sexta-feira, 27 de julho de 2018


  
Incidente ufológico em Brasília

Cesar Vanucci

“Tudo nessa história de disco voador resvala o fantástico.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Leitor que se confessa “fissurado” no chamado fenômeno ÓVNI cobra-me relato sobre um extraordinário episódio narrado em palestra que fiz no Congresso Brasileiro de Ufologia, ano passado, em Belo Horizonte. O “incidente” envolveu, logo nos começos de Brasília, dois homens públicos de projeção nacional. Ambos parlamentares. Ambos escritores. Ambos já falecidos.

Inicio a narrativa citando-lhes os nomes: Paulo Pinheiro Chagas e Plínio Salgado. Este último, presidente do PRP (Partido de Representação Popular), desfrutava de notoriedade como chefe da ação integralista, uma versão tupiniquim do movimento fascista italiano de Benito Mussolini. Sua obra mais apreciada como escritor focaliza a vida de Jesus Cristo. Pinheiro Chagas foi, provavelmente, o mais culto e talentoso tribuno parlamentar de sua época. De sua vasta produção literária faz parte o livro “Teófilo Otoni, o Ministro do Povo”, por muitos apontado como a melhor biografia já produzida de um personagem de nossa história. Estive ligado a Paulo, até os derradeiros momentos de sua peregrinação pela pátria terrena, por poderosos laços de amizade. Ele e senhora, a também saudosa Zembla, tia de minha esposa Addi, foram meus padrinhos de casamento. Foi dele, Paulo Pinheiro Chagas, que ouvi, por mais de uma vez, com requintados detalhes, o relato de uma incrível experiência ufológica.

Brasília vivia, em 1960, a efervescência de seus primeiros encantadores instantes de vida como centro das decisões políticas nacionais. O presidente da República era o inolvidável Juscelino Kubitschek de Oliveira. Paulo Pinheiro Chagas desempenhava as funções de líder do governo na Câmara dos Deputados. Num final de tarde, acompanhado do amigo deputado Crispim Jacques Bias Fortes, Pinheiro Chagas deixou a sede do Legislativo com o destino do Palácio do Planalto. O carro conduzia os parlamentares e o motorista. Eis que, de repente, a uma distância que possibilitou aos ocupantes do veículo em movimento visão bastante nítida da cena, surgiu um objeto aéreo fazendo desnorteantes evoluções. O artefato possuía o formato celebrizado na maioria dos avistamentos notificados nos anos 50: um pires com uma redoma. A imagem captada, como sempre ocorre em circunstâncias do gênero, deixou forte impacto nas testemunhas. Ali mesmo no carro, Paulo e companheiros tomaram uma deliberação: manter a ocorrência sob reserva, de modo a evitar repercussões de cunho político. A ferrenha oposição a JK não perdia chance para alvejar as decisões, atos e projetos governamentais. Provavelmente, partiria para uma tentativa de ridicularizar políticos tão próximos ao grande presidente, caso a história do contato de terceiro grau vazasse. As cautelas adotadas no sentido de se evitar a divulgação não impediram, todavia, que o fato merecesse pequeno registro, sem maiores detalhes, numa coluna de jornal brasiliense.

As coisas estavam colocadas nesse pé, quando Paulo Pinheiro Chagas recebeu uma ligação telefônica de Plínio Salgado. O líder da bancada integralista, vinculada a oposição, pediu-lhe uma conversa em caráter confidencial. Como o momento político se revelasse um tanto quanto conturbado, Paulo deu ciência a Juscelino do encontro proposto, na expectativa de que a conversa sigilosa com Plínio pudesse girar em torno de alguma questão política momentosa. Mas o papo, para espanto do líder do governo, tomou rumo totalmente diferente.

Plínio Salgado tivera ciência, pelo jornal, do caso do óvni. E não podia deixar de passar para seu companheiro de parlamento, como ele escritor, uma revelação espantosa. Contou, então, com visível emoção, os surpreendentes desdobramentos do incidente ufológico em causa. Naquela tarde, um “disco-voador” com configuração idêntica ao do avistamento de Pinheiro Chagas e Bias Fortes apareceu, inesperadamente, a curta distância do local onde Plínio Salgado se encontrava, no jardim da residência. O deputado sentiu-se imobilizado, depois de atingido por um feixe de luz desfechado do aparelho. Só algum tempo passado, com o objeto já fora do alcance visual, é que conseguiu recuperar os movimentos. O relato, como os investigadores do fenômeno óvni podem atestar, guarda semelhança com outras ocorrências ufológicas e favorece a dedução de que Plínio Salgado, naquele momento, talvez houvesse sido alvo de uma abdução.

Pra encerrar a conversa: em Belo Horizonte, no bairro da Serra, anos mais tarde, Paulo Pinheiro Chagas testemunhou um outro avistamento de óvni.


Desfazendo um equívoco

Cesar Vanucci

“Uma voz inconfundível em defesa (...) da liberdade fundamental da pessoa.”
(José Alencar, saudoso Vice-Presidente, a respeito do 
também inesquecível Arcebispo Alexandre Gonçalves Amaral)

Cumpro hoje promessa feita a diletos amigos espiritistas engajados em edificante trabalho assistencial e espiritual. Aconteceu o seguinte: recentemente, alguém do grupo, num bate-papo descontraído, classificou de extrema e agressiva intolerância a atuação da Igreja Católica com relação às demais crenças religiosas, ao tempo em que o saudoso Alexandre Gonçalves Amaral esteve à frente da Arquidiocese de Uberaba. Esclarecendo que a observação incidia em equívoco, anunciei o propósito de relatar um episódio capaz de desfazer essa errônea impressão, ao que parece gravada na memória de algumas pessoas. Como sabido, sou autor do livro “Um Certo Dom”. Na obra focalizo aspectos frisantes da vivência encharcada de apostolicidade do mencionado religioso. Um ser humano dotado de sabedoria incomum e cultura fulgurante. Bispo mais moço do mundo à época da sagração, Bispo com maior tempo de presença eclesial no mundo na fase outonal da existência. Falecido em 2002.

Que o Bispo punha ardor e veemência nas palavras ao expor suas convicções é fato de ululante obviedade. E nem seria de se esperar nada diverso. Coisa já bem diferente é imaginá-lo, lança em riste, dedo no gatilho, a investir, de forma desabrida, inclemente, descaridosamente, contra os sentimentos religiosos alheios. Se ainda vivo e na posse plena dos dons de inteligência com que foi agraciado pela vida, Alexandre – não nutro dúvidas a respeito – estaria atuando como arauto da palavra ecumênica. Engajado, certamente, no esforço das lideranças religiosas mais conscientes, do Dalai Lama ao Papa Francisco, que procuram mostrar ao mundo a chave em condições de abrir, de par em par, as portas do entendimento fraterno aos homens de boa vontade, de todos os credos, etnias e idiomas. Seja acrescentado que Alexandre era reconhecido como o Bispo da “Ação Católica”, movimento que estabeleceu condições para uma participação mais incrementada dos leigos nos trabalhos da Igreja.

