quarta-feira, 29 de março de 2017

Trump, Moonlight 
e La La Land

Cesar Vanucci

“Trump, mesmo não compondo o corpo de jurados,
teve influência marcante no resultado do Oscar”.
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Confesso, em lisa verdade, nada ter lido ou ouvido, de qualquer fonte qualificada, a respeito da hipótese aqui agora levantada. Mas, não me surpreenderei nadica de nada se, numa dada hora, inesperadamente, pintar no pedaço a revelação de que a incrível trapalhada produzida ao vivo e em cores, para centenas de milhões de espectadores, ao ensejo da entrega do “Oscar”, foi fruto de calculada e ousada marquetagem. Sacumé, no mundo dos negócios do entretenimento de alta rentabilidade prevalecem, não poucas vezes, razões que a própria razão desconhece...

Na semana que antecedeu a noitada de gala marcada pela histórica gafe, assisti várias fitas selecionadas pelo corpo de jurados de Hollywood na disputa das estatuetas. Entre elas, o badalado “La La Land”. Da lista apontada só ficou faltando, pra ser visto, o “Moonlight”, que acabou, como sabido, no frigir dos ovos, arrebatando o troféu mais cobiçado entre as premiações. Animei-me a ver o filme logo no dia seguinte.

“Moonlight – Sob a Luz do Luar” é uma película danada de instigante. Propõe o estudo de um personagem que atravessa fases da vida sufocado por repressões culturais e mundanas. A construção da história desenrola-se de forma talentosa, dentro de moldura estética apreciável e com razoável sensibilidade poética. O enredo é todo ambientado em cenário onde predominam vivências e sinais culturais de uma comunidade negra inserida no contexto urbano estadunidense. Cabe sublinhar, a esta altura, que a produção foi toda concebida em moldes que pudessem repassar às plateias a ideia de uma cinematografia pujante derivada do mundo artístico constituído por figuras exponenciais de descendência negra. Diretor, autores, atores, técnicos, gente detentora de reconhecida capacidade profissional e inegáveis dons artísticos, foram recrutados na comunidade afro-americana para integrar o elenco e ocupar os postos relevantes da ficha técnica do espetáculo. O intuito visível parece ter sido o de uma proclamação solene de que o talento artístico não tem coloração racial ou ideológica. E isso fica bem estampado na obra chegada às telas.
                                          
Chiron, de descendência afro, personagem central, é na infância e puberdade impiedosamente alvejado pelo racismo e “bulling”. Inconsciente de sua homossexualidade, vê-se às voltas constantemente com problemas tormentosos advindos da  convivência com a mãe, viciada em drogas. Chega à fase adulta como um pequeno traficante, de certa forma empedernido, que impõe sem dificuldades, com trato abrutalhado, liderança autoritária aos integrantes de sua patota. Em momento algum deixa trair, diante dos “companheiros de profissão”, sua inclinação sexual. Um colega de infância, distanciado no tempo e no espaço, evocando reminiscências dos tempos escolares, é quem induz seja trazida à tona a tendência reprimida do brutamontes.

Apontado por alguns como um retrato universal da solidão, “Moonlight” impressiona bem pelos desempenhos, fotografia e cenas criativas traçadas por direção capaz, que consegue se desvencilhar dos riscos da fita descambar para melodrama vulgar. É interessante consignar que, à parte seus irrecusáveis méritos, o filme não conseguiria provavelmente, noutro momento, atingir a conquista celebrada, ao defrontar-se com a perspectiva de enfrentar um esplendoroso “La La Land”. A comédia musical em causa, espetáculo do ponto de vista cinematográfico simplesmente eletrizante, seria noutras circunstâncias concorrente imbatível.

Para que “Moonlight” alcançasse o topo na premiação concorreu bastante a  desassossegante onda de obscurantismo cultural e político que se abateu sobre a vida americana, com indesejáveis reverberações noutros países, após a ascensão de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. A vigorosa mensagem social de repulsa à intolerância embutida na narrativa cativou a legião de jurados. O “Oscar” de 2017 teve, assim, o sentido de uma manifestação grandiloquente – outra mais – de expressa condenação da inteligência estadunidense aos descaminhos trilhados pela Casa Branca na equivocada interpretação dos rumos civilizatórios de seu atual mandatário.

