sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sinais alentadores no ar

Cesar Vanucci *

“Não se deve confiar nas pessoas que,
a propósito do mar só nos falam de enjoo.”
(Louis Pauwells, coautor, junto com
Jacques Bergier, do célebre “O Despertar dos Mágicos”)


São numerosos e assaz alentadores os indícios da pujante capacidade brasileira para o enfrentamento de desafios e problemas considerados cruciais. Como sabido, defrontamo-nos com uma crise de respeitáveis dimensões. Ela deriva em parte de uma conjuntura internacional adversa. Mas decorre também de deslizes domésticos deploráveis. São deslizes produzidos por ineficiência governamental, posturas políticas e atuações empresariais insustentáveis à luz do bom senso e das regras éticas.

Em razão disso a sociedade brasileira tem amargado, de tempos a esta parte, frustrações sem conta. Desnecessário alinhar, pela enésima vez, fatos sobejamente conhecidos que contribuem para estimular, no espírito de parcelas ponderáveis da população, a desagradável sensação de que a confusão anteposta em nossa caminhada, nascida de tantos desacertos comportamentais arremeteu-nos a um beco sem saída. É obvio que as saídas existem. Mas, agravando as coisas, revestindo-as de cores sombrias, na contramão dos interesses nacionais, atuam freneticamente manjados “pescadores de águas turvas”.

Adeptos da tese do “quanto pior, melhor”, infiltram-se em justas manifestações de inconformismo comunitário para acenar continuamente com “cenários catastrofistas”. São cenários que não se amoldam, fácil perceber, à realidade nacional. Fingindo desconhecer as verdadeiras potencialidades brasileiras, subestimando as virtualidades, a vocação empreendedora, o poder criativo de nossa gente, os “plantonistas do apocalipse”, uma minoria ruidosa, pregam abertamente a adoção de fórmulas desvairadas à guisa de “solução” para as momentosas questões que nos afligem. Compõem enredo irremediavelmente caótico de sabidos e indesejáveis acontecimentos gerados à margem da vontade popular, como se para os males detectados não existissem remédios. Tentam desacreditar as instituições que nos regem. Chegam, até mesmo, esticando a limites insuportáveis seus propósitos incendiários, a propor a ruptura do regime democrático. Não se deixam sensibilizar pelas claras evidências de que graças a essas mesmas instituições, afinadas com o genuíno sentimento da Nação, as apurações de muitos episódios de corrupção se processam em escala satisfatória. As decisões tomadas nas áreas legais revelam franca disposição de garantir não sejam as irregularidades praticadas, ao contrário do que a história tantas vezes registrou no passado, lançadas debaixo do tapete.

Desconfiar desses “propagandistas do desalento” é aconselhável. Louis Pauwells gravou frase antológica especialmente para eles: “Não se deve confiar nas pessoas que, a propósito do mar só nos falam de enjoo.”

Mas como estávamos dizendo lá no começo, alguns sinais vêm sendo dados do animador esforço em que a Nação se vê empenhada no sentido de reaver valores e de suplantar as dificuldades econômicas.

Vamos nos ocupar desses alentadores sinais nas considerações abaixo.

Na própria faixa de atuação da Petrobras extraímos constatações do que proclamamos. Os resultados superavitários no primeiro trimestre (cinco bilhões e trezentos milhões de reais) nas operações da empresa servem de prova. O financiamento do Banco da China, de três bilhões e quinhentos milhões de dólares, é a maior operação de crédito na história latino-americana. Seja recordado que tal aporte revela-se superior ao valor de aquisição da Vale pelos grupos privados que assumiram o controle da segunda maior empresa nacional, uma das maiores do mundo no setor de mineração, quando de sua controvertida “desestatização”. E olhem que o valor aí pago (três bilhões e trezentos milhões de dólares) foi celebrado em verso e prosa, como um recorde absoluto em matéria de transferência de negócio. Tem mais: apesar dos percalços, a estatal foi a empresa de energia que maior crescimento acusou, no mundo, na produção de petróleo em 2014.

E já que falamos em investimentos chineses, anotemos outra alvissareira informação. Esbanjando confiança nas potencialidades brasileiras, governo e empresários da potência asiática confessam-se propensos a aplicar 53 bilhões de dólares na economia brasileira, principalmente em ferrovias e energia. 7 bilhões estão destinados a atividades ligadas à Petrobras. Essa formidável injeção de recursos, que contempla até mesmo a implantação de uma ferrovia transoceânica na direção do Pacífico, passando pelo Peru, está sendo prevista como fruto da visita que o premiê Li Keqiang, acompanhado de 200 empresários, faz ao Brasil neste instante. Convenhamos, não faz o menor sentido conceber que uma parceria desse tamanho possa vir a ser firmada com uma economia debilitada, aguardando a extrema unção na “UTI”, como propalado na cantilena derrotista.

