sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Lógica coronelistica


Cesar Vanucci *

“Uma nódoa da civilização é o apoio de países que pregam
 a democracia a ditaduras corrompidas e sanguinárias.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Amigo não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto. Para a maior parte das pessoas, tais frases, de enunciação simplória, dir-se-á mesmo folclórica, traduzem uma lógica política vigorante apenas em arraiais coronelísticos. Mas a história, desde que contada por inteiro, não é bem assim. Não poucos redutos políticos refinados, até mesmo no plano internacional, costumam pautar também suas ações por essa destrambelhada lógica. É só por tento no que vem relatado no noticiário nosso de cada dia.

Convido o distinto leitor a um esforço de memória pra ver só como os exemplos naturalmente afloram. Das ladeiras da memória recolho uma historinha emblemática. Transcorrida décadas atrás, conserva frescor atual quando comparada com episódios contemporâneos. Naquela importante cidade interiorana, o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro, de orientação getulista), à época majoritário em todas as esferas de representação municipal, partiu-se ao meio. Uma ala do partido, comandada por médico que já ocupara o cargo de Prefeito, transferiu-se de mala e cuia, como era de bom tom dizer-se em tempos passados, para a UDN (União Democrática Nacional). Nessa agremiação se congregavam, naquele tempo, os mais rancorosos adversários do petebismo. Não demorou nadica de nada para que o ex-prócer trabalhista que se bandeou para a “falange inimiga” deixasse de ser tratado pelos recém-correligionários como “Gregório branco” (alusão pejorativa inspirada no célebre guarda-costas de Getulio Vargas) e passasse a ser enaltecido, em verso e prosa, por tudo quanto é canto, como “médico humanitário, adorado pela gente humilde.”

Quantas vezes já não assistimos, vida afora, filmes com esse sugestivo enredo, não importa se em preto e branco, em cores, em versão digital, três dimensões, com atores, diretores, e cenários diferentes? A ambição pelo poder, expressando-se em linguagem mais rústica ali, mais sofisticada acolá, confronta dificuldades, em numerosos momentos, de camuflar o jogo rasteiro dos bastidores. O que o coronelão de um lugarejo plantado nos cafundós pensa, diz e faz conserva notável similitude com aquilo que muitas lideranças influentes, aqui dentro ou lá fora, pensam, dizem e fazem.

Mutatis mutandis, esse tem sido um processo igualmente partilhado, com artifícios requintadissimos, pelos representantes das grandes potências em sua relação com boa parte do mundo. Mundo esse, assinale-se de passagem, do qual elas, as grandes potências, se supõem, por outorga divina, incontestes mandatárias. As artimanhas geopolíticas, impregnadas de maquiavelismo, contemplam todo aliado incondicional como amigo virtuoso. Não preocupam, não incomodam, as ignomínias cometidas no âmbito doméstico contra indefesos compatriotas que ousem contestar o déspota de plantão. A ele são rendidas todas glórias (e benesses), bem como assegurada, com a prestimosa colaboração – tá claro – dos canais de comunicação de abrangência mundial, blindagem razoável de maneira a impedir fiquem expostas persistentemente, perante a opinião pública global, as felonias praticadas. O caso de Idi Amim Dada é revelador. Tirano impiedoso, recebeu tratamento de estadista por longo período. Chegou a ser até agraciado com a patente honorífica de brigadeiro do ar pela Força Aérea israelita. Num de seus habituais surtos paranóicos, resolveu mudar de lado, apoiando ações de desvairados terroristas. Só assim é que seu verdadeiro perfil facinoroso passou a ser mostrado com o realce adequado. Outro caso sintomático, entre muitos, envolve o ditador da Líbia, Muammar Kadafi. Durante bom pedaço de tempo ele figurou na relação dos mais notórios terroristas planetários. E não sem fartas razões. Sua habitação foi alvo, por conta das posições extremadas assumidas, de arrasadores ataques de mísseis. Um determinado dia, em razão de um pacto secreto, que implicou, entre outros itens, no reconhecimento pelo ditador líbio de sua participação em empreitadas criminosas, resolveu-se, sem mais essa, nem aquela, que seu nome seria retirado da lista dos vilões com cabeça a prêmio. Recebeu, por conta do arranjo, uma carteirinha de bom moço. Suas façanhas despóticas não mais frequentaram o noticiário. Igualzinho, aliás, acontece, desde sempre, com outros aliados incômodos, com toda certeza inconfiáveis, notadamente no mundo árabe,vários deles, neste preciso momento, sob o fogo cerrado de multidões ansiosas por se libertarem das amarras da opressão que, impunemente (pelo menos até agora), patrocinam.
Verdade seja dita. O mundo anseia por uma mea culpa das grandes potências que sirva de ponto de partida para desatrelar de sua atuação no cenário internacional todas essas alianças espúrias firmadas com ditaduras cruéis e corruptas.

Águas drogadas


Cesar Vanucci *

“Qual seria o tamanho desse problema no Brasil?”
(Regina Scharf)

Idealizado pela jornalista Taiza Brito, o portal “Viva Pernambuco” cumpre de forma esplêndida os seus objetivos institucionais, ao lançar um olhar positivo sobre coisas palpitantes que rolam ao nosso redor. Divulga em variadas seções volume apreciável de comentários e informações de valioso conteúdo humanístico, que ajudam o público a entender melhor assuntos que a imprensa, o rádio e a televisão nem sempre sabem explicar, por mil e uma razões, com a clareza e isenção necessárias.

Orgulho-me bastante em pertencer, a convite de Taiza, comunicadora social de time titular, pós-graduada em “Comunicação dos conflitos e da paz”, no exterior, e em “Comunicação Política”, pela Universidade Católica de Pernambuco, ao quadro de colaboradores desse Portal, que propicia aos leitores, a cada momento, contato com revelações, documentos e reflexões da mais ampla relevância cultural, social, política e econômica.

Foi na condição de leitor que, indoutrodia, deparei-me com o primoroso artigo “Em águas drogadas”, de Regina Scharf, que faço questão de reproduzir aqui neste espaço. Trata-se de um registro impressionante a mais acerca do processo de degradação do meio ambiente conduzido de forma inexorável pela irracionalidade humana. Os dados alinhados não integram costumeiramente, tanto quanto percebo, as pautas de discussões ambientalistas mais próximas das cogitações comunitárias. O assunto tratado, pra dizer a verdade, passa quase ao largo de nossas preocupações. Um sinal emblemático do mundo repleto de inviabilidades que, no trato com a Natureza, irresponsavelmente, persistimos em entregar às futuras gerações.

