quinta-feira, 29 de outubro de 2015

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG

XXXVIII ENCONTRO 
CULTURAL DA ACADEMIA





Deu a louca

Cesar Vanucci

Cadê o bombom que estava aqui?”
(Foi o que perguntou a autoridade antes de enquadrar
nos devidos conformes a serviçal de salário mínimo)

Deu a louca. Só pode ser.

Na mui’heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, cenário constante de decisões e reações comportamentais (sobretudo na área de segurança pública) que o bom senso imagina serem sempre improváveis, um delegado deixa cair comentário desnorteante a propósito de ocorrência que reclama pronta e decidida ação policial. Moradores de um conjunto residencial do programa “Minha Casa, Minha Vida” denunciam estar sendo molestados pelo tráfico de drogas e por “milicianos” (ou seja, policiais civis e militares organizados em gangues) que atuam no conglomerado. A autoridade deixa entendido que os reclamantes “agiram irresponsavelmente” ao optarem por morar no local, sabedores de antemão do fato de que os incômodos vizinhos se achavam “radicados” há tempos na região. Em outras palavras: se o lugar já possui “legítimos donos”, vale dizer, os bandidos, por que cargas d’água, afinal de contas, as famílias contempladas pelo programa habitacional resolvem, de repente, se instalarem ali, em flagrante desrespeito aos “direitos adquiridos” dos antigos moradores?

· Enquanto isso rolava, zelosos Procuradores da Justiça Eleitoral carioca, no rigoroso exercício de seus deveres institucionais, expediam cartas de intimação a eleitores “acusados” de haverem feito doações na campanha política. Exigem que venham explicar tintim por tintim, em Juízo, as motivações reais do “ato pecaminoso” praticado. Nenhuma das doações feitas a candidatos da simpatia desses eleitores “chamados às falas” excedeu a soma de R$ 20,00. Isso mesmo que você acabou de ler: vinte reais. Os Procuradores levantam a grave “suspeita” de que as transferências de recursos das pessoas físicas indiciadas poderiam ocultar – quem sabe lá? - um novo “Lava-Jato”. Dá procês?

· Não se sabe bem se com a manifesta intenção de ofuscar as “otoridades” do Rio de Janeiro em matéria de excentricidade e prepotência, um outro delegado, dos quadros da Polícia Federal no Pará, protagonizou na mesma semana episódio capaz de estarrecer, como era costume dizer-se em tempos de antanho, um piedoso e benevolente frade de pedra. Enquadrou nos devidos trinques legais, inclusive arrebatando-lhe o emprego de salário mínimo, serviçal encarregada da limpeza da repartição pelo gravíssimo delito de haver se apoderado de um bombom em sua mesa de trabalho. Deixou bastante claro que, em sua esfera de atuação, manter-se-á sempre vigilante, como no edificante aconselhamento do escotismo, mode impedir que crimes de tamanha gravidade sejam consumados, em defesa da ordem constituída e bons costumes, salve, salve...

· Ao ser informado por alto do incidente, supus, inicialmente, com toda sinceridade, que os detalhes do relato repassado estivessem incorretos. Ou, então, que o episódio não teria acontecido por aqui, nestes pagos brasileiros, e, sim, talvez, numa daquelas regiões conturbadas do Oriente dominadas por enfezados talebãs e sectários outros com a mesma perversa índole. Mas, não, para assombro e aturdimento meu e de mais gente, o “palco” da inverossímil manifestação foi mesmo um recinto situado em Belo Horizonte, reconhecido pela sociedade humana e tradições religiosas como espaço sagrado resguardado das paixões e emoções incendiárias. O velório de um personagem político destacado, ex-senador José Eduardo Dutra, à hora em que amigos e parentes lhe prestavam as derradeiras homenagens de saudade, foi inacreditavelmente alvejado por integrantes de grupamento radical desprovidos de um mínimo de sensibilidade social. Impelidos pelo objetivo mórbido de propagar palavras de ordem raivosas mesmo que em situação pra lá de imprópria, os referidos elementos protagonizaram ato de vandalismo moral sem precedentes, tanto quanto saiba, na crônica política brasileira.


Símbolos inocentes da hediondez

Cesar Vanucci

As guerras são calamidades compostas
de todas as calamidades imagináveis.”
(Padre Vieira)

A matança ordenada por Herodes, narrada pelos evangelistas, é universalmente reconhecida como o evento mais remoto, na história conhecida dos homens, da hediondez praticada desde sempre contra criaturas inocentes. Em todas as quadras da existência podem ser colhidos abundantes exemplos de atrocidades envolvendo seres indefesos.

Mas foi mesmo com o advento da fotografia, nestes tempos modernos de avanços tecnológicos eletrizantes, que outros registros emblemáticos, nessa mesma linha apavorante, acabaram de fato se incorporando à lembrança perpétua das multidões.

Do período da feroz perseguição nazista aos judeus ficou o estonteante flagrante de uma criancinha assustada com os braços erguidos em sinal de rendição ante a ameaça dos fuzis de seus algozes da SS. A meiga figura  integrava grupo de prisioneiros “selecionados” para viagem sem retorno aos tenebrosos campos de extermínio.

Quase nos estertores da guerra do Vietnã uma câmera captou, em estrada apinhada de civis sem rumo, a carreira desabalada de uma garotinha em pânico, totalmente nua, com a pele do corpo desprendendo-se da carne. Ela acabara de ser atingida por fragmentos de bombas de napalm.

Mais pra frente, num desses periódicos e previsíveis conflitos tribais da África esquecida dos homens e abandonada por Deus (conforme ditado popular moçambicano), um correspondente de guerra captou essa imagem arrepiante. Imensa ave de rapina postada em posição de pre-ataque num local coalhado de vestígios de batalha onde jaz abandonado garotinho em estado de completa prostração.

Por ocasião da invasão ao Iraque, promovida, como proclamou o xerife George Bush, com o “sagrado” objetivo de implantar no país um edificante “modelo democrático” para o Oriente, outra cena estarrecedora percorreu mundo. Um grupo de meninos, o pavor estampado nos semblantes, surpreendido no interior de moradia arrombada, responde com gestos desesperados de capitulação incondicional às ameaças ferozes de patrulha armada até os dentes.

