sábado, 29 de agosto de 2015

Relembrando a tragédia nuclear

                                                 
Cesar Vanucci

“Meu Deus! O que foi que nós fizemos!"
(Robert Lewis, copiloto da fortaleza voadora
 que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima)

O mundo relembra, agora em agosto, o apavorante episódio que, há 70 anos, fez de Hiroshima e Nagasaki cidades-símbolos do holocausto. Os artefatos nucleares despejados sobre os dois populosos centros urbanos mataram quase 250 mil pessoas de uma só vez. Outras centenas de milhares ficaram para sempre contaminadas pela mortífera radiação. Só entre agosto e dezembro de 1945 foram registradas 140 mil mortes provocadas pelas reverberações das bombas.

A colossal tragédia tem sido, ao longo dos tempos, analisada em livros, reportagens, tribunas, atos cívicos, exposições, por historiadores, dirigentes políticos, militares, educadores, cientistas, gente do povo, pessoas que apertaram o fatídico botão naquela manhã de agosto de 1945 e, também, como não poderia deixar de ser, pelas vítimas sobreviventes.

São relembranças que carregam no bojo uma profusão de versões. Há a versão dos vencidos e a versão dos vencedores. A versão dos estrategistas. A de cientistas, que se ocupam com entusiasmo dos avanços tecnológicos da física e do ingresso da humanidade na enigmática era nuclear. E a dos humanistas, preocupados com os enfoques demasiadamente técnicos da questão. Existem, ainda, versões militar, jurídica, ética e moral. Todas escoradas numa superabundância de argumentos solidamente plantados nas mentes de seus porta-vozes.

Alega-se de um lado que, se os Estados Unidos não tivessem optado pela bomba, a invasão do Japão teria custado o sacrifício de 500 mil vidas americanas. Reforça-se a alegação com o argumento de que havia uma nova arma para ser empregada e que o país chegou primeiro que os adversários na disputa pelo domínio nuclear. Em contraposição, afiança-se que a estimativa de baixas na provável invasão foi ardilosamente exagerada, de modo a provocar comoção e justificar o lançamento da carga explosiva que encurtou o conflito. Os Estados Unidos bem que poderiam ter promovido, com a presença de observadores neutros e de representantes nipônicos, uma demonstração prévia do poder catastrófico da arma. O ato valeria como um ultimato e ao adversário, comprovadamente fragilizado àquela altura, não restaria outra alternativa que não a capitulação.

No extenso capítulo da condenação à atitude dos vencedores sustenta-se ainda que a bomba foi lançada menos com o intuito de levar o Japão à rendição e mais com o sentido de protocolar um recado claro e explícito à União Soviética. Uma espécie de carta de apresentação, com currículo e referências à mostra, para o pós-guerra. Para a desgastante “guerra fria” que se estendeu, com muito sofrimento e crescente angústia, sobretudo depois que a Rússia passou também a integrar o “clube atômico”, até a perestroika, a glasnot, a derrubada do famigerado “muro de Berlim” e o consequente desmoronamento da estrutura comunista. Os anos de chumbo da “guerra fria” foram marcados, todos sabem, pela ampliação do clube atômico, que absorveu como novos associados não apenas, como já mencionado, a antiga União Soviética, mas ainda a Inglaterra, a França, a China, a Índia, o Paquistão, o Israel, a Coréia do Norte e sabe-se lá mais quem... Só que os arsenais montados fizeram dos modelos disparados contra os alvos japoneses meras peças de museu.

Um outro argumento contestatório à posição estadunidense está contido na seguinte indagação: por que o repeteco, dias depois de Hiroshima, da bomba de Nagasaki? Uma única bomba não teria sido suficiente para dobrar a arrogância do Império do Sol Nascente?

Nesta hora em que afloram relembranças do histórico acontecimento, não há como esquecer a atuação dos cientistas engajados no projeto concebido em Los Alamos. Receosos de que Hitler chegasse primeiro à construção da bomba - já que vários deles haviam dado os primeiros passos nesse sentido à época em que colaboraram com o esforço de guerra nazista -, eles fizeram um apelo a Roosevelt para que apressasse as pesquisas. Depois dos eventos de Hiroshima e Nagasaki muitos deles, caso de Robert Oppenheimer, propuseram a abolição das armas atômicas, pagando um preço elevado pela ousadia. A questão já havia escapulido ao seu controle.




Haja ogiva nuclear!

