sábado, 27 de fevereiro de 2021

 

Fraternidade Ecumênica

 

Cesar Vanucci

 

“Não podemos esmorecer.”

(Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB)

 

Integristas religiosos, com suas costumeiras interpretações rançosas dos textos sagrados e da aventura humana, andam deitando falação distorcida, com ênfase nas redes sociais, sobre a Campanha da Fraternidade de 2021. A configuração alvissareiramente ecumênica desse importante movimento, patrocinado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e pelo Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (CONIC), parece desagradar sobremaneira as falanges fundamentalistas. Estas, como é notório, acham-se, volta e meia empenhadas em disseminar manifestações de intolerância e preconceito que alvejam em cheio, em diferentes áreas de atuação,  valores humanísticos e espirituais, deturpando, o sentido das coisas.

“Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” é o tema da Campanha, que adotou ainda como lema “Cristo é a nossa paz; do que era dividido, fez uma unidade.” No documento que explicita os objetivos da Campanha da Fraternidade Ecumênica, as lideranças cristãs de variadas origens focalizam, entre outros, com aconselhamento e orientação crítica respeitosa, os riscos advindos do negacionismo da ciência, do desrespeito frontal às recomendações alusivas ao isolamento social, da clamorosa “cultura da violência” contra negros, mulheres, indígenas e a chamada comunidade LGBTs.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte e Presidente da CNBB, dirigiu mensagem à sociedade brasileira, onde assinala, entre outras, as considerações que se seguem: “No exercício de nossa missão evangelizadora deparamo-nos com inúmeros desafios, diante dos quais não podemos esmorecer, mas, ao contrário buscar forças para responder com tranquilidade e esperança. Nosso país vive um tempo entristecedor, com tantas mortes causadas pela Covid-19, um processo de vacinação que gostaríamos fosse mais rápido e uma população que se cansou de seguir as medidas de proteção sanitária. Nosso coração de pastores sofre diante de tantas sequelas que surgem a partir da pandemia, em especial o empobrecimento e a fome.”

Mais adiante afirmou: “Nos últimos dias reações têm surgido quanto ao texto (documento de lançamento da Campanha da Fraternidade). Apresentam argumentos que esquecem da origem do texto (ecumênica) desejando, por exemplo, uma linguagem predominantemente católica.” Noutra parte da mensagem é sublinhado que “a doutrina católica sobre as questões de gênero “afirma que ‘gênero é dimensão transcendente da sexualidade humana, compatível com todos os níveis da pessoa humana, entre os quais o corpo, a mente, o espírito, a alma. O gênero é, portanto, maleável, sujeito a influências internas e externas à pessoa humana, mas deve obedecer a ordem natural predisposta pelo corpo (Pontifício Conselho para a Família).”  

O cardeal Odilo Pedro Scherer, titular da Arquidiocese de São Paulo, em pronunciamento público, diz acreditar que a polêmica nas redes sociais em relação ao texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021, “precisa baixar um pouco a fervura”. Segundo o cardeal, a mobilização de opiniões desfavoráveis processada na comunicação digital, “está movida por um monte de preconceitos, é antiecumênica, está movida por paixões antiecumênicas; por outro lado, movida por acusações infundadas contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”. Dom Odilo acrescenta: as condenações na rede social acusam de “ideologia de um lado, mas cometem o mesmo erro, de posição ideológica oposta, dura, fechada. Tudo o que não precisa numa Campanha da Fraternidade Ecumênica, quando o objetivo é realmente aproximar as igrejas, é promover uma iniciativa boa, juntos, nos aproximar mais.”  Proclamando que “Cristo é a nossa paz”, Dom Scherer chama a atenção de todos que se interessem pela temática abordada, para que não percam o foco do diálogo e da unidade, por serem ambos a verdadeira proposta da tradicional campanha.

 

Planos de saúde, corte salarial, alvará de soltura

 

Cesar Vanucci

 

“Quando vi o valor caí duro”.

