quinta-feira, 13 de abril de 2017

Barafunda estilosa

Cesar Vanucci

“Não podemos ouvir Adão e Eva para que intimem a serpente.”
(Ministro Herman Benjamim, do TSE)

Barafunda armada em grande estilo. E de tal monta que vai tornando cada vez mais difícil estabelecer as coordenadas das ações prioritárias passíveis de serem executadas na busca de saídas plausíveis para a crise. Inocultável, a esta altura, a incapacidade gerencial dos principais atores dessa desgastante encrenca social, política e econômica. Junte-se a isso a desfaçatez e o maroto oportunismo, pra usar linguagem branda, dos arranjos políticos urdidos com vistas a se contornar os problemas. Tudo está sendo conduzido dentro do propósito de se fazer alguma reforma para não se fazer reforma alguma. E eis-nos, assim, por conta dessa “melódia” - a angustiada sociedade brasileira - forçados a confrontar tensionantes incertezas e impasses.

Na esteira das inesgotáveis revelações acerca dos incríveis esquemas da corrupção sistêmica que envolve influentes setores da política, praticamente sem exclusão de legendas, irrompem em catarata manobras casuísticas, fisiologismo debochado, farisaísmo maneiroso. Tudo, tudo ardilosamente enfeitado de indumentária pomposa e transmitido à patuleia ignara com pose austera.

Os antigos oposicionistas, confortavelmente instalados nas grimpas do poder, contando de certo modo com prestimosa ajuda de boa parte da grande mídia, condenavam no passado, com causticantes comentários, situações que agora, sem qualquer grama de peso na consciência, resolvem incorporar aos seus hábitos comportamentais. Quando a despreparada Presidente afastada, acompanhada de seu Ministro da Justiça, avistou-se em Portugal, pouco antes do impedimento, com o então Presidente do Supremo, o mundo veio abaixo, como por certo recordarão os de boa memória. Especulou-se intensamente, nas tribunas e manchetes, o que poderia estar sendo tramado no suspeitoso papo entre os chefes dos dois Poderes. Um deles investido do dever de investigar a atuação do outro. Pois bem, na atualidade, o noticiário nosso de cada dia dá conta de reuniões incessantes, com características de tratativa política, de ilustres figuras dos tribunais superiores com paredros partidários incluídos no listão das investigações. E aí, gente boa, como é que se explica esse lance de tão gritante incoerência? É assim mesmo? O que se tinha antes por reprovável, deixa de sê-lo nestes novos tempos de reinterpretações jurídicas e éticas?

Adiante. Com a finalidade de blindar o ex-presidente Lula face às pesadas acusações contra ele levantadas, Dilma Rousseff entendeu de nomeá-lo Ministro de Estado para que fosse beneficiado pelo controvertido instituto jurídico do foro privilegiado. Mais do que depressa, o polêmico ato foi revogado em decisão provinda do STF. Meses transcorridos, Michel Temer tomou a mesmíssima iniciativa. Designou colaborador próximo para função ministerial, mode assegurar-lhe o “direito” a foro especial. A decisão emanada da mesma Corte foi diametralmente oposta. Os círculos que consideravam um verdadeiro escarnio o gesto de Dilma celebraram como rigorosamente correto o gesto de Temer.

Denunciando gravíssimas irregularidades que teriam sido cometidas na campanha presidencial, no que tange à arrecadação de recursos, os tucanos impetraram ação perante o TSE postulando a cassação da dupla Dilma-Temer. Só agora, após as radicais alterações ocorridas no cenário nacional no pós-impeachment, a questão entrou na pauta de julgamento. Pra espanto global, irrompeu descomunal esforço, envolvendo personagens de realce de todas as categorias ligadas ao rumoroso assunto, visando o adiamento do caso para as calendas. As jogadas procrastinatórias são de tamanha magnitude que o relator do processo, Herman Benjamim, não conseguiu conter elucidativo desabafo: “Não podemos ouvir Adão e Eva para que intimem a serpente. Vamos ser transparentes, não há necessidade de nós dizermos o que está por traz de tudo isso. Temos que evitar a procrastinação.” As manobras contemplam, entre outros despropósitos, a expectativa de eventuais mudanças na composição do colegiado de julgadores. Mas o dado mais sintomático, nesse emaranhado de conveniências, é propiciado pela “reviravolta de opinião” dos oposicionistas de ontem.  Eles se propõem a abater pela metade sua “santa repulsa” às irregularidades que alegam ter sido cometidas pela chapa impugnada. Temer, então vice e desafeto, já hoje Presidente e aliado, com base “em criteriosa reavaliação de todas as circunstâncias”, nada tem a ver, no duro da batatolina, com aquelas nefastas ações produzidas pela chapa vitoriosa em 2014. A culpa no cartório por inteiro cabe, única e exclusivamente, tá na cara, à outra integrante da chapa, ela própria, Dilma. Revoguem-se, por conseguinte, em nome da Justiça, as disposições em contrário.