As fotos, tempos depois, das centenas de meninas sequestradas em escolas da Nigéria por alucinados guerreiros do Boko Haram, comparsa do sinistro ISIS, compuseram mais um capítulo tétrico da eterna tragédia do massacre de inocentes. A notícia, pouco mais tarde, de que algumas delas viraram “bombas humanas” em ações terroristas deflagradas na capital do país, Lagos, acresceu o desalmado lance do sequestro de componente simplesmente medonho.

Outra visão de barbárie inimaginável tem sido, ultimamente, projetada com frequência nas redes sociais. Dirigentes do Estado Islâmico confessam-se “orgulhosos” em poder exibir militantes mirins, trajados à moda da organização, empunhando adagas, junto a inimigos ajoelhados, à espera da fatídica ordem de comando para a degola desses famigerados “infiéis”. Ou seja, pobres viventes que não rezam pela cartilha do tresloucado agrupamento fundamentalista.

Noutro instante, chega até nós o grito angustiado do menininho do Iêmen, o corpo dilacerado, pedindo aos médicos e enfermeiras do hospital bombardeado para que não o deixem morrer. Materializa-se aí novo episódio emblemático de um cortejo infindável de crueldades. Tanto mais quanto se sabe que o desvelo dos agentes de saúde à volta do menor não foi suficiente, dolorosamente, para atender o apelo.

Voltando à África, onde os antagonismos tribais costumam derivar de perversos esquemas econômicos e geopolíticos impostos de fora pra dentro, deparamo-nos com mais um lance agoniante.  Documento típico da conturbação ecológica hoje reinante neste planeta azul. Crianças maltrapilhas disputam o acesso a água, com bois e cavalos, num tosco recipiente de madeira, em pedaço de chão árido despojado de vegetação. São protagonistas atordoados de uma situação extremamente dramática que expõe o elevado grau da irresponsabilidade humana no trato com a Natureza.

E tem também, por último, a história recente daquele anjinho sírio despejado pelas ondas do Mediterrâneo numa praia da Turquia. O incidente ganhou rapidamente, na emoção sofrida de bilhões de pessoas, a condição de símbolo atualíssimo de horrenda tragédia coletiva, deploravelmente sem qualquer fim à vista.

Os refugiados escorraçados de suas terras pelas lutas fratricidas, pela miséria implacável, pela intolerância religiosa, em consequência da insensatez de dirigentes políticos e grupos sociais elevada a nível de paroxismo impensável, escancaram o fracasso irreparável de segmentos influentes da sociedade humana na lida com questões essenciais na convivência civilizatória.

A imagem do soldado carregando o menor é de impacto avassalador. Soa como bofetada na cara da sociedade. Clama das lideranças, dos “donos do mundo”, uma reflexão, ancorada naturalmente na esperança, esse impulso heroico da alma, sobre o sentido de tudo quanto anda acontecendo. Perguntas espocam. Como reverter o quadro universal angustiante das desigualdades sociais? Como enfrentar as ameaças dos fundamentalismos, do racismo, da intolerância, geradores de infindáveis conflitos? Como abolir as guerras que as mães tanto abominam, conforme o dito de Horácio?

Padre Vieira, nos “Sermões”, concita-nos a uma meditação acerca dos males incuráveis das guerras. Todas as guerras. Lembra, serem elas, inseridas desde sempre em nossa história, calamidades compostas de todas as calamidades imagináveis, “em que não há mal algum que, ou não se padeça, ou não se tema, nem bem que seja próprio e seguro”.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Esses fantásticos para-atletas

Cesar Vanucci

“Conseguem fazer mais com menos.”
(Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro)

A opinião pública brasileira acompanha com visível simpatia e um certo fascínio o desempenho dos atletas paraolímpicos brasileiros. Identifica em seus semblantes, atitudes e palavras, na resoluta disposição com que se atiram nos preparativos e nas competições, as melhores virtudes da gente brasileira. Adversidade alguma abala o entusiasmo das equipes. O sucesso por elas alcançado, bem analisadas as coisas, é superior em muito ao dos atletas tradicionais. É só por tento nas posições conquistadas, por uns e por outros, nos últimos tempos.

No último Parapan-Americano, os brasileiros subiram mais vezes ao pódio, nas diversas modalidades esportivas disputadas, do que seus oponentes dos Estados Unidos e Canadá, duas potências esportivas. O primeiro lugar nos Jogos foi conquistado pela segunda vez. As medalhas de ouro acumuladas, neste e nos dois Parapans anteriores, somaram praticamente o dobro das alcançadas pelos nossos representantes nos três últimos Jogos Pan-Americanos. No de Toronto, como se recorda, o Brasil pegou o 3º lugar na classificação geral.

Na “IstoÉ”, o repórter Raul Montenegro alinha interessantes considerações a respeito dos feitos dos atletas paraolímpicos. Começa por explicar que, nada obstante a diferença de rendimento, o segmento recebe proporcionalmente bem menos incentivos financeiros do que o atletismo tradicional. Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), sublinha que os para-atletas “conseguem fazer mais com menos”. Destaca também o fato de que os Estados Unidos e o Canadá canalizam, só para os Jogos Paralímpicos, valores maiores do que os liberados para o financiamento global, desde a base até a ponta, dos esportistas brasileiros com necessidades especiais. Mesmo assim, apesar dos investimentos e das estruturas serem inferiores aos dos outros países, o trabalho executado no Brasil tem garantido números excepcionais. A introdução das atividades paralímpicas no sistema escolar, como conceito de inclusão social, vem permitindo planejamento de longo prazo. Essa circunstância, acrescida de um esquema de aprimoramento na formação de técnicos, tem rendido auspiciosos frutos. Contamos hoje com uma plêiade de atletas talentosos, como é o caso, para ficar na citação de apenas dois nomes, de André Brasil e Daniel Dias, considerados grandes estrelas da natação mundial. Paulo Brancatti, professor da Unesp (Universidade Júlio de Mesquita Filho, de São Paulo) resume nas frases abaixo o desempenho das equipes vitoriosas do Paraolímpico Brasileiro: “Os atletas assumem o esporte com mais vontade, determinação e garra. Para muitos é a oportunidade de inserção na vida social.”