(Cliente de plano de saúde, chocado com abusivo aumento)

 

● “O reajuste assusta os consumidores”, apregoa a manchete de página inteira. O susto tem toda razão de ser. Os usuários dos planos de saúde estão sendo surpreendidos, neste início de ano (até aqui, parecidíssimo com o ano que ficou pra trás), com majorações de 50 por cento em média, nos carnês dos planos de saúde. O noticiário explica que o despropositado aumento foi devidamente autorizado pela agência reguladora oficial. O órgão acolheu postulação das empresas credenciadas a operarem seguro saúde, sob a alegação de que se mostram defasadas as remunerações pelos serviços prestados... “Quando vi o valor, caí duro. Cheguei a conclusão que não vai dar mais pra continuar pagando plano de saúde, em razão desse aumento exorbitante devido às condições que estamos enfrentando em um contexto de pandemia. Resolvi cancelar o plano de saúde e estou à cata de outras medidas de assistência à saúde para minha família.” O desabafo de um cidadão do povo, lido acima, colhido ao acaso no jornal, traduz a perplexidade e inconformismo, pode-se dizer, dos 60 milhões de brasileiros que, de acordo com as estatísticas, mantêm planos de saúde. A sociedade brasileira não concorda com o fato de o órgão regulador permanecer, face à abusiva situação, “mudo e quedo que nem penedo”. É mais do que compreensível a expectativa que paira no ar quanto à eventualidade de alguma intervenção providencial capaz de conter a exorbitância assinalada nas faturas encaminhadas aos usuários dos programas de assistência à saúde. Ganha oportunidade mencionar, aqui, algo bastante curioso que ocorre, não é de hoje, na relação dos planos com os consumidores. Contingente apreciável de clientes bateu na porta da Justiça pleiteando a revogação de reajustes inopinados, na vigência do contrato, para certas faixas etárias. Amparados na legislação que protege idosos e consumidores, viram-se vitoriosos na 1ª e 2ª instâncias, mas com a restrição de não poderem desfrutar imediatamente do benefício da redução, a levar-se em conta a perspectiva de uma “súmula vinculante” a ser elaborada por instância superior. A espera pela “súmula vinculante” está sendo longa demais da conta.

● PEC (Proposta de Emenda Constitucional) propondo cortes salariais de servidores. Iniciativas desse gênero são reveladoras, mormente num país com nossas incomparáveis potencialidades, de inaptidão gerencial, falta de visão administrativa, insensibilidade social, ausência de imaginação para conceber programas arrojados com metas de acelerado desenvolvimento econômico e social. Ái de nós!

● Mais essa agora! Falsos alvarás de soltura permitiram a saída pela porta da frente de alguns presídios, de delinquentes da mais alta periculosidade. Traficantes de armas e drogas, sequestradores, entre eles. Pelo que foi divulgado, a maior parte desses estrepitosos casos ocorreu na ex-Cidade Maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, território onde milícias bem articuladas deitam e rolam, zombando das leis e das autoridades. As façanhas ininterruptas do crime organizado conferem sentido ao brado contido em bela canção de Aldir Blanc: “Brasil, tira as flechas do peito do meu Padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar.”

● A campanha educativa na televisão, promovida pela Prefeitura de BH e outros órgãos, exortando os “foliões” a se resguardarem, no período carnavalesco, mode que evitar contaminações pelo coronavírus, foi muito bem “bolada”. Sei de telespectadores que se postaram, frente à telinha, à espera do “intervalo comercial” no meio dos programas, só pra ver e ouvir as sugestivas cenas e melodias.

 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

 

Brasileiros das Gerais

 

Cesar Vanucci

 

“Minas abriga o espírito mais livre da Nação”.

(Carlos Drummond de Andrade)

 

Brasil das Gerais. Gosto da expressão. Costumo empregá-la em falas e na escrita. Por sinal, ao tempo em que estive diretor na TV Minas, entre vários programas lançados, havia um com esse título. Ancorado no talento e irradiante simpatia da Roberta Zampetti, tornou-se “carro chefe” na grade de atrações da emissora.

A proposta era colocar em realce a cultura, as tradições, as realizações vinculadas ao desenvolvimento econômico e social, bem como os personagens e respectivos feitos representativos do processo evolutivo deste dadivoso pedaço de chão. O pedaço mais brasileiro, por um bocado de razões, do território continental que começa no Oiapoque e termina no Chuí.