Este o artigo.

Em águas drogadas

Peixes capturados em diversas cidades dos Estados Unidos apresentam uma alta concentração de ingredientes de produtos farmacêuticos e cosméticos. Por exemplo: pesquisa recente da Baylor University (uma universidade privada batista do estado do Texas) concluiu que os peixes encontrados a jusante da estação de tratamento de esgotos de Chicago continham altos índices de norfluoxetina (presente em anti-depressivos), seguido de quantidades um pouco mais modestas de carbamazepine (anti-convulsivo) e difenidramina (anti-histamínico). Também foi verificada a presença de medicamentos contra a osteoporose, anti-hipertensivos e anticoncepcionais.

Como essas substâncias chegaram ali? A resposta é fácil: escorreram por pias, ralos e privadas até a estação de tratamento, que elimina bactérias e degrada a matéria orgânica, mas passa ao largo de tais compostos. Em áreas densamente povoadas ou com rios pouco caudalosos, esses efluentes representam uma grande porcentagem do volume de água dos rios. Alguns estudiosos do assunto avaliam que o volume de substâncias farmacêuticas que contaminam o meio ambiente é comparável com a quantidade de agrotóxicos despejada na natureza.
Bryan Brooks, um dos coordenadores desse estudo na Baylor University, já havia observado o fenômeno em Denton, no Texas. Ali ele notou que a alta quantidade do hormônio estrogênio na água estava mudando os órgãos sexuais dos peixes, tornando-os mais femininos. Esse estrogênio vem, provavelmente, das excreções de mulheres que tomam a pílula anticoncepcional. Em outras partes dos Estados Unidos, o mesmo fenômeno foi observado em castores.
Segundo Brooks, a quantidade de contaminantes farmacêuticos é relativamente pequena, de modo que você teria que ingerir um volume muito grande de pescado para ser afetado. Entretanto, este tipo de contaminação pode comprometer a existência dos próprios peixes. E é importante lembrar que estes contaminantes se somam a outros que estão dispersos por aí (a esse respeito, leia meu post Adeus, Meninos, que levanta informação sobre o impacto de diferentes tipos de plástico sobre a masculinidade).
Qual seria o tamanho desse problema no Brasil? O brasileiro provavelmente consome muito menos cosméticos e medicamentos que os norte-americanos, por razões financeiras e culturais, mas também tem menos acesso ao tratamento de esgotos. Algum de vocês têm informações a respeito?”

Voltando ao poeta Armond

* Cesar Vanucci


“Qual será, dos poetas,
o mais nobre, aquele que a Bilac se compare?”
(Carlos Drummond de Andrade explicando como ocorreu
a escolha do “Príncipe dos poetas mineiros”)


Brindamos o caro leitor, outra vez mais, com preciosos achados literários “armondianos”. Vem primeiro um poema magistral, inédito, de abril de 1958, há 51 anos, portanto, produzido pelo “Príncipe dos poetas mineiros”. Ao depois, vem a historieta (extremamente saborosa) sobre como esse honroso título foi acrescentado ao já refulgente currículo do grande poeta barbacenense Honório Armond. A narrativa de como a escolha se deu foi feita em crônicas de Carlos Drummond de Andrade. Uma, estampada em 3 de fevereiro de 1979 no JB. Outra, no “Estado de Minas”, edição de 19 de novembro de 1977.

“Uma nuvem no Ocaso...” é o título do poema. Armond convida-nos, por assim dizer, a um banho de imersão em poesia pura:
“Viste, acaso, um suavíssimo Poente, / de cinza e rosa, em gemas merencórias, / iluminar-se, inesperadamente, / numa rajada de clarões e glórias?/
...uma nuvem pequena, alta e morrente, / lembrando auroras, madrugadas flóreas, / foi tocada do Sol, subitamente, / e eis que rutila em chamas ilusórias.../
Há-de, em breve, apagar-se, ao vir da treva / que a lento e lento, coleante, adensa, / mortalhando o céu crepuscular.../
Mas, ao sumir-se, no bulcão que a leva, / que sonhos trouxe!...que ternura imensa!.../ quanta palavra reflorindo ao Luar!...”

A palavra agora é passada para o fabuloso Drummond de Andrade. A crônica mencionada (publicada no JB) traz por título “O príncipe dos poetas”. Reproduzimo-la na íntegra.
“Fazer.
É preciso fazer alguma coisa que pelo menos risque um círculo efêmero na água morta da cidade.
Vamos eleger o Príncipe dos Poetas Mineiros?
Na redação, em mesas próximas, João Alphonsus emite seu sorriso enigmático. Emílio Moura, recém-chegado de galáxia, aprova com doçura.
Mãos à obra!
O eleitorado é quem quiser ser eleitor, principalmente nós, inelegíveis de nascença. Pingam votos esparsos. Desconfiança. Isso é brincadeira de irresponsáveis futuristas?
É sério, gente. Votos para Belmiro Braga, o velho Augusto de Lima e Noraldino e Mário Matos. Poeta nenhum deixa de ter o seu votinho, menos nós, questão de ética ou de tática?
Abgar, nosso amigo, cresce em números, mas se for escolhido vão dizer que a eleição, como as outras, nada vale.
Em apuros estamos. Afinal, qual será, dos poetas, o mais nobre, aquele que a Bilac se compare?
Um não serve por isto ou por aquilo. Outro passou de moda. Outro é feroz contemptor de experiências modernistas.E um príncipe hostil não apetece à nossa moderada veia lúdica.
O estalo nos salva: Honório Armond em sua Barbacena roseiral é altivo, é discreto, é bom poeta. Dará ao fraco título grandeza.
Votação carregada elege-o com destaque. Muito bem.
Mas Honório, mineiro cem por cento, sem recusar redondamente a láurea, responde: “Eu, príncipe? De quê? Só se for, por distinção latina, Princeps Promptorum”...E continuou sereno, silencioso, em seu rosa-lar de Barbacena.”

Na crônica do “Estado de Minas”, que recebeu o mesmo título, Carlos Drummond aborda numerosos aspectos de sua passagem, com outros intelectuais de relevo, pela redação do antigo “Diário de Minas”. O divertido trecho concernente ao tema de que agora nos ocupamos é este: “Nós, redatores jovens, assimilávamos o famoso senso mineiro da ordem, para uso da matéria política. No mais, éramos uns desmandados. Inventamos um concurso para eleição dos poetas mineiros (o que havia de mais incompatível com o modernismo) e mediante processos eleitorais facilmente compreensíveis, demos o título a Honório Armond, poeta discreto que, lá de Barbacena, onde vivia, agradeceu polidamente mas tirou o corpo fora: “De coração, meu bom amigo, acho que esta eleição não representa a verdade. Isto é cabala de estudantes, meus amigos e alunos, e bem sabe que o voto, para nós, nada significa”. E assinou: “Honório Armond, Princeps Promptorum”. Convém esclarecer que pronto, na gíria de então, era o indivíduo sem dinheiro: avalie o que não seria o príncipe dos prontos de Minas Gerais.”