A história contada a seguir ajuda a desmanchar a pecha da "intolerância religiosa". Nos anos 50, "O Cruzeiro" mandou a Uberaba um repórter e um fotógrafo. O editor do texto se confessava espiritista. A atenção da revista voltava-se para uma experiência invulgar que estaria sendo vivida nos redutos do famoso sensitivo Chico Xavier, figura humana de notáveis predicados morais e espirituais. Sustentava-se que esses redutos vinham sendo palco de um fenômeno de efeitos físicos conhecido no vocabulário espírita sob a denominação de “materialização”. O caso ficou conhecido como "a materialização da Irmã Josefa" e ganhou ressonância nacional. Os repórteres obtiveram autorização para documentar, com o emprego de câmeras fotográficas, o que sucedia nas sessões. O que viram não lhes pareceu convincente. Registraram, de modo enfático, que os indícios apontavam no sentido da possibilidade de grosseira mistificação, produzida por falsos sensitivos, gente que estaria abusando da boa fé de Chico Xavier. Claro que o assunto rendeu polêmica. O "Correio Católico", combativo diário da Arquidiocese, tinha o "dever sagrado" de entrar, batendo forte, nas discussões acesas e, muitas vezes, azedas, segundo o entendimento de alguns membros do laicato católico e de um ou dois sacerdotes, não mais do que isso. Revejo-os, irritados, na sala do diretor Padre Antônio Thomaz Fialho, a profligarem o que tachavam de imperdoável desinteresse do jornal pela momentosa questão. Em sua concepção, graças a "O Cruzeiro", a hora era mais do que propícia "para se desmascarar a farsa espírita"...

Quem se der, algum dia, ao trabalho de percorrer as edições do jornal, correspondentes a essa época, vai constatar que o mesmo não publicou uma única linha sobre o assunto. Calou-se serena e respeitosamente. Surge aqui, agora, a explicação: a ordem para o procedimento assumido partiu do próprio Alexandre. A decisão relembra-me a cara de contrariedade de alguns radicais que se consideravam “mais católicos do que o Bispo”. Eles crivaram de críticas ásperas os redatores do jornal, pela “incompreensível” posição assumida, "diametralmente oposta à fé cristã", ousavam proclamar.




Luis Giffoni *
Os bichos pensam?


Quem já viu um boi entrar no corredor de abate sabe como ele percebe a morte. Tenta escapar, urra, resiste, exala a dor, chora, desespera, implora. Há uma identidade mamífera entre nós e eles que nos permite captar seu sofrimento, porém não nos importamos. Dizem que tudo é imaginação. Os animais possuiriam apenas instinto. Pensamento, só os humanos, para quem o mundo teria sido criado, com licença para explorar e matar qualquer bicho, de acordo com nossa vontade. Levamos ao pé da letra a recomendação.

Em muitos momentos, mesmo agora no século 21 e nas mais tradicionais democracias, bicho é o outro, o estrangeiro, o habitante do país contra o qual se iniciou uma guerra. Merece toda a crueldade. Que o digam as potências ocidentais que matam civis inocentes na Síria e em mais de uma dezena de lugares neste exato momento.
Dizem que os golfinhos pensam. Já se identificaram alguns de seus sons. Supõe-se até que cantem para os parceiros durante o acasalamento. Idem para as baleias. Quem já ouviu as gravações fica com a pulga atrás da orelha: baleias parecem autoras de partituras musicais, com grande variação de melodias e ritmos, mais uma grande vocação para a nostalgia. De novo muita gente descarta a possibilidade de inteligência. Haveria apenas instinto. Pássaros cantam, baleias idem.

Chimpanzés se organizam para a caça de outros animais, com estratégias de generais em campo de batalha. Dividem o butim de acordo com a hierarquia. Sua linguagem transmite uma enorme variedade de avisos e sentimentos. Riem, consolam-se, usam ferramentas, passam o conhecimento para os filhos. Alguns deles, criados em cativeiro, teriam o QI de uma criança aos 2 anos. Uma vez mais, acredita-se que, embora tenhamos uma semelhança genética de 98%, nada mais nos aproxima. Continuamos os únicos a pensar. Para eles, sobra apenas o instinto.

Bonobos, um chimpanzé pequeno, descoberto no Congo oito décadas atrás, são ainda mais impressionantes. Além de 99% iguais a nós nos cromossomos, demonstram empatia e altruísmo no relacionamento. Têm vida social intensa, matriarcal. Reconhecem-se no espelho. Desenvolveram gosto pelo sexo só encontrado entre os humanos. Aliás, vão além. Transam para resolver conflitos. Aos olhos mais conservadores, seriam promíscuos. No entanto, se dão muito bem. Compreendem nossa linguagem, inferem o sentido de novas palavras, utilizam os computadores para se comunicar com os cientistas.

Um dos bonobos, chamado Kanzi, acendia fogueira com fósforo, dourava marshmallows e depois os comia. Através de uma linguagem desenvolvida em laboratório, expressava seus sentimentos, inclusive os complexos, como a questão da morte. No entanto, muita gente continua desacreditando. Quando Kanzi, num filme da BBC, comeu os marshmallows, os mais céticos alegaram que era um ator fantasiado de bonobo.


Há uma revolução em curso. Que chega com séculos de atraso. Estamos começando a entender outras espécies, a olhá-las com respeito, com os mesmos direitos à vida. Uma vez mais, a revolução nos afasta do centro do mundo, essa mania de grandeza que nos outorgamos como reis da criação, primeiros e únicos. Isso dói aos velhos mitos. O reino animal é mais complexo do que até agora admitimos. Em vários sentidos, é mais humano do que o nosso. 

* Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras

sexta-feira, 20 de julho de 2018



Cesar Vanucci

“numa arquibancada, nos apertões de um estádio,
(...) vejo e escuto o povo em plena criação”.
(José Lins do Rego)

Futebol é mesmo uma festança incomparável. Um instrumento extraordinário para o exercício da confraternidade social. Uma forma vigorosa de projetar aquilo que se conhece por sentimento do mundo. A esplêndida Copa da Rússia, desencadeando torrentes de emoções e alegrias genuínos, comprovou isso outra vez mais.