Ano passado, antes do vendaval do coronavírus desabar, num encontro interacadêmico na Amulmig, anunciei, ao ensejo das celebrações dos 300 anos de Minas, a promoção de um ciclo de conferências tendo por foco a vida e obra de brasileiros nascidos nestas bandas que alcançaram os patamares mais elevados na galeria da história. Nomes consagrados no apreço das ruas. Por obvias razões, a empreitada não pôde ser levada a cabo. Ficou adstrita a uma única conferência, alusiva a JK, efetivada com a participação esplêndida dos acadêmicos coronel Klinger Sobreira de Almeida e economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira. Carlos Alberto descreveu a contribuição vanguardeira de Kubitschek na arrancada brasileira de desenvolvimento. Klinger trouxe informações inéditas acerca da carreira de Juscelino como médico na Polícia Militar.

Anoto, na sequência, os nomes dos brasileiros nascidos nas Gerais que iriam compor o ciclo de conferências, justamente pela circunstância de serem reconhecidos, no sentimento nacional - por conta das atividades a que emprestaram inteligência, capacidade empreendedora, lucidez de espírito e ardor cívico -, como figuras exponenciais da vida brasileira. Não deixa de ser emocionante e, a um só tempo, instigante, procurar entender porquê, como sublinha Carlos Drummond de Andrade, “O Estado mais tipicamente conservador da União, abriga o espírito mais livre”? Porquê  destas paragens, emergiram os vultos mais fulgurantes, em tantas áreas de atuação fundamentais, em tantos caminhos decisivos na escala civilizatória?

A lista confere sentido ao conceito expendido. Diz tudo. José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, herói da nacionalidade; Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho; Mestre Ataíde, a mais importante figura da pintura no período colonial; Teófilo Otoni, o “Ministro do povo”; JK (desnecessário acrescentar qualquer coisa); Alberto Santos Dumont (dizer o que mais a respeito de seu invento?); Ary Barroso (bastaria a “Aquarela do Brasil” para glorificá-lo, mas ele fez outras centenas de magníficas canções); João Guimarães Rosa (nosso maior escritor, de ressonância universal); Carlos Drummond de Andrade, considerado maior poeta; Henriqueta Lisboa, a maior poetisa; o célebre cientista Carlos Chagas; Sobral Pinto, arauto do direito e das liberdades públicas; o pedroleopoldense de Uberaba Chico Cândido Xavier, mensageiro da paz e da generosidade; Edson Arantes do Nascimento, mais conhecido por Pelé, “Atleta do Século”.

Esses ilustres brasileiros das Gerais, com suas ideias fecundas e ações febricitantes ajudaram em muito a forjar o caráter nacional. São fonte de inspiração permanente na formulação de projetos voltados para o bem-estar humano, para que o país enverede por trajetória capaz de conduzi-lo ao destino que lhe é reservado no concerto das nações. Legaram-nos, com seus exemplos de vida, com sua inventividade e sensibilidade social, com seu arrojo construtivo ensinamentos que, bem absorvidos pelas lideranças, pelas gerações, permitirão à pátria amada Brasil realizar sua vocação de grandeza, na conquista do amanhã.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

 Não ao obscuratismo e ao negacionismo

 

Cesar Vanucci


“Debate não é sinônimo de combate.”

(Ministro Luiz Fux, presidente do STF)

 

Numa sessão memorável, abertura oficial do ano judiciário, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Luiz Fux, exprimiu primorosamente o sentimento nacional, ao referir-se à pandemia e aos postulados democráticos que nos regem. Criticou, em termos veementes, o negacionismo e o obscurantismo cultural que norteiam o comportamento de setores radicais empenhados em ataques desabridos à ciência, com suas interpretações insanas das medidas que o bom senso e a experiência científica recomendam sejam adotadas no enfrentamento do flagelo. Mencionou, a propósito, manifestação do presidente do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. Luiz Fux com a palavra: “Não tenho dúvidas de que a ciência, que agora conta com a tão almejada vacina, vencerá o vírus; a prudência vencerá a perturbação; e a racionalidade vencerá o obscurantismo. Para tanto, não devemos dar ouvidos às vozes isoladas, algumas inclusive no âmbito do Poder Judiciário. Confesso que fiquei estarrecido com a manifestação de um presidente de um Tribunal de Justiça, menosprezando esse flagelo, abusando da liberdade de expressão para propagar ódio, desprezar as vítimas e promover negacionismo científico. É tempo de valorizarmos as vozes ponderadas, confiantes e criativas que laboram, diuturnamente, nas esferas públicas e privadas, para juntos vencermos esta batalha.”