*Jornalista(cantonius@click21.com.br)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Antes que seja tarde

Cesar Vanucci


“Trinta anos no poder é mais do que suficiente.”
(Omar Sharif, ator egípcio)


Quer dizer, então, que no Egito do faraó Mubarak existia, há mais de 30 anos, uma ditadura cruel? Tão cruel quanto a do Irã de Ahmadinejad e raivosos aitolás? E por que, então, a opinião pública internacional deixou de ser devida e tempestivamente abastecida, ao longo desse período, pelas diligentes agências noticiosas, pela sempre atenta grande mídia, de informações pormenorizadas frequentes a respeito dos atentados ali permanentemente cometidos contra as liberdades individuais e os direitos humanos? Hein?

Quer dizer, então, também, que a Tunísia acha-se mergulhada, há decênios, sem que sejamos adequadamente informados, num clima político asfixiante, com a negação sistemática pelo governo do acesso popular aos direitos fundamentais? Assim como ficamos sempre sabendo ocorrer em Cuba, para nos determos num outro exemplo de regime de exceção prolongado?

A convulsão que sacode o mundo árabe, neste momento, está mostrando com obviedade ululante a nudez do rei. Vem retirando, como acontece na tradicional “dança do ventre”, os véus da hipocrisia geopolítica que, há muito tempo, rege o relacionamento das superpotências com governos árabes (e não apenas, tão somente, árabes) corruptos e ditatoriais. Mas, todos eles, benevolentemente, preservados por conveniências estratégicas, digamos assim, com o concurso prestimoso dos canais de comunicação social, de uma exposição dramática, capaz de estampar com absoluta claridade perante os olhares da opinião pública mundial os desmandos, desatinos e horrores por eles praticados contra a dignidade humana.

Chegado, sem sombra de dúvida, o momento exato de as grandes potências reverem seus errôneos procedimentos. De refazerem piramidais desacertos, de inspirações maquiavélicas e maniqueístas. Os sinais de que essa política de conluios mórbidos, com base em interesses escusos, em artimanhas nocivas à causa democrática, está em flagrante desacordo com o bom senso, caminhando em sentido oposto ao clamor das ruas, são inequívocos. Postular apoio incondicional em troca da inconfiavel solidariedade dos déspotas de plantão costuma sair muito caro. Pode desembocar em acontecimentos de imprevisíveis consequências.

A tirania feudal e feroz imperante na enigmática Arábia Saudita, pólo de um fundamentalismo religioso exacerbado, exige, por exemplo, um redobrar de atenções. Antes que seja tarde demais. Os estudiosos dos fenômenos sociológicos do mundo árabe são unânimes em apontar: uma eventual explosão popular no reino saudita, conduzido há décadas com pulso de ferro pelos governantes, contém potencialmente grau de toxidade e ingredientes explosivos bem mais perturbadores do que os de uma outra qualquer situação políticamente dramática vivida no universo islâmico.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Um poeta extraordinário

Cesar Vanucci *


“Ficou comigo a saudade /
que é o sol dos tristes, a estrela das tardes de cinza e jade.”
(Honório Armond, “príncipe dos poetas mineiros”)

Amigos diletos os responsáveis pelos momentos de fruição intelectual genuína e arrebatadora vividos num fim de semana. Roberto Henrique Corrieri, engenheiro renomado, companheiro de terapêuticas andanças matinais, e esposa Ângela, ela neta do poeta, brindaram-me com uma coletânea da magistral obra literária de alguém nada mais nada menos que Honório Armond. Poeta nascido em 1891 e falecido em 1958, considerado o “Príncipe dos poetas mineiros”.

Em cada página percorrida tem-se um primoroso exercício de fluidez sonora, com tinturas ricas e imagens empolgantes. O conjunto dos poemas faz dessas “Obras poéticas”, livro lançado em 1991, ao ensejo da celebração do centenário de Honório, uma perfeita e acabada obra prima. Não incorrem, seguramente, em exagero os especialistas em versos “armondianos”, quando entendem apontar no poeta barbacenense um discípulo autêntico de Bandelaire. Já não fosse suficiente sua reconhecida e confessa sintonia no plano das idéias com Valery, Mallarmé, Verlaine e Rimbaud. Não causa surpresa alguma igualmente seja comparado por muita gente do ramo, nas latitudes poéticas brasileiras, a Cruz e Souza e Alphonsus de Guimaraens. Ou que haja arrancado entusiásticos louvores, vida afora, nas avaliações do conteúdo de sua refinada arte, de escritores, poetas, críticos literários do porte de Agripino Grieco, Tristão de Ataíde, Abgar Renault, Pedro Nava, Belmiro Braga, Humberto de Campos, Carlos Dummond de Andrade e João de Guimarães Rosa. Os dois últimos, seus colegas fraternais.

Artista consumado do verso, reunindo precioso acervo de peças elaboradas no mais requintado lavor, Honório Armond, integrante da Academia Mineira de Letras, ombreia-se, sem qualquer sombra de dúvida, com os maiores poetas brasileiros de todos os tempos. Domina exemplarmente a palavra. Seus poemas projetam pujante sopro humanístico. Se, por um lado, denunciam a inquietude intelectual de um homem na cata de respostas diante das inesgotáveis interrogações da aventura humana, por outro revelam que o autor, ancorado na esperança que move montanhas e representa um impulso heróico da alma, mostra-se disposto, o tempo todo, a celebrar a beleza, a procurar infatigavelmente ideais serenos que conduzam à Paz e ao Amor.

O caudal da poesia “armondiana” é carregado de erudição e saborosos achados líricos. Revela autor na força plena de seu potencial criativo. Parece ajustar-se com precisão ao seu perfil uma definição que Shakespeare faz dos poetas em “Sonho de uma noite de verão”, quando registra “que o olhar do poeta, girando em delírio, / vai do Céu para a Terra, da Terra para o Céu; / e no que a imaginação vai tomando corpo, / sua pena cativa a essência das coisas desconhecidas (...)”