Nesta hora em que, em tantas faixas de atuação da vida nacional, avistamos algumas reações de pessimismo e de desalento, é altamente saudável e encorajador perceber nesse time valoroso de compatriotas, nossos para-atletas, empenho incomum em proclamar as virtualidades da brava gente brasileira. Em projetar sua crença no futuro do país.

Na Paraolimpíada do ano que vem, no Rio de Janeiro, podemos apostar, com firmeza, que eles estarão, novamente, enchendo de alegria e emoção positiva os corações de todos nós.



Mas é muita amolação!

Cesar Vanucci

“A gente não carecia passar por tanta amolação!”
(Como diria Tio Domingos, o Paim, se ainda entre nós,
comentando acontecimentos atuais da vida brasileira)


Tio Domingos, Domingão para os amigos das animadas rodas de carteado, o Paim no chamamento carinhoso da meninada da casa de vó Carlota.

Dono de irradiante simpatia conquistava fácil as pessoas pelo jeito prestativo e demonstrações de generosidade. Todos iam a ele em horas de precisão. Além de oferecer o ombro amigo para lamúrias, sem cobrar retribuição, cumulava quem partilhasse de sua convivência de palavras e gestos de incentivo. Criatura meiga, de sensibilidade aguda e vivacidade intelectual aflorada, encantava-se com a maneira de ser do brasileiro comum, com suas crenças e reações comportamentais.

Estimulava-nos a aprofundar no conhecimento das coisas genuínas do país. Inteirado de meu interesse pessoal pela leitura presenteava-me, de quando em sempre, com textos extraídos de livros, ou das páginas do “Correio da Manhã”, fonte de informações preciosas naqueles tempos, embora as edições daquele jornal do Rio de Janeiro só chegassem às mãos dos leitores do interior com vários dias de atraso.

Decorei, por conta de empenho seu, muitos versos com louvação à “terra nova que ao teu olhar fulgura”, conforme o dizer empolgado de Olavo Bilac. Guardo bem nítida também, na memória velha de guerra, daqueles tempos saudosos, fala poética danada de sugestiva do Djalma Andrade. Por sua candente atualidade, animo-me a reproduzi-la: “A gente murmura, fala, / Velhos defeitos propala / Em linguagem rude e vil: / - É a terra pior do mundo! / Mas no fundo, bem no fundo, / Quanto amor pelo Brasil!”

Tio Domingos, o Paim, tinha engatilhada na língua uma expressão com marca registrada para conceituar eventos do cotidiano que não lhe saíssem ao agrado. Homem sereno e comedido usava a frase para desabafos. Ela assinalava o ponto culminante, o limite extremo de seus desencantos, indignação cívica, desilusões. “Essa coiseira toda não tá de bom jeito. A gente não carecia passar por tanta amolação!”

Repasso bem, ainda hoje, as cenas onde,  após a costumeira leitura do “Correio da Manhã” - porta-voz respeitado das novidades políticas recentes na então capital da República –, meneando a cabeça nevada em sinal de reprovação a uma questão qualquer, todo solene, pausadamente, Paim largava no ar a frase que falava de seu desgosto com os rumos dos acontecimentos.

Uma noite dessas, relembrando com ternura daquele figuraço austero, que tanta influência exerceu em minha preparação para o jogo da vida, pus-me a imaginar o Paim entre nós, alojado numa poltrona diante da telinha, inteirando-se das histórias atuais da vida política, social e econômica. Histórias como as do resumo abaixo.

A operação Lava-Jato com seus infindáveis desdobramentos. As manobras de bastidores, pouco éticas, de governistas e oposicionistas na luta infrene pelo poder. Os apelos golpistas de manjados inimigos da democracia. A ciranda interminável das maracutaias cometidas por agentes públicos, afortunadamente combatidas nos dias que correm com severidade nunca dantes registrada na história brasileira. A ineficiência administrativa dos administradores públicos em tantas áreas da vida comunitária. O posicionamento antiético de representante graduado do STF prejulgando a atuação do Executivo, num momento em que muitos juristas configuram a possibilidade de os atos governamentais virem a ser, nalgum momento, apreciados pelo Poder Judiciário. As evidências ruidosas de que o relator do parecer do Tribunal de Contas sobre as contas governamentais está enredado na chamada “Operação Zelotes”. Os decretos do governo de São Paulo tornando confidenciais documentos ligados a negócios do Metrô e ao sistema de abastecimento de água. As suspeitas fortemente embasadas de envolvimento do presidente da Câmara Federal em grossas bandalheiras. Os acordos políticos de cunho vergonhosamente fisiológicos para assegurar a base de sustentação parlamentar. A lista imensa de políticos, praticamente de todas as legendas, implicados em negócios ilícitos. O ajuste fiscal mal concebido, claramente prejudicial às camadas dos andares de baixo. E por aí vai...

Na cena contemplada na imaginação vi, com absoluta nitidez, o Paim erguer-se contrafeito da poltrona, esmagado pelas amargas revelações, sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação, numa repetição de  gesto característico da distante fase da meninice, e, pausadamente, ar solene, com seu envolvente vozeirão, sentenciando: “Sabe duma coisa. Essa coiseira toda não tá de bom jeito. A gente não carecia passar por tanta amolação!”




