sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Homenagem a Francelino

Cesar Vanucci*

“A repetição é a melhor retórica”
(Napoleão Bonaparte)

Num encontro de congraçamento que reuniu representantes de dezenas de instituições culturais, a Federação das Academias de Letras e Cultura de Minas homenageou, dia 14 de dezembro, no Automóvel Clube/BH, o ex-Governador Francelino Pereira. Designado pelo Presidente da entidade, escritor Aloísio Garcia, dirigi ao homenageado a saudação reproduzida na sequência.

“O que tenho para dizer, em boa e leal verdade, a respeito do cidadão no foco desta carinhosa celebração constitui um somatório de edificantes informações. Todas do conhecimento, certeiramente, não apenas dos que se acham neste recinto, como também de um mundão de gente lá fora, Uns e outros convencidos, por óbvios motivos, de que Francelino Pereira é um cara que faz parte do mundo invejável dos corações fervorosos. Um ser humano que sabe das coisas. Que vive com intensidade e sabedoria os lances de cada momento da fascinante aventura humana. Alguém que compreende perfeitamente, nas ações executadas, qual o dever primordial do ser humano. Qual seja, ser apenas, unicamente e suficientemente, ele mesmo, e mais ninguém, como propõe Ibsen, pela fala do personagem Peer Gynt, em “A comédia do amor”.

Tem importância não, por conseguinte, que as palavras endereçadas ao ilustre patrício, mineiro nascido no Piauí, um mestre na interlocução política, que aprendeu a introjetar nas palavras energia, generosidade, idealismo e sonhos, sintonizado sempre com o sentimento nacional; tem importância não, repita-se, que estas singelas palavras repitam registros já feitos, conceitos já expendidos, certamente com brilhantismo que me seria impossível reproduzir, nas outras numerosíssimas ocasiões em que Francelino Pereira foi merecidamente festejado. A repetição é a melhor retórica, como proclamava Napoleão. A melhor forma, talvez, de garantir a fixação na memória das ruas de figuras e feitos realçantes na história da construção humana.

O chão percorrido por Francelino se entrelaça, por largo espaço de tempo, com o chão de Minas Gerais. Chão a perder de vista. Chão áspero desbravado com indômita vontade por alguém predestinado a desempenhar missão relevante na história. Chão que, a partir de Angical, nas lonjuras piauienses, se encomprida pelas vastidões montanhosas do país das Gerais. Avança, ao depois, pelos chapadões sem fim do Planalto Central. Embica, adiante, por tudo quanto é canto do deslumbrante continente brasileiro. Chão palmilhado por Francelino Pereira. Um homem que se encantou, desde cedo, com a nobreza da ação política, abraçando-a como ideal de vida inteira, cobrindo percurso extenso, pontuado de cintilações.

Pouco tempo atrás, os jornalistas Kao Martins, Paulino Assunção e Sebastião Martins, ancorados em esplêndido trabalho de pesquisa, compuseram essa bela trajetória do “menino, jovem e adulto que teve a audácia de sonhar um sonho impossível, a determinação de persegui-lo e – contra todas as previsões e evidências – realizá-lo integralmente”. O livro “O chão de Minas”, que na verdade fala do chão de Francelino, ocupa-se de uma saga inspiradora. E que saga! Descreve, com riqueza de pormenores, trazendo um numero sem conta de revelações inéditas, os caminhos trilhados por esse cidadão nascido no Piauí, mas mineiríssimo quanto os que mais o sejam, que por meio século afora desempenhou papéis de magnitude no palco dos acontecimentos. O pano de fundo da jornada projeta pedaço de tempo de forte impacto na história brasileira. Tempo sacudido por turbulências ideológicas, entrechoques ferozes, emoções arrebatadas. Por clamorosas perdas de direitos essenciais, em instantes trevosos. E, em momentos posteriores, tempo também marcado, recompensadoramente, pela reconquista preciosa do regime democrático, com seus valores e imperfeições humanos, mas com suas insuplantáveis vantagens sobre quaisquer outras formas de governos. Como Vereador, Deputado Federal, dirigente partidário, Governador de Estado e Senador, Francelino viveu intensamente a ebulição desse processo histórico carregado de transformações.