Vejam se não essa exatamente a sensação que passam esses admiráveis versos iniciais do poema “In princípio... erat apud Deum...”;
“Quando a primeira célula vibrava / por entre a salsa espumarada, escrava / das correntes, das ondas, da maré; / olhando a rude vida embrionária / bradei: - ó vida, és minha! Homem, ó pária! / Sum qui sum... eu já sou pois quem alguém é!”


Ou neste “Credo de um monista”:
“Creio na vida universal que emana / do protoplasma de onde o Ser deriva... / Creio na eterna essência, informe e esquiva. / que o fungus fez e fez a Espécie Humana... / Creio na Evolução... dela dimana / o Homo-Sapiens, da ameba primitiva... / e creio que o que morre hoje, reviva / para outra luta mais tenaz e insana!... / Creio em Ti, causa prima: Deus... acaso / Inconsciência das coisas, que nos levas / do Nada para a luz onde fulguras... / e creio que, em chegado o meu ocaso, / eu sobreviverei à morte e às trevas / para outras vidas e outras desventuras...”

Reservo para comentário vindouro, em complementação ao que é dito hoje acerca do grande vate, uma inédita manifestação sobre sua opulenta obra. Trata-se de uma carta de Guimarães Rosa datada de 19 de janeiro de 1935.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Carta ao Príncipe dos poetas

Cesar Vanucci *



“... este soneto é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.”
(Guimarães Rosa, dirigindo-se a Honório Armond)

A carta, de próprio punho, endereçada por Guimarães Rosa ao amigo Honório Armond (considerado o “príncipe dos poetas mineiros”) vem datada, como já revelado, de 11 de janeiro de 1935. O texto reporta-se a dois poemas redigidos em francês. Ambos dedicados pelo vate barbacenense ao fraternal amigo.  O primeiro vem com introdução em latim. Rosa reproduz os sonetos feitos por Armond com o intuito de homenageá-lo e junta a eles comentários com toques bem humorados.
Roberto e Ângela Corrieri, amigos deste desajeitado escriba, forneceram-me cópia da carta. Transcrevo-a, adicionando  alguns esclarecimentos.
“Honório ingrato,
Seguem as formidáveis peças da poesia nacional: / Une Femme passa (Complainte). Tibi, carissime Johannes, / in memoriam fraternae / amicitiae, dicat, offert, / consccient certus memor / que amicus, Honorie (depois da dedicatória, em latim, vista acima, vem o poema em francês).

O soneto seguinte tem como título  “Mon âme a tou âme...”. Todo, também em francês. Guimarães Rosa capricha na caligrafia ao transcrevê-lo. Registra, após, as considerações abaixo, que obedecem à ortografia vigente na época.
“Nota do copiador: este soneto é simplesmente, admirável, “chef-d´ouvre”, é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.
Prompto! Estou fremindo de enthusiasmo,e nem comprehendo como foi possível que duas maravilhas dessas pudessem ter sido dedicadas a mim! Milagres da amizade!...
É escusado dizer que faço absoluta, terminante, feroz questão de que sejam publicados com as dedicatórias! Veja lá! Recomende expressamente aos seus amigos da revista! Quando muito, você poderá, si achar melhor, encurtar a dedicatória latina da “Complainte”, si a achar muito louca! Si forem sem dedicatória, irei ahi para desafial-o em duelo!...
Outra coisa: faço questão de receber o número da revista que os publicar! Olhe que isso é um assumpto muito sério...essas poesias são minhas! Não escrevo carta, porque e ainda estou esperando resposta da minha!...
Recomendações à exma. sra. Abraços para Zezé e Beatriz. Um apertado abraço de seu Guimarães Rosa.”
E já que continuamos a adentrar o território das criações literárias fascinantes palmilhado por este mestre das letras chamado Honório Armond, que tal nos deleitarmos, outra vez ainda, com mais versos de sua lavra constantes das “Obras Poéticas”, edição lançada ao ensejo do centenário de seu nascimento?

Esses aqui, por exemplo:
“Quid est veritas? (1)
À sala do Pretório, onde Pilatos, / delegado de Roma, judicava, / trouxeram Jesus Christo a rudes tratos / qual si elle fôra uma alimária brava. / “Quem es tu?” – “Rei dos Reis” – e eis que ullulava / a infame turba insciente dos ingratos... / -“Galileu, que fizeste?” – “O Bem!” – Responde / “esta pergunta que te faço e que há de / ser por ti desnevoada de seu véo...” / “Jesus de Nazareth, sabes tu onde / vive e fulge, immortal e alma, a Verdade?” / ... Jesus, porém calou-se, olhando o céo...”

E mais estes:
“Jesus, antem, tacebat (II)
Jesus calou-se... E olhando o céo broslado, / escampo, azul, sereno, alto, infinito, / poz-se a pensar, talves, no seu passado... / na sua fuga para o adusto Egypto... / - Que responder? E o Grande Illuminado, / perdido no seu sonho, áureo e bendito, / viu que a Verdade é um verbo indecifrado! / ... si elle também morria por um mytho... / Verdade! Verbo vago e multifário! / Empós teu gesto os seculos  se somem / destas ânsias e luctas através! / que eu lembrando o Pretorio e o arduo Calvario / vejo que pode neste mundo um homem / morrer, por Ti, sem penetrar o que és...”

Honório Armond - dá pra perceber pelos descoloridos registros que, à falta de maior engenho, andei conseguindo transportar para este espaço, de seu incomensurável e coruscante talento -  foi um poeta magnífico. Dos mais importantes de nossa crônica literária. Firmou um estilo. A linguagem armondiana, de beleza irretocável. Vemo-la estampada em versos como estes aqui (poema “Ventura de esperar”), com certo toque de presságio, que asseguram a permanência de sua arte na memória literária: “Depois da morte, eu sei! Serás, ó meu espírito uma chama, um clarão ideal – num mundo olímpico – o Sol eterno para nunca anoitecer!” Um clarão ideal! Haverá palavra melhor para descrever a trajetória deste poeta?

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Que homem!


Cesar Vanucci *


“Os grandes homens são os que entendem bem seu tempo.”
(Imre Madách, citado por Paulo Rónai, tradutor de sua obra)


Na simpatia das ruas, o ex-Vice Presidente José Alencar ocupa, por óbvias razões, um lugar todo especial. As lições de vida que permanentemente passa, fruto de uma aventura pessoal densa, enchem de fascínio o espírito popular. Dia desses, vimo-lo, novamente, a bravura indômita de sempre plenamente assomada, o bom humor permeando a sabedoria das coisas ditas, a exprimir enriquecedoras crenças a respeito do sentido da vida e do destino superior do ser humano.

Animei-me, à vista disso, a republicar um artigo de anos atrás em que coloquei algumas informações, extremamente atuais, sobre sua atuação como cidadão.