As disputas nos gramados deixaram gravadas na memória coletiva lembranças de duradoura fulgurância. Centenas de milhões de espectadores compactados nas arquibancadas dos monumentais estádios, ou alojados descontraidamente nas arquibancadas virtuais criadas pela esfuziante cobertura televisiva em tudo quanto é canto, espicharão por bom tempo ainda os comentários a respeito das sensações vivenciadas. Considero extremamente sugestivo o que escritor José Lins do Rego contou, de certa feita, ao surpreender-se “numa arquibancada, nos apertões de um estádio”, vendo e escutando “muita coisa viva”, vendo e escutando “o povo em plena criação”. Numa Copa como a da Rússia toda essa efervescência ganha reverberações universais.

O que não dizer da coreografia arrebatante executada por um punhado de craques fazendo a bola rolar em direção do gol, ou se esforçando por fazê-la distanciada desse alvo consagrador? O que desfilou diante de nossos olhares extasiados foram momentos de irretocável beleza plástica, em detalhes incríveis captados por equipamentos de suprema sofisticação.

Fique claro, porém, uma coisa, futebol momentaneamente deixado ao largo: toda essa parafernália eletrônica ao dispor dos jogos, nascida de uma fabulosa engenhosidade tecnológica, vale muito bem para fortalecer nas mentes e corações dos que professam crenças e confiança humanísticas uma ardente esperança. A esperança de que, algum dia, possa brotar nos domínios dos “donos do mundo” uma vontade sincera de canalizar por inteiro o instrumental das conquistas técnicas em favor da construção de um mundo diferente. Um mundo melhor, mais fraterno, liberto da fealdade dos desequilíbrios sociais que tanto sofrimento espalha por aí.

Mas, retomando o jogo futebolístico propriamente dito, há que se louvar, com alusão ainda à Copa, o inovador processo da arbitragem complementar eletrônica. A experiência de agora, comportando algum provável reacerto nos métodos de aferição, abre a perspectiva de que as decisões dos juízes e bandeirinhas ganhem em eficiência. Todavia, pode-se apostar, não haverá como eliminar, jeito maneira, as costumeiras avaliações passionais de um bocado de torcedores. A controvérsia está, afinal de contas, na medula do esporte das multidões.

Avaliada pelos prismas sociológico e psicológico, essa Copa da Rússia foi bastante rica em revelações. Numa hora de agudas tensões provocadas por intolerância racial, xenofobias aviltantes, manifestações hostis a imigrantes sem eira nem beira, fanatices fundamentalistas, práticas racistas repugnantes, a saudável composição étnica da seleção merecidamente agraciada com o título representa eloquente afirmação de que existem saídas, sim, para os conflitos fora de propósito que enxameiam a vida contemporânea e que tanto retardam a marcha ascensional civilizatória. A celebração da talentosa equipe campeã mostra aos preconceituosos de diferentes matizes a estupidez de suas reações.

De outra parte, o ardor combativo da simpática e bem entrosada seleção da Croácia, com performances que espantaram os entendidos em futebol, evidenciou que em todo tipo de empreitada humana é de extrema valia juntar-se um pouco de humildade ao talento e à capacidade. A lição ajusta-se como luva ao escrete canarinho, que anda trocando as chuteiras por sapato alto de grife. Como sabido, os deslumbrados condutores do futebol penta campeão optaram, de tempos a esta parte, pela convocação exclusiva de atletas enquadrados naquilo que a crônica esportiva batizou como “legião estrangeira”. Às vésperas dos torneios importantes, jogadores um tanto quanto desfamiliarizados com os hábitos culturais de sua terra natal, desfrutando as seduções de uma realidade socioeconômica diferenciada, são recrutados às pressas para a missão de representar o Brasil. O esquema não tem funcionado a contento. Montar um time com valores que atuem nos campeonatos nacionais, que possam ser reunidos com alguma frequência e treinados dentro de uma metodologia comum acompanhada mais de perto pela direção técnica, afigura-se iniciativa em condições de ser contraposta vantajosamente ao que vem sendo ultimamente realizado. As chances de dar certo são bem maiores, no modo de ver de experimentados analistas do fascinante jogo de bola, que tanto mexe com a alma das ruas.

 Ao mestre Serafim,
com carinho


Cesar Vanucci

Humilde e probo, simples no falar”.
(Elizabeth Rennó, referindo-se ao Dom Serafim Fernandes de Araújo)


A Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (Amulmig) vem dedicando espaço, em sua efervescente atuação, para homenagear personagens ilustres do mundo cultural. É uma forma de atestar a contribuição valiosa de cada um deles em prol da criação intelectual e da construção humana. A iniciativa serve para refazer a memória na medida em que faz história, conforme explicado pela acadêmica Elizabeth Rennó que, além de presidente emérita da instituição, comanda os destinos da conceituada Academia Mineira de Letras.

Dom Serafim Fernandes de Araújo, por sinal presidente de honra da Amulmig, foi alvo de carinhosa manifestação de apreço dentro da série programada. Aconteceu durante concorrida assembleia, dias atrás, na sede da entidade, que funciona em prédio no passado pertencente ao inesquecível JK, onde podem ser vistos traços arquitetônicos brotados da prancheta de Niemeyer.

A história do Cardeal, rica em humanismo e espiritualidade, foi magistralmente retratada pela própria Elizabeth. A vocação de Serafim para a vida religiosa desabrochou cedo. Depois de passar pelo seminário de Diamantina, ele seguiu para Roma. Fez ali mestrado em Teologia e Direito Canônico na Pontifícia Universidade Gregoriana. A ordenação sacerdotal ocorreu em 1949 na Basílica de São João de Latrão. Sagrou-se Bispo em 1959. No ano mencionado, numa celebração na Catedral da Boa Viagem, Dom Serafim prometeu que seria como uma “vela que ilumina e se desgasta, chora de alegria e de tristeza a se consumir pelo cumprimento de sua missão”. Em 1960 assumiu a reitoria da Universidade Católica, hoje Pontifícia Universidade Católica, deixando marcas inapagáveis de seu descortino administrativo e capacidade empreendedora. Em 1986, então Arcebispo Coadjutor, foi alçado ao cargo de Arcebispo Metropolitano, sucedendo a Dom João de Rezende Costa, de quem se confessa grande amigo e a quem considera um verdadeiro “dom de Deus”. O pontificado de Dom Serafim estendeu-se até 2004, quando a gestão da Província Eclesiástica de Belo Horizonte foi entregue a Dom Walmor Oliveira de Azevedo.