E, depois, tem nego pela aí que ainda encontra dificuldade em entender por qual razão os índices de credibilidade e popularidade nos arraiais governamentais e políticos andam tão rasteiros.


Colossal encrenca

Cesar Vanucci

A imagem vale mais que mil palavras.”
(Ditado chinês)

Ditado chinês muito difundido diz que uma imagem vale mais que mil palavras. Tem como conferir no percurso cotidiano, com razoável frequência, a pertinência desse brocardo.

A estupefação - com um acento dir-se-ia até de ligeiro horror -, estampada no semblante de Angela Merkel e a catadura aparvalhada de Donald Trump na foto que ganhou espaço nas primeiras páginas sobre a recente visita da Chanceler alemã à Casa Branca documentam, de forma irretocável, posto que inquietante, colossal encrenca. Foram os eleitores estadunidenses que arranjaram essa encrenca, pra eles próprios e para nós outros, adicionando novo e pesado fator de perturbação às tensões acumuladas pela sociedade humana nestes confusos tempos.

Sobre a desconcertante cena universalmente mostrada ao vivo e em cores pode ser acrescentado ainda o seguinte: a recusa do aperto de mão traduz, inequivocamente, um gesto demencial. Shakespeare explica muitíssimo bem coisas do gênero, pela voz de Hamlet: “Loucura, sim, mas há um método nela.”

Descarta-se laudo psicanalítico para o inapelável diagnóstico: este cara, decididamente, não bate bem. Tem parafusos de menos, como se costuma dizer na descontraída linguagem das ruas. Doido de jogar pedra. Especula-se mesmo se não teria, em idos tempos, arremessado pedra de atiradeira em aviões de carreira.  Vai continuar aprontando, valendo-se de métodos heterodoxos na perseguição de imperscrutáveis e temerários objetivos. E quando afloram na lembrança os inimagináveis poderes ao seu inteiro alcance, mode poder influenciar os destinos humanos, um calafrio glacial percorre a coluna vertebral de qualquer vivente com um mínimo de sensibilidade e de conhecimento de causa.

Com certeira convicção, a comparação já terá sido feita por alguém, noutro momento. O olhar cortante de Trump transmite sensação parecida com aquele ardor extático que Adolf Hitler trazia pendurado na face emoldurada por franja e bigodinho típicos, sobretudo nos momentos da oratória furibunda. A dialética racista é outro ponto de identidade a ser anotado na trajetória de ambos os dois.

As decisões políticas e administrativas desprovidas de bom senso e de sensibilidade social adotadas pelo prócer norte-americano, mais sua retumbante retórica de cunho ostensivamente fundamentalista suscitam compreensíveis receios na comunidade internacional quanto ao que possa ainda, com base em iniciativas inesperadas, vir a pintar no pedaço. O espanto de Merkel refletiu a sensação de sobressalto amplamente espalhada no âmbito das lideranças planetárias face aos destemperos de conduta do poderoso governante.

Face ao que anda rolando, a opinião pública internacional agarra-se, na busca de consolo, à expectativa de que os impulsos amalucados de Trump possam, de alguma maneira, ser refreados pelo sentimento democrático da própria sociedade americana. Essa expectativa ancora-se em animadoras reações às diatribes praticadas, envolvendo lúcidos setores da inteligência e lideranças daquele país. Tudo faz crer que, também no plano doméstico, só vem fazendo crescer, desde o comecinho do mandato, o desconforto produzido pelas atitudes do ex-apresentador de “realities shows” inadvertidamente alçado ao mais relevante posto da cena política internacional.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Não precisa explicar...