“Um homem”, afirma Carlos Heitor Cony, na “Folha”. “O grande homem”, reafirma Sylvia Romano, no “Diário do Comércio”. Que homem! Confirmam, em tudo quanto é lugar, homens e mulheres, jovens e adultos.

Todas essas vozes exprimem um sentimento popular genuíno. Falam de José Alencar. Mencionam seu exemplo de vida. Sua irradiante simpatia. Sua lúcida visão das coisas. O sorriso aberto que emoldura sua palavra, sempre franca e objetiva, social e politicamente corretíssima, ajustada ao momento, às circunstâncias, às expectativas populares.

O exercício altivo e irrepreensivelmente ético da função deu ao nosso Vice-presidente notoriedade nacional. Não apenas como líder político influente, mas, sobretudo, como ser humano carregado de dons. “Um homem em pleno exercício da condição humana”, assinala Cony. “Uma unanimidade nacional com  postura otimista e responsável diante da adversidade que o afeta”,  acentua  Sylvia Romano.

Toda a nação passou a se inteirar, a partir da ascensão de Alencar nos domínios trepidantes da ação política, dos pormenores de uma   cintilante trajetória como cidadão. À informação, já conhecida, sobre o empresário amplamente vitorioso vieram se juntar mais revelações de grande significado. A história do empreendedor social, responsável por estupendo conjunto de realizações no período em que comandou a Federação das Indústrias, o SESI e o SENAI em Minas Gerais. A história do garoto de origem humilde que madrugou na lida profissional e que transportou, vida afora, a convicção de que o trabalho tudo pode, de que o trabalho é essência na fascinante jornada  humana. A história de uma pessoa que acumulou saberes singulares nas práticas do dia-a-dia e que moldou o caráter em crenças humanísticas arraigadas e em sentimento nacional autêntico. E que aprendeu, nas atividades abraçadas, que a primeira coisa exigida de um cidadão é o civismo, não podendo haver pátria, verdadeira pátria, “onde os cidadãos não se preocupem com os problemas políticos”, como assevera Unamuno.

Tais constatações ajudam a explicar as posições arrojadas e arejadas no plano das idéias, assumidas pelo Vice. Sua visão nacionalista e progressista. Sua cristalina vocação democrática. Seu entendimento do tempo, do momento que vive. Sua carismática liderança. Seu apaixonado apego a princípios e permanente disposição para ações que conduzam à conquista do futuro. A compreensão espiritualizada das momentâneas adversidades.

E, também, seu destemor e independência de atitudes. Uma pequena amostra, extraída de episódio ocorrido por ocasião da campanha presidencial que elegeu aquele político das Alagoas. O tal que andou confiscando poupança de viúva e ameaçando confiscar a autoestima de nossa gente. Num dado dia, campanha em plena efervescência, já com o fiel escudeiro do político citado, conhecido por PC, “convidando” representantes de vários setores do mundo dos negócios para encontros com vistas à arrecadação de polpudos recursos, o candidato num arroubo retórico marcado por deslavada hipocrisia berrou aos quatro ventos não querer, jeito maneira, voto de empresário. Os jornalistas se puseram logo no encalço de Alencar, para saber o que achava ele da surpreendente declaração. Resposta imediata. O candidato não queria e nem teria seu voto. Os jornalistas insistiram: quer dizer, então, que o seu voto será dado a Lula? E por que não? - a resposta ouvida.

Na avaliação de certos empresários preconceituosos e elitistas, engajados no processo maniqueísta que norteou a campanha, não caia bem num dirigente de entidade representativa da classe industrial fazer confissão desse gênero. Um deles, estrangeiro, petulante, sem condição de votar nas eleições por conta da nacionalidade, chegou ao disparate de sustentar, numa entrevista, que a manifestação não traduzia o pensamento da categoria. A empáfia e a intolerância foram, evidentemente, reduzidas a estilhaços diante da posição altiva do futuro Vice.

Pra concluir o papo. O conhecimento mais dilargado, que hoje se tem, em todas as camadas, da biografia do ilustre personagem alimenta, no espírito dos brasileiros, uma serena certeza. A presença de José Alencar nas altitudes do poder político engrandece este momento de nossa vida pública.

Um homem. Um grande homem. Que homem!


Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Ilha do Diabo e Guantanamo

Cesar Vanucci *


“Analogias com desmandos do passado
tornam-se claras, iluminando o presente.”
(Louis Begley, escritor estadunidense)

Barack Obama prometeu no curso da campanha eleitoral, encharcada de esperança, que o conduziu à Casa Branca mandar fechar a prisão de Guantanamo. Homem de formação liberal, atento ao regramento jurídico e constitucional na vida pública, confessou-se, então, inconformado com os desmandos ali praticados no governo anterior.

Segundo denúncias veiculadas por organizações humanitárias, elementos acusados de terrorismo foram sistematicamente submetidos no sombrio lugar a tortura, transferências secretas para centros clandestinos de reclusão, permanecendo encarcerados por tempo indefinido, sem acusação formal nem julgamento. Tem-se por certo que ocorreram ali até assassinatos. Para agravar ainda mais a situação, alguns prisioneiros retirados de seu ambiente familiar e social em países longínquos, como veio a ser comprovado, não possuíam quaisquer vinculações com os grupos terroristas enfrentados pelos militares no Iraque, Afeganistão e demais regiões conturbadas do Oriente. A inclusão dessas pessoas nas listas de ativistas violentos nasceu de doloroso equívoco. A causa foi o denuncismo perverso ocorrido nos primeiros tumultuados momentos da repressão desencadeada com a invasão dos sítios inimigos pelas tropas. A falta de zelo e de senso de justiça por parte das autoridades incumbidas da triagem dos supostos terroristas - apontados por solícitos delatores, motivados por recompensas pecuniárias e conveniências abjetas de variado teor - produziu essa questão perturbadora. Uma questão, cá pra nós, de dificílimo pra não dizer impossível equacionamento.

Recebida como herança maldita de um governo que se distanciou (in)conscientemente dos valores democráticos consagrados na constituição estadunidense, Guantanamo (bem como os demais presídios clandestinos do leste europeu) continua a operar como centro de detenção dessa categoria especial de prisioneiros, apesar de já transcorridos três quartos da gestão do governante comprometido com sua desativação. Esta é que é a dura verdade.

