sexta-feira, 28 de junho de 2013

O que se espera dos governantes

Cesar Vanucci *

“Feliz do povo que pode vaiar seus governantes.”
(Frase atribuída ao inolvidável Presidente JK)

Botar tento nos recados copiosos passados pelas ruas. Manter permanentemente ligados os aparelhos pessoais de percepção social. Separar o joio do trigo. Noutras palavras, distinguir com clareza e exatidão as manifestações populares genuínas, brotadas de justo inconformismo, das ações provocadas por um insignificante (numericamente falando) bando de vândalos sem causa, adeptos da anárquica tese do “quanto pior, melhor”. Mostrar-se compreensivo com relação às forças sociais que acionam pacificamente os protestos, convocando-as a participação ativa, por meio de diálogo e exposição transparente de fatos, na busca das soluções almejadas.

Agir com severidade, inteligência e bom senso, na contenção dos abusos praticados pelos baderneiros, enquadrando-os exemplarmente nos devidos conformes legais. Passar por peneiragem as imagens das câmeras que andaram captando as malfeitorias perpetradas contra o patrimônio público e privado por esses bandidos infiltrados nas passeatas, chamando-os às falas na Justiça por formação de quadrilha e outros delitos graves capitulados no Código Penal. Fazer também a polícia entender que a repressão na base do gás lacrimogêneo, pata de cavalo e ponta de baioneta não passa de resquício indesejável de tempos sombrios que a consciência cívica da Nação rechaça com veemência. Nunca, jamais, reação legítima de uma ordem constitucional democrática empenhada em garantir a ordem, a paz e a tranquilidade públicas sem concessões a abusos e violações a direitos de qualquer gênero.

Manter acesa a fé nas potencialidades do país e nas virtualidades da gente do povo, mesmo que, eventualmente, à sua volta colaboradores, assessores e conselheiros despreparados hajam perdido essa fé. Não ceder jeito maneira, no exercício das funções de gerenciamento superior, à tentação que, às vezes, acomete dirigentes desprevenidos, embriagados pelo ópio da autossuficiência, em classificar as coisas sumariamente, rotulando-as impropriamente, antes de entendê-las suficientemente. Procurar interpretar com argúcia social e serenidade, o “porquê” dessa vibração contaminatória que tomou conta, de uma hora para outra, das praças, aparentemente contra tudo e contra todos.

Arrolar, de modo a que sejam objeto de apreciação por parte dos grupos de trabalho encarregados de aprimorar as políticas públicas em execução, de forma a atender aos clamores trazidos a lume, itens já enunciados como prioritários nas manifestações. Oportuno relembrar alguns deles: melhoria na assistência à saúde, no ensino, na segurança pública, no transporte coletivo dos grandes centros; combate cada vez mais intensivo à corrupção; fixação de critérios mais rígidos na aplicação dos recursos públicos, enfatizando-se prioridades e evitando-se desperdícios. No tocante ao transporte urbano, cogitar-se de sua imprescindível melhoria e, até mesmo, da possibilidade – por que não? – de subsidio total ou algo que chegue próximo disso de modo a facilitar as coisas para o povão, que ele merece. Abra-se parênteses para esclarecer que a fórmula extrema do subsidio total, ou do chamado “passe livre”, nada tem de mirabolante ou utópica. Tem sido adotada com êxito em vários lugares do mundo, inclusive em cidades estadunidenses, ancorando-se em alterações na forma de aplicação dos recursos do Erário. Estimulou contingentes apreciáveis de pessoas a utilizarem nos deslocamentos ônibus no lugar de veículos particulares.

Propagar, por todos os meios, sensatamente, que a democracia pujante dos sonhos gerais é um processo contínuo de paciente construção. Implica em transformações graduais, em rotas alternativas de mudanças, com o uso constante da inteligência e criatividade na superação dos obstáculos.

Entender que as sinalizações de agora podem levar a alvissareiras descobertas. Quanto mais cedo se consegue interpretar os sinais emitidos pela vida, mais cedo pode se chegar às soluções dos problemas. O poeta Robert Frost, dos Estados Unidos menciona o fato de que Newton intuiu a “lei da gravidade” depois de entender os sinais reveladores dos frutos pendurados que despencavam das macieiras sobre a cabeça das pessoas; que Franklin concebeu o para-raio depois de compreender a sinalização dos trovões.

Em suma, absorver bem a idéia de que uma mensagem propondo avanços sociais paira, neste momento, no ar. E, também, a idéia de que as ruas, conforme anda dizendo interessante jingle muito badalado nos intervalos comerciais destes dias de Copa, são as arquibancadas do país. Arquibancadas com voz, que vaiam e aplaudem. Isso é democracia pura.