Em 1998 o Papa João Paulo II conferiu-lhe o barrete cardinalístico. Sua cintilante trajetória como religioso, de titular de paróquia no interior de Minas ao Colégio de Cardeais, é assinalado, entre outros múnus, por encargos sempre magnificamente desempenhados como membro de Conselhos de Educação, da CNBB, da Comissão de Justiça e Paz, da Conferência Geral do Episcopado da América Latina, Presidente da Associação Brasileira de Escolas Superiores Católicas, Grão Chanceler da PUC-MG, Professor de Ensino Canônico e de Ensino Religioso em numerosas organizações educacionais. Como ressaltado na fala de Elizabeth Rennó, Dom Serafim conviveu com cinco pontífices: “Pio XII, que foi homenageado por ele e outros seminaristas, em Roma, com o Ramalhete Espiritual; João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, momento marcante em sua vida e o nomeou Bispo Auxiliar em Belo Horizonte; Paulo VI, continuador do Concílio Vaticano II, com quem teve convivência fraternal; Santo João Paulo II, desde 1979 em Puebla, cujos laços de empatia se consolidaram em Belo Horizonte, quando de sua visita  em 1980, cuja participação marcante considerada como seu doutorado pastoral; Bento XVI, pessoa clarividente de visão abrangente de questões e problemas que pareciam insolúveis. Agora recebe as luzes de Francisco, o Papa Misericordioso, que se torna referência mundial, líder amado e valorizado, empreendedor e reformador. Carismático, não pelo que ostenta, mas ao que diz e faz. Por sua linguagem profunda, toca os sentimentos do povo, na representação de um evangelho vivo”.

Na louvação à portentosa obra pastoral do homenageado, recordou-se ainda que “a Torcida de Deus, ideia e realização de Dom Serafim, foi um dos mais belos espetáculos de fé, que durante 12 anos, congregou no Mineirão milhares de pessoas neste jogo olímpico de fé e esperança”.

Debaixo de aplausos do público presente à manifestação, Elizabeth Rennó assim arrematou o pronunciamento: “humilde e probo, simples no falar, severo e doce no ensinar”, Dom Serafim Fernandes de Araújo faz “chegar ao coração humano” o “dom de ternura que lhe é afeito”.





(Pronunciamento feito em assembleia da Amulmig, 
realizada no dia 10 de julho de 2018)


Homenagem a Dom Serafim Fernandes de Araújo
Elizabeth Rennó*


                                   

A Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais homenageando seus componentes ilustres atesta sua imortalidade. Refaz a memória na medida em que faz história.
Relembrando as atividades, as publicações acadêmicas, consegue fazê-los imortais, através de seus feitos.
Dom Serafim Fernandes de Araújo, Presidente de Honra da AMULMIG, é um dos nossos Acadêmicos mais queridos e dignos desta homenagem que louva seu perfil, tão rico e pleno de sabedoria.
Aos treze dias do mês de agosto de mil novecentos e vinte e quatro, chegou ao mundo, Serafim, o menino primogênito de José Fernandes de Araújo, dentista prático e de Gabriela Leite de Araújo, jovem mãe de 19 anos, em Minas Novas, cidade do vale do Jequitinhonha.
Esse menino marcou o início dos 16 filhos da prole do casal.
A autobiografia Na palma da mão de Deus, escrita por Dom Serafim Fernandes de Araújo, já na posição honrosa de Cardeal de Belo Horizonte, cujo Barrete Cardinalício foi-lhe entregue em Roma pelo Papa São João Paulo II, a 22 de janeiro de 1998.
Ao escrever suas memórias, O Cardeal voltou ao tempo e passou a rever a infância como se fosse um filme representando a sua vida.
A sua vocação nasceu muito cedo, criado em ambiente religioso da pequena Itamarandiba, para onde a família se mudou.
Do Seminário de Diamantina, seguiu para Roma, onde fez mestrado em Teologia  e Direito Canônico, na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foi ordenado em1949 na Basílica de São João de Latrão.
Antes de transferir-se para Belo Horizonte, como auxiliar de Dom João de Resende Costa, assumiu os cargos de Vigário Geral, Administrador e Diretor do Ensino Religioso da Arquidiocese e professor de Cultura Religiosa da Universidade, já então sagrado Bispo em 1959. Exerceu sua missão religiosa em Itamarandiba, Gouveia, Diamantina e Curvelo.
Regressando a Belo Horizonte, em celebração na catedral da Boa Viagem, em 1959, Dom Serafim prometeu que seria como uma vela que ilumina e se desgasta, chora de alegria e de tristeza a se consumir pelo cumprimento de sua missão.
A partir de 1960, tomou posse como Reitor da Universidade Católica, hoje, Pontifícia Universidade Católica. Esta instituição foi criada em 1958, pelo Presidente Juscelino Kubistchek, congregando várias escolas e faculdades existentes. Dom Serafim diz, com orgulho:
Quando assumi a Reitoria eram apenas 635 alunos, hoje, a PUC é uma das mais conceituadas universidades do País. Participou de várias sessões do Concílio Vaticano II. Viajou a vários países, visitando universidades, participando de congressos de Educação. O Concílio Vaticano II foi considerado como verdadeiro doutorado pastoral para o novo Bispo, ocasião em que vivenciou a diversidade que envolve a experiência de ser Igreja. 
Arcebispo Coadjutor em 1983, sucedendo a Dom João de Resende Costa, em 1986, assumiu o cargo de Arcebispo Metropolitano. Seu Pontificado foi até março de 2004, quando passou o governo da Arquidiocese para Dom Walmor Oliveira de Azevedo.
Estas notas representativas de sua atuação pastoral não são reveladoras e nem presentificam as inúmeras contribuições que assumiu, quer como Pároco ou como membro de Conselhos de Educação, Sagrada Congregação para os Bispos, Comissão de Justiça e Paz, Pontifícia Comissão para a América Latina, IV Conferência Geral do Episcopado da América Latina em Santo Domingo, Presidente da Associação Brasileira de Escolas Superiores Católicas, Vice- Presidente da CNBB, Grão Chanceler  da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Professor de Direito Canônico e de Ensino Religioso em vários Colégios mineiros.
Tantos encargos cumpridos e exercidos de maneira magnífica, em que disseminou a evangelização e a palavra de Cristo, atestam a dedicação do Cardeal Serafim Fernandes de Araújo a seu rebanho.
Dom Serafim teve o privilégio de conviver com 5 Pontífices: Pio XII, que foi homenageado por ele e outros seminaristas, em Roma, com o Ramalhete Espiritual; João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, momento marcante em sua vida e o nomeou Bispo Auxiliar em Belo Horizonte; Paulo VI, continuador do Concílio Vaticano II, com quem teve convivência fraternal; Santo João Paulo II, desde 1979 em Puebla, cujos laços de empatia se consolidaram em Belo Horizonte, quando de sua visita  em 1980, cuja participação marcante considerada como seu doutorado pastoral; Bento XVI, pessoa clarividente de visão abrangente de questões e problemas que pareciam insolúveis.
Agora recebe as luzes de Francisco, o Papa Misericordioso, que se torna referência mundial, líder amado e valorizado, empreendedor e reformador. Carismático, não pelo que ostenta, mas ao que diz e faz. Por sua linguagem profunda, toca os sentimentos do povo, na representação de um evangelho vivo.
Dom Serafim sempre se refere à grande amizade com Dom João de Resende Costa, considerando-o um “dom de Deus”, com quem participou e viveu no Palácio Cristo Rei, durante 45 anos.
A Torcida de Deus, ideia e realização de Dom Serafim, foi um dos mais belos espetáculos de fé, que durante 12 anos, congregou no Mineirão, milhares de pessoas neste jogo olímpico de fé e esperança.
Como sinal de vitalidade da Igreja, a Missa da Unidade, celebração da Eucaristia, acontecida na Quinta-Feira Santa, é a continuidade desta iniciativa de nosso Arcebispo.
Em 2003, na II Assembleia do Povo de Deus, evento que teve a participação da presença da comunidade católica, após muitas reflexões e pareceres, três horizontes foram divisados para a formação das características necessárias para o comportamento da congregação e às quais a Igreja deveria se dedicar:
A espiritualidade, envolvendo o modo de viver em santidade, o reconhecimento da vida em comunidade, a exemplo da Trindade que é a totalidade do amor e a inserção social, no exercício de uma Igreja Samaritana.
Devotando-se a estes quesitos, Dom Serafim instituiu o Projeto Construir a Esperança, pastoral urbana, voltada para o acolhimento, projeto inspirador para outras cidades com grande repercussão internacional.
Dom João de Resende Costa e Dom Serafim compraram a Radio City, para divulgar a programação e os trabalhos da Arquidiocese. Esta pequena difusora transformou-se na Rádio América, emissora presente em vários lares divulgando e apresentando programas educativos, sociais, evangelizadores e cerimônias litúrgicas.
A mais grata de suas realizações a seu coração é a Fundação José Fernandes de Araújo, criada em 1980 como homenagem a seu pai. O objetivo desta instituição é conceder bolsas de estudos a pessoas de baixa renda, possibilitando o acesso ao ensino superior.
Em seus 38 anos de trabalho, a FJFA já beneficiou cerca de três mil alunos que não poderiam manter os custos de sua formação universitária e que se tornaram profissionais formados em faculdades de qualidade reconhecidas no Brasil. Os jovens beneficiados com estas bolsas de estudo comprometem-se, além de seu desenvolvimento profissional, a multiplicarem ações de generosidade, a exemplo do que receberam da Fundação. A princípio, a manutenção deste Projeto contou com a remuneração de Reitor e a venda de todos os bens de Dom Serafim para concretizar sua realização. Acrescentada com a cooperação de pessoas que se sensibilizam com a causa, beneficiando número incalculável de estudantes desde então.
Na continuação deste trabalho precioso, o Professor Emerson de Almeida foi convidado a assumir a Presidência da FJFA, pois já se dedicava ao Conselho Curador, há muitos anos.
A Fundação José Fernandes de Araújo aliou-se à Fundação Dom Cabral, escola de negócios fundada há 42 anos por Dom Serafim e que, graças à liderança do Professor Emerson de Almeida é considerada, há treze anos, uma das melhores do mundo, segundo o jornal britânico Financial Times.
Dom Serafim sempre se colocou na palma da mão de Deus, como ele mesmo nomeou a sua autobiografia.
A par de sua capacidade administrativa, didática, empreendedora, o que mais eleva o seu caráter é o espírito humanitário e a grande capacidade, que, pela ternura do seu agir, conquista e faz amigos e admiradores em qualquer área em que atua.
Depoimentos, declarações e observações sobre sua pessoa vêm de irmãos, paroquianos, auxiliares e tantos outros que o acompanham na trajetória que cumpre eficientemente.
Palavras de sacerdotes, autoridades, amigos, teólogos, professores, em sua totalidade, enaltecem o caráter ético, empreendedor, humano, caridoso e cristão de Dom Serafim.
Destacamos alguns tópicos que atestam este admirável construir humano que se intitula Dom Serafim Fernandes de Araújo.
Eis um apanhado de conceitos concernentes à sua pessoa:
A capacidade de entender e orientar é muito própria dele. Sua intuição e discernimento levam às melhores soluções, valorizando o que é bom para cada um.
Dom Serafim é meu suporte e um presente de Deus.
Para mim, uma qualidade muito bonita de Dom Serafim é que ele não invade a vida de ninguém. É uma pessoa muito especial.
Dom Serafim é uma bênção de Deus para nossa família. É um ponto de equilíbrio para todos nós.
Deus deu-me a graça de ser irmã de Dom Serafim. Ele está sempre presente em meu coração com suas palavras, atitudes, generosidade e amor incondicional.
Presente em todos os momentos difíceis. Sereno, conciliador, equilibrado, iluminado em todas as suas atitudes.
Neste momento em que celebramos datas tão grandiosas, seus 60 anos de sacerdócio e 50 anos de episcopado, fico a contemplar como Dom Serafim, na pujança de seus 84 anos, mantém viva em si a revelação da luz da sabedoria, e como essa beleza, reforçada pelo amor, confere a ele aspecto tão sublime. Exemplo de seriedade, de dedicação. Uma pessoa por quem agradeço a Deus, por existir em nossas vidas, com quem podemos contar nos bons e nos maus momentos, que tem sempre uma palavra de força, de esperança para todos nós.
Falar sobre meu irmão Dom Serafim é falar de alguém muito especial, que traz consigo o dom maior de Deus, que é o amor, refletido em todos os momentos de sua vida, levando a todos não só palavras, mas, principalmente, atos e ações de um verdadeiro pastor.
Um dia ele me disse: Deus nos colocou na terra para sermos felizes e nós temos a obrigação de buscar a felicidade.
Como poeta maior, disse: O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis e pessoas incomparáveis.   
Dom Serafim, louvado e amado, reconhecido pela sua inteireza e capacidade de ser é também uma pessoa incomparável, misto de compreensão e ternura.
Agindo com ternura, dizia humildemente ao contar a sua história: Acho que nunca houve um rapaz tão pobre indo para Roma, levando tão pouca coisa.
A palavra sincera, plena, dom de vida e do acontecer sereno sempre foi proferida por este pastor de almas e de templos. A sua escrita era dever impositivo para os ouvintes da Palavra de Deus que repercutiu durante muitos anos pelas ondas do rádio e da televisão.
A Palavra, o Verbo transmudado, orienta, ensina, admoesta.
Como o Pai Misericordioso ou o Bom Pastor que acolhe a ovelha desgarrada, Dom Serafim sempre exerceu sua missão imbuído do espírito da Caridade e da Fé, proclamando a sua palavra de Sabedoria.
Já dizia são Paulo, na Carta aos Coríntios, a Primeira delas:
A manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil. Porque a um, pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria e a outro a fé ou o dom de curar. Se um recebe dons de profecia ou do discernimento dos espíritos, outros recebem o da verdade ou da interpretação.
O Espírito reparte todos esses dons para que possamos trilhar a excelência dos caminhos, à procura do desempenho de nossa lida justaposta à palavra plena, que é dom de vida.
 Para Salomão, o valor da Sabedoria é um tesouro inexaurível e aquele que a sabe usar, como um dom que lhe é dado, estreita sua amizade com Deus, que é seu Guia e Orientador.
Eis as palavras de Salomão:
Ele, de fato me deu o conhecimento exato dos seres, a estrutura do universo e a atividade dos elementos; o começo, o fim e o meado dos tempos; a alternância dos solstícios e as mudanças das estações, os ciclos dos anos e as posições dos astros, a natureza dos animais e os instintos das feras,as energias dos espíritos e os raciocínios dos homens, as variedades das plantas e as virtudes das raízes.
Tudo que há de oculto e de manifesto, eu o conheci; pois instruiu-me a artesã de todas as coisas, a Sabedoria.