É preciso atentar para outros sinais positivos. Os números recentes da balança de pagamentos se enfileiram entre eles. O reconhecimento da “Social Progress Imperative”, ong norte-americana, de que o Brasil ostenta presentemente o maior Índice de Progresso Social (IPS) no bloco das economias emergentes, incluídas na relação China, Índia, Rússia e África do Sul, é mais um registro digno de atenção. A informação de recente relatório do Banco Mundial, assinalando que nosso país conseguiu “praticamente erradicar a extrema pobreza e o fez mais rápido do que os países vizinhos, puxando para cima o desempenho social da região como um todo”, é outro dado merecedor de reflexão. E o que não dizer das conclusões do chamado “Relatório Mundial da Felicidade”, divulgado semanas atrás nos Estados Unidos? Ao Brasil concedeu-se, no ranking dos “países mais felizes”, honrosa 16ª colocação. Pontuação de 6,983, contra 7,587 atribuída à Suíça, primeira classificada. Acima do Brasil, em “capital social”, colocam-se a Islândia, Dinamarca, Noruega, Canadá, Finlândia, Países Baixos, Suécia, Nova Zelândia e Austrália. Atrás, com pontuações mais baixas, derivadas de “estresse econômico, político e social”, posicionam-se, entre outros países, Estados Unidos, China, Japão, França, Alemanha, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Espanha, Chile, Argentina.

A própria lucratividade do poderoso sistema bancário, sem similar, vale de certa maneira como indicativo da força econômica nacional. E nem sequer o arrefecimento nas vendas de veículos no primeiro quadrimestre do ano pode ser visto de forma alarmista, como se alardeia. Não é difícil arrolar elementos que se contrapõem à tese. Vamos lá: a produção de veículos alcançou em 2014 a impressionante cifra de 3 milhões e 400 mil unidades. Apenas três países ultrapassaram-nos: China, EUA e Japão. Oportuno lembrar que o custo de carros no mercado interno, por conta de lucros exagerados e não por causa de impostos, é o mais elevado do mundo. Em razão dos preços, das ruas permanentemente congestionadas nas grandes e médias cidades, é de se imaginar que, nalgum instante, possa ocorrer, como não? saturação nas compras. De outra parte, se as atividades do setor se mostrassem mesmo inteiramente desfavoráveis, sem boas perspectivas de negócios, como explicar a implantação, num caso já ocorrida, em dois outros anunciada, de novas sofisticadas plantas automobilísticas? Sinal sugestivo chega-nos também do criativo setor da comunicação digital. Em crescente expansão, o sedutor segmento industrial, comercial e de serviços já assegura-nos sexta posição no ranking mundial.
Isso aí.

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)
Presidente da Academia Mineira de Leonismo, membro fundador da Academia de Letras do Triangulo Mineiro e membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais


sexta-feira, 22 de maio de 2015

ASPECTOS TRANSCENDENTES 
DA CRIAÇÃO LITERÁRIA


Palestra do Acadêmico Cesar Vanucci 
no dia 14 de abril de 2015, 
por ocasião da celebração de mais 
um aniversário de fundação da Amulmig

Nosso primeiro contato com a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais deu-se em 1965, segundo semestre, dois anos depois de sua fundação.

Acabáramos de vir de muda do interior para a capital.

A brilhante poeta Eva Reis, conterrânea querida de saudosa recordação, companheira na Academia de Letras do Triangulo Mineiro, pediu-nos a saudássemos na assembleia festiva de seu ingresso na Amulmig.

A sessão festiva, numa tarde de sábado, teve por palco a sede da União dos Varejistas de Minas Gerais, na avenida Paraná.

“Tu pisavas nos astros, distraída...”
(Orestes Barbosa, “Chão de Estrelas”)

No correr da saudação, fomos inesperadamente aparteados, mais de uma vez, por ilustre membro da Amulmig, o professor Reis, poeta de reconhecidos méritos. De maneira polida, mas veemente, ele se contrapôs a conceitos que expendemos sobre os múltiplos caminhos da linguagem poética. Disse não concordar, jeito algum, com a opinião de Manuel Bandeira, por nós evocada, a respeito de um verso que o grande vate apontava como o mais belo da língua portuguesa: “Tu pisavas nos astros distraída”, trecho do poema de Orestes Barbosa para a melodia “Chão de Estrelas”, feita em parceria com Silvio Caldas.