Uma verdade que incomoda os amantes da liberdade, os defensores dos direitos humanos. O escritor estadunidense Louis Begley enquadra-se nessa classificação. No livro “O caso Dreyfus – Ilha do Diabo, Guantanamo e o Pesadelo da História”, recentemente lançado no Brasil, ele estabelece entrelaçamentos entre o que sucedeu na França, no final do século XIX, no chamado “Caso Dreyfus”, e o que rola agora na “Ilha do Diabo” (em versão norte-americana) conhecida por Gantanamo. Alfredo Dreyfus, oficial graduado francês, foi injustamente acusado de traição pelo alto escalão do Exército. Constatou-se mais tarde que seu indiciamento teve motivação nitidamente racista, tendo em vista a sua condição de judeu. Contra ele foram forjadas provas num julgamento secreto fajuto. Considerado culpado, perdeu a patente, sendo enviado para a tristemente célebre “Ilha do Diabo”, na Guiana Francesa. Inteirado dos pormenores da ignomínia com fitos antissemiticos praticada com o oficial, o notável escritor Emile Zola lançou um manifesto intitulado “J’Accuse”, que alcançou ressonância universal. O documento é apontado até hoje como um clássico no gênero.

À volta do debate acalorado levantado na ocasião, a França dividiu-se entre os que passaram a exigir, em nome das liberdades, a revisão do processo e os que, por aversão aos judeus, numa antecipação à violência germânica dos tempos nazistas, consideravam rigorosamente correto o terrível veredicto dos generais franceses. Preso por quatro anos, entre 1895 e 1899, Dreyfus teve sua inocência reconhecida, finalmente, em 1906.

O escritor Louis Begley pega da promessa de Barack Obama de desativar Guatanamo, revisando as condenações ali feitas à margem da lei americana, para traçar paralelos no livro entre as coisas ocorridas na ilha da Guiana e na ilha cubana que serve de base militar para os Estados Unidos. Chega a conclusões dramáticas. Lembra que o episódio do século XIX sacudiu a opinião pública francesa, lastimando que nos casos de muitas detenções em Guantanamo a repercussão não tenha sido intensa. Registra, a propósito: “Talvez porque os prisioneiros de Guantanamo sejam tão numerosos, ou talvez porque o pouco que se sabe deles os faça parecer desinteressantes, o fato é que nem a possível falta de justificativa para sua detenção nem os maus-tratos que lhes foram infligidos levaram um grande número de norte-americanos a se enfurecer ou se indignar.”

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Convulsão no mundo árabe

Cesar Vanucci *


“Não queremos um Estado islâmico,
 queremos um Estado democrático.”
(Rached Ghammchi, líder oposicionista tunisiano)

As manifestações de rua que fazem tremer o mundo árabe pedem das grandes potências ocidentais, os Estados Unidos em primeiro lugar, um esforço reflexivo despojado de preconceitos rançosos. Nada de levantar suspeições desvairadas, derivadas de vesguice política ou de conveniências estratégicas mal pensadas e mal pesadas. Nada de decisões estouvadas.

A cumplicidade, por tão largo espaço de tempo, com o despotismo de governantes impopulares, que hoje vêem colocadas estardalhantemente em xeque a sua legitimidade, acumulou ressentimentos sem conta em todos os quadrantes da sociedade árabe. Avaliações açodadas, em dissonância com a realidade dos fatos, em desacordo com o sentimento das populações tomadas de compreensível indignação, só tenderão a aguçar ainda mais as indisfarçáveis e fortes discordâncias existentes, podendo até mesmo torná-las, a partir de certo momento, incontornáveis. Erros crassos na interpretação das coisas no passado provocaram danos irreparáveis na convivência com os árabes. Isso não pode voltar a ocorrer nessa hora explosiva, segundo alguns especialistas em política internacional muito parecida, sob certos aspectos, com os momentos que antecederam o desmoronamento do império comunista na década de 80. Bom senso e discernimento são requeridos das lideranças mundiais para saber distinguir com exatidão, nesse instante, o que está essencialmente em jogo.

Forças democráticas e facções radicais islâmicas compartilham, na verdade, ações em torno da derrubada de ditaduras esclerosadas.  Mas o que prevalece majoritariamente, como poderoso e primordial anseio dos insurgentes, é a substituição, bem depressa, das pesadas, violentas e anacrônicas estruturas de poder, ainda vigentes, por regimes que defendam as liberdades públicas, os direitos civis e a construção do bem estar social. O que todos esperam das grandes lideranças internacionais, em dias próximos futuros, são ações políticas capazes de libertar as nações convulsionadas da estagnação econômica e social a que foram condenadas por excesso de inépcia e corrupção. Figuras de proa da inteligência egípcia, tunisiana, jordaniana e de outros países, entre eles até um Nobel da Paz, já deixaram claro ser seu intento e de seus liderados o alinhamento dos futuros governos com as diretrizes da democracia liberal. Esse posicionamento revela não lhes interessar em absoluto a substituição dos déspotas supostamente laicos, já desalojados ou em vias de sê-lo do comando político, por fanáticos religiosos de formação autocrática. “Democracia, sim, lei islâmica Sharia, não”, proclamavam cartazes empunhados por manifestantes.

O que toca às grandes potências ocidentais agora fazer é procurar entender, com clareza e objetividade, esse saudável propósito de mudanças. Evitar declarações e atitudes que estimulem jogadas clandestinas articuladas com espúrios propósitos, em atendimento a suspeitosas “conveniências estratégicas”. Evitar, ainda, concessões a incômodos aliados, que apesar de destronados, persistem em preservar o “status quo” abominado nas manifestações. Esses ai parecem contar, pra espanto geral, com o apoio surpreendente de poderosas lideranças regionais empenhadas em que tudo permaneça como dantes no quartel de Abrantes.

As grandes potências não podem também ignorar que a  ocasião é mais do que propicia para alertas endereçados a outros tiranos do mundo árabe, ainda não alvejados pelo “efeito dominó” da presente onda mudancista, quanto aos riscos que os ameaçam de iminentes abalos internos violentos com consequências imprevisíveis. Esses abalos se farão inevitáveis, caso persistam em preservar seus odiosos privilégios feudais, emudecendo pelo terror policial as vozes de discordância. Qualquer pessoa com razoável grau de informações a respeito do que rola hoje no mundo árabe sabe apontar sem vacilações os países em vias de se tornarem “bola da vez”.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Manifestações impróprias

Cesar Vanucci *

“O representante do povo que votou a favor do aumento não é digno.
Isso não é um parlamentar, é para lamentar.”
(Dom Emanuel Edmilson da Cruz, Bispo de Limoeiro do Norte)

Guido Mantega, que se notabilizou como um dos artífices da bem sucedida política econômica na era Lula, recomeçou suas atividades como Ministro da Fazenda marcando bobeira. Duas declarações suas, pertinentes ao piso salarial, foram de molde a criar situação de visível constrangimento para o governo. Na primeira vez em que foi pilhado falando pelos cotovelos anunciou a disposição de “vetar” qualquer valor superior a R$ 540,00 para o salário mínimo. Essa “ultrapassagem” imprópria nos limites de sua alçada gerencial rendeu-lhe sonora e merecida reprimenda presidencial. Nem assim ele se quietou. Sem que o semblante se tingisse em momento algum de rubor, “acenou” generosamente com a possibilidade de ser adicionada à parcela já acordada a nível de governo outros polpudos... cinco reais. Fez jus, obviamente, a puxão de orelhas mais severo. Ignora-se tenha sido aplicado.