Noutro trecho da lúcida fala, proferida em sessão que contou com a presença do Presidente da República e de representantes do Congresso, Fux conclamou a união em torno da pacificação nacional. Sublinhou: “Estamos todos do mesmo lado. A pandemia demonstrou o quão apequenadas são nossas divergências e quão pontuais são nossas discordâncias, quando as comparamos com a grandeza de nossa missão – a de zelar pela força normativa da Constituição. Debate não é sinônimo de combate, tampouco discussão é sinônimo de discórdia.” Complementou o pensamento adiante: “Quem vive este Tribunal sabe que aqui não há senso de poder, mas, decerto, expressivo senso de dever.”

 

● Os olhares e os ouvidos da Nação estão fixados na tevê, no rádio, nos jornais na ansiosa expectativa de que, a qualquer momento, possa brotar uma manchete ruidosa anunciando que a vacinação vai ser processada, dali em frente, num ritmo bem mais célere. O “caminhar de cágado” da operação de imunização, imposto, ao que se sabe, por estratégia que leva em conta as disponibilidades das doses estocadas, está lançando no ar muita intranquilidade e desassossego. Cálculos aritméticos simples atestam que, a não ser incrementada pra valer a cadência nas aplicações levaremos mais dois anos pra chegar ao escopo ardentemente almejado da imunização global dos brasileiros. Entre países engajados em campanhas análogas, estamos classificados, segundo as estatísticas, próximos ao 50º lugar quando se mede a proporção percentual de pessoas vacinadas com o número de habitantes. Produzam mais, importem mais, promovam negociações mais amplas, lancem mão de todos os recursos possíveis para entendimentos satisfatórios, cá dentro e lá fora! Mas, por favor, cuidem de imprimir velocidade vertiginosa a esse providencial trabalho de proteção dos cidadãos! A rede de vacinação montada pelo SUS, como sabido, comporta condições ideais para que a imunização ampla, geral e irrestrita desejada se processe rápida e eficazmente. A população está no direito de exigir das autoridades competentes que cumpram exemplarmente seu dever.

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   os artigos publicados


● Previsão extraordinária de Wilson Miranda

● Atletas barrados no baile

Orlando de Almeida

Boa tarde amigo e mestre Cesar, Esplêndido seu artigo sobre o depois da Pandemia, que provavelmente, como disse o Rabino, exigirá a presença de um Bode na Sala. E do mundo inteiro. Será a volta do mundo velho normal. Resta-nos implorar a Providência Divina, que interfira nas mentes e corações dos humanos para que surja realmente, após este flagelo, um mundo novo normal.
Abraço do amigo, Orlando

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 

Previsão extraordinária de Wilson Miranda

 

Cesar Vanucci

 

 “Perdemos o grande jornalista, produtor 

e pensador mineiro Wilson Miranda.”

(Jornalista Pepe Chaves)

  

Wilson Miranda é outro amigo que deixa de ser visto na estrada da vida. Jornalista, executivo da Associação Mineira de Imprensa, era considerado um profissional de grande competência na área da produção de programas televisivos. Meu saudoso mano, Augusto Cesar Vanucci, à época em que comandava a linha de shows e programas humorísticos da Rede Globo de Televisão, costumava convocá-lo amiúde como colaborador na montagem dos magistrais programas que dirigia. As pessoas que conviviam com Wilson sabiam que, além do mais, ele era dotado de dons muito singulares no tocante ao que conhecemos pela denominação de percepções extrassensoriais.

Registrando meu pesar pela sua passagem, fazendo minhas as palavras do companheiro Pepe Chaves no intróito a respeito desse ilustre cidadão, vou recontar aqui a história de uma previsão extraordinária que ouvi da boca de Wilson Miranda no dia em que o conheci. Utilizo na narrativa trechos de um capítulo do livro “Realismo fantástico”, lançado anos atrás.

