sexta-feira, 7 de abril de 2017

Não precisa explicar...

Cesar Vanucci

“... fingir ignorar o que se sabe e saber o que se ignora; entender o que não se compreende e não escutar o que se ouve (...): eis a política.”
(Beaumarchais – 1732-1799)

Quer dizer, então, gente boa, que existe um “caixa 2 do bem” e um “caixa 2 do mal”, como judiciosamente asseveram conspícuos próceres partidários da cúpula engajados em edificantes articulações com o sagrado objetivo de promover “a salvação da política”? O “caixa do bem” voltado para nobilitantes causas conduzidas por virtuosos companheiros da patota presentemente detentora dos privilégios do poder, e o “caixa do mal” operado por desalmados adversários dessa tão honrada grei? Desafetos esses, por sinal, mercê dos deuses, em bom número já convenientemente defenestrados das esferas do comando político administrativo.

Quer dizer, então, gente bacana, que aquelas desconcertantes alegações de um punhado de descarados militantes de grupos alijados da cena, vários deles com merecidas condenações na cacunda, sustentando que a derrama de bufunfa nos redutos do poder representava desinteressado apoio empresarial nas eleições e não pagamento de mesadas a aliados, acabam de ganhar uma reinterpretação jurídica e ética? Passaram, Deus louvado, a ser reconhecidas como procedimento legítimo, tendo em vista a reconfortante circunstância de que os capilés atribuídos pelas empreiteiras a agentes públicos contemplam, nos casos agora investigados, cidadãos de postura diferenciada, de caráter sem jaça, realmente imbuídos de espírito público?

Que dizer, então, caríssimos, que aos íntegros caras favorecidos com propinas do “caixa 2 virtuoso” deva ser dispensado tratamento reverente, diferenciado do que é comumente reservado ao pessoal repulsivo do outro “caixa 2”? Ou seja, aquele bando de corruptos que se valeu dos recursos repassados para enriquecimento ilícito e não para utilização em nobres empreitadas? Quer dizer, então, que por esse convincente motivo, a opinião pública precisa aprender, daqui pra frente, a separar criteriosamente o joio do trigo, nessa questão tão delicada das investigações sobre corrupção? Fazê-lo de modo consciencioso e competente, que permita às agremiações políticas do bem protegerem suas atividades e, ipso facto, salvaguardar apreciável contingente de políticos de angelical conduta? Quer dizer, então, que se impõe, de pronto, a necessidade de identificar-se com exatidão quem é grego e quem é troiano nessa história toda, aplicando-se punição exemplar aos “bandidos” e exaltando-se os “destemidos mocinhos”, que souberam utilizar condignamente a dinheirama depositada pelas empreiteiras em suas contas bancárias? Quando não mais fosse, pela retilínea conduta desses últimos, ao revelarem às autoridades e mídia, em momentos cruciais, com discernimento e desassombro cívico, os atos malsãos das levas dos corruptos primeiramente acusados?
Quer dizer, então, que no salutar afã de se fazer justiça, passam a ser lícitas as extenuantes tratativas envolvendo íntegros políticos acusados e até intocáveis figuras do Judiciário, mode definir, para o bem de todos em geral, um redentor acordão? Um pacto criterioso e desprendido que elimine a possibilidade de condenações a homens de bem e mostre, com absoluta nitidez, o que sejam os alhos prazerosamente debulhados por figurões acima de qualquer suspeita – todos, obviamente, do “lado de cá” - e os bugalhos acumulados pela “banda podre” do “lado de lá”?

Quer dizer, então, que aquelas denúncias vindas a lume com os delatores implicados nas maracutaias referentes ao perverso conluio de agentes públicos desonestos e inidôneos empreiteiros carecem ser analisadas com pesos e medidas diversificados? E isso, pela forte razão de que esses delatores revelam-se irrepreensivelmente sinceros e fidedignos nas citações feitas aos mau-caratistas dos “nossos adversários”, mas, incompreensivelmente, faltam com a verdade quando incluem “pessoal nosso”, de impecável comportamento na lida pública, nas inesgotáveis listas dos responsáveis pelos repugnantes delitos cometidos?