Essa cena, ocorrida há meio século, bateu-nos na lembrança na hora em que dias atrás nossa estimada Presidente Elizabeth Rennó convocou-nos para fazer uso da palavra nesta solenidade comemorativa de mais um aniversário da nossa Amulmig.

Comparecemos, dali pra frente, a muitos outros eventos da entidade, até que, em 2008, para nosso gaudio e orgulho, recepcionados pela Elizabeth, pelo Abritta e saudados pela Cely, passamos a fazer parte de seu valoroso quadro de associados.

Guardiã serena de saberes acumulados

No desfrute das compensadoras prerrogativas de colega de personagens celebrados como figuras exponenciais da cultura brasileira, caso da presidente Elizabeth Rennó, procuramos colocar todo nosso entusiasmo diletante e nossos apoucados dons para a arte da comunicação, como exigido de seus consócios numa Academia de tão ricas tradições de cultura, a serviço da palavra utilizada como instrumento social de construção humana.
A Amulmig, guardiã serena de saberes acumulados, ensina-nos a todos, praticantes do oficio das letras, que a arte da comunicação é forma sublime de expressão dos sentimentos da humanidade. Isso nos estimula a empregar o poder mágico da palavra, sua força de sedução, para celebrar continuamente a vida. Para espalhar a beleza. Para expandir a consciência humana, apontar trilhas, criar condições perenes de ascensão social. Exercitando a curiosidade, apelando para a imaginação criadora, o homem de letras tem o dever de transmutar o ato de viver numa aventura poética. “A vida se vive e se escreve”, proclama Pirandelli.

Reafirmação da inteligência e da cultura

Caros companheiros,

Compenetrados da missão que nos é inerente, como acadêmicos, de conferir dinamismo e vibração às ideias, demarcando e alargando o espaço reservado às ações de construção humana, queremos registrar que esta comemoração não representa apenas uma marca a mais, em termos cronológicos, da cintilante trajetória da Amulmig, mas constitui um novo momento de reafirmação da inteligência e da cultura mineira e brasileira, carregado de sonhos ardentes, emanados da alma majoritária das ruas e propagados na voz de seus intérpretes, os praticantes do oficio das letras, em favor de uma era universal democrática, ecumênica, humanística, concebida nos corações fervorosos.

A transcendência na criação literária

Caros Companheiros,

“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.”
(William Shakespeare)

“Habitamos uma ilhota desgarrada num infinito oceano coberto de inexplicabilidades.”
 (Aldous Huxley)

Com sua condescendente acolhida, animamo-nos, agora, a passar-lhes algumas reflexões, baseadas em estritas percepções pessoais, a respeito dos aspectos transcendentes da criatividade artística. É bom que se mencione, antes de tudo mais, nossa crença em que os impulsos transcendentes estão sempre por detrás da obra de arte. Esse é o ponto diferencial na comunicação de qualidade apurada.
Permitimo-nos ousar, entretanto, para fins das considerações que alinharemos, uma interpretação mais sutil do transcendente.

A vida e obra de Chico Xavier

Queremos nos reportar a uma transcendência com um certo toque místico. E isso nos arremete de forma impetuosa, logo de cara, à obra de ninguém mais, ninguém menos que Chico Xavier.
Quinhentos livros brotaram do cérebro, do coração, das mãos, do espírito provido de invulgares dons espirituais dessa criatura iluminada.

Como explicar algo tão espantoso quanto a obra de Chico? Diante dela se queda, perplexo, o saber cientifico consolidado, com suas posturas e regras dogmáticas, com seus rígidos esquemas canônicos.
Como explicar essa torrente caudalosa de produção literária requintada, de conteúdo edificante, encharcada de humanismo, derivada de um processo mágico a que, na falta de uma expressão mais eloquente, se deu a denominação de psicografia?

Que ligações misteriosas são essas que favorecem a frutificação exuberante de ideias generosas, arrebatantes, que induzem homens e mulheres de boa vontade a descobrirem novos padrões de comportamento social?