 “O Tempo” focaliza lançamento 
do livro “Realismo Fantástico

Na edição do dia 13 de outubro, terça-feira, o jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, ressaltou o lançamento do livro “Realismo Fantástico”, em reportagem assinada pela jornalista Ana Elizabeth Diniz, editora da página “Esotérico”.
Na sequência reproduzimos a publicação citada.


sexta-feira, 16 de outubro de 2015



Fonte de receita desprezada

Cesar Vanucci

“Não existe país no mundo
que tenha esse estoque de dívida”.
(Luís Inácio Adams, Advogado-Geral da República)

Diz aqui. E se, de repente, com seu orçamento doméstico acusando baita déficit, mesmo sendo você credor, com absoluta legitimidade, de soma mais que suficiente para reequilibrar as contas, que providência prioritariamente se animaria a tomar? Concentraria esforços em negociações capazes de garantir o efetivo recebimento daquilo que lhe estivesse sendo devido, ou, deixando displicentemente de lado tal hipótese, sairia à cata, desenfreadamente, de outras fontes de recurso mode solucionar a pendência?

O Governo Federal, agindo na hora presente que nem barata tonta na procura de saídas para as crises enfrentadas, vem ignorando por completo, assumindo opções criticáveis, uma fonte de receita sumamente apreciável. São créditos em favor do Erário tidos como líquidos e certos por quem conhece a fundo o assunto.

Alcançando estratosféricos patamares, a dívida ativa da União é estimada na atualidade, pela Procuradoria-Geral da Fazenda Pública, em 1 trilhão 460 bilhões de reais. Dinheiro pra encardir, como se costumava dizer, na saborosa linguagem das ruas, em tempos de antigamente. Para o Advogado-Geral da República, Luís Inácio Adams, a revelação constitui um tremendo absurdo. “Não existe país no mundo que tenha esse estoque de dívida”, deplora.

Análise sobre a momentosa questão, feita pelo jornalista André Barrocal na “CartaCapital”, lembra que o valor da dívida ativa é equivalente ao da lei orçamentária de 2016. Mais: a recuperação de apenas 2 (dois) por cento da bufunfa correspondente aos débitos asseguraria as condições essenciais para a equipe econômica cobrir o déficit fiscal anunciado. Com a vantagem de afastar as ameaças contidas, no ajuste projetado, aos respeitáveis direitos sociais e trabalhistas.

Temos para mostrar, na sequência, a composição, em termos gerais, da dívida ativa federal: do total, 1 trilhão e 14 bilhões são de origem tributária; 313 bilhões, de origem previdenciária e 94.2 bilhões de não tributária. Os principais devedores, em bilhões de reais, integram as seguintes áreas de atividade produtiva: indústria, 236.5; comércio, 163.5; sistema financeiro, 89.3; setor rural, 13.6; construção (que também, faz parte, para inúmeros efeitos legais, do segmento industrial), 21.4; extrativismo (idem com relação ao que se disse sobre o setor da construção), 44.1; mídia, 10.8; eletricidade, 8.2; educação, 20.5; transporte, 36.4; atividades administrativas, 28.7; outros segmentos, 66.3. Entre os maiores devedores, 65 por cento operam no eixo Rio-São Paulo.

A Procuradoria-Geral da Fazenda assinala que, no curso de dois decênios, o montante da dívida pública simplesmente quadruplicou, com um percentual sobre o PIB (Produto Interno Bruto) que já roça os 25 por cento. Pelos prognósticos dos técnicos fazendários, o montante dos débitos - hoje estimados, como já dito, em 1 trilhão e 460 bilhões - deverá elevar-se, até o final do ano, a 1 trilhão e 540 bilhões.

Lancemos, num voo condoreiro de imaginação, a hipótese de uma negociação ampla com os devedores, conduzida obviamente por pessoal especializado e idôneo, diferente dos pilantras de alto coturno que andaram promovendo as ações fraudulentas investigadas pela “Operação Zelotes”. Se os entendimentos relativos às contas em débito, abrangendo impostos, contribuições à Previdência, taxas diversas, multas ambientais, fossem conduzidas a bom termo, induzindo os devedores a saldarem, por exemplo, 50 por cento das parcelas arroladas, o valor apurado poderia chegar a 770 bilhões. Aproximadamente a metade de toda a riqueza gerada pela economia nacional num semestre.

Se, por outro lado, das negociações resultasse o recolhimento aos cofres públicos de um pouco menos, digamos 10 por cento, a nota preta arrecadada corresponderia a 146 bilhões. Reduzindo um bocadinho mais o percentual - que tal 5 por cento? -, seriam, ainda assim, 73 bilhões, importância bem superior ao déficit orçamentário. O trabalho jornalístico mencionado oferece cálculos impressionantes. Os números globais da dívida possibilitariam, entre outras coisas, distribuir um salário mínimo a cada brasileiro pelo período de nove meses, ou ainda zerar o déficit habitacional existente com a aquisição dos imóveis mais caros do programa “Minha Casa, Minha Vida”.

Temos aqui mais informações, danadas de desconcertantes, sobre o assunto. Nas pendências tributárias assinaladas, os caloteiros são organizações poderosas, com dívidas superiores, em média, a 15 milhões de reais. Os litígios pendentes de definições abarcam predominantemente os segmentos bancário, de extração mineral e energético. Os contribuintes, pessoas físicas e jurídicas, inscritos na dívida ativa, não passam de 13 mil, contingente numérico de bom tamanho para favorecer frutíferas negociações.

Indagações pertinentes emergem do que acaba de ser exposto. Será que não daria para os encarregados da política econômica, de maneira a desanuviar tensões causadas pelos incongruentes posicionamentos volta e meia assumidos, emitirem um sinal tranquilizador à sociedade brasileira, anunciando a disposição de recorrer, nesse momento de apertura financeira, à substanciosa fonte de receita sugerida pela própria Fazenda Nacional?

Seria pedir demais ao Governo que colocasse sob o foco das atenções prioritárias, procurando eliminar o déficit nas contas orçamentárias, iniciativas viáveis  que contemplassem com a seriedade recomendável a questão da sonegação e das infindáveis contendas dela decorrentes?