Quer dizer, então, por derradeiro, que as manchetes dos jornais traduzem sempre a verdade factual quando as denúncias enredam “adversários desonestos”, mas, estranhavelmente, são facciosas e destituídas de fundamento quando alvejam impolutos integrantes de nosso “valoroso time”? É isso mesmo?
Calma, calma, gente boa, perguntar não ofende. E, como se costuma dizer também por aí, precisa não explicar. Nós só queremos entender...


Impropérios em papos triviais

Cesar Vanucci

“Perto de casa, deparei-me com uma loja chamada “Macabiras Center”. Achei aquilo um absurdo.
Um insulto à linguagem.”
(Ariano Suassuna)

Um tiquinho de alumbramento com uma pitadazinha de ingenuidade. Indigência intelectual e cívica. Ação sorrateira de solapamento cultural. Frescuragem ampla, geral e irrestrita. Não há como deixar de enquadrar numa dessas classificações, ou numa outra derivada da mistura pura e simples de todas ou de várias delas, essa desconcertante inclinação de alguns pela aplicação indiscriminada, a três por quatro, de vocábulos estrangeiros em papos triviais, classificações e descrições de coisas e situações óbvias.

Contando com o prestimoso incentivo até de organismos oficiais, essa onda nauseante de macdonaldização do idioma que nos acossa e tanto agride nossa história, nossa cultura, nossas tradições e o nosso estilo de vida, já ultrapassou longe as barreiras da tolerância e do bom senso. O cidadão brasileiro vem sendo alvo de clara provocação. Está sendo colocado em permanente estado de desconforto e mal-estar, ferido em sentimentos e emoções preciosos, tal o excesso das sandices praticadas. Isso vem ocorrendo ao nos depararmos, por exemplo, com bancos e outras organizações financeiras, do comércio, da indústria, da atividade agropastoril convocando a fiel clientela a participar de seus planos de aplicações ou vendas por meio de impressos que exibem títulos e notas explicativas em idioma que não é o nosso.  As empresas aéreas empregam um insolente “mister” em bilhetes de viagem, no lugar de “senhor”, sem falar noutras alienantes rotulagens usadas para os demais e óbvios registros. O mesmo se faz, despudoradamente, na área de atuação de empresas de telecomunicação, com seus impertinentes roamings.

Os cidadãos também se assustam quando ficam sabendo que algumas repartições incumbidas de botarem pra funcionar o sistema de transporte coletivo optam, muitas vezes, pela expressão “bus” ao designarem o veículo utilizado. Sentem calafrio a percorrer-lhes a espinha dorsal quando se dão conta de que o futebol de praia, inventado no Brasil e dominado pelo talento de atletas brasileiros, recebe em alguns lugares a alcunha de beach soccer. E é certo que o impropério linguístico não resulta apenasmente do fato de uma que outra disputa realizada na acolhedora “Lagoa dos Ingleses”...

Os cidadãos reagem, ainda, indignados, quando se defrontam com placas indicativas de man e lady afixadas nas portas dos gabinetes de higiene íntima. Enfezam-se na hora em que avistam, nas ruas e nas vitrinas, painéis e cartazes retumbantes anunciando on sale, com percentuais variáveis em off.  Sentem uma vontade danada de torcer pescoços quando se lhes chega a informação de que algum babaca, travestido de consultor, conclama condescendentes discípulos a se manifestarem, em coro, com sonoro yes ao final das exposições, como sinal de concordância em relação ao conteúdo das explicações, seguramente recheadas de termos extravagantes extraídos de almanaques alienígenas.

São impertinências linguísticas, na linha do chamado inglês moroless, que nada têm a ver com o conhecimento, essencial a todas as atividades, de um idioma de reconhecida abrangência universal como o inglês. As reações contra tais extravagâncias, gesto de legítima defesa putativa da dignidade e honra comunitárias, ganham, também, registros salpicados de humor e sarcasmo, banhados na saborosa irreverência popular. É o caso das “traduções especiais” que circulam por aí, acerca do emprego pedante dessas expressões. Vejamos: a hot day  - arrotei; he is my son -  ele é maçom; ice cream – crime no gelo; everybody -  todos os bodes.