Acelerar os avanços sociais

“Eu quero dizer a vocês que foram pacificamente às ruas: eu estou ouvindo vocês!”
(Compromisso da Presidenta Dilma em discurso à Nação)

Não desperdice, Presidenta Dilma, por favor, a chance histórica que a pujante democracia brasileira depositou em suas mãos de modo a que se sinta à vontade para imprimir maior celeridade ao processo dos avanços sociais das esperanças gerais da Nação. Faça-se voz do clamor das ruas. Intérprete dos sentimentos populares. Utilize com propriedade os créditos de sua inconteste popularidade no esforço de queimar novas e decisivas etapas, no resgate da colossal dívida contraída com as camadas mais humildes, ao longo de decênios de nossa vida republicana.

Ponha pressa, muita, na anunciada convocação das forças vivas da Nação, representativas de todas as correntes de idéias, para o debate amplo, geral e irrestrito acerca dos novos rumos que carecem ser trilhados nas conquistas do amanhã, vislumbrados na predestinação de grandeza do País. Não deixe os temas consistentes das agendas pontuadas nas reivindicações esfriarem. Cair no fosso da indiferença e frieza burocráticas.

Dialogue com firmeza, sem vacilações, com a sociedade, começando com representantes dos ativistas de cara pintada. Estique nos justos limites ditados pelo bom senso as negociações, as consultas, os estudos. Mas não permita que o papo espiche indefinidamente, ao gosto dos radicais interessados em bagunçar o coreto. Empenhados, alguns, em exigências descabidas, outros em garantir incólumes iníquos privilégios nascidos do imobilismo social abominado pela Nação. Uns e outros supostamente desejosos em promover alguma reforma com o fito de não fazer reforma alguma.

Defina com os demais Poderes, com os dirigentes maiores da vida política, sem se esquecer de pedir o apoio da própria oposição, planos de emergência que possam trazer respostas ágeis aos anseios populares em questões primordiais. Questões como a melhoria das condições de transporte público. Não perca de vista algo primordial: a concessão de subsídios maiores para o setor da mobilidade urbana não é nenhum bicho de sete cabeças. Contam-se numerosas as cidades do mundo, até mesmo no Brasil, ao que já se sabe, que optaram por modelos mais concessivos de subsídios com sucesso. Expeça convites aos grandes conglomerados financeiros, grandes corporações, parceiros do governo em grandes empreitadas do PAC e concessões de serviços, como os dos diversificados ramos do transporte, exploração de jazidas petrolíferas e outros mais para que, conscientes de suas responsabilidades no contexto, se disponham a uma participação mais ativa, com aportes de recursos, nos projetos de inclusão social. Exija das estruturas governamentais, em todos os níveis, ações eficazes de combate a desperdícios. Transparência solar nos procedimentos cotidianos.

Faça ver a todos, sobretudo aos dirigentes políticos, que o povão em suas postulações não pode ser subestimado. Exemplos de procedimentos desastrados, como os do despreparado governador de São Paulo e do deslumbrado prefeito da Capital bandeirante no iniciozinho da onda de protestos, precisam ser evitados a todo custo. Autossuficiência embriagante, arrogância, intransigência enfraquecem a autoridade.

Assuma, Presidenta Dilma, a condução do processo de construção de um novo pacto federativo, que preveja a implantação em prazos razoáveis das reformas básicas. A política, a tributária, a agrária, assim por diante. Chame a si a coordenação da renegociação das dívidas públicas dos demais entes federados com o poder central. Essas dívidas, todos sabemos, foram feitas em outros momentos da vida administrativa brasileira, nem sempre atendendo estritamente aos postulados corretos do interesse público, como não será difícil demonstrar por meio de auditagens. Mas, seja como for, a “batata quente” caiu em suas mãos para ser descascada. A alteração nos cálculos exorbitantes vigentes é de molde a liberar recursos significativos a serem direcionados aos serviços públicos essenciais, melhorando as condições de vida da população.

Estabeleça, Dilma, canal regular de comunicação para prestação de contas das iniciativas levadas avante e decisões tomadas dentro desse propósito, consoante com as legítimas aspirações populares, de acelerar as soluções dos problemas candentes deste momento.

Utilize, com sabedoria, seus dons de liderança neste instante preciso em que a democracia brasileira projeta de maneira tão nítida sua invejável vitalidade.

Brasil brasileiro

 “A juventude brasileira quer discutir as
causas polêmicas. A sociedade tem de debatê-las.”
(Virginia Barros, presidente da União Nacional dos Estudantes)

A perplexidade é a tônica dos comentários, das conversas. Projeta-se nos semblantes e nas interrogações que todos se fazem. Dirigentes políticos, lideres comunitários, antropólogos, sociólogos, jornalistas, estudiosos da realidade brasileira dedicados à instigante tarefa de interpretá-la não conseguem explicar adequadamente, até aqui, o que andou acontecendo. Alguns animam-se a fazer exercícios especulativos na busca do modelo padrão que teria servido de inspiração para essa pororoca de manifestações que sacode ruas e praças.