Que força avassaladora é essa que, por meio da palavra, torna uma criatura simples, meiga, de características nazarenas, um mensageiro de boas novas que ajudam na edificação de mundo mais fraterno?
Os escritos de Chico Xavier ganharam o mundo. Estão nos lares, nas bibliotecas, na televisão, no cinema, no teatro. A primeira peça teatral neles inspirada, “Além da vida”, produzida pelo meu saudoso mano Augusto Cesar Vanucci, primeiro brasileiro ganhador dos famosos troféus “Emmy” e “Ondas”, é encenada todos os dias, há mais de meio século, nalgum teatro.

O lado místico de Guimarães Rosa

Caros Companheiros,

Queremos nos abstrair, nas considerações subsequentes, de quaisquer especulações de sentido ideológico-religioso, naturalmente inseparáveis da história de Chico Xavier, para sublinhar, agora, como fruto também de meras percepções pessoais, que essas manifestações especiais de transcendência no plano da criação intelectual, podem irromper, também, no itinerário de praticantes do oficio da palavra não comprometidos declaradamente com causas de proselitismo religioso e espiritual.

Poderíamos exemplificar com o caso do famoso escritor J.J.Benites, espanhol, autor da série “Operação Cavalo de Troia”, obra que bateu índices de vendagem em todos os idiomas. Mas pela limitação do tempo, que corre desenvolto, vamos deter-nos na apreciação apenas de mais um outro exemplo de talento literário atingido pelos dardos flamejantes da inspiração ultra transcendente.

Vamos falar, talvez para surpresa de muitos, imagino, de João Guimarães Rosa.


“Sua obra suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)

Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão, Veredas”, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.

Guimarães Rosa são muitos

Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar - categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.

Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.
  
Manifestações mágicas na obra de Guima

E eis que, agora, de repente, vemos em descoberta inesperada despontar um Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante revelação chega num texto precioso de Guimarães Rosa, publicado há mais de 50 anos no “Estado de Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de todos os tempos.
  
No artigo em questão, esquecido por décadas, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosíssimo que deixa evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que o escritor foi, iniludivelmente, possuidor.

A confissão de Guimarães

Esta confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus dons paranormais, está contida num artigo que tem por título “Vida – arte – e mais?”.

Passamos, na sequência, à leitura desse trabalho inédito.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.
No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando eu brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.
Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado.
O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado frequentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

O que nos sugere o escrito de Guimarães

Até aqui a fala por inteiro foi de Guimarães Rosa.

Cuidemos de comentá-la.

Resta assim provada, no depoimento do próprio autor, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico consolidado.

Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”
Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar.

Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”.

Escrita automática, canalização ou ...?

Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que nos foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntamos-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzimos da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extrassensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão, Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Atenção maior dos estudiosos

Não há como negar: as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.




sexta-feira, 15 de maio de 2015


Santo Helder

Cesar Vanucci

“Graça das graças é não desistir nunca.”
(Dom Helder Câmara)

A Igreja revela-se disposta a conceder a aureola de santidade a um brasileiro extraordinário. Cidadão carregado de dons singulares, passou pela vida concentrado em ações voltadas à preservação da dignidade humana.

Nos trevosos tempos do despotismo, fizeram de um tudo para silenciá-lo. Chegaram ao extremo de proibir a citação de seu nome no noticiário. Não podendo deportá-lo, impotentes face à sua estatura moral e à relevância da função religiosa exercida, esforçaram-se pra valer no sentido de apresentá-lo como “proscrito” em sua própria pátria. Não conseguiram nem assim arrefecer seu abrasador entusiasmo pela justiça social e pela liberdade de expressão. Tanto que seu nome foi lançado, mais de uma vez, ao Nobel da Paz. Não conquistou, apesar de merecer, esse prêmio, mas foi agraciado em sucessivas ocasiões com outros lauréis de elevado significado ético e moral em diversas partes do mundo, onde sua militância social, seu desassombro cívico e vocação democrática suscitaram respeito e admiração que, bem provavelmente, nenhum outro brasileiro logrou, a qualquer tempo, alcançar na esfera internacional.

Por tudo quanto dito acima, foi com imenso júbilo que os brasileiros, de todas as crenças, comprometidos com as causas da solidariedade humana e da paz, tomaram conhecimento da inspirada decisão do Vaticano em desencadear o processo de canonização de Dom Helder Câmara. Conhecido nos quatro cantos do mundo por sua ação desassombrada, esse notável personagem da história brasileira, fundador da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB), passa a ser considerado, desde já, pelas regras oficiais da Santa Sé, “servo de Deus”. Tal condição, vale ressaltar, ele já dela desfrutava, há um bocado de tempo no sentimento das ruas.