Tudo como dantes

Cesar Vanucci

“Se não vierem as mudanças por todos reclamadas, a seleção de futebol promete “brindar” a torcida com outros estrondosos fiascos.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Falar verdade, desde que me entendo por gente, não me recordo de momento algum na vida do país em que a torcida desse mostras, como agora, de tão manifesta apatia com relação às coisas da seleção brasileira de futebol. Cadê aqueles inflamados papos de rua, que em tempos de outrora eram reservados a comentar a participação do escrete nas competições? Observo, intrigado, que as pessoas não guardam mais os nomes dos jogadores, palpitam menos a respeito da escalação do time, chegam, até mesmo, a não saber com precisão as datas dos jogos.

Existe, naturalmente, uma dorida explicação pra tudo. Os 7 a 1 da partida com a Alemanha, diante de um Mineirão aturdido e de milhões de telespectadores escandalizados, abriram ferida de cicatrização difícil. Mas o que veio na sequência foi estrondosamente frustrante. Reduziu a estilhaços a expectativa geral, centrada compreensivelmente em mudanças radicais que tivessem o condão de devolver ao futebol pentacampeão seus instantes de glória e esplendor. Tudo permaneceu rigorosamente como dantes, por vontade dos paredros esportivos encastelados nas instâncias providas de poder decisório. Não se vislumbrou, da parte desses setores, a mais tênue preocupação em alterar os procedimentos errôneos de sempre  que conduziram ao estrondoso fiasco na Copa de 2014.

Na Copa América, pela ausência das medidas corretivas recomendadas, entramos outra vez pela tubulação. O indesculpável tropeço, já no comecinho das eliminatórias para 2018, não foi, então, assim, de molde a trazer espanto. Já era, de certa forma, esperado. Não fica difícil prognosticar outros reveses contundentes pela frente. Sem uma sacudidela pra valer, envolvendo os escalões superiores, implicando na recomposição do grupo técnico, na adoção de novos critérios de convocação, na preparação adequada dos atletas selecionados, os resultados positivos almejados ficarão apenas na saudade.

As “mudanças” feitas no tocante à direção técnica da seleção não passaram de uma mera troca de seis por meia dúzia. Os métodos de trabalho continuaram os mesmos. Os jogadores chamados a envergar a camisa canarinho são praticamente os mesmos dos repetidos insucessos recentes. Não transmitem confiabilidade. Estão aquém do padrão exigido de atletas aos quais se atribua a responsabilidade de representar condignamente a tradição futebolística brasileira.

Festa de gala da imprensa.
Os 70 anos de existência do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foram solenemente comemorados numa festa de gala promovida pela Assembleia Legislativa de Minas. Reunindo personagens de realce no cenário intelectual mineiro, o evento permitiu que centenas de convidados se confraternizassem, em atmosfera de envolvente apreço e carinho, com os brilhantes jornalistas homenageados. A saber: José Mendonça, com seus quase cem anos de refulgente trajetória profissional; José Maria Rabelo, Guy de Almeida, Dídimo de Paiva, nomes legendários no periodismo mineiro; Kerison Lopes, atual presidente do Sindicato, com atuação marcada por um sem número de iniciativas relevantes. Circulou na ocasião a primeira edição de “Pauta”, revista de conteúdo e configuração gráfica invejáveis.



 “O Tempo” focaliza lançamento 
do livro “Realismo Fantástico

Na edição do dia 13 de outubro, terça-feira, o jornal “O Tempo”, de Belo Horizonte, ressaltou o lançamento do livro “Realismo Fantástico”, em reportagem assinada pela jornalista Ana Elizabeth Diniz, editora da página “Esotérico”.
Na sequência reproduzimos a publicação citada.






quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Patrimônio inalienável da Nação


Cesar Vanucci

“A Petrobras, bem como a Amazônia, está
permanentemente na mira da cobiça internacional.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)


Nossa brasileiríssima Petrobras, maior empresa da América Latina, continua amargando seu “momento Geni”. Forçoso reconhecer: andaram fazendo por ela para que merecesse. Gestores ineptos falharam na tarefa de conter as bandalheiras praticadas pela quadrilha especializada em assaltos aos cofres públicos que se apoderou de algumas instâncias decisórias da empresa.

Enquanto as investigações avançam, escancarando as “proezas” dos meliantes do “colarinho branco” – figuras do mundo politico e empresarial até indoutrodia consideradas por muita gente “acima de qualquer suspeita” -, a Estatal é alvo, dentro e fora do país, de bombardeio midiático implacável. Como geralmente ocorre em bombardeios maciços, a saraivada de criticas produz danos em áreas e setores que, também, fazem jus a medidas de proteção. Por respeitáveis razões. Por ser o que é no cenário nacional, por incontáveis feitos acumulados em trajetória histórica cintilante, que se não lhe podem ser retirados assim sem mais nem menos, a Petrobras tem que ficar resguardada, está claro, dos chamados “predadores internos”. Coisa que, aliás, as autoridades competentes estão se esmerando em fazer com as ações judiciais em curso, indicativas da vitalidade institucional brasileira.

Mas a proteção a ser-lhe assegurada não pode se esgotar nessas relevantes decisões. Salta aos olhos a necessidade de medidas de alcance mais amplo. A Petrobras é um patrimônio inalienável da Nação. Responde por parcela ponderável do esforço coletivo brasileiro concentrado nas conquistas do desenvolvimento econômico social. Figura, por esse motivo, não é de hoje, na alça de mira da cobiça internacional. Parte das críticas e condenações públicas que lhe são feitas é de ostensiva inspiração antinacional. A forte queda nas ações da empresa, bem como certos anúncios espalhafatosos em torno de supostas reações internacionais a respeito das irregularidades praticadas – repita-se, enfrentadas com impecável severidade republicana – escondem, no duro da batatolina, como era costume dizer-se em tempos de antanho, contundentes ataques especulativos. Tais ataques podem ser debitados a setores empenhados na vulnerabilização sempre crescente da empresa. Os intuitos dessa gente agridem frontalmente o interesse nacional.