A chamada “primavera árabe”, sob tantos aspectos frustrante por conta de resultados no geral pífios, é apontada, aqui e acolá, como referencia para o que rolou. Comparação destituída de qualquer sentido. Em comum, as duas modalidades de protestos só conservam um liame: o emprego massivo no esforço de arregimentação popular dos formidáveis recursos das redes sociais. Quanto ao resto, tudo difere. As motivações são outras. O foco do movimento árabe concentrou-se na tentativa de uma ruptura definitiva com as estruturas de poderes despóticos. Já aqui, por estas bandas, foi a pujança invejável do regime democrático que assegurou o suporte valioso que os manifestantes dispuseram para propagar suas postulações.

O que se tem, de conseguinte, pra dizer, sem medo de errar na avaliação, a respeito dos acontecimentos vividos, que viraram de cabeça pra baixo tanta coisa, é que este brado retumbante das ruas brasileiras teve o toque único e irrepetivel do jeitinho brasileiro de fazer as coisas. Algo que foge por inteiro a estereótipos e paradigmas absorvidos noutras culturas e que é apontado, não poucas vezes equivocadamente, como traço pejorativo do comportamento humano.

As manifestações que levaram tanta gente boa a proclamar não estar entendendo bulhufas do que vem sucedendo é decorrência natural desse jeitinho especial que os brasileiros temos de vivenciar contradições e mesmo harmonizá-las.

Digam aí: em que outro canto deste planeta entregue à peregrinação do ser humano conseguirá alguém, algum dia, captar, simultaneamente, separadas umas das outras por curta distância, cenas como as que foram vistas recentemente neste nosso fascinante e desconcertante Brasil? Em estádios regurgitantes, cheios de colorido e calor humano, multidões a vibrarem com os jogos eletrizantes de uma competição sob o foco das atenções gerais. Em milhões de lares, bares, restaurantes, diante das telas de televisão, o mesmo contagiante clima e incomum entusiasmo. Em locais reservados a concentrações festivas, montadas pelo Poder Público em diferentes pontos das cidades, contingentes expressivos de apreciadores do esporte paixão nacional a exprimirem emoções com características de apelo à confraternidade. E, juntamente com tudo isso, precisamente no mesmo momento em que tudo isso ocorre, as passeatas reivindicatórias, envolvendo jovens, adultos, famílias inteiras, pondo a circular nas ruas das capitais e outras importantes cidade clamores por mudanças indispensáveis no trato das coisas públicas, compreensível inconformismo diante das perturbadoras desigualdades de vida do cenário brasileiro, desejos ardentes de que as conquistas sociais que tantos já estão a desfrutar possam se processar em ritmo mais veloz. Repito: em que outro lugar isso tudo pode ocorrer, ao mesmo tempo, com toda essa exuberância criativa popular?

Resta dizer alguma coisa sobre os distúrbios. Os atos de vandalismo. Os atentados cometidos contra bens públicos e privados. Ficou bem documentado que a Nação inteira repele essas demonstrações de selvageria. O apoio unânime conferido às causas agitadas nas passeatas ordeiras e pacíficas, processadas em termos rigorosamente democráticos, tem sido acompanhado de total indignação com relação ao comportamento bestial de uma minoria de malfeitores, composta, em parte menor de radicais amalucados, sem vínculos com a alma popular, e noutra parte por bandidos com prontuários repletos de passagens delituosas. Esses aí não têm nada a ver com o resto. São casos, esses, sim, pra polícia resolver com o rigor recomendado pela lei.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Fábrica de moleque malcriado

Cesar Vanucci*

“Nenhum taverneiro poderá vender
farinha em cuia, que é ladroeira..."
 (Edital de 1868)

Na reorganização recente de minha biblioteca, meti a mão no fundo do baú, desencavando algumas preciosidades em matéria de livros e textos soltos. Foi assim que andei redescobrindo um exemplar do “Elixir do Pagé”, sobre o qual João Dornas Filho assim se expressa: “Um injustiçado pudor sempre dificultou a leitura do que eu considero os melhores versos de Bernardo Guimarães, os seus poemas eróticos. Sugeri, por mais de uma vez, a inclusão desses versos numa antologia galante, que contivesse outras jóias líricas da nossa poesia e continuo a pensar que constituiriam um escrínio precioso da nossa poética”.

Uma outra publicação rara, ofertada pelo próprio autor, a pessoa de meu apreço pessoal por ocasião de visita que lhe fez, na década de 30, em sua fazenda em Ponte Nova, é o livro que contém o desassombrado pronunciamento nacionalista de Arthur Bernardes, na sessão de 18 de junho de 1937, na Câmara dos Deputados, sobre a Itabira Iron.