Para que venha a ser oficialmente reconhecido como santo exige-se a comprovação de “dois milagres” ocorridos por sua intercessão, admitidos por tribunal eclesiástico específico. Helder Câmara, pela sabedoria incomum e luta indormida contra as exclusões e imposturas sociais – que lhe valeram, como já frisado, perseguição feroz das autoridades e de grupos refratários aos nobres ideais que abraçou – deixou vestígios inapagáveis de sua passagem pela “pátria dos homens”. Foi alguém que soube promover, como poucos, o diálogo entre o mundo de seu tempo com o Alto. Conhecedores de suas intercessões pelos semelhantes quando vivo, os devotos põem fé na possibilidade de que não demorarão muito a acontecer as constatações de casos de intercessões suas no plano espiritual.

Do lendário Helder Câmara são sempre lembradas algumas frases antológicas. Uma delas: “Graça das graças é não desistir nunca.” Taí afirmação que exprime impecavelmente o jeito de ser desse encantador apóstolo moderno. Alguém que se imortalizou na reverência popular, ao contrário de seus algozes, cujos nomes só acodem à memória quando associados a episódios nefandos, repudiados pela consciência cívica nacional.


A ineficácia da pena de morte

Cesar Vanucci

“Todos responderão, algum dia, perante Deus!”
(Anthony Ray Hilton, vítima de erro judiciário, que
permaneceu durante 30 anos no “corredor da morte”)

“Não há evidências de que as leis muito duras resultam em sociedades pacíficas, nem que reduzam o tráfico.”
A declaração dada à revista “IstoÉ” por Nívio Nascimento, membro do Programa da Unidade de Estado de Direito do Escritório das Nações Unidas sobre Droga e Crime da ONU, ajuda a desfazer o mito de que a pena de morte, repudiada pela consciência humana como instrumento jurídico cruel, reduz a incidência de crimes, seja no tocante ao comércio das substâncias ilícitas, seja com relação a outras práticas delituosas inaceitáveis na boa convivência social.

Na Indonésia, onde predomina uma legislação repressora, também “contestável do ponto de vista da proporcionalidade da pena”, segundo o autor da declaração mencionada, o número de usuários de drogas, é hoje de 4 milhões e as expectativas são de que, até o final do ano, o número de consumidores cresça para quase  6 milhões, correspondendo a 3 por cento da população. A ação de extremo rigor do Estado não tem conseguido, nada obstante, impedir seja de 33 pessoas a média diária de vítimas fatais da maconha, metanfetamina cristal e pílulas de ecstasy. Média sempre crescente, de acordo com estudiosos do preocupante problema, em razão das elevadas taxas de pobreza existentes no país.

A ineficácia da pena de morte, lastreada numa fieira interminável de exemplos práticos, para conter a criminalidade não se aplica apenas a esse país asiático. A ONG “Penal Reform International”, conforme revelado em reportagem de Fabiola Perez na “IstoÉ”, divulgou relatório mostrando que os índices de violência se revelam mais elevados sempre nas regiões dos Estados Unidos que adotam a pena capital. Um outro elemento válido para comprovar a tese é fornecido. A taxa de homicídios no Canadá caiu substancialmente – cerca de 44 por cento – desde que a pena de morte foi abolida.

O fuzilamento recente na Indonésia de um novo grupo de pessoas julgadas sumariamente por tráfico de drogas, entre eles um brasileiro portador de doença mental constatado em diagnóstico médico ignorado pela corte judiciária, provocou onda de comoção, fazendo ressurgir manifestações ruidosas contrárias à pena capital. A “Anistia Internacional” anotou, ao condenar a decisão de Jacarta, que entre 1995 e 2014 o número de países favoráveis à  pena de morte foi reduzido de 41 para 22. Nas Nações Unidas, 112 Estados membros aprovaram este ano uma proposta de moratória para a pena, considerando-a incompatível com a dignidade humana.

A momentosa questão em foco ganha singular ênfase com a comovente história vinda na sequência.

Anthony Ray Hilton passou 30 anos de sua vida numa masmorra da penitenciária federal do Alabama, Estados Unidos. Desde a condenação, no começo da pena, foi jogado no “corredor da morte”. Aguardou, sobressaltado, por todo esse tempo, o momento fatal. Enquanto o tempo se esvaia iam-se acumulando, lentamente, agoniadamente, provas de sua inocência quanto ao homicídio de que o acusavam. Finalmente, três décadas depois de proferida a sentença, um tribunal superior condescendeu em reconhecer que o caso de Hilton merecia revisão, por encobrir pavoroso erro judicial.

