sexta-feira, 22 de maio de 2015

ASPECTOS TRANSCENDENTES 
DA CRIAÇÃO LITERÁRIA


Palestra do Acadêmico Cesar Vanucci 
no dia 14 de abril de 2015, 
por ocasião da celebração de mais 
um aniversário de fundação da Amulmig

Nosso primeiro contato com a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais deu-se em 1965, segundo semestre, dois anos depois de sua fundação.

Acabáramos de vir de muda do interior para a capital.

A brilhante poeta Eva Reis, conterrânea querida de saudosa recordação, companheira na Academia de Letras do Triangulo Mineiro, pediu-nos a saudássemos na assembleia festiva de seu ingresso na Amulmig.

A sessão festiva, numa tarde de sábado, teve por palco a sede da União dos Varejistas de Minas Gerais, na avenida Paraná.

“Tu pisavas nos astros, distraída...”
(Orestes Barbosa, “Chão de Estrelas”)

No correr da saudação, fomos inesperadamente aparteados, mais de uma vez, por ilustre membro da Amulmig, o professor Reis, poeta de reconhecidos méritos. De maneira polida, mas veemente, ele se contrapôs a conceitos que expendemos sobre os múltiplos caminhos da linguagem poética. Disse não concordar, jeito algum, com a opinião de Manuel Bandeira, por nós evocada, a respeito de um verso que o grande vate apontava como o mais belo da língua portuguesa: “Tu pisavas nos astros distraída”, trecho do poema de Orestes Barbosa para a melodia “Chão de Estrelas”, feita em parceria com Silvio Caldas.

Essa cena, ocorrida há meio século, bateu-nos na lembrança na hora em que dias atrás nossa estimada Presidente Elizabeth Rennó convocou-nos para fazer uso da palavra nesta solenidade comemorativa de mais um aniversário da nossa Amulmig.

Comparecemos, dali pra frente, a muitos outros eventos da entidade, até que, em 2008, para nosso gaudio e orgulho, recepcionados pela Elizabeth, pelo Abritta e saudados pela Cely, passamos a fazer parte de seu valoroso quadro de associados.

Guardiã serena de saberes acumulados

No desfrute das compensadoras prerrogativas de colega de personagens celebrados como figuras exponenciais da cultura brasileira, caso da presidente Elizabeth Rennó, procuramos colocar todo nosso entusiasmo diletante e nossos apoucados dons para a arte da comunicação, como exigido de seus consócios numa Academia de tão ricas tradições de cultura, a serviço da palavra utilizada como instrumento social de construção humana.
A Amulmig, guardiã serena de saberes acumulados, ensina-nos a todos, praticantes do oficio das letras, que a arte da comunicação é forma sublime de expressão dos sentimentos da humanidade. Isso nos estimula a empregar o poder mágico da palavra, sua força de sedução, para celebrar continuamente a vida. Para espalhar a beleza. Para expandir a consciência humana, apontar trilhas, criar condições perenes de ascensão social. Exercitando a curiosidade, apelando para a imaginação criadora, o homem de letras tem o dever de transmutar o ato de viver numa aventura poética. “A vida se vive e se escreve”, proclama Pirandelli.

Reafirmação da inteligência e da cultura

Caros companheiros,

Compenetrados da missão que nos é inerente, como acadêmicos, de conferir dinamismo e vibração às ideias, demarcando e alargando o espaço reservado às ações de construção humana, queremos registrar que esta comemoração não representa apenas uma marca a mais, em termos cronológicos, da cintilante trajetória da Amulmig, mas constitui um novo momento de reafirmação da inteligência e da cultura mineira e brasileira, carregado de sonhos ardentes, emanados da alma majoritária das ruas e propagados na voz de seus intérpretes, os praticantes do oficio das letras, em favor de uma era universal democrática, ecumênica, humanística, concebida nos corações fervorosos.