Sem que me veja em condições de poder explicar em detalhes, recorrendo apenasmente à memória, como foram parar em meus “arquivos implacáveis”, deparei-me, também, nessa mexida, com documentos de nítido caráter picaresco que me disponho, aqui e agora, pelo seu sabor hilário, a trazer ao conhecimento dos preclaros leitores. O que chega aí é a transcrição de uma portaria editada pela Câmara Municipal de Catimbau, Província de Minas Gerais, no ano de 1868. Foi encontrada nos arquivos do INPM.
“Antônio Pires de Noronha Franco, fiscal aprovado pela Câmara desta Vila de Catimbau Minas Gerais:
Faço saber aos povos desta vara que no dia 1° do mês que vem sairei em triunfo de correção aferindo os pesos de todos, bem como as respectivas.
Art. 1°- Ficam proibidos os regos. Aqueles que não mandarem tapar os que tiverem, bem como todos buracos, serão multados em 20$000 cobre.
Art. 2°- Nenhum animal de ordem das cabras poderá roer pelo vizindário.
Art. 3°- Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo Coronel da Guarda Nacional, poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira.
Art. 4°- Negro sem bilhete, tarde da noite na rua, é ladrão. Multa no senhor de 6$000.
Art. 5°- Português de braço dado com negra cativa, alta noite, é fábrica de moleque malcriado e sem-vergonha. Cadeia nos dois, um em cada xadrez, para evitar dúvidas.
Art. 6°- Boi ou vaca deitado na rua de noite, sem lamparina no chifre, do modo que os andantes não o vejam bem, multa de 5$000.
E para que não digam que não sabiam mando afixar este edital e mais outro na porta de frente e de trás do boticário, que é o lugar onde se fala da vida alheia.
Em 4 de março de 1868.”

Proponho-me a oferecer na sequência, a transcrição de uma decisão distribuída ao Juiz de Direito da comarca de Porto de Folha, Bahia, datada de 15 de outubro de 1833.


Manoel Duda, “homine debochado”

“A capadura deverá ser a macete."
 (Decisão judicial de 1833)

No documento abaixo transcrito, que desencavei do fundo do baú, conta-se como o cabra da peste Manoel Duda, por causa de malefícios praticados contra a mulher de Xico Bento, foi condenado à capação a macete, nos idos de 1833, na comarca de Porto de Folha. Já na súmula da decisão, é sublinhado que “comete pecado mortal o indivíduo que (...) faz coças de suas victimas desejando a mulher do próximo para (...) suas chumbregâncias”.
A decisão do Juiz Municipal, acolhendo representação da Promotoria, é abaixo reproduzida, respeitada a ortografia original, inclusive com a expressão xumbregância grafada com ch.
“VISTOS, ETC.
O adjunto de Promotor Público, representa contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’anna, quando a mulher do Xico Bento ia para fonte, o supracito cabra que estava de tocaia em uma moita de mato sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher (...), para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra abrafolou-se ella, (...) deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimonio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante, e pediu a condenação delle como incruso nas penas de tentativas de matrimonio proibido (...). As testemunhas, duas são de vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra (...). Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer nauvrágio do sucesso faz prova (...):
CONSIDERO – que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher do Xico Bento por quem roia a brocha, para conxambrar, com ella, coisas que só o marido della, competia eonxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Catholica Romana; - que o cabra deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas conxambranças, viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver; - que a paciente estava peijada e que em conseqüência do sucedido, deu à luz de um menino macho que nasceu morto; - que o cabra é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias, tanto que quis também fazer comxumbranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas, e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia;- que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma causa que atalhe a perigança delle, amanhã está metendo medo até nos homens por vias das suas patifarias e deboxes; - que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo (...); - que sua Majestade Imperial (...) precisa ficar livre do cabra Manoel Duda para secula, seculorum amém, arrefem dos deboxes e semveregonhesas por elle praticados.
POSTO QUE:
Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez a mulher do Xico Bento (...) a ser capado, capadura que deverá ser feita a macete.
A execução deverá ser feita na cadeia desta Villa, Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação depos de 30 dias o mesmo Carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz. O nosso prior aconselha – Homine debochado eboxatus mulherorum inovocabus est sententias quibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pete.
Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares publicos. Apelo ex oficio desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta Comarca.
Porto de Folha, 15 de outubro de 1833  a)   Manoel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício.”