Ao recobrar recentemente a liberdade, na expectativa de receber indenização estimada a princípio em 6 milhões de dólares, o presidiário impiedosamente alvejado conseguiu reunir forças para transmitir  uma mensagem que, com toda certeza, está ricocheteando pesadamente na mente de seus algozes: “Todos os que contribuíram para que eu fosse colocado no corredor da morte responderão nalgum momento perante Deus.” Como dois e dois são quatro, é o caso de se acrescentar.




GALERIA DE ARTE



 Alfredo Volpi 


conciliou brasilidade e 


  universalidade



A arte de Volpi em diversas telas

Mesmo tendo nascido na Itália, de onde foi trazido com menos de dois anos, Volpi é um dos mais importantes artistas brasileiros deste século. Antes de mais nada, trata-se de um pintor original, que inventou sozinho sua própria linguagem. Isso é muito raro na arte produzida em países do terceiro mundo, cuja cultura erudita sempre deve algo a modelos internacionais. Diferentemente das de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari, cujas analogias estilísticas com Léger e Picasso são reais, a pintura de Volpi não se parece com a de ninguém no mundo. Pode, quando muito ter, às vezes, um clima poético próximo ao da pintura de Paul Klee - mas sem semelhanças formais.
Embora fosse da mesma geração dos modernistas, Volpi não participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Dela estava separado, em primeiro lugar, por uma questão de classe social. Imigrante humilde, lutava arduamente pela vida no momento em que os intelectuais e os patronos da "Semana" a realizaram. Era um simples operário, um pintor/decorador de paredes, que pintava os ornamentos murais, frisos, florões etc., usados nos salões dos palacetes da época. Acima de tudo, esse dado tem uma importância simbólica. Mostra que a trajetória de Volpi foi desde sempre independente de qualquer movimento, tendência ou ideologia.
Autodidata, Volpi começou, na juventude, fazendo pequenas e tímidas telas do natural, nas quais às vezes se nota um toque impressionista. Na década de 30, sua pintura adquire um sabor claramente popular - embora permaneça, ao mesmo tempo, paradoxalmente, sempre concisa, sem a menor prolixidade nem retórica. É a década de 40 que marca sua decisiva evolução em direção a uma arte não representativa, não mimética, independente da realidade contemplada.
Volpi passa a trabalhar de imaginação, no atelier, e produz marinhas e paisagens cada vez mais despojadas, que acabam se transformando em construções nitidamente geométricas - as chamadas "fachadas". É como se o artista refizesse sozinho, por si mesmo, todo o caminho histórico da primeira modernidade, de Cézanne a Mondrian. Sua linguagem não se parece com a desses mestres, mas os propósitos são os mesmos: libertar-se da narrativa e construir uma realidade pictórica autônoma do quadro. Cada tela, nessa época, parece sair exatamente da anterior, num processo contínuo e linear. Através dessas paisagens, que na passagem aos anos 50 se transformam em fachadas, Volpi chega, em 1956, à pintura abstrata geométrica - mas não porque ela está na moda e virou objeto de polêmica, e sim como consequência inexorável de sua própria evolução.
A fase rigorosamente abstrata é curtíssima. Dos anos 60 em diante, Volpi fez uma síntese única entre arte figurativa e abstrata. Seus quadros admitem uma leitura figurativa (nas "fachadas", nas famosas "bandeirinhas"), mas são, essencialmente, apenas estruturas de "linha, forma e cor" - como ele mesmo insistia em dizer.
Também ímpar é a síntese que faz entre suas origens populares e uma produção formalmente muito requintada, sem dúvida erudita. Finalmente, ele concilia e sintetiza brasilidade e universalidade. Pode-se dizer que o projeto estético procurado por Tarsila e articulado e explicitado por Rubem Valentim foi realizado na plenitude por Volpi, de maneira não intelectual e sim prodigiosamente intuitiva.






quinta-feira, 7 de maio de 2015

Os melhores diálogos do cinema


Cesar Vanucci 

“Se quiserem que as coisas continuem como estão, coisas têm de ser mudadas.”
(Frase do Príncipe de Salina no filme “O Leopardo”)

A revista “CartaCapital”, na edição de nº 848 (6 de maio de 2015) reproduz algumas passagens do livro “Os melhores diálogos do Cinema”, de autoria de Paulo Fendler, Editora Linear B.

