sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Águas drogadas


Cesar Vanucci *

“Qual seria o tamanho desse problema no Brasil?”
(Regina Scharf)

Idealizado pela jornalista Taiza Brito, o portal “Viva Pernambuco” cumpre de forma esplêndida os seus objetivos institucionais, ao lançar um olhar positivo sobre coisas palpitantes que rolam ao nosso redor. Divulga em variadas seções volume apreciável de comentários e informações de valioso conteúdo humanístico, que ajudam o público a entender melhor assuntos que a imprensa, o rádio e a televisão nem sempre sabem explicar, por mil e uma razões, com a clareza e isenção necessárias.

Orgulho-me bastante em pertencer, a convite de Taiza, comunicadora social de time titular, pós-graduada em “Comunicação dos conflitos e da paz”, no exterior, e em “Comunicação Política”, pela Universidade Católica de Pernambuco, ao quadro de colaboradores desse Portal, que propicia aos leitores, a cada momento, contato com revelações, documentos e reflexões da mais ampla relevância cultural, social, política e econômica.

Foi na condição de leitor que, indoutrodia, deparei-me com o primoroso artigo “Em águas drogadas”, de Regina Scharf, que faço questão de reproduzir aqui neste espaço. Trata-se de um registro impressionante a mais acerca do processo de degradação do meio ambiente conduzido de forma inexorável pela irracionalidade humana. Os dados alinhados não integram costumeiramente, tanto quanto percebo, as pautas de discussões ambientalistas mais próximas das cogitações comunitárias. O assunto tratado, pra dizer a verdade, passa quase ao largo de nossas preocupações. Um sinal emblemático do mundo repleto de inviabilidades que, no trato com a Natureza, irresponsavelmente, persistimos em entregar às futuras gerações.

Este o artigo.

Em águas drogadas

Peixes capturados em diversas cidades dos Estados Unidos apresentam uma alta concentração de ingredientes de produtos farmacêuticos e cosméticos. Por exemplo: pesquisa recente da Baylor University (uma universidade privada batista do estado do Texas) concluiu que os peixes encontrados a jusante da estação de tratamento de esgotos de Chicago continham altos índices de norfluoxetina (presente em anti-depressivos), seguido de quantidades um pouco mais modestas de carbamazepine (anti-convulsivo) e difenidramina (anti-histamínico). Também foi verificada a presença de medicamentos contra a osteoporose, anti-hipertensivos e anticoncepcionais.

Como essas substâncias chegaram ali? A resposta é fácil: escorreram por pias, ralos e privadas até a estação de tratamento, que elimina bactérias e degrada a matéria orgânica, mas passa ao largo de tais compostos. Em áreas densamente povoadas ou com rios pouco caudalosos, esses efluentes representam uma grande porcentagem do volume de água dos rios. Alguns estudiosos do assunto avaliam que o volume de substâncias farmacêuticas que contaminam o meio ambiente é comparável com a quantidade de agrotóxicos despejada na natureza.
Bryan Brooks, um dos coordenadores desse estudo na Baylor University, já havia observado o fenômeno em Denton, no Texas. Ali ele notou que a alta quantidade do hormônio estrogênio na água estava mudando os órgãos sexuais dos peixes, tornando-os mais femininos. Esse estrogênio vem, provavelmente, das excreções de mulheres que tomam a pílula anticoncepcional. Em outras partes dos Estados Unidos, o mesmo fenômeno foi observado em castores.
Segundo Brooks, a quantidade de contaminantes farmacêuticos é relativamente pequena, de modo que você teria que ingerir um volume muito grande de pescado para ser afetado. Entretanto, este tipo de contaminação pode comprometer a existência dos próprios peixes. E é importante lembrar que estes contaminantes se somam a outros que estão dispersos por aí (a esse respeito, leia meu post Adeus, Meninos, que levanta informação sobre o impacto de diferentes tipos de plástico sobre a masculinidade).
Qual seria o tamanho desse problema no Brasil? O brasileiro provavelmente consome muito menos cosméticos e medicamentos que os norte-americanos, por razões financeiras e culturais, mas também tem menos acesso ao tratamento de esgotos. Algum de vocês têm informações a respeito?”

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