Um subversivo de nome Dionísio

“Em minha humilde opinião, ele deve
ser enforcado e ficar na forca até feder."
(Trecho da correspondência do Juiz de Paz
de um lugarejo baiano a Dom Pedro II)

Transcrevo abaixo mais um texto solto, que indoutrodia retirei do baú.
Incomodado com a presença, no lugarejo em que pontificava como representante da lei e da ordem, de um tal Dionísio, pelo visto republicano bagunceiro e anti-clerical incorrigível, Antônio Pires de Oliveira, também conhecido por Tonico Paçoca, no exercício de suas elevadas funções de Juiz de Paz, resolveu manter em cativeiro o “perigosíssimo anarquista”, aplicando-lhe severos corretivos. Entendeu também de seu indeclinável dever dar conta a Sua Alteza, o Imperador Dom Pedro II, dos malfeitos provocados em seus bem protegidos pagos pelo indigitado subversivo. A inusitada ocorrência, registrada no Arraial de Sapecado, Província da Bahia, no ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco, vem relatada com pormenores em pitoresco ofício. O texto do Tonico Paçoca foi reproduzido, alguns anos atrás, numa revista da capital da Bahia, “Mensageiro da fé”.

Protestante, maçom e republicano, o tal de Dionísio passou maus bocados nas mãos do zeloso guardião dos valores imperiais, morais e cristãos, pelo que se deduz da missiva. Conservamos na reprodução aqui trazida, a ortografia utilizada na correspondência do zeloso Tonico Paçoca ao Imperador.
“Ilmo. Sr. Imperadô,
Antônio Pires de Oliveira, vurgamente conhecido por Tonico Paçoca, moradô no arraiá do Sapecado e juis de pais do mesmo mencionado arraiá, vem por meio da presente adeclará para voça ecelentícima o que abaixo vai dizê: Appareceu por aqui “um tar de Diunizo” que intentô virá o povo na lei do protestante, maçono e arrepublicano, adeclarando que voça Sinhoria é um bobo que faz de nóis pau de amarrá égua. Eu, im vista das formação que tive por quexa do spetor, prendi em sufragante o referido Diunizo que se acha amarrado legalmente dos péis e das mãos, em corda, pur não havê argema, e purtanto eu peço a voça Sinhoria que me arresponda o que qué que eu faça do bicho, o quar eu tenho martratado pior du que um caxoro.
Na minha mirde opinião ele deve sê enforcado e ficá na forca até fedê, porque não é brinquedo a bobage que ele bota em voça Sinhoria de todo nome feio e eu já quiz dá nelle promorde as injurias que esse tranca diz a seu respeito.
Espero a sua resposta pra meu gunvernu.
No mais pro sê.
Seu amigo e defensô perpetu.
(a) Antonio Pires de Oliveira
-- Dado e paçado no arraiá do Sapecado no dia 28 de fevereiro do anno que estamos n’ele”.

Ignora-se qual tenha sido o desdobramento do caso. Se as autoridades superiores da Corte Imperial ficaram inteiradas do que aconteceu no “Arraiá do Sapecado”.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

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Assim falou Delfim Neto

Cesar Vanucci

“Num único dia, a Petrobras captou 11 bilhões de
dólares no mercado da dívida internacional, a maior
 já realizada por um país emergente em qualquer tempo.”
(Delfim Neto)

Ao tempo em que serviu como Ministro na área da Fazenda no regime militar, Antônio Delfim Neto tinha os feitos cantados em verso e prosa pelos apreciadores da política econômica então vigente.

Ele já se comunicava com intensidade e regularidade na ocasião, expendendo conceitos acatados pelos doutos em economia, dirigentes políticos, articulistas e outros setores, jubilosos todos de modo geral, com os rumos seguidos pelo país. Suas avaliações ressoavam nesses redutos como verdadeiros dogmas de fé. Os artigos, sempre bem redigidos, pautaram anos a fio a linha editorial e noticiosa de influentes veículos de comunicação. Criaram à volta de sua atuação jornalística a imagem de um autêntico mito.

A redemocratização brasileira encontrou Delfim na efervescência intelectual costumeira, alvo de muitos aplausos em variados setores da opinião pública. Mas a nova ordem de coisas foi acumulando evidências de que sua palavra vigorosa não mais encontrava a mesma acolhedora simpatia por parte de certos setores comprometidos com o imobilismo no campo das idéias econômicas.

Sua fala dardejante parece, de certo modo, não ser mais tão desejada quanto o foi no passado, em círculos intelectuais politicamente alinhados com interpretações maniqueístas da atividade econômica. Delfim vem contrariando um bocado de gente poderosa, que na grande mídia insiste em posicionar-se hostilmente com relação às atitudes assumidas pelo Brasil em suas políticas econômicas. Posições essas reveladoras de acertos inquestionáveis.