São frases e diálogos que valem tanto (ou mais) quanto as imagens, sublinha a publicação. Pura verdade. As palavras dos personagens dos filmes traduzem emoções e sentimentos brotados das profundezes da alma humana, com as incertezas, incongruências, perplexidades que lhe são inerentes.

Ao trazer para este espaço alguns trechos da matéria mencionada, este desajeitado escriba confessa-se convencido de estar proporcionando aos leitores a grata chance de reviverem lances inesquecíveis de criações artísticas que encheram de encantamento o espírito dos aficcionados de cinema.

“O Leopardo (IIGattopardo)”, de Luchino Visconti (1963, Itália). Roteiro de Suso Cecchi D’Amico, Pasquale Festa Campanile, Enrico Medioli, Massimo Franciosa e Luchino Visconti (sobre romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa).
Dom Fabrizio, príncipe de Salina (Burt Lancaster), sai em caçada nos arredores de Donnafugata, sede de seus domínios, na companhia de Dom Francisco Ciccio Tumeo (Serge Reggiani). Divaga sobre as mudanças que ocorrem (ou não ocorrem) depois da vitória dos revolucionários de Giuseppe Garibaldi:
Dom Fabrizio - Sono, meu caro, sono eterno, isto é o que querem os sicilianos. E eles sempre irão reagir contra quem quer que tente despertá-los, mesmo quando é para lhes trazer as mais maravilhosas dádivas. E, entre nós, duvido fortemente se este novo Reino tem muitos presentes para nós em sua bagagem. Tudo o que o siciliano expressa, mesmo o mais violento, é de fato um desejo de morte. Nossa sensibilidade, desejo de esquecimento (...) Os sicilianos nunca querem progredir. Eles se sentem perfeitos. Sua vaidade é maior do que sua miséria (...) Se quiserem que as coisas continuem como estão, coisas têm de ser mudadas.

“Casablanca”, de Michael Curtiz (1942, EUA). Diálogos de Julius J. Epstein, Philip G. Epstein e Howard Koch.
Rick Blaine (Humphrey Bogart) tenta convencer Ilsa Lund (Ingred Bergman) a fugir de avião com o marido, Victor Laszlo (Paul Henrid), de Casablanca para Lisboa.
Rick – Na noite passada, nós nos dissemos muitas coisas. Eu disse que ia pensar muito sobre nós dois. Bem, fiz bastante disso desde então e tudo leva a uma coisa: você vai entrar naquele avião com Victor, que é a quem você pertence.
Ilsa – Mas, Richard, não... eu... eu...
Rick – Você tem de me ouvir! Você tem ideia o que espera por você se ficasse aqui? Nove chances em dez de que nós dois acabaríamos num campo de concentração. Não é verdade, Louie? (Volta-se para o chefe de polícia francês)
Capitão Louie Renault – Temo que o major Strasser iria insistir nisso.
Ilsa – Você só diz isso para me mandar embora.
Rick – Estou dizendo isso porque é verdade. No fundo de nós sabemos os dois que você pertence a Victor. Você é parte do trabalho dele, o que o faz ir adiante. Se este avião levantar voo e você não estiver nele, vai se lamentar. Talvez não hoje. Talvez não amanhã, mas em breve e pelo resto de sua vida.
Ilsa – E nós?
Rick – Nós sempre teremos Paris.”

“O Poderoso Chefão” (The Godfather), de Francis Ford Coppola (1972); diálogos de Francis Ford Coppola e Mario Puzo.
Em conversa com Michael Corleone (Al Pacino), sua noiva Kay Adams (Diane Keaton) revela seu desconforto com as atividades do pai dele, o chefão Victor Corleone (Marlon Brando):
Michael – Meu pai não é diferente de nenhum homem de poder. Qualquer homem responsável por outros. Como um presidente ou um senador.
Kay – Você não sabe quanto é ingênuo, Michael! Presidentes e senadores não mandam matar ninguém
Michael - Ora, quem está sendo ingênuo, Kay?