Cuidou de escrever com lisura ética, espírito público, bom senso, disposição progressista, o capítulo correspondente à sua participação. Bem dotado intelectualmente, hábil e conciliador, construiu pontes de relacionamento com correligionários e adversários, nas diferentes correntes políticas. Essas ligações se revelariam extremamente valiosas em horas cruciais. Dono de sólida formação humanística, com seu jeito de ser afável, simples e descontraído, ele nunca se desapegou nas culminâncias do poder, de hábitos que lhe garantiram, vida pública adentro, apreço e admiração em todos os segmentos da comunidade. Eu sei que, nos tempos de Governador, Francelino costumava tomar do telefone para mensagens pessoais que, não poucas vezes, surpreendiam o contatado. Bate-me aqui, na memória, historinha que ouvi contar. A esposa de um executivo atende, na manhã de um domingo, o telefone e diz com voz meio desconfiada para o marido: - Tem alguém aí dizendo que é o Governador. Quer falar com você. Cumprimentá-lo pelo aniversário. Tou achando que é mais uma brincadeira de seu irmão... Era brincadeira, não.

Há episódios pouco conhecidos na atuação do homenageado que só fazem enriquecer-lhe a lenda pessoal, colocando à prova sua vocação cívica. Um deles: frente a frente com Costa e Silva, que o convidou para encontro no palácio presidencial, Francelino recusou-se a seguir a orientação dada pelo Governo no caso da pretendida cassação do mandato do Deputado Márcio Moreira Alves. Seu nome, por conta disso, chegou a ser incluído numa lista de cassações elaborada pouco depois da edição do dolorosamente célebre AI-5. Misteriosos desígnios impediram fosse a violência consumada. Adiante, Francelino empenhou-se de corpo e alma, como era costume dizer-se em tempos antigos, na batalha pela almejada distensão política, à hora da transição do regime autoritário para o estado de direito. Em todas as funções exercidas, primando-se sempre pela austeridade, deixou evidenciada singular capacidade empreendedora. Atos marcantes de sua trepidante movimentação política anotam que ele sempre fez uso correto e harmonioso, nas intervenções e articulações, de uma boa dose de energia e outra de jeito.

Tomando posse, por força de significativa contribuição cultural, na Academia Mineira de Letras, confessou sua enternecida paixão por Minas: “Nesta terra construí minha vida e meu destino. (...) A esse espírito e a essa alma mineira dediquei toda a minha vida e o melhor da minha capacidade.” Pura verdade.

A trajetória pessoal de Francelino documenta magistralmente tudo isso. Sua disposição para servir, sua vida e obra, vinculadas à história do desenvolvimento político, econômico e social de Minas, com benfazejos reflexos no plano nacional, asseguram-lhe lugar na galeria dos grandes vultos mineiros que, nas ultimas décadas, tanto contribuíram para que o Brasil pudesse cumprir em plenitude sua indesviável vocação de grandeza”.



Revendo um filme maldito

Cesar Vanucci *

“ Os vícios de outrora são os costumes de hoje”
(Sêneca)

De princípio, uma baita curiosidade. Ao depois, certa surpresa, quase derivando para aturdimento. Junto, sorrisos e, pra arrematar, irrefreável riso. Correu assim, sem tirar nem por, o meu reencontro agora com um filme visto com mistura de deleite e sobressalto há mais de meio século. Minha Nossa Senhora da Abadia D’Água Suja, como os costumes se alteram no cotidiano da vida!

Noite dessas, revi na telinha o “ Les Amants”, de Louis Malle, filme apontado como “maldito” quando do lançamento em 1958. Recordo-me bem, vasculhando a jeito as ladeiras da memória, da pororoca de registros desairosos que a fita acumulou em curto período de projeção. A fúria do ultra puritanismo foi de tal monta que as autoridades competentes, de um governo (JK) considerado o mais aberto a manifestações culturais de vanguarda que o País ao longo de sua história já havia experimentado, não tiveram outra alternativa senão a de proibirem a exibição nos cinemas. Uma leve insinuação de cena erótica supostamente nunca dantes mostrada deu origem às reações. Nas portas das salas de projeção fileiras de pessoas de mãos dadas, algumas carregando terços, exprimiam sua zanga com relação àquela obra blasfema, herética, demoníaca, que agredia, segundo se propagou, a moral, os bons costumes, os valores familiares e religiosos mais sagrados. Em púlpitos, tribunas, colunas de jornais essas reações coléricas também explodiam. Apreciadores de cinema que ousaram, naqueles momentos turbulentos, desafiar o veto dos autoproclamados censores de plantão, assistindo ao filme no curto espaço de tempo em que em foi mantido em cartaz, eram mimoseados com ensurdecedores apupos. Colocaram-se sob ameaça mesmo de constrangimentos físicos. O Chefe de Polícia, que detinha poderes quase equivalentes aos de um Ministro militar, veio a público para assegurar sua total disposição de resolver a pendência, se preciso na marra, caso tardasse a sair a decisão judicial desfazendo aquela pouca vergonha.