Vejamos uma amostra recente, bem elucidativa, em artigo de Delfim, desses acertos. A partir deste momento a palavra está com o ex-Ministro:
“1. O sucesso da 11ª licitação de blocos exploratórios de petróleo e gás, realizada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), permitirá ao Tesouro arrecadar 2,8 bilhões de reais em bônus de assinatura relativos aos 142 blocos licitados em uma área de 100 mil quilômetros quadrados. Como conciliar a resistência, apontada na mídia estrangeira, com essa manifestação concreta do apetite do capital externo quando, das 30 empresas de 11 países participantes da licitação (que ganharam os blocos), nada menos do que 18 são estrangeiras, com um ágio médio de mais de 700%?
2. Em segundo lugar, quem comprou as ações do Banco do Brasil no lançamento mundial da abertura do capital do BB Seguridade? Foi uma operação que captou 11,4 bilhões de reais de investidores, no maior IPO do mercado internacional no último semestre.
3. Em terceiro, o resultado do lançamento no exterior de Bônus da República que captou 759 milhões de dólares com vencimento em 2023 e taxa de risco pela primeira vez abaixo dos 100 pontos-base em relação ao título de dez anos do Tesouro americano.
4. Em maio deste ano, em um único dia, a Petrobras captou nada menos do que 11 bilhões de dólares no mercado da dívida internacional, a maior realizada por uma empresa de país emergente em qualquer tempo. Um tremendo sucesso obtido justamente pela Petrobras (cujas ações estavam sendo estigmatizadas no mercado), construindo praticamente uma “curva de juros”.
O governo tem obtido sucesso ao enfrentar os problemas estruturais, com dificuldades ainda nos gargalos dos transportes terrestres e nas administrações aeroportuárias, mas ganha agora um alento com a aprovação da MP capaz de incentivar o investimento privado para modernizar a atividade dos portos marítimos.”
Assim falou Delfim.



Trotes de ontem e de hoje

 “... abusos, com requintes maldosos,
praticados por desordeiros contumazes.”
(Trecho de editorial dos anos 40, falando dos trotes telefônicos)

Trago bem nítido na cachola o momento em que o sistema de telefonia automática foi implantado. A comunidade vibrou com a histórica conquista. Tratava-se de um precioso indício a mais do vertiginoso progresso que sacudia a cidade, como euforicamente registrado, em editorial de primeira página, no jornal local. De princípio foram instalados mil aparelhos. Um despropósito, quantidade exagerada: é o que asseveravam pessoas importantes do lugar. Ledo engano. Em curtíssimo espaço de tempo, todas as linhas foram adquiridas. A possibilidade de expansão da rede começou a ser aventada. “Ninguém segura o ímpeto desenvolvimentista de nossa metrópole”, proclamou, ufanísticamente, outro editorial.

Os aparelhos telefônicos automáticos representavam baita novidade. Podiam ser conectados, com razoável rapidez, ao simples teclar de quatro números. Barbaridade! Exclamava, cofiando o espesso bigode, o gaúcho Rodrigo, dono de empório na rua do Comércio. Na imaginação de muitos, adolescentes e adultos, começaram a ganhar consistência algumas idéias marotas, quanto ao uso do aparelho. Nasciam, assim, os trotes. Não passavam, vistos agora de uma perspectiva histórica ampla, de brincadeiras assaz inofensivas. Mas quebravam, de certo modo, alguns preceitos de inocência que regiam o relacionamento bem comportado.

O telefone tilintava. Pedia-se o número. Número dado, a voz dizia: - Desculpe, é engano. Ou, então, perguntava: “É da funerária?” Não, não era. “Queira, por favor, desculpar”. Nalgum trote mais “ousado” trocava-se, na pergunta, a “funerária” pelo nome da dona de uma manjada casa de tolerância localizada no famoso Bacolerê. Mas esse tipo de provocação era raro. As reações aos trotes telefônicos podiam assumir características turbulentas. Como aconteceu com dona Balbina, veneranda dama da sociedade, apontada tradicionalmente na prestigiada coluna social do jornal, em sua data natalícia, como “portadora de peregrinas virtudes morais e cristãs”. No caso em questão, madame queimou no golpe com a intensidade das chamadas. Confessou-se injuriada em carta ao jornal. Pediu providências na delegacia de polícia, mode conter os desmandos e apurar responsabilidades. O delegado chegou a fazer apêlo público por uma pista que conduzisse à identificação dos indivíduos inescrupulosos que estavam provocando desassossego em lares honrados. Mas ninguém denunciou dos malfeitos o autor. Num editorial inflamado, o jornal conclamou os homens e mulheres decentes, afeitos à convivência fraternal, a se manterem alertas “contra os abusos praticados, com requintes maldosos, em trotes telefônicos, por desordeiros contumazes.” O tempo rolou e essa modalidade de trote deixou de constituir problema.

Essas lembranças prosaicas da infância estão sendo reavivadas por conta dos trotes de agora. Manifestação contundente de tempos endoidecidos. Mudando as palavras, por conta dos processos perversos hoje utilizados na comunicação telefônica. A partir de centros de operação montados – pasmo dos pasmos! – em presídios, o chamado “crime organizado” vem se ocupando, rotineiramente, do “trote do terror”. De posse de dados da vida do cidadão, obtidos sabe-se lá por quais escusos meios, promove ligações com fitos de extorsão. Em modalidade menos agressiva no contato telefônico, acena, para pessoas desprevenidas, com prêmios imaginários, a “serem entregues” mediante uma contrapartida em depósito bancário. Na forma mais assustadora de contato, os bandidos fazem crer que um ente querido da família foi alvo de “sequestro relâmpago”. Sua libertação depende do pagamento imediato de determinada soma.