São fartos e convincentes os indicadores disponíveis sobre o invejável potencial econômico da empresa. Antes de mencionar alguns deles rogaríamos um tiquinho da atenção dos que acompanham estas singelas considerações para um registro sintomático. Em 2008, empresas poderosas dos Estados Unidos viram-se, de repente, flagradas numa maracutaia sem equivalência na história contemporânea. A tal “bolha imobiliária” que desencadeou reações catastróficas. As autoridades americanas, como fizeram as autoridades brasileiras no tocante à Petrobras, promoveram as intervenções reclamadas pelas circunstâncias. As empresas se recompuseram. Não se sabe dizer com exatidão se houve por lá (como aqui) punições adequadas aos executivos envolvidos nas negociatas. Mas é certo que, dentro e fora dos Estados Unidos, ninguém dá notícia de haver sido estruturado qualquer esquema voltado pra ideia autofágica de enfraquecer as empresas colocadas no epicentro do escândalo, em longínqua tentativa de submetê-las, mais adiante, ao controle de gestões externas.

Feita esta sugestiva observação passemos aos dados comprobatórios da pujança da nossa Petrobras. Em agosto, a produção de petróleo no Brasil atingiu novo recorde e uma marca histórica relativa à exploração em águas profundas. O “campo Lula” do pre-sal tornou-se o principal núcleo produtor, desbancando o “campo Roncador”, na bacia de Campos. A produção global de petróleo elevou-se à marca recorde de 2.547 milhões de barris/dia, alta de 9.5% em relação a agosto de 2014. Também a produção de gás natural atingiu marca recordista.

Vale recordar que o Brasil chegou à extração de 800 mil barris/dia, depois de 40 anos. Na bacia de Campos, esse mesmo volume de produção foi alcançado em 24 anos, com 423 poços. Já na era do (cobiçadíssimo) pre-sal bastaram apenas 39 poços para se chegar ao mesmo número. Inevitável a comparação: empresas americanas, no Golfo do México, levaram 20 anos para gerar 500 mil barris/dia.

Os números dessa impressionante expansão colocam em foco algo de suprema importância. A Petrobras, senhores e senhoras, continua ostentando posição vanguardeira na produção petrolífera mundial. O pre-sal, em águas territoriais brasileiras, é visto por entendidos como a maior descoberta da indústria no hemisfério ocidental nestes últimos anos. Tudo quanto dito inspira uma perguntinha que, talvez, possa soar incômoda nalguns ouvidos sensíveis: por que cargas d’água tal informação é esnobada na grande mídia?


Esses fantásticos para-atletas


Cesar Vanucci

“Conseguem fazer mais com menos.”
(Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro)


A opinião pública brasileira acompanha com visível simpatia e um certo fascínio o desempenho dos atletas paraolímpicos brasileiros. Identifica em seus semblantes, atitudes e palavras, na resoluta disposição com que se atiram nos preparativos e nas competições, as melhores virtudes da gente brasileira. Adversidade alguma abala o entusiasmo das equipes. O sucesso por elas alcançado, bem analisadas as coisas, é superior em muito ao dos atletas tradicionais. É só por tento nas posições conquistadas, por uns e por outros, nos últimos tempos.

No último Parapan-Americano, os brasileiros subiram mais vezes ao pódio, nas diversas modalidades esportivas disputadas, do que seus oponentes dos Estados Unidos e Canadá, duas potências esportivas. O primeiro lugar nos Jogos foi conquistado pela segunda vez. As medalhas de ouro acumuladas, neste e nos dois Parapans anteriores, somaram praticamente o dobro das alcançadas pelos nossos representantes nos três últimos Jogos Pan-Americanos. No de Toronto, como se recorda, o Brasil pegou o 3º lugar na classificação geral.

Na “IstoÉ”, o repórter Raul Montenegro alinha interessantes considerações a respeito dos feitos dos atletas paraolímpicos. Começa por explicar que, nada obstante a diferença de rendimento, o segmento recebe proporcionalmente bem menos incentivos financeiros do que o atletismo tradicional. Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), sublinha que os para-atletas “conseguem fazer mais com menos”. Destaca também o fato de que os Estados Unidos e o Canadá canalizam, só para os Jogos Paralímpicos, valores maiores do que os liberados para o financiamento global, desde a base até a ponta, dos esportistas brasileiros com necessidades especiais. Mesmo assim, apesar dos investimentos e das estruturas serem inferiores aos dos outros países, o trabalho executado no Brasil tem garantido números excepcionais. A introdução das atividades paralímpicas no sistema escolar, como conceito de inclusão social, vem permitindo planejamento de longo prazo. Essa circunstância, acrescida de um esquema de aprimoramento na formação de técnicos, tem rendido auspiciosos frutos. Contamos hoje com uma plêiade de atletas talentosos, como é o caso, para ficar na citação de apenas dois nomes, de André Brasil e Daniel Dias, considerados grandes estrelas da natação mundial. Paulo Brancatti, professor da Unesp (Universidade Júlio de Mesquita Filho, de São Paulo) resume nas frases abaixo o desempenho das equipes vitoriosas do Paraolímpico Brasileiro: “Os atletas assumem o esporte com mais vontade, determinação e garra. Para muitos é a oportunidade de inserção na vida social.”

Nesta hora em que, em tantas faixas de atuação da vida nacional, avistamos algumas reações de pessimismo e de desalento, é altamente saudável e encorajador perceber nesse time valoroso de compatriotas, nossos para-atletas, empenho incomum em proclamar as virtualidades da brava gente brasileira. Em projetar sua crença no futuro do país.

Na Paraolimpíada do ano que vem, no Rio de Janeiro, podemos apostar, com firmeza, que eles estarão, novamente, enchendo de alegria e emoção positiva os corações de todos nós.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Grosseria explícita

Cesar Vanucci

“Quando vejo esse frenesi de achincalhar as pessoas
 que estão no poder, fico um pouco angustiada.”
(Cleo Pires, atriz)

Duvidei, quando me contaram. Conjecturei, num primeiro instante, que tudo não passasse de uma tremenda fofoca. Uma a mais nestes tempos brabos de destemperança verbal provocada por desvairadas paixões políticas.