Creio chegada a hora de fornecer ao distinto público, sobretudo aos que não viram “ Les amants”, algumas informações acerca da fita. Drama francês, como já dito, dirigido por Louis Malle, expoente da chamada “Nouvelle Vague”, e estrelado pela fascinante Jeanne Moreau, com Alairr Cunn, Jean-Mare Bory e Judith Magre nos demais papéis de realce, o filme, rodado em preto e branco, narra a história de uma relação amorosa extraconjugal. Do ponto de vista estético e das interpretações é uma obra, ainda hoje, digna de louvor, o que explica o “Leão de Ouro” conquistado no Festival de Veneza, um dos muitos prêmios que conseguiu arrebatar.

A “cena escandalosa”, de cunho amoroso, que provocou a ira santa levada às ruas pode ser apontada hoje, em comparação com as cenas de qualquer filme romântico exibido em vesperais infantis, como uma singela referência pudica enquadrada na mais edulcorada concepção de relacionamento afetivo bolada na literatura de madame Delly. Oportuno relembrar, como outro indicador da atmosfera puritana então vigente, que à mesma época uma reação nesse mesmo tresloucado figurino cercou também outro filme, este brasileiro, “O Padre e a moça”, de Joaquim Pedro de Andrade.

Depois de haver revisto “Les Amants”, tantos anos decorridos, sinto-me tentado, com absoluta tranqüilidade de espírito, a registrar aqui uma sincera recomendação. Em eventual seleção de fitas visando proporcionar saudável entretenimento a religiosas reclusas, sugiro, respeitosamente, às dignas e zelosas Superioras das congregações que refuguem produções fílmicas românticas produzidas nestes confusos tempos atuais, substituindo-as por sessões corridas dessa terna e lírica criação artística de Louis Malle, por seu conteúdo mais edificante.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Histórias de Natal

Cesar Vanucci*

“A expansão prodigiosa do mundo atual
dá ao mistério do Natal uma dimensão nova.”
(Jacques Joew)


Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas vantagens pecuniárias.

Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte. Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.

De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio, Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento. Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel no quarto, de madrugada, pé ante pé, para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.



AMOR TOTAL


“Ame até doer.”
(Madre Teresa de Calcutá)


Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus 25 assíduos e benevolentes leitores. Seguem junto meus votos de um Feliz Natal pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras.

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O granfino insolente, / O moço inconseqüente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos.

Sempre e sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos, / Para se intitularem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira.

Aplicação de critérios de justiça e caridade na análise da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura. / Visão apaixonada do mundo do trabalho.

O idealizador da espaçonave, / O varredor de rua, / O pesquisador em laboratório / E o cidadão que trata feridas em ambulatório / O bombeiro que conserta esgoto – que profissão nem sempre é questão de gosto

Amor que procure compreender / Pessoas e coisas como são, / E não como poderiam ser. / Como são... / E não como poderiam ser.

De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal!


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Conspiração do amor

Cesar Vanucci *

“A palavra, uma vez lançada, voa irrevogável.”
(Horácio, epístolas)

Recebi a terna mensagem de pessoas queridas. Apreciei um bocado, como tenho certeza que o distinto leitor irá também apreciar, o que me foi transmitido e agora entrego à apreciação dos que me honram habitualmente com sua leitura. Não se trata, é óbvio, de recado passado com fito de proselitismo de qualquer coloração. Com proposta de tedioso dogmatismo. Trata-se, sim, de um tipo especial de palavra, impregnada de humanismo que, uma vez lançada, como diz Horácio em suas epístolas, “voa irrevogável”. Transfigura-se em pura magia. Apodera-se do coração e passa a reger a alma, como no entendimento de Ronsard.

Comprometi-me, comigo mesmo, a passar adiante a mensagem. Ela é endereçada a homens de boa vontade. Gente que mantém permanentemente acesa a esperança na construção de um mundo melhor dentro desta nossa conturbada pátria terrena.

