sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Histórias de Natal

Cesar Vanucci*

“A expansão prodigiosa do mundo atual
dá ao mistério do Natal uma dimensão nova.”
(Jacques Joew)


Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas vantagens pecuniárias.

Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte. Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.

De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio, Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento. Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel no quarto, de madrugada, pé ante pé, para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.



AMOR TOTAL


“Ame até doer.”
(Madre Teresa de Calcutá)


Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus 25 assíduos e benevolentes leitores. Seguem junto meus votos de um Feliz Natal pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras.

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O granfino insolente, / O moço inconseqüente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos.

Sempre e sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos, / Para se intitularem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira.

Aplicação de critérios de justiça e caridade na análise da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura. / Visão apaixonada do mundo do trabalho.

O idealizador da espaçonave, / O varredor de rua, / O pesquisador em laboratório / E o cidadão que trata feridas em ambulatório / O bombeiro que conserta esgoto – que profissão nem sempre é questão de gosto

Amor que procure compreender / Pessoas e coisas como são, / E não como poderiam ser. / Como são... / E não como poderiam ser.

De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal!


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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