“Encontrava-me no Rio, naquele dia, há pouco mais de 20 anos, aguardando num hotel, centro da cidade, transporte que me conduziria aos estúdios da emissora no Jardim Botânico. Acabara de conhecer um produtor de destaque da Globo Minas, convocado para o mesmo trabalho. Seu nome: Wilson Miranda. Tomávamos, juntos, o café da manhã, quando me dei conta, espantado, da mudança operada, de repente, nas feições, gestos e fala de meu parceiro de mesa. De forma vigorosa, sublinhando as palavras, dando curso diferente à conversa que vínhamos mantendo, ele declarou, com todas as letras, o seguinte: "Tancredo Neves não toma posse na Presidência!". Repetiu solenemente a frase. Sem conseguir esconder o aturdimento, disse ao meu interlocutor não acreditar, definitivamente, na eventualidade de qualquer ato que pudesse vir a degradar o processo da redemocratização, nascido da consciência cívica nacional. Ele, imperturbável, com a voz embargada, completou a estranha revelação: "Tancredo não vai tomar posse porque cairá doente e morrerá." Nos minutos seguintes, já liberto do – chamemos assim – transe, o respeitado homem de televisão a quem eu acabara de ser apresentado, retomou tranquilamente o tema do papo anterior. Mal cheguei ao estúdio e fui logo colocando o Augusto Cesar a par do ocorrido. Ele me contou, então, que o Wilson era um tremendo sensitivo e que convinha anotar sua chocante previsão, o que fiz na agenda.

O incrível episódio passou-se pouco tempo antes da posse presidencial, aguardada em clima de euforia por todos os segmentos da sociedade brasileira. Torcendo para que o temido vaticínio, concebido em circunstâncias tão enigmáticas, conhecido de poucos, não se concretizasse, acompanhei com nervosa expectativa a evolução da enfermidade do doutor Tancredo, por quem nutria, como todos os brasileiros, enorme admiração.

Fiquei grudado na televisão, os olhos marejados, o coração aos saltos, a desconfortável previsão acicatando a memória, a partir da hora do dramático anúncio do Antônio Brito de que o eminente homem público, depositário naquela quadra da vida nacional das esperanças de toda nossa gente, havia sido levado, inesperadamente, na véspera da posse, a um leito de hospital.

O resto virou História, como a Nação, ainda recentemente recordou nas manifestações ternas e saudosas com que reverenciou os 20 anos da retomada democrática e a participação cintilante, no empolgante movimento que conquistou as ruas, as mentes e os corações brasileiros, de seu líder maior, o notável homem público chamado Tancredo de Almeida Neves.”

No livro citado explico que, naquele mesmo dia da previsão, outros fatos desconcertantes ocorreram. Mas isso é conversa prá outra hora.

 

Atletas barrados no baile

 

Cesar Vanucci

 

“Não há nenhum problema negro.

O que há apenas é um problema branco”

(Richard Wrigth, escritor negro estadunidense)


Confessando-se “assídua leitora” de meus textos, Palmira  Nascimento, professora, comenta o artigo “O antirracismo entra em campo” (DC 15.12). “Gostei da crítica à praga do racismo.” Relembra, depois, narrativa que fiz, tempos atrás, sobre  preconceito envolvendo atleta de basquetebol. Sugere repeteco do caso. Pedido acolhido. Os trechos do episódio narrado fazem parte do meu livro “Um Certo Dom”.

Início dos anos 60. O Palmeiras acabara de conquistar o (...) sul-americano de basquetebol. O feito (...) ganhou repercussão nacional. O Jockey Club de Uberaba, possuidor (...) de imponente complexo destinado ao lazer e desporto (...), resolveu convidar o sexteto campeão para uma exibição em seu ginásio. Público vibrante compareceu à partida (...), fazendo coro com o Jockey nas homenagens prestadas na quadra (...).