”Na superfície da terra, exatamente agora, há guerra e violência e tudo parece negro.
Mas, simultaneamente, algo silencioso, calmo e oculto, vem acontecendo e certas pessoas estão sendo chamadas por uma idéia grandiosa.
Uma revolução silenciosa está se instalando de dentro para fora. De baixo para cima.
É uma operação global. Uma conspiração espiritual.
Há células dessa operação em cada nação do planeta.
Vocês não vão nos assistir na TV.
Nem ler sobre nós nos jornais.
Nem ouvir nossas palavras nos rádios.
Não buscamos a glória.
Não usamos uniformes.
Chegamos em diversas formas e tamanhos diferentes.
Temos costumes e cores diferentes.
A maioria trabalha anonimamente.
Silenciosamente trabalhamos fora de cena.
Em cada cultura do mundo.
Nas grandes e pequenas cidades, em suas montanhas e vales.
Nas fazendas, vilas, tribos e ilhas remotas.
Você talvez cruze conosco nas ruas.
E nem perceba...
Seguimos disfarçados.
Ficamos atrás da cena.
E não nos importamos com quem ganha os louros do resultado, e sim, que se realize o trabalho.
De vez em quando nos encontramos pelas ruas.
Trocamos olhares de reconhecimento e seguimos nosso caminho.
Durante o dia muitos se disfarçam em seus empregos normais.
Mas, à noite, por atrás de nossas aparências, o verdadeiro trabalho se inicia.
Alguns nos chamam de Exército da Consciência.
Lentamente estamos construindo um novo mundo.
Com o poder de nossos corações e mentes.
Seguimos com alegria e paixão.
Nossas ordens nos chegam da Inteligência Espiritual.
Estamos jogando bombas suaves de amor sem que ninguém note; poemas, abraços, músicas, fotos, filmes, palavras carinhosas, meditações e preces, danças, ativismo social, sites, blogs, atos de bondade...
Expressamos-nos de uma forma única e pessoal.
Com nossos talentos e dons.
Visando a mudança que queremos ver no mundo.
Essa é a força que move nossos corações.
Sabemos que essa é a única forma de conseguir realizar a transformação.
Sabemos que no silêncio e humildade temos o poder de todos os oceanos juntos.
Nosso trabalho é lento e meticuloso.
Como na formação das montanhas.
O amor será a religião do século 21.
Sem pré-requisitos de grau de educação.
Sem exigir um conhecimento excepcional para se chegar à almejada compreensão.
Porque nasce da inteligência do coração.
Escondida pela eternidade no pulso evolucionário de todo ser humano.
Seja, você também, a mudança que quer ver, em seu íntimo, acontecer no mundo.
Ninguém pode fazer esse trabalho por você.
Nós estamos recrutando. Talvez você se junte a nós.
Ou talvez já tenha até se unido. Todos são bem-vindos. A porta está aberta. Com amor e muita luz.”

É ou não é? Essa convocação no sentido de uma poderosa aglutinação de vontades; as “bombas suaves de amor” que ativistas sociais bem intencionados se dispõem a lançar nessa proposição conspiratória humanística e espiritual de se refazer o mundo pelo amor, tudo traz a tempos de hoje uma verdade verdadeira que é de todas as épocas: a serenidade de Deus está presente nas coisas que fazemos juntos. Isso aí.



Construção de vida


“É o meu novo namorido.”
(Madame apresentando companheiro na roda de amigas)

Assim, desde que o mundo é mundo. Em flagrantes triviais do dia-a-dia vão sendo esculpidos modelos de comportamento que passam, a partir de um momento qualquer, a ser adotados pela espécie humana. Em boa parte das vezes, mergulhada até o gorgomilo nas preocupações do cotidiano, a gente não se dá conta do que costuma rolar ao redor. Não toma tento de que vários lances banais, ao alcance do olhar, quase imperceptíveis, ajudam a compor nosso futuro proceder. Deles derivam o esboço de padrões, o delineamento de ações, a antecipação de reações, inusitadas muitas delas, aparentemente incompreensíveis, a serem incorporadas pelo controvertido bicho-homem na lida da convivência.

Os episódios abaixo falam coisas curiosas a respeito desse modelo de construção de vida.

Pela janela indiscreta do escritório, sentindo-se um tanto Jimmy Stewart em filme de Hitchcock, desliza o olhar solto, curiosidade indefinida, pela avenida movimentada. Um pormenor de somenos, dominante na vestimenta feminina lá fora, traz à tona, do fundo da memória, um punhado de cenas marcantes testemunhadas na infância já distante. Revê a jovem vizinha, simpática, charmosa, uma explosão ambulante de vitalidade, que passou, num dado instante, a ser abertamente hostilizada pelos adultos, até os próprios parentes, por ousar, em gesto vanguardeiro, lá pros idos de 50, sair de calça comprida em suas andanças pelas ruas. Garota atrevida, aquela! Não se dando por satisfeita, entendeu ainda, num acúmulo imperdoável de extravagâncias, de beber cerveja e fumar – imaginem só o tamanho da insolência! - em público. As reiteradas transgressões da ordem instituída valeu-lhe, naturalmente, estardalhante desprezo de grupos sociais influentes. Grupos esses, como de se imaginar, saudavelmente empenhados em desencorajar, com flamejantes advertências, em nome dos bons costumes e do recato feminil, moçoilas em flor com inclinações perversas para agirem com descaramento em locais públicos frequentados por famílias decentes.