Manifestações como essas denotam ausência de sensibilidade social de quem as formule. Recendem, vamos e venhamos, a escrachado deboche. O homem da rua associa de pronto, tomado por sacrossanta indignação, os destramelados pronunciamentos, vindos afinal de contas de uma fonte do poder, com o descerimonioso reajuste salarial autoconcedido recentemente pelos congressistas, com extensão a setores do Executivo e Judiciário. Reajuste, por sinal, promulgado sem qualquer discussão prévia com os setores encarregados de formular a política orçamentária para o exercício. Está certo: a opinião pública possui consciência plena de que, nos últimos oito anos, período em que o país experimentou auspiciosamente o mais significativo avanço social da história, o salário mínimo cresceu em termos reais a um ritmo nunca dantes visto, bem acima dos índices inflacionários. O fato, entretanto, não consegue anular, de maneira alguma, o desconforto causado pela inevitável comparação que se faz compreensivelmente nas ruas entre os números citados nas declarações inoportunas do Ministro e a realidade factual do despropositado aumento de ganhos concedido a privilegiados servidores do Estado.

Manda a verdade reconhecer que o Ministro não tem culpa no cartório no tocante à estapafúrdia decisão do Parlamento. Decisão essa, bom que se reitere, afrontosa à Nação, ao cidadão e à cidadã contribuinte, conforme desassombradamente asseverou o bispo emérito de Limoeiro do Norte, Ceará, dom Manuel Edmilson da Cruz. Este aqui é o clérigo que recusou, em sinal de protesto, na tribuna do Senado, a condecoração que lhe foi conferida pelo trabalho pastoral promovido em favor dos excluídos sociais. Ele deu eco a um inconformismo popular que Guido Mantega não tinha o direito de desconhecer à hora em que se dispôs a comentar a questão salarial correspondente à turma do andar de baixo.

O melhor a ser feito pelo governo, nesse palpitante caso do salário mínimo oficial, objeto de debate político salpicado de rebates demagógicos por parte dos contendores de todas as correntes políticas, é estabelecer um índice de elevação mais substancioso do que o previsto. Isso se ajusta à perfeição ao compromisso da Presidenta Dilma Roussef em imprimir maior celeridade ainda ao resgate da dívida social acumulada por tantos anos em desfavorecimento da classe assalariada. E se o aumento sair de tamanho a mexer pesado nas contas, o aconselhável é determinar aos tecnocratas assessores da Fazenda e de repartições afins que dêem tratos à bola e descubram rubricas orçamentárias a serem devidamente alteradas, de modo a fazer justiça às parcelas menos favorecidas da população, para que possam ser contempladas com um quinhãozinho a mais do bolo da riqueza nacional.

E, por último. Já que mencionado acima o pito governamental dado no titular da Fazenda, cuidemos de anotar também a ressonância favorável perante a opinião pública da reprimenda atribuída pela presidenta, no exercício inconteste de sua autoridade, ao ilustre Chefe da Segurança Institucional, gen. José Elito Siqueira, pelas impropriedades cometidas nos comentários feitos a propósito da dorida questão dos desaparecidos políticos.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Testemunho implacável

Cesar Vanucci *

“Houve um engano. Mandarei soltá-los imediatamente”.
(Ziereis, impiedoso chefe de campo de
concentração, para seus prisioneiros “voluntários”)

Muitas coisas relevantes, intrigantes, registradas em livros acabam ficando perdidas no torvelinho das informações liberadas para o conhecimento humano. Assim tem sido desde sempre. Mas, nesta era moderna de comunicação eletrônica massiva e sofisticada, responsável pela expansão contínua, numa velocidade estonteante, do volume de dados ofertados à consulta do distinto público, a incidência de fatos e flagrantes de vida expressivos, encobertos pelas névoas do desconhecimento ou do esquecimento, assume dimensões incalculáveis. Um mundão de revelações valiosas fica à deriva do conhecimento geral. Permanece oculto das atenções numa página qualquer de um livro empoeirado numa estante silenciosa.

Em “O homem invisível”, H.G.Wells, um baita contemporâneo do futuro, registra que “nesses livros poeirentos (...) existem maravilhas e milagres”. Jacques Bergier, coautor do fabuloso “O despertar dos mágicos”, dá razão a Wells quando admite, prazerosamente, que os livros científicos, as revistas científicas, entre outras publicações, estão realmente repletas de maravilhas. Basta que nos fixemos no trabalho de procurá-las. Ando fazendo isso com alguma frequência. O propósito é compartilhar, de vez em quando, com os benevolentes leitores algumas coisas interessantes não devidamente divulgadas, ou insuficientemente conhecidas, quando não completamente ignoradas.

Escolhemos para começo de papo nesta bem intencionada empreitada um relato incrível a respeito da atitude de singular desassombro assumida, em circunstâncias terrivelmente amedrontadoras, por um punhado de adeptos do movimento religioso “Testemunhas de Jeová”. A história é contada pelo já citado Bergier.

O autor foi testemunha ocular dos fatos, acontecidos na primavera de 1944 no campo de concentração de Mauthauser. Encontrava-se encarcerado naquele antro de horror devido à sua condição de judeu, vítima do nazismo. Os guardiães do sinistro lugar receberam, de certa feita, não escondendo o aturdimento, uma leva de prisioneiros fora do comum. Eles reivindicavam (e foram atendidos pelas autoridades alemãs) acolhimento, como reclusos, com todas as “regalias” inerentes à terrível condição, num campo de extermínio dos muitos criados na época pela paranóia hitlerista. Jacques Bergier toma da palavra: “Como todo mundo na Alemanha – ao contrário do que se afirmou depois – sabia o que se passava nos campos de concentração, esta atitude (dos adeptos da referida corrente religiosa) era, no mínimo, surpreendente. Por isto Ziereis, o fuhrer do nosso campo, tratou de interrogá-los logo. Ficamos sabendo bem depressa o que se passava. Os recém-chegados declararam: - Somos “Testemunhas de Jeová”. Disseram-nos que aqui são cometidos crimes. Queremos ser testemunhas diretas disto e, no dia do Juízo, colocados à direita de Deus, lhe prestaremos, pessoalmente, conta do que vimos.”