Intolerável invasão cultural

Cesar Vanucci

“A pátria é o idioma”.
(Monteiro Lobato)


Focalizando indoutrodia a questão dos “impropérios linguísticos”, acudiu-me à lembrança um episódio incrível, narrado tempos atrás neste acolhedor espaço frequentado por indulgentes leitores.

Contando assim, parece até história inventada. Não é. Antes sesse, como diria, em sua saborosa maneira de expressar, algum matuto dos chapadões sem fim lá das bandas do Triângulo. Uma agressão, outra a mais, à cultura brasileira estaria deixando de ser, assim, cometida. Mas o fato, verdadeiro e contundente, ocorreu à época em que estive diretor da TV Minas. Recebi convite para participar de um evento no Riocentro. O convite, todo ele, da primeira a última linha, face e verso, veio redigido em inglês. Achei, à primeira vista, que estaria havendo, por parte deste desajeitado escriba com suas quiméricas interpretações dos lances cotidianos, algum erro de percepção. Não estava. Li e reli várias vezes o convite. Vasculhei o interior do envelope à cata de possível informação adicional, apegando-me ansioso à hipótese de descobrir qualquer registro no idioma falado em meu país capaz de fornecer explicação razoável para a inusitada comunicação.

Nada encontrei. Não havia motivo pra dúvidas. O convite endereçado ao cidadão brasileiro, profissional de comunicação no Brasil, para debater as atividades do setor, envolvendo a participação, seguramente em maioria, de colegas também brasileiros num  evento previsto para um centro de convenções brasileiro, em cidade brasileira, o convite, repito, estava formulado em língua estrangeira. Algo de um surrealismo arrepiante. O cúmulo dos absurdos. O fim da picada, como se costuma dizer. Um sinal alarmante a ser acrescido à onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Onda hiper ativada na panaquice, na indigência cívica e intelectual. Em frescurice ampla, geral e irrestrita.

Outro dado constrangedor na historinha insólita é que as respeitáveis organizações brasileiras que assinavam o convite mantiveram-se indiferentes aos impropérios perpetrados contra nosso idioma e nossa cultura. O que me estimula a repetir, com toda ênfase, que o emprego de vocábulos estrangeiros na palavra falada e escrita, para classificar coisas óbvias do cotidiano, recende a tremenda babaquice. Desqualifica intelectualmente os deslumbrados da silva que, junto com pessoas desavisadas, fazem coro com prováveis inimigos clandestinos, interessados na corrosão, por dentro e por fora, das instituições e dos valores mais sagrados da autêntica cultura brasileira. Não há como deixar de suspeitar faça isso parte de um trabalho manhoso, sorrateiro, com o qual se busque inocular no espírito popular a ideia perversa e falsa de que seríamos, os brasileiros, cidadãos de segunda classe. Criaturas sem capacitação para gerir o próprio destino. É aquele registro cretino, propagado por vezes em rodas onde se joga conversa fora, rechaçado obviamente pela consciência cívica da Nação, referente a um país que teria sido agraciado por Deus com dádivas e dons sem par, mas povoado por uma “gentinha”, vou te contar...

Recapitulemos o que vem pintando no pedaço. Convites em idioma alheio. Painéis de rua, cartazes de loja, reclames, tudo com emprego de vocábulos estrangeiros. Propaganda volumosa na mesma linha pedante. São facetas da intolerável invasão cultural, que atinge, também, de forma estrepitosa, a programação radiofônica e televisiva. Numerosas emissoras se entregam, inadvertidamente ou levianamente, ao capricho de substituir, em boa parte do tempo, os sons incomparáveis da música mais linda e criativa do mundo, a brasileira, pelo barulho insuportável, lembrando nalguns instantes utensílios de cozinha despencando da prateleira, do lixo musical internacional. Muito sugestivo, a propósito do assunto, o teor de uma carta enviada a amigos, por um brasileiro que foi fazer curso de especialização nos Estados Unidos. Ele sublinhou, com ironia, que em instante algum, ao sintonizar de manhã cedinho as rádios da cidade em que se radicou, sentiu-se distanciado da terra natal. “As emissoras daqui, como as daí, só tocam música americana. Sinto-me em casa”, disparou.

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