A transcendência na criação literária

Caros Companheiros,

“Existem mais coisas entre o céu e a terra do que imagina nossa vã filosofia.”
(William Shakespeare)

“Habitamos uma ilhota desgarrada num infinito oceano coberto de inexplicabilidades.”
 (Aldous Huxley)

Com sua condescendente acolhida, animamo-nos, agora, a passar-lhes algumas reflexões, baseadas em estritas percepções pessoais, a respeito dos aspectos transcendentes da criatividade artística. É bom que se mencione, antes de tudo mais, nossa crença em que os impulsos transcendentes estão sempre por detrás da obra de arte. Esse é o ponto diferencial na comunicação de qualidade apurada.
Permitimo-nos ousar, entretanto, para fins das considerações que alinharemos, uma interpretação mais sutil do transcendente.

A vida e obra de Chico Xavier

Queremos nos reportar a uma transcendência com um certo toque místico. E isso nos arremete de forma impetuosa, logo de cara, à obra de ninguém mais, ninguém menos que Chico Xavier.
Quinhentos livros brotaram do cérebro, do coração, das mãos, do espírito provido de invulgares dons espirituais dessa criatura iluminada.

Como explicar algo tão espantoso quanto a obra de Chico? Diante dela se queda, perplexo, o saber cientifico consolidado, com suas posturas e regras dogmáticas, com seus rígidos esquemas canônicos.
Como explicar essa torrente caudalosa de produção literária requintada, de conteúdo edificante, encharcada de humanismo, derivada de um processo mágico a que, na falta de uma expressão mais eloquente, se deu a denominação de psicografia?

Que ligações misteriosas são essas que favorecem a frutificação exuberante de ideias generosas, arrebatantes, que induzem homens e mulheres de boa vontade a descobrirem novos padrões de comportamento social?

Que força avassaladora é essa que, por meio da palavra, torna uma criatura simples, meiga, de características nazarenas, um mensageiro de boas novas que ajudam na edificação de mundo mais fraterno?
Os escritos de Chico Xavier ganharam o mundo. Estão nos lares, nas bibliotecas, na televisão, no cinema, no teatro. A primeira peça teatral neles inspirada, “Além da vida”, produzida pelo meu saudoso mano Augusto Cesar Vanucci, primeiro brasileiro ganhador dos famosos troféus “Emmy” e “Ondas”, é encenada todos os dias, há mais de meio século, nalgum teatro.

O lado místico de Guimarães Rosa

Caros Companheiros,

Queremos nos abstrair, nas considerações subsequentes, de quaisquer especulações de sentido ideológico-religioso, naturalmente inseparáveis da história de Chico Xavier, para sublinhar, agora, como fruto também de meras percepções pessoais, que essas manifestações especiais de transcendência no plano da criação intelectual, podem irromper, também, no itinerário de praticantes do oficio da palavra não comprometidos declaradamente com causas de proselitismo religioso e espiritual.

Poderíamos exemplificar com o caso do famoso escritor J.J.Benites, espanhol, autor da série “Operação Cavalo de Troia”, obra que bateu índices de vendagem em todos os idiomas. Mas pela limitação do tempo, que corre desenvolto, vamos deter-nos na apreciação apenas de mais um outro exemplo de talento literário atingido pelos dardos flamejantes da inspiração ultra transcendente.

Vamos falar, talvez para surpresa de muitos, imagino, de João Guimarães Rosa.


“Sua obra suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)

Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão, Veredas”, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.

Guimarães Rosa são muitos

Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar - categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.

Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.
  
Manifestações mágicas na obra de Guima

E eis que, agora, de repente, vemos em descoberta inesperada despontar um Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante revelação chega num texto precioso de Guimarães Rosa, publicado há mais de 50 anos no “Estado de Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de todos os tempos.
  
No artigo em questão, esquecido por décadas, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosíssimo que deixa evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que o escritor foi, iniludivelmente, possuidor.

A confissão de Guimarães

Esta confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus dons paranormais, está contida num artigo que tem por título “Vida – arte – e mais?”.

Passamos, na sequência, à leitura desse trabalho inédito.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.
No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando eu brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.
Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado.
O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado frequentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

O que nos sugere o escrito de Guimarães

Até aqui a fala por inteiro foi de Guimarães Rosa.

Cuidemos de comentá-la.

Resta assim provada, no depoimento do próprio autor, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico consolidado.

Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”
Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar.

Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”.

Escrita automática, canalização ou ...?

Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que nos foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntamos-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzimos da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extrassensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão, Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Atenção maior dos estudiosos

Não há como negar: as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.




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