Bergier acentua, nesta parte da narrativa, que o empedernido chefe nazista, homem que parecia não ter medo de nada, estremeceu diante do depoimento ouvido. Disse às “Testemunhas de Jeová” enfileiradas diante dele: - Houve um engano. Mandarei soltá-los imediatamente.

O que sobreveio na sequência só fez aumentar a estupefação dominante. Fitando o temido carcereiro, os “prisioneiros voluntários” puseram-se a gritar em coro palavras ofensivas a Hitler e ao nazismo. Entre outras: “Morte a Hitler!”

Bergier completa o relato do incrível episódio: “Não houve escolha, tiveram que ficar no campo. Morreram todos no crematório. Contudo, não gostaria de estar no lugar de Ziereis – que abati pessoalmente no dia da Liberação – quando tiver que prestar esclarecimentos diante do Todo-Poderoso.”

A história que fala desse posicionamento destemido de membros das “Testemunhas de Jeová” frente às atrocidades cometidas nos campos de concentração acha-se inserida num dos capítulos do livro “Passaporte para uma outra Terra”. O capítulo tem por subtítulo “Os Imortais”. Os comentários expendidos pelo autor contemplam a hipótese da imortalidade física. A inserção das “Testemunhas de Jeová” no contexto decorre de uma crença alimentada por membros do movimento religioso, segundo a qual alguns seres imortais, com missão espiritual importante, já estariam habitando este nosso planeta.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Esoterismo nazista

Cesar Vanucci *

“Há os fatos e há o subsolo dos fatos.”
(Louis Pauwells)

Durante anos alimentei a suposição de que a expressão “Realismo Fantástico” houvesse sido cunhada por Jacques Bergier e Louis Pauwels. Só recentemente fiquei sabendo que os geniais autores de “O despertar dos mágicos” tomaram-na emprestado de um outro escritor, o belga Franz Hellens. Cuidaram, ao depois, de disseminá-la mundo afora para classificar fatos e eventos inusitados. Fatos situados além da lógica e compreensão do ser humano e do conhecimento consolidado. Na verdade, uma espécie de interpretação do universo, arriscaríamos dizer mágica, inteiramente desprendida das certezas e verdades científicas, tanto quanto da capacidade que temos de observação das coisas que rolam na vida cotidiana.

O real, visto um pouco mais de perto, é fantástico, como assinalam os autores mencionados. Convencido pessoalmente disso, anos a fio, até 2002, procurei de forma singela, com apoucados recursos, divulgar pela televisão, por meio de entrevistas, reportagens, imagens, aspectos surpreendentes, intrigantes, fascinantes mesmo, de uma realidade misteriosa, com certo jeito de charada, que inesperadamente irrompe, com suas inexplicabilidades, as trilhas percorridas pelas criaturas humanas. Uma realidade sobrenatural, localizada nos domínios sutis das percepções extrasensoriais, que não se enquadra nos padrões convencionais do relacionamento social. No antigo CBH, a seu tempo um mostruário vibrante de cultura e entretenimento, substituído sob nova orientação por um insosso amontoado de reclames, produzi e apresentei um programa que tinha por título exatamente “Realismo Fantástico”. Levei ao ar 400 apresentações contendo informações extraídas, boa parte delas, de leituras de livros poeirentos que abrigam, segundo H.G.Wells, maravilhas e milagres. Ou inacreditáveis revelações que dão sentido às idéias defendidas por Teilhard de Chardin – um pensador de escol despachado pelos superiores eclesiásticos, por conta de sua arrojada concepção do universo, para os cafundós da China rural – resumidas numa frase antológica: “Na escala universal, só o fantástico tem probabilidade de ser real.” Frase arrematada, adiante, de forma magistral: “Na escala cósmica as coisas não são tão fantásticas quanto a gente imagina. São muito mais fantásticas do que a gente jamais conseguirá imaginar.”

A propósito ainda do “Realismo Fantástico”. Tomando-o como indicador de ações intelectuais voltadas para outras fronteiras da criatividade e imaginação, fabulosos escritores resolveram adotar também a expressão no plano da arte literária. Fizeram-no de maneira soberba, conquanto diferenciada da proposta original de Bergier e Pauwels. Casos de Érico Veríssimo, em “Incidente em Antares”, Jorge Amado, em “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água”, e Gabriel Garcia Marquez, em “Cem anos de solidão”, para nos determos na citação de três mestres do romance.

“O despertar dos mágicos” é pródigo em revelações espantosas que acabam ficando soterradas nos escombros do esquecimento. Parte delas contempla o esoterismo em suas variegadas modalidades.

Com riqueza de pormenores, os autores voltam os olhares, por exemplo, para uma corrente mística alemã intitulada “Tule”. Hitler e principais sequazes eram adeptos fervorosos. Ela teve influência preponderante na orientação pode-se dizer luciferina do movimento nazista. As chamas lúgubres do esoterismo nazi – segundo o livro - bebiam inspirações em fontes tibetanas. Essas fontes arrogavam-se em detentoras de “ensinamentos milenares”. Compunham uma escola esotérica incumbida de arregimentar forças terríveis para conduzirem a humanidade, sob a liderança de um “novo Messias”, à “charneira dos tempos”. Os membros do Tule confessavam-se capazes de alcançar o domínio do planeta. Protegiam-se de todos os perigos com bizarros rituais. Admitiam até a hipótese de sacrifícios humanos. Empenhavam-se na formação de uma central energética intelectual e espiritual obviamente orientada para formidandos malefícios. “Detinham” a certeza de que sua presença à frente dos acontecimentos fundamentais da história se prolongaria por mil anos. As expedições dos membros da “Tule” ao Tibete, para contatos com magos, eram habituais. O grupo estimulou a formação em Berlim, desde 1926, de uma colônia tibetana entrosada com os propósitos nazistas.

Essa série de dados curiosos remete a desconcertante constatação. Quando as tropas russas transpuseram os últimos bastiões da resistência hitlerista, os invasores se depararam, estupefatos, entre os milhares de cadáveres espalhados nas ruas, com indivíduos da raça himalaia. Envergavam uniformes alemães, sem insígnias nem documentos de identificação.

Eis aí episódio excitante e penumbroso do passado recente à espera de estudiosos da História que se animem a resgatá-lo.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...