Olhando, com justificável temor, os trotes de hoje, que ocorrem num momento, sem dúvida, eletrizante na história dos avanços eletrônicos na comunicação, a gente não resiste à tentação de compará-los com os trotes das antigas angústias de dona Balbina, naquela fase risonha da infância, contemporânea da chegada dos primeiros aparelhos  automáticos. A comparação desemboca em comovente conclusão.

Tempos diferentes, bem diferentes, na verdade, aqueles. Éramos, todos, uns baitas ingênuos, despreocupados e inocentes. Só que não sabíamos.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Você sabe com quem tá falando?

Cesar Vanucci *

“Poucas coisas na convivência humana possuem feição tão
assustadora quanto a arrogância dos que se julgam poderosos.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

“Você sabe com quem tá falando?” Taí uma espécie de senha universal, cunhada desde priscas eras, por um tipo de gente deslumbrada com o poder e interessada em traçar, alto e bom som, as prerrogativas de quem manda e as obrigações de quem obedece.

O exercício democrático, a disseminação de conceitos sobre direitos essenciais, a transparência (a cada dia que passa mais reclamada) nas ações de genuíno interesse coletivo contribuem para refrear, de certa maneira, essas demonstrações de prepotência, causadoras de tantos transtornos e injustiças na convivência social. Os temores de exposição pública danosa à imagem pessoal contêm, algumas vezes, os ímpetos de indivíduos com formação mandonista habituados a se fazerem ouvir sem contestações, ou segundo seu egocentrismo, a se fazerem respeitar. Mas, de quando em vez, o controle se lhes pode escapar. Os impulsos afloram e as máscaras das conveniências sociais caem. Em instantes assim, o “você sabe com quem tá falando?” irrompe com fragor de sentença.

Foi o que aconteceu, recentemente, com aquela socialite carioca pega em flagrante num delito de trânsito. Estado de espírito alterado, chamada às falas, usou primeiramente de todo charme de que se sentiu capaz para persuadir os guardas a não enquadrá-la nos conformes da lei. Apelou, ao depois, pra tentativa de suborno. Saindo-se mal na empreitada, bradou triunfalmente, por derradeiro, que sendo rica e poderosa não iria mesmo ser presa, já que cadeia é feita pra pobre e negro. Quebrou a cara. Foi recolhida, com toda sua elegante insolência, ao xilindró. Só logrou a liberdade depois de pagar fiança. Desfrutou ainda do “direito” de ter estampado o rosto bem maquiado por período razoável nas colunas. Não as sociais.

Em seu apreciado programa na Itatiaia, Eduardo Costa relatava, indoutrodia, um episódio interessantíssimo envolvendo personagem familiarizado com essas atrevidas ações intimidatórias nas relações com zelosos agentes da lei. Caso do filho de um figurão, flagrado em estado etílico ao volante numa blitz de rua. Solicitado a apresentar as carteiras de identidade e de habilitação, fez o que pôde pra sair pela tangente, argumentando, na busca de cumplicidade, ser filho de Secretário de Estado. A cada vez que o policial pedia os documentos, ele respondia, em tom categórico, dando a conversa praticamente por encerrada, com a alegação de ser filho de alguém encastelado no poder. O agente, explicando, cortez e pacientemente, já estar ciente desse seu honroso vínculo familiar, insistia na entrega dos documentos, de conformidade com as exigências legais. O rapaz, não se dando por achado, resolveu elevar o tom de voz ao declinar outra vez mais o parentesco que, em seu bestunto, lhe asseguraria a condição de poder sair incólume, quer dizer impune, da enrascada em que se meteu. A arrogância ganhou tamanha proporção que o agente da lei acabou, como se diz no popular, “queimando no golpe”. Confessando-se injuriado face à intimidação, revelou-se disposto a quebrar conscientemente, naquele momento, quaisquer que viessem a ser as consequências do gesto, o compromisso profissional, religiosamente acatado na carreira, de empregar com moderação a força física no enfrentamento de situações adversas. Substituiu o compromisso pelo prazer de aplicar um sonoro tabefe nas fuças de uma figura tão presunçosa. O sopapo teve sabor de catarse.

Essa historinha traz à tona um outro episódio transcorrido, décadas atrás, nos chamados “anos de chumbo” de tão doloridas recordações. O primogênito de um general reformado “linha dura” foi detido numa operação policial, junto com colegas, por conta de baderna aprontada num bar. Submetido aos interrogatórios de praxe no distrito, invocou na maior das insolências a condição de “filho”, encarando com ar zombeteiro os agentes.

