontram coisa alguma além dos celulares e dos tostões que sobraram dos burgers e batatas fritas.
Começa o interrogatório. Primeiro Cayré, aluno da Fatec, curso profissionalizante de Comércio Exterior. “Aonde vai, moleque?” “Pra casa da minha avó, logo ali, dois quarteirões pra frente.”
“E você, menino?” Yago responde que está na 7ª série.
“Também mora na casa da vovó, hein?” Yago responde com um meneio de cabeça. A voz quase não sai. O meganha insiste. Yago consegue emitir um quase inaudível sim.
Os policiais ainda rodam o cassetete. Chegam nos 16 anos de Ygor. O garoto observa os fardados da altura de 1,90 metro. “E você, grandão, também vai pra casa da vovó?” Ygor responde que sim, em um sotaque de erres e esses carregados. O meganha tem um esgar de estranhamento. Os três “investigados” sintonizaram a sensação de perplexidade da patrulha: um negro com sotaque. Os olhares e os sestros faciais dos policiais denunciavam febris imaginações. Tratar-se-ia de um haitiano, um desses negros imigrantes que roubam os empregos dos brasileiros, ou talvez um africano trapaceiro? Ainda, pior, um crioulo venezuelano empenhado em preparar a revolução bolivariana?
Ygor percebe os desencontros que atormentavam o cérebro do fardado, moreno escuro. Rapidamente, completa: “Eu ‘morro’ em Estocolmo”.
A desconfiança se converte à surpresa. “Estocolmo?”,  pergunta o mais fortinho e mais simpático dos policiais.
“Estocolmo, na Suécia”, explica Ygor. 
“Você fala inglês?” , atalha o outro, o mais carrancudo. Ygor confessa: “Falo sueco, inglês e espanhol, ‘esjtou’ aprendendo alemão. Quero ‘esjtudarr engenharria e trabalharr’ numa empresa alemã”.
Knock down. Abalroado pelo complexo de vira-lata, o policial apoia a retaguarda na viatura e, num murmúrio, anuncia: “Ah, então, bem, estão liberados”.
Yago, Cayré e Ygor chegam em casa. Contam a história. A avó pergunta a Yago, o menino de 13 anos: Você ficou assustado? “Não, vó. Meu pai já disse que isso sempre acontece com os negros.”

Ygor foi morar na Suécia aos 6 anos. A mãe, Viviane, passista da Nenê de Vila Matilde, trabalhava em um call center em São Paulo. Casou-se com um sueco, médico psiquiatra, hoje funcionário de um hospital em Estocolmo. Há dez anos na Suécia, o menino usufruiu todas as benesses do Estado de Bem-Estar.  Saúde, educação, treinamento esportivo, atendimento psicológico. Adquiriu cidadania sueca. Só vem ao Brasil para visitar a avó e matar as saudades do Verdão, paixões que não abandonou e que não o abandonam. 
Não quer voltar. A trombada policial só confirmou a sensação de não se adequar a uma sociedade hipócrita, violenta e racista. Os policiais que abordaram os meninos dificilmente seriam aceitos como brancos em uma inspeção ariana ou anglo-saxã. Nos anos de chumbo da ditadura, a professora exilada, tez mediterrânea, fazia inscrição em Oxford. A funcionária da universidade inglesa perguntou: “Cor?” A professora respondeu “branca”. Depois de registrar as respostas, a inglesa perguntou: “A senhora se considera realmente branca?”
Os policiais morenos assumem a “branquice” da alma. O “negro de alma branca”, expressão que trai a síndrome de Estocolmo. O submetido entrega-se às simpatias pelo opressor. A intimidação e o espezinhamento seculares  escancaram sua verdade.

Os bem-intencionados, cultos e provavelmente brancos, os de cima, lamentam intelectualmente a exclusão como fenômeno socioeconômico. Mas suas boas intenções não alcançam compreender a dor profunda infligida aos negros brasileiros de carne e osso maltratados no calvário cotidiano da exclusão e da discriminação.
Luiz Gonzaga Belluzzo é economista e professor, consultor editorial de CartaCapital
    (Extraído da "CartaCapital", edição de 29 de julho 2015)

Um comentário:

Blogger disse...

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