As cenas incríveis desse passado relativamente próximo afloram, impetuosas, diante de uma evidência prosaica. As centenas de mulheres focalizadas com a teleobjetiva do olhar, em circulação na avenida, deslocando-se daqui pra lá e de lá pra cá, todas, sem exceção estão trajando calças compridas, jeans na quase totalidade. E, parte delas, denotando a mais completa naturalidade, sem constrangimentos e sentimento de culpa, carregam um cigarro preso aos lábios ou nos dedos das mãos. Com companheiro do escritório, ele solta inevitável comentário: “E pensar que aquela multidão feminina lá embaixo, nem de leve suspeita que, ainda outro dia, algumas mulheres audaciosas pagaram preço alto em intolerância, discriminação, humilhações, para que pudesse prevalecer, pra todo o mundo, o direito elementar de sair de casa com roupa mais apropriada ao seu perfil!”

Adiante. No (vá lá) “cyber cafe”, a professora de 40 anos matraqueia animadamente o computador, em pesquisa da escola. Interrompe a faina, de súbito, meio desconcertada, sem saber bem o que fazer a partir dali. Volta-se, o olhar interrogativo, pro filho menor que, ao lado, tudo acompanha. O guri, 11 anos, deixa cair uma proposta: -“Acesse a wikipedia.” A mulher retoma a tarefa, mas torna a empacar. Com um menear da cabeça, que nem fazem os indianos da novela, confessa-se sem condições de seguir em frente. O filho, então, propõe: “- Deixa eu tentar.” Ato contínuo, desaloja a mãe, aboleta-se no assento e assume, impávido colosso, o teclado do aparelho, com desembaraço e familiaridade de um Artur Moreira Lima num concerto de piano. Em fração de minutos dá por finda a operação. Imprime e passa o texto às mãos da emocionada genitora. (Entre parênteses. A expressão genitora remete a uma tirada cheia de verve do talentoso escritor, tribuno, jornalista e controvertido político Carlos Lacerda: “Mãe é mãe, genitora é a sua, progenitora é a avó.”)

Em frente. No boteco badalado, uma madame vistosa, recendendo a perfume de butique de luxo, traz a tiracolo um rapazote. Aparenta metade de sua idade. Ostentando traços de euforia no semblante de maquiage bem cuidada, apresenta o mancebo na roda de amigas. Resume a apresentação numa frase: “- Meu novo namorido.” Quer dizer, alguém mais do que um simples namorado. Mais, até mesmo, do que noivo de tempos antigos. Menos um tiquinho, talvez por falta de papel passado em cartório, do que marido. Namorido. Ora, veja, pois!

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Assim caminha a humanidade

CesarVanucci *

“Não existe guerra inevitável,
o que existe é falha de sabedoria.”
(Bonar Law)

Em artigo recente, falamos da fábula de dinheiro que, a começar pelas chamadas grandes potências, o mundo gasta na aquisição de equipamentos de guerra. Não considerados os valores de elevada monta, correspondentes às transações clandestinas, garantidoras do suprimento bélico dos intermináveis conflitos sustentados por guerrilheiros, terroristas e grupos armados dissidentes em numerosos pontos do planeta, os dispêndios globais a esse titulo absorvem cerca de 2.4% da riqueza mundial. Atordoa – mais do que isso, machuca fundo – saber que com soma menor é perfeitamente possível estabelecer-se o controle das emissões de dióxido de carbono que dão origem ao mortífero “efeito estufa”, ameaça bem tangível de uma catástrofe planetária.

Pelos cálculos dos cientistas, aplicando-se dois por cento do PIB mundial o mundo conseguiria desvencilhar-se dos apavorantes riscos do aquecimento global. Com fatia ainda menor da riqueza mundial é possível também mudar, para bem melhor, os padrões de conforto de enormes contingentes humanos marginalizados. Viventes que padecem, em diferentes latitudes do globo, das agruras de uma condição de vida abjeta, abaixo da linha de pobreza.

A constatação que emerge desse raciocínio é cruel. Ninguém em pleno juízo ignora que à coletividade humana é oferecida a possibilidade de optar pela utilização adequada e sensata dos recursos amealhados à conta do esforço produtivo de seus integrantes. Por que cargas d’água, então, as decisões tomadas pelas lideranças mundiais, no emprego dessa riqueza fabulosa, patrimônio comum da humanidade, contemplam exatamente, como no caso dos armamentos, realidades contrapostas ao bem estar da sociedade? Com certeira certeza, egoísmo, arrogância, práticas distorcidas de governança, despojadas de humanismo e de valores éticos - que sustentam ambições hegemônicas desvairadas -, fanatice fundamentalista política e religiosa de diversificados matizes constituem as fontes de inspiração dessas decisões malévolas, desapartadas do bom senso. E, também, desapartadas por completo, em que pesem as exaltações farisaicas, das crenças solidárias alegadamente cultuadas em tudo quanto é canto do mundo.