Humilde e probo, simples no falar, severo e doce no ensinar, possuidor desse tom de sabedoria, vive Serafim, o menino que Deus escolheu, cujo dom de ternura lhe é afeito e o faz chegar ao coração humano. 

* Presidente da Academia Mineira de Letras

sexta-feira, 13 de julho de 2018


A contundente distribuição 
da renda

Cesar Vanucci


“A turma (mais afortunada) do 1 por cento levou para casa, no ano passado, 
36 vezes o que ficou com a metade mais pobre dos brasileiros (...), 
grupo formado por pessoas com renda média de 750 reais mensais.”
(André Barrocal, jornalista)

Dados recolhidos nas declarações anuais do Imposto de Renda, objeto de comentários técnicos em órgãos especializados, estão alinhados num trabalho jornalístico de fôlego de autoria de André Barrocal, na apreciada revista “CartaCapital”, edição de 27 de junho passado. O trabalho oferece sugestivo retrato de corpo inteiro da contundente distribuição da renda nacional. Revela, como ponto de partida, com base em informações coletadas pelo IBGE na “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)”, que de uma população de 207 milhões 124 milhões de pessoas possuem algum tipo de renda, derivada de trabalho remunerado, aluguéis, aposentadorias, pensões, mesadas, aplicações, benefícios sociais, assim por diante.

O salário é apontado como a modalidade mais importante de renda, fonte de provento para 86 milhões. Desses, 860 mil são identificados como integrantes da faixa mais afortunada em matéria de rendimentos, pela circunstância de abiscoitarem, em média, 27 mil reais por mês. Fazem parte do conjunto dos 1 por cento mais bem posicionados financeiramente. Esta categoria responde por 20 a 25 por cento da riqueza brasileira.
Estudos a respeito das desigualdades sociais na vida contemporânea ressaltam que a concentração de renda nas mãos de pequenas minorias constitui fenômeno mundial. No Brasil, os índices que falam da perversa discrepância são considerados maiores do que em boa parte dos países de economia pujante. Noutras palavras, os sinais dos gritantes contrastes na apropriação de bens mostram-se, cá por estas bandas, mais visíveis do que em outras plagas.

Os 5 brasileiros mais ricos somam haveres calculados em 87 bilhões de dólares.  No ano passado, os algarismos acumulados do ervanário pertencente ao reduzido grupo correspondiam – ora, veja, pois! - ao patrimônio somado de 100 milhões de compatriotas da metade mais pobre. De outra parte, os 15 maiores ricaços brasileiros, elencados em trabalho da revista “Forbes” ao relacionar as 1000 fortunas mais avultadas do planeta, detinham recursos da ordem de 124 bilhões e 700 milhões de dólares. Da comparação do PIB brasileiro (1.796 trilhão de dólares, em 2016) com o patrimônio desses 15 magnatas extrai-se a conclusão de que a participação dos mesmos na renda nacional anda por volta de 8 por cento.

A lista dos nossos miliardários comporta outros sugestivos registros. Dos 5 mais bem aquinhoados, ocupando o primeiro, o terceiro e o quarto lugares, três fazem parte de um mesmíssimo conglomerado empresarial, ramo de bebidas. Na sequência, no sexto e sétimo lugares, se posicionam 4 dirigentes de uma mesma instituição bancária. Os 13º e 14º lugares da lista são de executivos de uma outra organização de presença realçante no cenário industrial.

Ao time do 1 por cento toca, no bolo da riqueza coletiva, fatia equivalente a 36 vezes mais a da metade mais pobre, que sobrevive com renda média mensal de 750 reais. Abaixo, como sabido, do pífio piso salarial vigente, piso que o governo cismou em não elevar para o ano vindouro.

Louvando-nos ainda nos informes da “Forbes”, tomamos ciência de que, entre 2016 e 2017, dos 2.043 triliardários listados no mundo inteiro 31 eram de nacionalidade brasileira. Em 2018, mais 12 entraram no seleto clube.

As análises a que nos reportamos fornecem copiosa informação sobre as características da distribuição da renda brasileira. Em 2017, 28 milhões de contribuintes prestaram conta ao Leão. R$ 137 mil foi o ganho médio mensal declarado de 1.300 dirigentes de empresas com ações negociadas na Bolsa. De R$ 100 mil mensal foi a renda média anunciada por 9.600 donos de cartórios possuidores de bens avaliados, em média, de 1,4 milhão de reais e de patrimônio de 1,3 milhão. Trinta e cinco mil e 200 membros do Poder Judiciário assinalaram renda média mensal de R$ 51 mil, enquanto 2.600 diplomatas afirmaram possuir renda média mensal de R$ 36 mil e riqueza individual de 1,6 milhão em média. O patrimônio médio e a renda mensal anotados por 323 mil médicos foram, respectivamente, de R$ 850 mil e de R$ 28 mil. Já o patrimônio registrado por vinte e oito mil advogados foi de 540 mil, enquanto sua renda média atingiu 28 mil.

O amplo painel de dados vindo a lume no trabalho jornalístico citado não levou em conta, óbvio supor, os valores presumivelmente altíssimos das fortunas pessoais amealhadas no plano – chamemos assim – da informalidade. Bufunfa respeitável acha-se guardada, com certeza, em contas ultrassecretas nos chamados “paraísos fiscais”. Locais que a hipocrisia social e os manjados esquemas de malfeitorias em permanente funcionamento fazem questão de manter, receptivos, ativos e prósperos, em variadas paragens deste mundo amalucado, começando pela ladina e neutra Suíça.