Em face disso resisti, o quanto pude, à sugestão de clicar a postagem inserida no despacho eletrônico comprobatório da inacreditável ocorrência. Mas acabei acessando, finalmente, a matéria. Foi assim que vi e ouvi, com estes olhos e ouvidos que a terra algum dia irá saborear – só que, na dependência de minha estrita vontade, daqui um tempão ainda -, uma sequência de gestos e palavras inverossímeis, atordoantes. Algo tão estarrecedor que, pra falar verdade, esgota de pronto as exigências essenciais para assegurar, aos seus indigitados autores, com “todos os méritos”, o troféu anual da “suprema cafajestagem”, caso ocorra a alguém instituí-lo nesta quadra contundente de inversão de valores.

Fábio Júnior - ora, veja, pois! - o inesperado protagonista da insólita cena. Bom intérprete musical e razoável ator, deixou-se flagrar diante das câmeras de televisão e flashes fotográficos, ao ensejo do espetáculo “Brazilian Day”, realizado em Nova Iorque, numa performance vexatória que pode ser apontada como a cena de grosseria explícita mais vergonhosa destes últimos tempos. Custa crer que alguém de sua projeção no palco público se aprestasse a desempenhar um papel tão desedificante!

Com a Bandeira Nacional impropriamente enrolada no corpo encharcado de suor em razão da descarga de energia negativa desprendida, as feições transtornadas, a voz embargada pela impulsividade fanática, a figura toda lembrando clone dos vociferantes porta-vozes das amedrontadoras “madastras talebãs”, o conhecido artista orquestrou um coral de vozes ensandecidas, entoando à guisa de refrão palavras de baixíssimo calão, carregadas de pusilanimidade. Atingiu, com ditos machistas revoltantes, as figuras de Dilma Rousseff e Luiz Ignácio Lula da Silva.

Não, não se tratava de uma mera manifestação política contendo críticas fundamentadas à atuação dos dois personagens, em função de atos incorretos por eles praticados. Manifestação, de resto, inoportuna, resguardadas as circunstâncias, ao ter-se em conta as características do evento e o cenário estrangeiro em que tudo se desenrolou. O que se viu foi uma explosão irracional. Uma pregação radical afrontosa ao jeito de ser brasileiro, ao sentimento popular. Ou seja, uma agressão solta, de contundência levada ao paroxismo, à concepção de vida cultivada pela gente brasileira. Uma gente que recusa abrir espaço, em seu inconformismo e divergência diante do que acontece de reprovável na vida política, para desregramentos verbais e insuflação desabrida de ódio. Os patrícios que, com toda legitimidade e indignação cívica, costumam expor publicamente, em sintonia com a livre expressão democrática, suas discordâncias com referência a atitudes gerenciais e políticas lesivas aos interesses nacionais, condenando com veemência a corrupção e as desigualdades sociais, sentiram-se de verdade molestados com os acontecimentos reportados. Não causa espanto, por conseguinte, que uma das filhas do artista, Cleo Pires, ela também celebridade nacional, haja lamentado publicamente tudo quanto rolou.
                                                 
Mas, por outro lado, causa desconforto às pessoas de bom senso o estranho comportamento de vários órgãos de comunicação social. Ao focalizarem a promoção de Nova Iorque, não só guardaram silêncio a respeito da absurda situação que se criou, como também deixaram subentendido que o procedimento despropositado do artista teve o significado de um mero protesto político.


Sem espanto, por favor

Cesar Vanucci

“Não se espantar com nada talvez seja o único meio.”
(Horácio, 65-8 a.C)

Do “Dicionário Nova Fronteira de Citações”, de Paulo Rónai, intelectual da melhor estirpe, consta interessantíssimo dito histórico de Horácio alusivo ao verbete “espanto”. Seguinte: “Não se espantar com nada talvez seja o único meio (...) e o melhor para tornar e conservar alguém feliz.” Rónai seleciona, ainda, concernente ao tema, outra frase, atribuída a Pope (1688-1744), apontando-a como imitação da sexta epístola de Horácio: “Não se espantar é toda a arte que conheço para tornar e manter a gente feliz.”

Os conceitos alinhados são a melhor forma encontrada por este desajeitado escriba, em suas quiméricas divagações sobre as coisas deste mundo do bom Deus drapejado por distorções comportamentais insufladas pelo tinhoso, para tentar absorver insólitas revelações do cotidiano. Caso, sem tirar nem por, de uma lista divulgada pela revista “Forbes” onde são apontados os 100 esportistas mais bem pagos do planeta (e, talvez, sabe-se lá, da Via Láctea). Uma plêiade de felizardos que conseguiu a façanha de acumular, só no exercício de 2014, a bagatela de 3,2 bilhões de dólares, apenasmente 17% a mais do que no ano anterior.

Rogamos do condescendente leitor permissão para, antes de nos ocuparmos desta relação dos “miliardários do esporte”, registrar breves considerações sobre o significado da riqueza no processo civilizatório. Nada a objetar, tá claro, quanto à circunstância de alguém, por conta de mérito pessoal, amealhar “pé de meia”, mesmo que de avantajadíssimas proporções, dentro desse regime, até certo ponto questionável, das compensações financeiras vigentes. Tudo bem. É assim que as coisas acontecem desde que o mundo é mundo. Mas, perceber a realidade não impede uma avaliação crítica (já externada noutros momentos), de inspiração humanística, a respeito dos critérios universalmente adotados para remunerar pecuniariamente a contribuição de cada qual no esforço coletivo de construção humana.

