quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Carta ao Príncipe dos poetas

Cesar Vanucci *



“... este soneto é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.”
(Guimarães Rosa, dirigindo-se a Honório Armond)

A carta, de próprio punho, endereçada por Guimarães Rosa ao amigo Honório Armond (considerado o “príncipe dos poetas mineiros”) vem datada, como já revelado, de 11 de janeiro de 1935. O texto reporta-se a dois poemas redigidos em francês. Ambos dedicados pelo vate barbacenense ao fraternal amigo.  O primeiro vem com introdução em latim. Rosa reproduz os sonetos feitos por Armond com o intuito de homenageá-lo e junta a eles comentários com toques bem humorados.
Roberto e Ângela Corrieri, amigos deste desajeitado escriba, forneceram-me cópia da carta. Transcrevo-a, adicionando  alguns esclarecimentos.
“Honório ingrato,
Seguem as formidáveis peças da poesia nacional: / Une Femme passa (Complainte). Tibi, carissime Johannes, / in memoriam fraternae / amicitiae, dicat, offert, / consccient certus memor / que amicus, Honorie (depois da dedicatória, em latim, vista acima, vem o poema em francês).

O soneto seguinte tem como título  “Mon âme a tou âme...”. Todo, também em francês. Guimarães Rosa capricha na caligrafia ao transcrevê-lo. Registra, após, as considerações abaixo, que obedecem à ortografia vigente na época.
“Nota do copiador: este soneto é simplesmente, admirável, “chef-d´ouvre”, é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.
Prompto! Estou fremindo de enthusiasmo,e nem comprehendo como foi possível que duas maravilhas dessas pudessem ter sido dedicadas a mim! Milagres da amizade!...
É escusado dizer que faço absoluta, terminante, feroz questão de que sejam publicados com as dedicatórias! Veja lá! Recomende expressamente aos seus amigos da revista! Quando muito, você poderá, si achar melhor, encurtar a dedicatória latina da “Complainte”, si a achar muito louca! Si forem sem dedicatória, irei ahi para desafial-o em duelo!...
Outra coisa: faço questão de receber o número da revista que os publicar! Olhe que isso é um assumpto muito sério...essas poesias são minhas! Não escrevo carta, porque e ainda estou esperando resposta da minha!...
Recomendações à exma. sra. Abraços para Zezé e Beatriz. Um apertado abraço de seu Guimarães Rosa.”
E já que continuamos a adentrar o território das criações literárias fascinantes palmilhado por este mestre das letras chamado Honório Armond, que tal nos deleitarmos, outra vez ainda, com mais versos de sua lavra constantes das “Obras Poéticas”, edição lançada ao ensejo do centenário de seu nascimento?

Esses aqui, por exemplo:
“Quid est veritas? (1)
À sala do Pretório, onde Pilatos, / delegado de Roma, judicava, / trouxeram Jesus Christo a rudes tratos / qual si elle fôra uma alimária brava. / “Quem es tu?” – “Rei dos Reis” – e eis que ullulava / a infame turba insciente dos ingratos... / -“Galileu, que fizeste?” – “O Bem!” – Responde / “esta pergunta que te faço e que há de / ser por ti desnevoada de seu véo...” / “Jesus de Nazareth, sabes tu onde / vive e fulge, immortal e alma, a Verdade?” / ... Jesus, porém calou-se, olhando o céo...”

E mais estes:
“Jesus, antem, tacebat (II)
Jesus calou-se... E olhando o céo broslado, / escampo, azul, sereno, alto, infinito, / poz-se a pensar, talves, no seu passado... / na sua fuga para o adusto Egypto... / - Que responder? E o Grande Illuminado, / perdido no seu sonho, áureo e bendito, / viu que a Verdade é um verbo indecifrado! / ... si elle também morria por um mytho... / Verdade! Verbo vago e multifário! / Empós teu gesto os seculos  se somem / destas ânsias e luctas através! / que eu lembrando o Pretorio e o arduo Calvario / vejo que pode neste mundo um homem / morrer, por Ti, sem penetrar o que és...”

Honório Armond - dá pra perceber pelos descoloridos registros que, à falta de maior engenho, andei conseguindo transportar para este espaço, de seu incomensurável e coruscante talento -  foi um poeta magnífico. Dos mais importantes de nossa crônica literária. Firmou um estilo. A linguagem armondiana, de beleza irretocável. Vemo-la estampada em versos como estes aqui (poema “Ventura de esperar”), com certo toque de presságio, que asseguram a permanência de sua arte na memória literária: “Depois da morte, eu sei! Serás, ó meu espírito uma chama, um clarão ideal – num mundo olímpico – o Sol eterno para nunca anoitecer!” Um clarão ideal! Haverá palavra melhor para descrever a trajetória deste poeta?

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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