Cesar Vanucci

“... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora; entender o que não se compreende e não escutar o que se ouve (...): eis a política.”
(Beaumarchais – 1732-1799)

Quer dizer, então, gente boa, que existe um “caixa 2 do bem” e um “caixa 2 do mal”, como judiciosamente asseveram conspícuos próceres partidários da cúpula engajados em edificantes articulações com o sagrado objetivo de promover “a salvação da política”? O “caixa do bem” voltado para nobilitantes causas conduzidas por virtuosos companheiros da patota presentemente detentora dos privilégios do poder, e o “caixa do mal” operado por desalmados adversários dessa tão honrada grei? Desafetos esses, por sinal, mercê dos deuses, em bom número já convenientemente defenestrados das esferas do comando político administrativo.

Quer dizer, então, gente bacana, que aquelas desconcertantes alegações de um punhado de descarados militantes de grupos alijados da cena, vários deles com merecidas condenações na cacunda, sustentando que a derrama de bufunfa nos redutos do poder representava desinteressado apoio empresarial nas eleições e não pagamento de mesadas a aliados, acabam de ganhar uma reinterpretação jurídica e ética? Passaram, Deus louvado, a ser reconhecidas como procedimento legítimo, tendo em vista a reconfortante circunstância de que os capilés atribuídos pelas empreiteiras a agentes públicos contemplam, nos casos agora investigados, cidadãos de postura diferenciada, de caráter sem jaça, realmente imbuídos de espírito público?

Que dizer, então, caríssimos, que aos íntegros caras favorecidos com propinas do “caixa 2 virtuoso” deva ser dispensado tratamento reverente, diferenciado do que é comumente reservado ao pessoal repulsivo do outro “caixa 2”? Ou seja, aquele bando de corruptos que se valeu dos recursos repassados para enriquecimento ilícito e não para utilização em nobres empreitadas? Quer dizer, então, que por esse convincente motivo, a opinião pública precisa aprender, daqui pra frente, a separar criteriosamente o joio do trigo, nessa questão tão delicada das investigações sobre corrupção? Fazê-lo de modo consciencioso e competente, que permita às agremiações políticas do bem protegerem suas atividades e, ipso facto, salvaguardar apreciável contingente de políticos de angelical conduta? Quer dizer, então, que se impõe, de pronto, a necessidade de identificar-se com exatidão quem é grego e quem é troiano nessa história toda, aplicando-se punição exemplar aos “bandidos” e exaltando-se os “destemidos mocinhos”, que souberam utilizar condignamente a dinheirama depositada pelas empreiteiras em suas contas bancárias? Quando não mais fosse, pela retilínea conduta desses últimos, ao revelarem às autoridades e mídia, em momentos cruciais, com discernimento e desassombro cívico, os atos malsãos das levas dos corruptos primeiramente acusados?
Quer dizer, então, que no salutar afã de se fazer justiça, passam a ser lícitas as extenuantes tratativas envolvendo íntegros políticos acusados e até intocáveis figuras do Judiciário, mode definir, para o bem de todos em geral, um redentor acordão? Um pacto criterioso e desprendido que elimine a possibilidade de condenações a homens de bem e mostre, com absoluta nitidez, o que sejam os alhos prazerosamente debulhados por figurões acima de qualquer suspeita – todos, obviamente, do “lado de cá” - e os bugalhos acumulados pela “banda podre” do “lado de lá”?

Quer dizer, então, que aquelas denúncias vindas a lume com os delatores implicados nas maracutaias referentes ao perverso conluio de agentes públicos desonestos e inidôneos empreiteiros carecem ser analisadas com pesos e medidas diversificados? E isso, pela forte razão de que esses delatores revelam-se irrepreensivelmente sinceros e fidedignos nas citações feitas aos mau-caratistas dos “nossos adversários”, mas, incompreensivelmente, faltam com a verdade quando incluem “pessoal nosso”, de impecável comportamento na lida pública, nas inesgotáveis listas dos responsáveis pelos repugnantes delitos cometidos?