    
Cesar Vanucci                                                                         

“Bella matribus detestata – As guerras detestadas pelas mães"
 (Horácio, 658 a-C)

O estoque das armas de destruição em massa é cada dia mais volumoso. O tal acordo de não proliferação de armas nucleares só vale de verdade para os países que ainda não as possuem. Os integrantes do fechadíssimo “clube atômico” monitoram com rigor policialesco as ações dos demais países, procurando dificultar-lhes até mesmo a aquisição de conhecimentos relacionados com o emprego pacífico da energia nuclear para fins de desenvolvimento econômico e social. O Brasil que o diga.
Atribuem, por antecipação, a responsabilidade por suposta tragédia nuclear futura a terceiros, não detentores da mortífera tecnologia, “esquecidos” de que na única vez na história humana em que bombas atômicas caíram sobre populações civis, destruindo cidades e matando centenas de milhares de pessoas, a iniciativa de lançá-las foi tomada justamente por um dos membros do “clube”, que por sinal, tal como seus ilustres parceiros, continuou a armazenar febrilmente novos e mais arrasadores artefatos. Estimativas recentes acusam que os integrantes do fechadíssimo  “clube atômico”, nove países, mantêm estocadas  apenasmente 15 mil ogivas nucleares. Estes os números atribuídos a cada um deles: Rússia, 7.5 mil ogivas; EUA, 7.2 mil; França, 300; China, 250; Inglaterra, 215; Paquistão, 120; Índia, 110; Israel, 80; Coréia do Norte, 10. Como se vê, quantidade mais que suficiente para devastar não apenas o planeta, mas toda a Via Láctea, minha Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja!

Por outro lado, analistas em estratégias militares garantem que existem, hoje, em poder dessas mesmas potências, artefatos químicos tão eficazes quanto as armas atômicas, para “garantir”, se for da vontade dos “senhores das guerras”, o extermínio de qualquer vestígio de vida sobre a superfície planetária. Uma ligeira amostra dos danos de que essa parafernália bélica é capaz de provocar foi dada – oportuno recordar - nos conflitos do Vietnã e Golfo Pérsico (mais recentemente na guerra civil síria) e na guerra Irã-Iraque. Aquela mesmo em que o finado ditador Saddan Hussein pôde contar com copioso fornecimento de armas e sólido apoio logístico de seus antigos aliados e futuros arqui-inimigos estadunidenses.

A bomba de hidrogênio, mais devastadora do que a atômica, ainda não foi testada em campo de batalha. Existe em quantidade suficiente para também acabar com o mundo várias vezes. São coisas assim que fazem com que os guerreiros vocacionados se imaginem sempre, em sua paranoia destrutiva, próximos do Armagedon. Farejar o Armagedon é postura natural para os espíritos deformados que fazem das guerras um grande negócio. Não sei se alguém, dentre os eventuais leitores destas linhas, se recorda de um estapafúrdio lance mostrado anos atrás nos jornais televisivos, quando do conflito Irã-Iraque. Um empresário paulista, cheio de empáfia, fornecedor de equipamentos bélicos a um dos litigantes, envergando uniforme de campanha iraquiano, aprestou-se desajeitadamente, diante das câmeras de televisão, a fazer o papel de improvisado “comentarista de guerra”. Empunhando uma vareta sobre imenso mapa, vangloriou-se da eficácia mortífera dos instrumentos produzidos em suas fábricas. O homem babava de contentamento, em delirante fantasia, com as revelações sobre os tremendos estragos que “suas” armas estavam em condições de provocar. Sentia-se um pouco dono do mundo. Uma cena arrepiante, essa proporcionada pelo mercador de armas. A história mostra que tem gente poderosa espalhada por esse mundo de Deus, onde o diabo costuma plantar enclaves, raciocinando e agindo nos mesmos moldes do babaca supracitado. Nem todos talvez possuídos da ânsia tresloucada de exibir via televisiva seus pendores belicistas e primitivismo intelectual. Gente de altíssima periculosidade. Sempre de prontidão para atear fogo em tudo.

Hiroshima e Nagasaki, alvos civis atingidos em cheio em agosto de 1945 pela insanidade bélica, legaram-nos uma mensagem. Mensagem contra todas as guerras. Não só contra a guerra atômica. Um clamor pela paz, originário dos recantos mais generosos da alma, em todas as latitudes. Bem apreendido, pode levar o ser humano a refletir melhor sobre suas origens e destino. Permite-lhe até sonhar com aquele instante ideal na aventura terrena em que toda a dinheirama gasta para produzir morte possa vir a ser aplicada na celebração da vida. Em favor de pesquisas e ações que elevem os padrões do bem-estar, promovam a cura de doenças e a erradicação da miséria. São estas, aliás, as guerras que carecem, na verdade, ser combatidas com supremo ardor por todos.

