sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Convulsão no mundo árabe

Cesar Vanucci *


“Não queremos um Estado islâmico,
 queremos um Estado democrático.”
(Rached Ghammchi, líder oposicionista tunisiano)

As manifestações de rua que fazem tremer o mundo árabe pedem das grandes potências ocidentais, os Estados Unidos em primeiro lugar, um esforço reflexivo despojado de preconceitos rançosos. Nada de levantar suspeições desvairadas, derivadas de vesguice política ou de conveniências estratégicas mal pensadas e mal pesadas. Nada de decisões estouvadas.

A cumplicidade, por tão largo espaço de tempo, com o despotismo de governantes impopulares, que hoje vêem colocadas estardalhantemente em xeque a sua legitimidade, acumulou ressentimentos sem conta em todos os quadrantes da sociedade árabe. Avaliações açodadas, em dissonância com a realidade dos fatos, em desacordo com o sentimento das populações tomadas de compreensível indignação, só tenderão a aguçar ainda mais as indisfarçáveis e fortes discordâncias existentes, podendo até mesmo torná-las, a partir de certo momento, incontornáveis. Erros crassos na interpretação das coisas no passado provocaram danos irreparáveis na convivência com os árabes. Isso não pode voltar a ocorrer nessa hora explosiva, segundo alguns especialistas em política internacional muito parecida, sob certos aspectos, com os momentos que antecederam o desmoronamento do império comunista na década de 80. Bom senso e discernimento são requeridos das lideranças mundiais para saber distinguir com exatidão, nesse instante, o que está essencialmente em jogo.

Forças democráticas e facções radicais islâmicas compartilham, na verdade, ações em torno da derrubada de ditaduras esclerosadas.  Mas o que prevalece majoritariamente, como poderoso e primordial anseio dos insurgentes, é a substituição, bem depressa, das pesadas, violentas e anacrônicas estruturas de poder, ainda vigentes, por regimes que defendam as liberdades públicas, os direitos civis e a construção do bem estar social. O que todos esperam das grandes lideranças internacionais, em dias próximos futuros, são ações políticas capazes de libertar as nações convulsionadas da estagnação econômica e social a que foram condenadas por excesso de inépcia e corrupção. Figuras de proa da inteligência egípcia, tunisiana, jordaniana e de outros países, entre eles até um Nobel da Paz, já deixaram claro ser seu intento e de seus liderados o alinhamento dos futuros governos com as diretrizes da democracia liberal. Esse posicionamento revela não lhes interessar em absoluto a substituição dos déspotas supostamente laicos, já desalojados ou em vias de sê-lo do comando político, por fanáticos religiosos de formação autocrática. “Democracia, sim, lei islâmica Sharia, não”, proclamavam cartazes empunhados por manifestantes.

O que toca às grandes potências ocidentais agora fazer é procurar entender, com clareza e objetividade, esse saudável propósito de mudanças. Evitar declarações e atitudes que estimulem jogadas clandestinas articuladas com espúrios propósitos, em atendimento a suspeitosas “conveniências estratégicas”. Evitar, ainda, concessões a incômodos aliados, que apesar de destronados, persistem em preservar o “status quo” abominado nas manifestações. Esses ai parecem contar, pra espanto geral, com o apoio surpreendente de poderosas lideranças regionais empenhadas em que tudo permaneça como dantes no quartel de Abrantes.

As grandes potências não podem também ignorar que a  ocasião é mais do que propicia para alertas endereçados a outros tiranos do mundo árabe, ainda não alvejados pelo “efeito dominó” da presente onda mudancista, quanto aos riscos que os ameaçam de iminentes abalos internos violentos com consequências imprevisíveis. Esses abalos se farão inevitáveis, caso persistam em preservar seus odiosos privilégios feudais, emudecendo pelo terror policial as vozes de discordância. Qualquer pessoa com razoável grau de informações a respeito do que rola hoje no mundo árabe sabe apontar sem vacilações os países em vias de se tornarem “bola da vez”.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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