Impactada com a revelação, a autoridade policial considerou de bom alvitre, pelo sim pelo não, confirmar o que lhe estava sendo passado. Ligou para a casa do militar graduado, pediu mil desculpas pelo adiantado da hora e expôs, meio sem graça, o que tinha acontecido. Ouviu do interlocutor, o general, a taxativa declaração de que jamais um filho seu, tendo em vista a sólida formação moral recebida no respeitável ambiente familiar, poderia ser flagrado na situação delituosa narrada. A pessoa recolhida ao xadrez seria, com toda certeza, um impostor.

Pela inominável façanha de tentar passar-se por filho de uma figura tão proeminente e conceituada, o rapaz comeu “o pão que o diabo amassou” em sua passagem pela cadeia. Não fosse pela oportuna intervenção dos irmãos, informados, só horas mais tarde, dos singulares pormenores da história, o “corretivo” que se lhe foi aplicado madrugada afora poderia perfeitamente ter-se estendido, sem choro nem vela, manhã (e, talvez, tarde) adentro.


Um presídio desumano

 “Guantânamo não pode e não deve existir.”
(Ângela Merkel, chanceler alemã)

˜ Guantânamo continua sendo um osso atravessado na garganta de Barack Obama. O presídio estadunidense instalado em solo cubano, considerado pela ONU um local que dispensa tratamento “cruel, desumano e degradante” aos prisioneiros, abriga 166 pessoas até hoje sem acusação formal e sem julgamento, algumas delas encarceradas há mais de dez anos.
O titular da Casa Branca reconheceu, desde sua primeira campanha eleitoral, a violação permanente às convenções internacionais e aos direitos fundamentais dos seres humanos configurada na existência da prisão. Prometeu, então, fechar as portas de Guantânamo e montar processos legais com relação aos presos ali recolhidos tão logo assumisse. Não fez neca de pitibiriba. Pelo menos até agora, já no início do segundo mandato. Culpou o Congresso por desautorizá-lo a promover as medidas anunciadas. Fez, ao mesmo tempo, ouvidos moucos a relatórios produzidos por sua própria assessoria na área de segurança, onde se proclama que a maior parte dos presos não representa risco algum que justifique a detenção. Para agravar a situação, dezenas de detidos, em greve de fome há quase três meses, vêm sendo alimentados na base da força bruta, processo também condenado com veemência pela ONU e outros organismos engajados na defesa dos direitos civis.

˜ A Líbia após Kadafi continua tão violenta e enigmática quanto a Líbia da era do ditador apeado do poder. Grupos de diferentes tendências se engalfinham por posições de comando, espalhando o terror por tudo quanto é canto. No Egito e demais países sacudidos pela assim chamada “primavera árabe”, pelo que se está sabendo, alguma reforma de araque veio a ser feita com o aparente propósito de não se fazer reforma alguma, de acordo com o sibilino receituário de Maquiavel. As aterrorizantes vociferações daquele governante coreano amalucado deixaram, de repente, de frequentar as manchetes. O programa nuclear dos aiatolás raivosos da antiga Pérsia, foco de acesa celeuma que já dura anos, andou também tomando “chá de sumiço” no noticiário nosso de cada dia.Tudo isso é assaz intrigante.
Fruto, talvez, de irremediável  ingenuidade, carrego comigo atroz curiosidade, que imagino jamais possa ser satisfeita. Que fatores misteriosos serão mesmo esses que, nos bastidores, regulam o incremento súbito ou, contrariamente, o silêncio tumular em torno dos confusos e perturbadores acontecimentos registrados nessas e noutras paragens notórias pela permanente ebulição política e social?

˜ Com os bolsos e bolsas abarrotados de dólares, adquiridos nas falcatruas praticadas aos tempos de seu reinado à frente das entidades que presidiram, João Havelange e o fiel escudeiro e ex-genro Ricardo Teixeira descalçaram finalmente as chuteiras. Cascaram fora dos cargos efetivos e honorários que vinham ocupando e que, afinal de contas, acabaram desonrando com atos de deslavada corrupção. Nessa retirada de cena do palco futebolístico foram acompanhados de um outro parceiro renomado, igualmente flagrado na maracutaia apurada pela Justiça (suíça). Nicolas Leoz, paraguaio, viu-se também compelido, pelas mesmíssimas razões dos brasileiros, a renunciar à presidência da Conmebol.
Nos círculos esportivos e nas manchetes o defenestramento dos célebres paredros não teve a repercussão que fazia por merecer. Talvez pela circunstância de que ambos, ao longo de suas movimentadas carreiras, mantiveram relacionamento estreito com os demais dirigentes esportivos e componentes dos esquemas de divulgação vinculados ao assim chamado esporte bretão.

A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...