Mas isso, como era de costume dizer-se em tempos de antanho, já são outros 500. 500 milhões, ou bilhões, em dólar, euro, libra, por aí, por aí...


Momento brasileiro 
reclama reflexão

Cesar Vanucci

"Uma crise no Judiciário contribui para elevar ainda mais
 a desconfiança da população nas instituições e na própria Democracia".
(Ciro Gomes)

Agora, que o sonho do hexa se esvaiu que nem bolha de sabão solta no ar, deixando na boca um gosto azinhavrado de cabo de guarda-chuva umedecido, o jeito que tem é encarar a realidade deste instante político e administrativo desfalcado de inspiração em termos de construção humana. Com as eleições à vista, o ainda não de todo definido quadro de candidaturas suscita preocupações à pamparra.

Revela-se visível demais da conta a carência de propósitos, nos ditames políticos, capazes de verdadeiramente encher de empolgação a alma coletiva. Muita gente até aventa, a esta altura da copa eleitoral de outubro, a hipótese de que o volume de abstenções e sufrágios nulos possa, na hora das apurações, superar o número dos chamados votos úteis. Não há como ocultar o desencanto reinante quanto aos nomes da lista de candidatos prováveis.

O desencanto, fácil de ser detectado nas ruas e lares, encontra respaldo na avalancha de malfeitos que tolda o panorama político. É um nunca acabar de casos de malversação do dinheiro público, envolvendo dirigentes de todos os matizes partidários, incontáveis agentes públicos infiéis e empreiteiros inidôneos. São demonstrações abundantemente oferecidas, em diversificados escalões administrativos, de inaptidão para o exercício do gerenciamento dos negócios públicos. É um clamoroso descaso, nas esferas burocráticas, para com aspirações as mais elementares da sofrida gente do povo. Em não poucas decisões relevantes para o interesse comunitário percebe-se, com desnorteante constância, gritantes insensibilidade social e desrespeito pelo sagrado sentimento nacional. As indesejáveis consequências desse estado de coisas sentimo-las, todos nós, dia a dia, na maltratada pele.

Nada obstante os róseos comunicados sobre o que vem rolando no pedaço político-administrativo, transmitidos sem o mais leve rubor na face por porta-vozes palacianos reprovados pela opinião pública no quesito empatia, os fatores que medem o bem-estar social continuam a apresentar tendências declinantes. O desemprego cresce a olhos vistos. As atividades produtivas sinalizam estagnação. Os preços dos produtos essenciais aumentam continuamente. Idem, idem com referência aos combustíveis e taxas de serviços nas áreas da saúde e noutras modalidades de prestação de serviços imprescindíveis à coletividade. Os escorchantes juros bancários desencorajam promissores empreendimentos, afetam negócios em condições de gerar oportunidades de trabalho e promover a prosperidade. E o que não dizer, quedando por ora na listagem dos tormentos cotidianos, da violência urbana que grassa solta na praça?

Como se toda essa carga descomunal de questões mal resolvidas, em razão da insensatez político-administrativa prevalecente, já não fosse suficiente o bastante para apoquentar a paciência das pessoas, incrementando o desassossego social, ainda estamos sendo agora constrangidos a confrontar, impotentes e aturdidos, mais uma encrenca inusitada, perturbadora, inacreditável. Nutrida, de certo modo, por exacerbações egolátricas e passionalismo de personagens que deveriam zelar, por dever de ofício e ética profissional, pela isenção nas decisões, a ostensiva e tensionante politização da Justiça, nos dias de hoje, alimentando torrente de manchetes, alveja respeitáveis postulados democráticos.

Alguns representantes do Poder Judiciário nas diferentes instâncias arvoram-se do direito de reinterpretar, a seu talante, de acordo com convicções ideológicas pessoais, preceitos constitucionais, inserindo um toque anárquico no ritmo processual. Produzem entendimentos dúplices, por vezes altamente conflituosos, em situações de características legais rigorosamente idênticas. Não passa desapercebido, mesmo a olhares leigos em matéria jurídica, que de tempos para cá os holofotes midiáticos andam mexendo bastante com a cabeça de ilustres cidadãos que carregam a responsabilidade de decisões relevantes.

Isso remete à admissão de que já está passando a hora, conforme reconhecido pelas mentes mais lúcidas da Nação, de os setores encarregados de zelar pela ordem jurídica se empenharem, urgentemente, numa reflexão aprofundada do que vem acontecendo. E, a partir dessa avaliação, adotarem procedimentos, definirem fórmulas producentes no sentido de desfazer a baita confusão jurídica implantada, que tanta inquietação tem causado no espírito popular.


sexta-feira, 6 de julho de 2018


Lavar as mãos...


Cesar Vanucci

“A saúde anda doente.”
(Raul Canal, advogado)

O desvario que rola solto por aí, no atacado e no varejo, produz reações de comportamento bastante bizarras. Face ao mesmo assunto, envolvendo crucial questão de saúde, há quem lave as mãos, pra fugir de aborrecimentos e há quem, inconsequentemente, crie problemas simplesmente não lavando as mãos. A história de hoje fala disso. Amiga de muitos anos, professora com opulenta bagagem profissional, encaminha-me recorte de artigo publicado meses atrás em “O Tempo”, assinado por Raul Canal, advogado, presidente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética. As revelações contidas no comentário em tela enquadram-se na lista, a perder de vista, das absurdidades rotineiramente praticadas nesse mundo de Deus em que o tinhoso costuma fincar seus enclaves, como uma sonora demonstração dos incontornáveis “defeitos de fabricação do ser humano”, segundo a própria professora.

O autor proclama, alto e bom som, sem vacilações, com todas as letras, que os “hospitais brasileiros matam mais que nossas rodovias”. Assevera, deixando-nos simplesmente estupefatos, que os chamados “eventos adversos”, decorrentes de mortes hospitalares ocorridas em “condições adquiridas secundárias à assistência”, são um baita problema de saúde pública, de insuspeitado conhecimento por parte da sociedade. Lembrando que o trânsito brasileiro, “com rodovias em péssimas condições de conservação, aliado à imprudência dos motoristas e à idade avançada das frotas”, é o que mais mata no mundo, chegando ao recorde mundial (2011, 65 mil mortes), afiança que 19 por cento dos pacientes internados no Brasil são vitimados por algum “evento adverso”. Mais: 6 por cento vão a óbito. Em miúdos: nas internações anuais, que chegam a 19 milhões, 3,6 milhões de pacientes são envolvidos nalgum “evento adverso” e 220 mil perdem a vida em função disso. O número corresponde a 5,2 vezes dos quantitativos fatais do trânsito e a 3,6 vezes das mortes provocadas pela violência urbana. Ora, veja, pois!