Concentrando o foco das atenções nos avanços tecnológicos de hoje, concebemos esperançosos a viabilidade de que possam eles, em algum momento, ser colocados ao inteiro dispor do bem estar social. Sentimo-nos chocados e amargurados, por conseguinte, quando confrontamos no noticiário as aventuras belicistas que os “senhores da guerra” apresentam, aqui e ali, como “respostas” às divergências humanas. O planeta, é sabido de todos, nunca conheceu verdadeiramente a paz. Imaginava-se, candidamente, que após a segunda guerra mundial a impetuosidade belicosa do gênero humano seria, finalmente, contida. Chegou-se até a pensar que “essa praga da humanidade, a guerra”, como definido por George Washington, pudesse vir a ser extinta da face da Terra. Ledo engano. Tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes. E, na verdade, haja quartel pra estocar o volume descomunal dos instrumentos de destruição! A cada dia mais sofisticados, esses instrumentos não param de ser produzidos. E adquiridos.

A impostura das grandes lideranças mundiais – que não abrem mão do “direito” auto-outorgado de acionar o gatilho dos conflitos em circunstâncias de sua estrita conveniência –, com suas conclamações frequentes em prol da paz, produz volta e meia fatos contundentes. Os fatos anulam os efeitos das palavras de concórdia. Prega-se o desarmamento, mas nada é feito, realmente, no sentido da redução dos arsenais. Pelo contrário, eles são sempre expandidos. Defende-se a proscrição da bomba atômica. Propõe-se a proibição das bombas de desintegração, das minas terrestres, das armas bacteriológicas, tudo na base da fajutice, da mais deslavada hipocrisia. Quem tem, não se desfaz, jeito maneira, do material estocado. Quem ainda não o tem enfrenta censuras e sanções até obtê-lo.

E assim, por ínvias trilhas, continua caminhando a humanidade, proteja-nos Deus!



Avaliação de Desempenho

“Você pode exceder todas as expectativas, mas sua
avaliação depende sempre da competência de quem se põe a avaliá-lo.”
(Moral da história aqui relatada)

Deliro de montão com historinhas criativas, dessas que uma multidão de ignotos viventes bota pra circular nas ondas da Internet. Penso que a eles, os autores das historinhas, se deva conceder, por causa da inventiva posta airosamente à prova, reconhecimento e simpatia. Essa turma espalha informações, conhecimento, estimula reflexões, entretém o espírito. Contrapõe-se, com talento e disposições positivas, à enxurrada de manifestações malsãs que o fabuloso e mágico instrumento de comunicação à distância vê- se forçado, também, tantas vezes, a acolher.
Vários leitores destas maltraçadas já se deram conta dessa enlevante reação que me trazem os casos singulares, hilários, edificantes, inesperadamente recolhidos em suas pescarias pelo ilimitado oceano internáutico. Daí a razão de, volta e meia, este espaço veicular um que outro texto diferente, de procedência geralmente não identificada, aportado em meu endereço eletrônico. Caso da lapidar historinha, cujo título aqui aproveito, encaminhada por Jamil Mattar, companheiro de jornadas profissionais, funcionário graduado dos quadros da Prefeitura de Belo Horizonte.
“O dono de um açougue foi surpreendido pela entrada de um cão em seu estabelecimento. Enxotou-o, mas o cão, impassível, sem latidos, procedendo como se nada de extraordinário houvesse ocorrido, voltou logo em seguida.
O açougueiro pensou em espantá-lo outra vez, mas reparou que o cão trazia um bilhete preso na boca. Pegou o bilhete e leu: “- Pode mandar-me, pelo portador, 12 salsichas e uma perna de carneiro, por favor?”
O cão carregava, também, dinheiro na boca. Uma nota de 50. O açougueiro recolheu o dinheiro, enfiou as salsichas e a perna de carneiro num saco e colocou tudo na boca do cão, junto com o troco, em notas e moedas num envelope. O bicho desceu em marcha cadenciada a rua. Chegando ao cruzamento, depositou o saco no chão, pulou e apertou o botão mode que fazer o sinal passar pra verde. O açougueiro ficou realmente embasbacado. Como já estivesse praticamente no fim do expediente, resolveu fechar a loja e seguir o cão. O cachorro atravessou a rua até uma parada de ônibus, sempre com o açougueiro no encalço. Esperou, pacientemente, saco preso à boca, que o sinal fechasse para atravessar. Na parada, o cão sentou-se no banco, no aguardo da condução. Quando o primeiro ônibus chegou, foi até a frente, conferiu o número e voltou pro seu lugar. Outro ônibus chegou, o cão tornou a olhar, constatando que se tratava do coletivo certo. O açougueiro, boquiaberto, acompanhava tudo. Viu quando, mais adiante, em pé nas duas patas traseiras, o animal apertou o botão para parar o ônibus. Tudo isso com as compras penduradas na boca.
Cão e açougueiro saltaram juntos do coletivo. Caminharam um pouco, até que o cão parou diante de uma casa, deixando as compras no passeio. Em seguida, afastou-se um pouco, correu pra frente, lançando-se contra a porta. Repetiu o procedimento, mas ninguém, lá dentro, deu sinal de vida. Contornou, ao depois, a casa, pulando um muro baixo. Acercou-se da janela e danou a bater com a cabeça no vidro. Fez isso várias vezes. Voltou para a porta. Foi quando, de repente, um cara enorme, abrindo a porta, começou a espancar o bicho.
O açougueiro, perturbado com a cena, correu em direção ao homem, tentando impedí-lo de maltratar o cão, e dizendo: - “Deus do céu, ó cara, o que é que você tá fazendo? O seu cão é um gênio!” O homem respondeu de pronto, mal humorado: “Um gênio, como? Esta já é a segunda vez, só nesta semana, que este cão estúpido se esquece da chave!”.
Moral da história? Você pode excedertodas as expectativas, mas a sua avaliação depende sempre da competência de quem se põe a avaliá-lo.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Horror na Tanzânia