Numa perspectiva altruística, ancorada na justiça social, o acesso à fortuna não poderia ficar adstrito tão somente a pessoas criativas, empreendedoras, com alta capacidade negocial. Tais atributos revestem-se, obviamente, de relevância no processo do desenvolvimento, assegurando aos que os detenham condições propícias a aquisições patrimoniais de monta. Contudo, outros atributos do ser humano, indissociáveis na caminhada com vistas ao bem estar social, não poderiam deixar de ser também contemplados numa escala de valores justa. Quantos personagens providos de dons singulares, com realçante atuação na esfera dos serviços humanitários, são deixados de lado na partilha dos benefícios materiais? Uma indagação puxa outra. Citemos um exemplo. A fortuna do homem mais rico do mundo é avaliada em 100 bilhões de dólares. Ou seja, alcança a altitude himalaiana dos 400 bilhões de reais. Soma superior ao PIB de um punhado de países nos vários continentes. Pergunta-se então, diante de tal constatação soaria assim como algo estapafúrdio, ausente do bom senso, reivindicar, a partir de uma perspectiva inovadora, que a fortuna agraciasse igualmente pessoas como, valendo-nos de outro exemplo, Madre Tereza de Calcutá, em sinal de reconhecimento por sua magnífica atuação noutras vertentes do esforço civilizatório? A interrogação abre espaço, naturalmente, para infindáveis elucubrações acerca dos critérios utilizados neste mundo para compensar monetariamente o mérito laboral. As disparidades gritantes, entre o piso e o teto salariais, em setores, repartições, organizações, nas diferentes faixas de prestação de serviços, mostram outra face contundente dessa questão. Tudo isso fornece material para releituras dos enredos de vida trilhados pela confusa humanidade.

Já que entregues à reflexão do leitor estas singelas ruminações, cuidemos, então, agora, do caso dos “atletas mais bem pagos”. No topo da lista, um boxeador. Floyd Mayweather abiscoitou, por conta dos murros certeiros aplicados em meia dúzia de ringues, 300 milhões de dólares, ou seja, 1 bilhão e 200 milhões de reais. O segundo da lista é do ramo. Sua “arte” rendeu-lhe, em 2014, 160 milhões de dólares. O terceiro lugar ficou com o futebolista Christiano Ronaldo, 80 milhões de dólares. Leonel Messi, 74 milhões de dólares, classificou-se na posição subsequente. O brasileiro Neymar obteve um 23º lugar, com a “insignificante” soma de 31 milhões de dólares. Antes dele, classificaram-se atletas do tênis, basquete, golfe, futebol americano, automobilismo, beisebol. A lista dessas “aberrações” pecuniárias oferece uma informação que parece não ser de molde a causar surpresas. Duas mulheres, tão somente, figuram na seleção dos cem mais. As tenistas Maria Sharapova, 26º lugar; Serena Willians, 47º lugar.

Passados todos estes dados aos amáveis leitores, concluo como, por certo, o faria (à guisa de desabafo) meu saudoso tio Nhô, um cidadão cheio de ideias e sonhos, sempre intrigado com os rumos adoidados da aventura humana: “é desse jeito mesmo que a humanidade caminha!”


Historinhas de Brasília

Cesar Vanucci

“Cuide do seu decoro, que eu cuido do meu decote.”
(Dizeres de faixa carregada por servidoras da Câmara dos Deputados)

· A parlamentar Cristiane Brasil está dando uma inestimável contribuição para o Febeapá, ou seja, o “Festival de besteiras que assola o país”, incorporado ao linguajar das ruas como repositório de atos, às vezes engraçados e sempre ridículos, desde aqueles tempos em que as colunas dos jornais eram alegradas pela verve inigualável do saudoso Sérgio Porto (Stanislau Ponte Preta). Proposta de sua autoria, considerada conforme um jornalista tão útil pro País quanto boia no Saara, prevê medidas “altamente moralizantes”, no mais requintado estilo talebanista, no tocante ao modo de trajar feminino nas salas e corredores do Congresso. Em defesa da decência e dos bons costumes, a deputada quer traçar – viu só? - regras capazes de coibir os “absurdos” das saias acima dos joelhos, dos decotes exuberantes, das sandálias, chapéus e tênis de cores berrantes, incompatíveis com a nobreza do ambiente.
O projeto submetido à Mesa Diretora da Câmara não explica se a fiscalização das “indumentárias inconvenientes” seria da alçada da polícia do Legislativo, ou se seria outorgada a agentes públicos com formação, provavelmente, nas escolas preparatórias dos eficientes “guardiães dos bons costumes” existentes na Arábia Saudita ou Paquistão. Caso é que as funcionárias do Legislativo “queimaram no golpe”, resolvendo desencadear movimento de protesto contra a besteiragem anunciada. Espalharam sugestivos cartazes com frases como estas aqui: “Cuide do seu decoro que eu cuido do meu decote”; “Mais ética, menos estética.” Alguns parlamentares com propensão a desempenhar papéis de mulás (eu disse mulás, com acento grave no “a”), confessaram-se solidários com o “posicionamento moralizador” (ora, epa!) da ilustre deputada.

· A busca desenfreada de benesses à sombra do Poder leva alguns elementos a atravessarem os sinais, atropelando regras legais, nas efervescentes paragens brasilienses. Isso vem de ser comprovado, outra vez mais, num episódio envolvendo proprietários de residências de luxo, algumas oficiais e até estrangeiras, localizadas na orla do lago Paranoá. Trata-se daquele mesmo lago artificial de onde, jamais, iria brotar uma só gota de água, segundo asseveravam desvairados oposicionistas da antiga UDN e coligados visando criar embaraços ao dinâmico e saudoso governo JK. Um porta-voz da “turma do contra”, exibindo profusos “pareceres técnicos”, alardeados por poderosa e conivente mídia, chegou naquela época à sandice de declarar que “beberia” todo o líquido que porventura jorrasse no local, minha Nossa Senhora da Abadia!

Voltando à historinha de agora. De maneira a proteger o meio ambiente no aprazível recanto, o governo do Distrito Federal estabeleceu recentemente prazo para a retirada de cercas, piscinas, quadras, quiosques e demais “puxadinhos” arquitetônicos que, ao longo dos anos, se apoderaram, como extensão das edificações, da faixa pública de trinta metros que contorna o lago. Um bocado de (bons) viventes chegou ao absurdo de até promover captação clandestina de água. Cometeu aquele “ato falho” (só isso?) que, no linguajar adotado pelos órgãos encarregados de fiscalizar linhas de transmissão de energia e veios de abastecimento de água, é chamado, no popular, de “gato”. Isso é o que se pode classificar de um “senhor miado”...






A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...