Quer dizer, então, por derradeiro, que as manchetes dos jornais traduzem sempre a verdade factual quando as denúncias enredam “adversários desonestos”, mas, estranhavelmente, são facciosas e destituídas de fundamento quando alvejam impolutos integrantes de nosso “valoroso time”? É isso mesmo?
Calma, calma, gente boa, perguntar não ofende. E, como se costuma dizer também por aí, precisa não explicar. Nós só queremos entender...


Impropérios em papos triviais

Cesar Vanucci

“Perto de casa, deparei-me com uma loja chamada “Macabiras Center”. Achei aquilo um absurdo.
Um insulto à linguagem.”
(Ariano Suassuna)

Um tiquinho de alumbramento com uma pitadazinha de ingenuidade. Indigência intelectual e cívica. Ação sorrateira de solapamento cultural. Frescuragem ampla, geral e irrestrita. Não há como deixar de enquadrar numa dessas classificações, ou numa outra derivada da mistura pura e simples de todas ou de várias delas, essa desconcertante inclinação de alguns pela aplicação indiscriminada, a três por quatro, de vocábulos estrangeiros em papos triviais, classificações e descrições de coisas e situações óbvias.

Contando com o prestimoso incentivo até de organismos oficiais, essa onda nauseante de macdonaldização do idioma que nos acossa e tanto agride nossa história, nossa cultura, nossas tradições e o nosso estilo de vida, já ultrapassou longe as barreiras da tolerância e do bom senso. O cidadão brasileiro vem sendo alvo de clara provocação. Está sendo colocado em permanente estado de desconforto e mal-estar, ferido em sentimentos e emoções preciosos, tal o excesso das sandices praticadas. Isso vem ocorrendo ao nos depararmos, por exemplo, com bancos e outras organizações financeiras, do comércio, da indústria, da atividade agropastoril convocando a fiel clientela a participar de seus planos de aplicações ou vendas por meio de impressos que exibem títulos e notas explicativas em idioma que não é o nosso.  As empresas aéreas empregam um insolente “mister” em bilhetes de viagem, no lugar de “senhor”, sem falar noutras alienantes rotulagens usadas para os demais e óbvios registros. O mesmo se faz, despudoradamente, na área de atuação de empresas de telecomunicação, com seus impertinentes roamings.

Os cidadãos também se assustam quando ficam sabendo que algumas repartições incumbidas de botarem pra funcionar o sistema de transporte coletivo optam, muitas vezes, pela expressão “bus” ao designarem o veículo utilizado. Sentem calafrio a percorrer-lhes a espinha dorsal quando se dão conta de que o futebol de praia, inventado no Brasil e dominado pelo talento de atletas brasileiros, recebe em alguns lugares a alcunha de beach soccer. E é certo que o impropério linguístico não resulta apenasmente do fato de uma que outra disputa realizada na acolhedora “Lagoa dos Ingleses”...

Os cidadãos reagem, ainda, indignados, quando se defrontam com placas indicativas de man e lady afixadas nas portas dos gabinetes de higiene íntima. Enfezam-se na hora em que avistam, nas ruas e nas vitrinas, painéis e cartazes retumbantes anunciando on sale, com percentuais variáveis em off.  Sentem uma vontade danada de torcer pescoços quando se lhes chega a informação de que algum babaca, travestido de consultor, conclama condescendentes discípulos a se manifestarem, em coro, com sonoro yes ao final das exposições, como sinal de concordância em relação ao conteúdo das explicações, seguramente recheadas de termos extravagantes extraídos de almanaques alienígenas.

São impertinências linguísticas, na linha do chamado inglês moroless, que nada têm a ver com o conhecimento, essencial a todas as atividades, de um idioma de reconhecida abrangência universal como o inglês. As reações contra tais extravagâncias, gesto de legítima defesa putativa da dignidade e honra comunitárias, ganham, também, registros salpicados de humor e sarcasmo, banhados na saborosa irreverência popular. É o caso das “traduções especiais” que circulam por aí, acerca do emprego pedante dessas expressões. Vejamos: a hot day  - arrotei; he is my son -  ele é maçom; ice cream – crime no gelo; everybody -  todos os bodes.