À delegação (...) ofereceu-se, depois, no  salão de festas, um baile de gala. Só que com um porém. Numa demonstração (...) de racismo, deu-se a conhecer (...) que não seria permitida a presença no baile dos atletas negros. Eram dois. Um deles, principal astro, “cestinha do time”, conhecido por Rosa Branca (falecido em 2009). Ironicamente, o Rosa, chamado de branco, foi barrado no baile justamente por não sê-lo. O deplorável gesto foi acompanhado, da parte da comitiva do Palmeiras, de um ato de pusilanimidade (...). Os  dirigentes e atletas brancos deixaram os colegas alvo da (...) discriminação no hotel. Compareceram (...) à festa, embasbacados com os rapapés, como se nada de singular tivesse ocorrido. Extrai-se daí uma medida exata da falta de sensibilidade social que, de forma talvez mais intensa que hoje, prevalecia naquela época nesses domínios perturbadores da convivência racial.

No diário "Correio Católico" e na Rádio Difusora o episódio ganhou (...) críticas veementes. Os responsáveis pelo (...) procedimento, tentando tapar o sol com peneira, contestaram as evidências. Veladas ameaças foram postas a circular. Falavam em eliminar (...) do clube a "cambada de jornalistas", todos "extremistas", comprometidos com as denúncias. Alguns diretores do clube, mais sensatos, não só se opuseram à tresloucada ideia, como se animaram, (...) oferecendo a mão à palmatória, a procurar o jornal e a rádio, pedindo desculpas pela besteira.

As (...) ameaças motivaram o jornal e a emissora a desnudar outros aspectos dolorosos do problema da discriminação racial. Tudo quanto se fez, nesse trabalho de desmantelamento de imposturas, aceitas sem (...) questionamentos por parcelas (...) da comunidade, contou com o respaldo (...) do Arcebispo de Uberaba, Dom Alexandre Gonçalves Amaral, que (...) ocupou-se do assunto nos rodapés que escrevia diariamente no “Correio Católico”.

Levei a Dom Alexandre (...) um registro incrível, revelador dos surpreendentes disfarces que a discriminação racial costuma utilizar, na tentativa de expor-se menos ao crivo da consciência social comunitária. Entre as (...) manifestações de solidariedade (...) figurou a de um dirigente destacado de outro clube. Cidadão muito simpático, trazia definidos na epiderme amorenada traços de sua ancestralidade negra. Ao cumprimentar-me efusivamente "pela corajosa atitude assumida no incidente Rosa Branca”, sublinhou que em seu clube “um absurdo desses jamais ocorreria." Acrescentou, triunfante: "– Lá, não proibimos pretos de frequentar bailes. O que eles não podem é sair dançando. Cada um no seu devido lugar..."

Como diz o escritor mencionado no introito (...), fixando o assunto da segregação em seu enfoque correto, o que existe é apenas "um problema branco."

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Aglomerações e vacinação; O golpe frustrado de Trump; 

   Privatização não é dogma de fé

Alice Spíndola

Cesar Vanucci, estimado amigo, Parabenizo-o por todas as crônicas de seu Blog. 

Há uma carência, no mundo, de respeito, limite  e de educação. Lembro-me de homens finos, educados e capazes de trabalhar em diversas áreas da política, da educação e outras áreas, que deixaram seu legado para todo o sempre. Recordo de Juscelino, Kennedy, Artur da Távola e tantos outros. Mulheres como Stella Leonardos, Nely Novaes Coelho, Lívia Paulini que sabiam ou sabem defender o nosso País. Falar em compra de armas, venda de estatais, quando alguém do nosso lado está morrendo, por causa da pandemia não é o mais válido. Nosso presidente não esquece deste assunto. Infelizmente.

Guido Bilharinho  menciona você em recente crônica, quando escreve sobre o Correio Católico, em Uberaba, há alguns anos. Que 2021 lhe seja pleno de êxitos. Abraço fraternal, Alice Spíndola


 O normal, com bode e tudo

Lindolfo Paoliello

Cesar Vanucci, Saiba que recebo sempre com especial carinho suas mensagens e seus belos textos. Sua amizade é para sempre.

Forte abraço, Lindolfo

 

A SAGA LANDELL MOURA

  Luiz Carlos Abritta   Cesar Vanucci   “A morte é a curva da estrada.” (Fernando Pessoa)   O poeta Fernando Pessoa, volta e m...