Palavra de Hiroshima e Nagasaki!




Relembrando a segunda guerra


Cesar Vanucci

“Nunca houve guerra boa, nem paz ruim.”
(Benjamim Franklin)

Como o tempo voa! Cidadãos do mundo em todas as partes relembram, nos dias que correm, os 70 anos já transcorridos do desfecho da segunda guerra mundial. Evocações de toda sorte, abrangendo versões as mais variadas, são recolocadas como informações históricas e como temas palpitantes ajustados a reflexões e debates.

Todos somos levados a comentar alguma coisa a respeito da carnificina que devastou meio mundo e produziu a aterrorizante estatística de 52 milhões de túmulos. Mais da metade das baixas humanas ocorreu nas nevadas estepes russas. As tropas alemãs concentraram ali seu maior poderio de fogo. A heroica resistência da população, em circunstâncias extremas de sacrifício, estabeleceu naquela frente de batalha um dos suportes fundamentais para a reviravolta operada nos rumos do conflito. O estupendo esforço bélico dos Estados Unidos, a partir, sobretudo, do traiçoeiro ataque nipônico a Pearl Harbour, foi outro fator de influência decisiva na alteração do destino da guerra. Por conta dessas e de outras contribuições da comunidade das nações à causa antinazista, a humanidade conseguiu impedir que a sinistra marca da suástica se estendesse, como se chegou a temer em certo momento das hostilidades, a todos os continentes.

A guerra deixou também gravado na memória coletiva símbolo da perversidade suprema, da ferocidade máxima, do ódio elevado a culminâncias paroxísticas. Um símbolo conhecido por Adolf Hitler. Ninguém, em toda a vasta trajetória humana, conseguiu espalhar, por tantos lugares, ao mesmo tempo, tantos malefícios acumulados. Suas ideias de expansionismo com inspirações racistas, encontrando desafortunadamente acolhida em amplas parcelas das sociedades alemã e austríaca de então, geraram o holocausto. Por não serem enfrentadas com o devido vigor por lideranças mundiais influentes, à época da ascensão nazista ao centro do poder político germânico, arrastaram o mundo ao monstruoso confronto.

Nas relembranças dos setenta anos do fim da guerra estão sendo feitas leituras novas e releituras de histórias que focalizam figuras e episódios relevantes ligados às experiências sofridas daquela quadra da existência humana. Fala-se muito de Hitler e parceiros. Fala-se, também, dos homens responsáveis pela valorosa coligação aliada que pôs fim ao desvario das forças do Eixo. Entre eles, Roosevelt, Churchill, De Gaule, Stalin.

Em buscas que efetuei, compulsando material copioso, não consegui (ainda) descobrir respostas convincentes para alguns quesitos acerca de fatos intrigantes relacionados com a segunda guerra. Ao citá-los aqui, hoje, coloco-me na expectativa de que algum leitor, com maiores conhecimentos sobre o assunto, possa prestar-me ajuda. O primeiro item diz respeito ao pacto Hitler-Stalin. Por que foi feito e por que foi repentinamente desfeito? Quais circunstâncias impeliram a Alemanha a desviar-se de seu propósito de invadir a Inglaterra, na fase dos bombardeios maciços contra Londres, com a metade da Europa já ocupada, e partir para a abertura da frente de batalha no terreno dos antigos aliados, os russos? Qual a razão dos historiadores não se aprofundarem nas revelações, de Jacques Bergier e Louis Pauwells, pertinentes à presença de milhares de combatentes tibetanos, envergando uniformes alemães, nos últimos redutos de defesa da cidadela de Hitler? Isso teria a ver com a suposição de que nazistas proeminentes fizessem parte de uma sociedade esotérica denominada Thule, com origens antiquíssimas em Lhasa? Por quais motivos os “criminosos de guerra” japoneses, tão cruéis quanto os alemães, não tiveram julgamento em moldes semelhantes aos dos dirigentes nazistas? Cientistas e diplomatas de países neutros propuseram ao governo dos Estados Unidos que convocasse líderes militares japoneses, colocando-os a par do poder destrutivo da bomba atômica, antes de lançá-la sobre alvos  civis em Hiroshima e Nagazaki. Truman não aceitou essa sugestão como meio de se chegar à rendição japonesa. Por quê?





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