Intolerável invasão cultural

Cesar Vanucci

“A pátria é o idioma”.
(Monteiro Lobato)


Focalizando indoutrodia a questão dos “impropérios linguísticos”, acudiu-me à lembrança um episódio incrível, narrado tempos atrás neste acolhedor espaço frequentado por indulgentes leitores.

Contando assim, parece até história inventada. Não é. Antes sesse, como diria, em sua saborosa maneira de expressar, algum matuto dos chapadões sem fim lá das bandas do Triângulo. Uma agressão, outra a mais, à cultura brasileira estaria deixando de ser, assim, cometida. Mas o fato, verdadeiro e contundente, ocorreu à época em que estive diretor da TV Minas. Recebi convite para participar de um evento no Riocentro. O convite, todo ele, da primeira a última linha, face e verso, veio redigido em inglês. Achei, à primeira vista, que estaria havendo, por parte deste desajeitado escriba com suas quiméricas interpretações dos lances cotidianos, algum erro de percepção. Não estava. Li e reli várias vezes o convite. Vasculhei o interior do envelope à cata de possível informação adicional, apegando-me ansioso à hipótese de descobrir qualquer registro no idioma falado em meu país capaz de fornecer explicação razoável para a inusitada comunicação.

Nada encontrei. Não havia motivo pra dúvidas. O convite endereçado ao cidadão brasileiro, profissional de comunicação no Brasil, para debater as atividades do setor, envolvendo a participação, seguramente em maioria, de colegas também brasileiros num  evento previsto para um centro de convenções brasileiro, em cidade brasileira, o convite, repito, estava formulado em língua estrangeira. Algo de um surrealismo arrepiante. O cúmulo dos absurdos. O fim da picada, como se costuma dizer. Um sinal alarmante a ser acrescido à onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Onda hiper ativada na panaquice, na indigência cívica e intelectual. Em frescurice ampla, geral e irrestrita.

Outro dado constrangedor na historinha insólita é que as respeitáveis organizações brasileiras que assinavam o convite mantiveram-se indiferentes aos impropérios perpetrados contra nosso idioma e nossa cultura. O que me estimula a repetir, com toda ênfase, que o emprego de vocábulos estrangeiros na palavra falada e escrita, para classificar coisas óbvias do cotidiano, recende a tremenda babaquice. Desqualifica intelectualmente os deslumbrados da silva que, junto com pessoas desavisadas, fazem coro com prováveis inimigos clandestinos, interessados na corrosão, por dentro e por fora, das instituições e dos valores mais sagrados da autêntica cultura brasileira. Não há como deixar de suspeitar faça isso parte de um trabalho manhoso, sorrateiro, com o qual se busque inocular no espírito popular a ideia perversa e falsa de que seríamos, os brasileiros, cidadãos de segunda classe. Criaturas sem capacitação para gerir o próprio destino. É aquele registro cretino, propagado por vezes em rodas onde se joga conversa fora, rechaçado obviamente pela consciência cívica da Nação, referente a um país que teria sido agraciado por Deus com dádivas e dons sem par, mas povoado por uma “gentinha”, vou te contar...

Recapitulemos o que vem pintando no pedaço. Convites em idioma alheio. Painéis de rua, cartazes de loja, reclames, tudo com emprego de vocábulos estrangeiros. Propaganda volumosa na mesma linha pedante. São facetas da intolerável invasão cultural, que atinge, também, de forma estrepitosa, a programação radiofônica e televisiva. Numerosas emissoras se entregam, inadvertidamente ou levianamente, ao capricho de substituir, em boa parte do tempo, os sons incomparáveis da música mais linda e criativa do mundo, a brasileira, pelo barulho insuportável, lembrando nalguns instantes utensílios de cozinha despencando da prateleira, do lixo musical internacional. Muito sugestivo, a propósito do assunto, o teor de uma carta enviada a amigos, por um brasileiro que foi fazer curso de especialização nos Estados Unidos. Ele sublinhou, com ironia, que em instante algum, ao sintonizar de manhã cedinho as rádios da cidade em que se radicou, sentiu-se distanciado da terra natal. “As emissoras daqui, como as daí, só tocam música americana. Sinto-me em casa”, disparou.

A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...