O impacto das declarações do dirigente da Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética sobe, agora, de tom. Cem mil mortes acontecem, cada ano, em dependências hospitalares, devido apenasmente a infecções que, pelo menos em 70 por cento dos casos, poderiam ser evitadas. Como? – pergunta-se. A resposta é nocauteante. Com o mero cuidado de... “lavar as mãos”. As estarrecedoras informações se alongam. Vejam só o que vem na sequência. “Em números crus, concluímos que 6.812 hospitais se envolvem no quíntuplo de óbitos que ocorrem com 85 milhões de automóveis em 1,76 milhão de quilômetros de rodovias mal conservadas. Recente estudo da UFMG, sob coordenação do professor Renato Camargo Souto, publicado no “Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar do Brasil”, aponta que, a cada 3 minutos, morrem 5 brasileiros vítimas de eventos adversos. Esse número fica atrás apenas das mortes causadas por doenças cardiorrelacionadas (349.652) e é superior às mortes provocadas por câncer (209.780), sendo, por conseguinte, a segunda causa de mortes no Brasil”.

Noutro trecho do trabalho é esclarecido que os “eventos adversos”, além de óbitos, contemplam também morbidades graves, sequelas motoras e neurológicas, danos estéticos, psíquicos e sofrimentos morais. A situação brasileira, neste particular, salienta-se ainda, não difere muito da situação detectada noutros países, o que robustece a tese de que o comportamento antissocial das pessoas possui, numa perspectiva geral, abrangência universal. No mundo todo, em 421 milhões de internações hospitalares por ano, os tais “eventos adversos”, que compreendem além da infecção hospitalar, erros de medicação e de diagnóstico (muitas vezes igualmente fatais), alcançam a  impressionante cifra de 42,7 milhões. Nos Estados Unidos, tal qual no Brasil, os “eventos” constituem a terceira causa de morte (400 mil anuais). Ficam nas estatísticas abaixo das doenças cardiorrelacionadas (614 mil casos) e do câncer (591 mil).

Como se enfatiza no trabalho, a saúde anda doente. Muito doente. “Nossos hospitais são hoje, talvez, o ambiente mais inóspito em que o doente possa permanecer”.

Faz todo sentido admitir, no arremate deste papo, que a história narrada configura verdadeira tragédia. Trata-se de uma constatação a mais dos tormentos impostos à humanidade pelo estilo de vida egoístico, de gélido utilitarismo, despojado de fraternidade, que rege de maneira geral as relações comunitárias. Sentimo-nos todos fragilizados, vulneráveis, ao dar-nos conta de que os setores competentes, os órgãos fiscalizadores e operadores do sistema de saúde se limitam, face à situação denunciada, a fazer aquilo que, valendo-nos de uma metáfora, deveriam forçar fosse normalmente feito nas dependências onde se realizam os atendimentos assistenciais de saúde: lavar as mãos...


Álbum de horrores

Cesar Vanucci

“Qualquer (...) que fizer tropeçar a um destes pequeninos (...), 
melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma 
grande pedra de moinho e fosse afogado na profundeza do mar.”
(Mateus 18.6, referindo-se ao respeito que se deve à criança)

As inacreditáveis imagens das criancinhas enjauladas nos centros de reclusão do Serviço de Imigração estadunidense representam o registro mais recente de um “álbum de horrores” da história contemporânea. O álbum vem sendo composto pela crueldade racista e pela insensatez de tiranos e outros personagens poderosos despidos de sentimento humanitário e senso de justiça. Envolve tenras, inocentes e indefesas criaturas para as quais o “reino dos céus” fica reservado conforme a fala do evangelista.

Um recuo na crônica dos tempos leva-nos ao sanguinário Herodes e isso nos deixa em estado de absoluta perplexidade ao percebermos que, mais de dois milênios transcorridos, numa era considerada de avanços civilizatórios extraordinários, atos hediondos continuem sendo impunemente praticados contra “os pequeninos” das citações de Marcos e Mateus.

Percorrendo as ladeiras da memória dá para juntar uma sequência simbólica, relativamente atualizada, desse amontoado de barbaridades. Acode-nos, logo no começo, aquela cena famosa que tem como protagonista um garotinho judeu de Varsóvia. Sem entender bulhufas o que se desenrola ao derredor, apavorado, ele ergue os bracinhos inermes em sinal de rendição diante do brutamontes que carrega nas mãos uma metralhadora e no braço a suástica sinistra.

A esteira das lembranças perversas traz, após, outro lance impactante ocorrido na guerra do Vietnã. É o da garotinha nua, desespero desenhado no semblante, em corrida desabalada pela estrada, em meio a escombros do conflito, com dilaceramentos visíveis na pele deixados pelo napalm.

A invasão do Iraque produziu também um flagrante arrasador nessa linha documental. Surpreende um punhado de brucutus, paramentados com tudo aquilo que a tecnologia bélica moderna adicionou às vestimentas e apetrechos letais militares, coagindo meninotes assustados a caminharem, sob a mira de armas engatilhadas, com as mãos postas sobre a cabeça.

Em terras da África esquecida dos homens (e parece, às vezes, até dos deuses), num conflito tribal com participação de mercenários estrangeiros, recrutados sabe-se lá por quem, uma câmera captou essa outra cena terrificante. Pequerrucho exangue, cinco anos talvez, fio de choro prestes a romper, é largado numa área repleta de destroços, com aves de rapina de grande porte a rodeá-lo ameaçadoramente.

Na praia do Mediterrâneo, vista como o porto dos sonhos pelas levas de refugiados sem eira nem beira, o corpinho do garoto sírio é retirado, sob forte comoção, dos restos de um precário barco naufragado. O choro convulsivo dos socorristas projeta um brado de indignação – pode-se dizer - da própria humanidade. Esse sentimento de revolta decorre da generalizada sensação de que a sociedade revela-se impotente para encontrar, nestes tempos convulsionados, uma solução adequada para o angustiante drama dos milhões de seres humanos escorraçados de seus pagos pelas guerras do terror e pelo terror das guerras.

Em remotas regiões da Nigéria, escolas infantis são ocupadas por fanáticos da facção terrorista conhecida por Boko Haram. Centenas de meninas são levadas para locais incertos e não sabidos, com objetivos tenebrosos e sem perspectiva de próximo retorno aos lares. Imagens chocantes desses raptos coletivos são, volta e meia, propagadas nas redes sociais.

Na Cisjordânia permanentemente convulsionada, soldados das bem equipadas forças de segurança israelitas disparam contra multidões de palestinos que protestam pela ocupação do território. São frequentes os casos de vítimas fatais em número elevado como decorrência da desproporcional reação oferecida às pedras arremessadas pelos manifestantes. Muitos garotos e garotas perdem a vida nessas contínuas escaramuças.

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...