“O homem que matou o facínora” de John Ford (1962); Diálogos de James Warner Bellah e Willys Goldbeck.
O senador Ransom Stoddard (James Stewart) volta à cidade natal para prantear um velho amigo, o rancheiro Tom Doniphon (John Wayne). O senador rememora o episódio que o transformou em herói e embalou sua carreira política: a morte do “fora da lei” Liberty Valance. O mérito ficou para ele, mas o real justiceira fora Tom Doniphon, que levou para o tumulo o segredo que o senador decide agora revelar a Maxwell Scott (Carleton Young) dono do jornal local.
Stoddard – Bem, você sabe o resto. Eu fui para Washington, o Estado ganhou uma cadeira no Senado, eu me tornei o primeiro Governador...
Maxwell Scott – Três vezes Governador, dois mandatos no Senado, Embaixador na corte de Saint James, de volta ao Senado... (levanta-se) e o homem que, estalando os dedos, poderia ser o próximo, Vice-Presidente dos Estados Unidos (pega as anotações do repórter, rasga e as queima).
Stoddard – Não vai usar a história, senhor Scott?
Scott – Não. Aqui é o oeste, senhor. Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda.”



   
Crimes de guerra japoneses

Cesar Vanucci


“Inda que a terra inteira os haja de esconder, os atos vis terão no fim de aparecer.”
(Shakespeare, “Hamlet”, citado por Paulo Rónai)

Tanto quanto se sabe, é a primeira vez que o governo japonês admite publicamente “culpa no cartório” por atrocidades praticadas pelas forças militares do país na Segunda Guerra Mundial. Integrantes, naquela época, do sinistro “Eixo”, juntamente com o nazismo alemão e o fascismo italiano, os nipônicos praticaram barbaridades nas regiões ocupadas. Suas nefandas ações são comparáveis às cometidas pelas tropas alemãs.

Mas, no final da contenda bélica, não se sabe com certeza por quais razões, os dirigentes do chamado “Império do Sol Nascente” foram poupados, pelos aliados, de um acerto de contas rigoroso nos moldes do que foi imposto aos “criminosos de guerra” germânicos. Os “senhores da guerra”, a começar pelo Imperador Hiroito, embora fizessem por merecer, não figuraram na lista de réus em Nuremberg. Historiadores especulam que esse inconcebível procedimento derivou de arranjos geopolíticos considerados relevantes no momento em que se instalou a “guerra fria”, ou decorreu de um certo “sentimento de culpa” dos governantes estadunidenses por causa do lançamento das bombas atômicas que devastaram Hiroshima e Nagazaki. Havia, naqueles tempos, quem defendesse a tese de que os EUA deveriam, antes de usar os artefatos que dizimaram as duas cidades, promover um teste nuclear com a presença de representantes japoneses de modo a que se mostrassem accessíveis à tese da inevitável rendição. Mas caso é que os japoneses sempre se furtaram a admitir os horrores vividos pelos milhares de vítimas chinesas, americanas, vietnamitas, filipinas, coreanas, australianas e de outras nacionalidades em consequência da sanha perversa de seus militares.

Agora, em abril, contudo, a Universidade de Kyushu, patrocinando macabra exposição de experimentos científicos na área médica, quebrou de certo modo a relutância oficial em dar a mão à palmatoria. A exposição franqueada ao público retrata, assustadoramente, casos de vivissecções de soldados estadunidenses prisioneiros. Esses soldados tiveram parte dos órgãos retirados em cirurgias onde não houve o emprego de anestesia. O macabro mostruário é composto de partes de cérebro, de fígado e de outros órgãos, removidos com os pacientes ainda conscientes.  Não fica difícil imaginar a extrema crueldade do processo. Os anônimos e insanos “Josefes Mengeles” japoneses “testaram”, com repulsivos “procedimentos médicos”, a capacidade de resistência humana ao sofrimento.

Planeta de expiações
Mais essa agora! Na esteira das informações divulgadas acerca da recente tragédia aérea do Airbus, pertencente à companhia de aviação alemã, que se espatifou numa montanha dos Alpes, conduzido por um tresloucado copiloto, brotaram aterrorizantes suspeitas. Já por diversas vezes, no passado recente, transportando centenas de passageiros outras aeronaves teriam sido deliberadamente arremessadas contra o solo por pilotos tomados por impulsos suicidas. Quer dizer, de repente, indivíduos transtornados, no limite extremo do desgaste psicológico, de mal com o mundo, aparentemente sem vinculações ideológicas incendiarias que pudessem “explicar” desvairadas ações em nome de sinistras falanges terroristas, resolvem dar cabo da vida e, num surto paranoico irrefreável, arrastando para epílogo de vida tétrico centenas de inocentes. Razões sobejas parecem, a cada momento, reforçar a tese partilhada por expressivo contingente de seres humanos, que sustenta não passar este nosso “vale banhado de lágrimas”, realmente, de um planeta de expiações. Toda hora, nalgum lugar, alguma coisa sinistra acaba pipocando mode ampliar a inquietação e a angústia das pessoas.



A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...