Cesar Vanucci *


“Eu decidi fazer alguma coisa.”
(Peter Ash, canadense, dirigente de uma ong
que vem denunciando o extermínio de albinos no leste-africano)

A estupidez, a superstição, a selvageria deram-se as mãos na Tanzânia, um país africano que frequenta as manchetes como palco de constantes tragédias, para produzir uma inimaginável história de terror.

Os albinos, ou seja, seres humanos portadores de anomalia congênita caracterizada pela ausência total ou parcial de pigmento da pele, dos pêlos, da íris e da coróide, vêm sendo, em certas regiões daquele país, caçados e massacrados. Partes dos corpos retalhados são vendidas para indivíduos obviamente insanos. Indivíduos que acreditam sejam os albinos, por conta da singularidade genética, detentores de poderes mágicos. Poderes capazes de influenciar o destino das pessoas. Eles, albinos, passam assim, inacreditavelmente, a ser equiparados a alguns animais inferiores, também perseguidos e abatidos com o intuito de extração de componentes anatômicos considerados de “excepcional qualidade” na produção de “preparados miraculosos”. Tais “preparados” são tidos e havidos, em redutos dominados pela ignorância e superstição doentia, como “infalíveis” na solução de graves padecimentos físicos e psicológicos. Proporcionam “ainda”, ajuda eficaz na superação de aflitivos problemas financeiros. E por aí vai...

As proporções assumidas pelo extermínio sistemático de albinos na Tanzânia levaram o empresário, ex-pastor religioso canadense, Peter Ash, ele próprio albino, a constituir uma ong empenhada no objetivo de fazer chegar ao conhecimento mundial as atrocidades e de sensibilizar o governo daquele país do leste africano a assumir uma posição vigorosa contra a revoltante e aterradora situação. A Tanzânia, de acordo com as estimativas da ong – a “Under the same sun”, em tradução, “Sob o mesmo sol” -, possui uma população de 170 mil albinos.

No leste-africano, o chamado albinismo apresenta incidência mais elevada do que em outros lugares do planeta. Admite-se que, para cada três mil bebês, um nasça albino. Os criminosos responsáveis pelo sequestro e trucidamento das indefesas vítimas nessa conspiração hedionda contra os direitos humanos agem às claras. Apostam na impunidade. Nenhum dos quase 200 indivíduos já acusados oficialmente de pertencerem a gangues “especializadas” na “caça” a albinos foi até agora submetido a julgamento. Jornalistas britânicos que estiveram na Tanzânia colhendo informações sobre o que vem acontecendo apuraram que os bandidos, portando entre outras armas facões afiados, invadem residências de albinos, executando as vítimas na frente dos próprios familiares. Retalham, alí mesmo, os corpos, carregando as partes que interessam ao apavorante “negócio”. Um repórter conta que, diante de seu “manifesto interesse” pela aquisição de “material mágico”, foi-lhe oferecido o cadáver de um albino pela “módica” soma de três mil e seiscentos reais...

Os sequestradores dão preferência a pessoas jovens. Cortam pernas, braços, cabeças e genitálias. Retiram pele e órgãos. Escalpelam. Recolhem sangue das vítimas. Propagam, junto à “clientela” em potencial, que a “mercadoria” à venda torna as pessoas que se disponham a adquirí-la mais prósperas e mais bem protegidas dos maus agouros. A gama de “produtos” oferecidos é ampla. Poções com sangue, sapatos feitos de pele, amuletos de ossos, redes de pesca com fios de cabelo humano entrelaçados às tiras de nylon, por aí. Um horror sem tamanho!

A ong que trouxe a si a tarefa de revelar ao mundo essa descomunal ignomínia está convencida de que as autoridades da Tanzânia não dispensam atenção alguma à palpitante questão, apesar das reiteradas manifestações do presidente do país de que irá atuar com extremo rigor na repressão às gangues. Muitos agentes de polícia, assevera a ong, acobertam as atividades criminosas, quando não fazem parte dos grupos de extermínio. Bota horror nisso!



Saneamento em regra


Poucas coisas conseguem aterrorizar tanto o cidadão
pacato quanto o conluio de bandidos com maus policiais.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

São episódios, ambos, que deixam o Poder Público muito mal em sua política de combate ao crime organizado. Num deles, tragédia de certo modo anunciada, que coloca em xeque a apregoada pacificação dos conflagrados morros cariocas, desassombrada representante da Justiça, Patrícia Acioli, foi eliminada por uma gangue fardada, chefiada por ninguém mais, ninguém menos, do que o próprio comandante de uma unidade da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Noutro episódio, que ofereceu prenúncios de tragédia similar à da juíza, prestes a se consumar, cidadão com mandato parlamentar em curso, no mesmíssimo território fluminense, viu-se forçado a optar pela aceitação de um convite da Anistia Internacional para deixar o País por algum tempo, com familiares, mode que proteger-se das ferozes ameaças de grupos milicianos. Só nos últimos meses somaram 27 os atos de intimidação disparados contra o deputado em questão, Marcelo Freixo. Autor da CPI que mapeou o atemorizante sistema de milícias implantado no Rio de Janeiro, compostas predominantemente de policiais militares e civis, Freixo recorreu à Secretaria de Segurança Pública, à cata de proteção permanente. Tornou-se, no dizer do próprio titular da pasta, o cidadão mais bem protegido de todos os tempos nos rincões cariocas. Circunstância que ele não nega, ressalvando, entretanto, não mais conseguir conviver com as ameaças, e afirmando, enfaticamente, que o problema das milícias, que aumentaram de 170 para 300 em três anos, não pode ser considerado um problema exclusivamente seu. O parlamentar explicou, antes de embarcar para o exterior com destino por óbvias razões ignorado, que o grande debate da vida fluminense na atualidade é o enfrentamento das milícias. Os milicianos, vinculados a corporações encarregadas institucionalmente de “garantir o sossego e a ordem”, já torturaram jornalistas, extorquiram, mataram, inclusive uma magistrada, e ameaçam, agora, a vida de um parlamentar, sem que ações concretas – segundo ele - sejam tomadas, por quem de direito, no sentido de eliminar-se o braço econômico e territorial de que se valem nas sortidas criminosas que tanta intranqüilidade e temores espalham.

Para o parlamentar, nada é feito. Pior: por conta do que classifica de “cinismo oficial”, finge-se que o problema gravíssimo das atuantes milícias, que disputam, na marra, o controle de aglomerados com as quadrilhas de traficantes dos morros, não existe. “Minha saída do País é um protesto”, afiança.

Esses registros atordoantes reafirmam a certeza de que o contundente problema da insegurança urbana no Rio de Janeiro, com ou sem unidades pacificadoras, ou o emprego (ou não) de forças militares federais, tem que passar, inexoravelmente, na busca da solução ardentemente almejada pela sociedade, por um saneamento em regra do aparelho policial carioca. Sem a extirpação de todos os componentes dessa aterrorizante engrenagem o Rio de Janeiro continuará a ser, para imenso desgosto nacional, uma referência incômoda na crônica dos atentados contra a vida e o patrimônio.

A gravidade da situação atinge tal proporção que a opinião pública tende a admitir como verdadeira a alegação feita pelo “inimigo público” Nem – recentemente capturado depois de tentativa de suborno repelida com toda dignidade pelo grupo de policiais decentes que localizou seu paradeiro – de que só na Rocinha o tráfico destina 50 por cento de seus ganhos à chamada “banda podre” da polícia carioca.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

O ser humano em primeiro lugar Cesar Vanucci “A economia é um meio pra se atingir um fim social.” (José Alencar Gomes da Silva, ...