 Mal sem remédio

Cesar Vanucci

“... Daí ser a venda de remédios um negócio de primeira ordem.”
(Antônio Callado, em “Quarup”)

Tadinho do consumidor de remédio! Não passa de vítima indefesa de implacável engrenagem mercadológica. E não adianta chiar. Ninguém por ele. Os problemas de sua maltratada rotina de comprador, de tantos impactos na economia doméstica, passa ao largo das preocupações das organizações que se proclamam comprometidas com as políticas de bem estar social. É largado à própria sorte numa arena dominada por apetites vorazes pelos ganhos fáceis. Dando baita suporte a tudo funciona uma marquetagem competente e charmosa que ajuda a ocultar sofrida realidade: a de que o problema dos medicamentos é mal sem remédio.

Como é do desconhecimento geral - para gáudio, aliás, do poderoso complexo farmacêutico internacional, proprietário de patentes garantidoras de roialtes vitalícios - a Organização Mundial de Saúde assegura não passarem de pouco mais de uma centena as fórmulas medicamentosas essenciais às necessidades e carências terapêuticas. Ora, veja, pois! Informação desconcertante, essa aí. Enfileirado com os setores petrolífero e de armamentos entre as atividades mais rendosas, o segmento industrial farmacêutico consegue a prodigiosa façanha de fazer expandir, em ritmo alucinante, o receituário básico da OMS. As prateleiras comerciais, abrigando dezenas de milhares de rótulos, estampam iniludivelmente esse estupendo “milagre da multiplicação”. Atraído inapelavelmente por tal labirinto de ofertas, o consumidor vê-se peado para exercitar adequadamente seus direitos de defesa. Em eterna desvantagem, atropelado pelos fatos, entra o tempo todo pela tubulação. Agarra-se, às vezes, a ilusórias probabilidades de ajustar melhor as compras ao orçamento.

Quando se começou a falar em genéricos, chegou a embalar a ideia de que a novidade acabaria levando ao barateamento dos itens de consumo forçado. Ledo engano. Arranjaram um modo de embaralhar as marchas. Ofertas de artigos com idênticas propriedades farmacológicas tomaram diversificadas denominações. Produtos de marca, produtos similares, produtos genéricos, por aí. Sem falar nos homeopáticos, nos fitoterápicos, os de manipulação, esses todos, de quando em vez, colocados sob suspeição em ardilosas maquinações publicitárias que preservam, entocaiados no anonimato, os autores. As surpresas amontoam. A história não é bem essa. O genérico é hoje ofertado a preços mais elevados, ou menores, dependendo sabe-se lá do quê. A mesma fórmula é aplicável aos produtos de marca e aos similares. O freguês, perdidinho da Silva Junior, fica sem referencial. Embaraça-se nesse emaranhado de informações.

O cenário é ocupado por mais macetes. Nem todo mundo é colocado a par de tudo que rola no pedaço. O usuário de remédios utilizados com constância pode surpreender-se com situações como a de um conhecido, ainda recentemente. O produto receitado para estabilizar pressão estava cotado em astronômicos R$ 110,00. Cartela de 30 comprimidos, para consumo previsto em 15 dias, um pela manhã, outro na hora de deitar. Compreensivelmente alarmado, ele saiu para paciente pesquisa. Descobriu, estupefato, a existência de um genérico com a mesmíssima composição, a custo infinitamente menor, noutra farmácia: R$ 27,00. Economia, sem dúvida, bastante expressiva. Tempos depois, deu-se conta, não menos espantado, de que o fabricante do remédio original estava concedendo, por intermédio de consultórios, talões de bonificações de 80 por cento sobre o valor tabelado. Uai! A embalagem já não poderia sair, então, etiquetada da fábrica, com o generoso “desconto”? Ou será que, debaixo dos panos, esteja sendo urdida alguma manobra sutil com o fito de retirar do páreo o abusado concorrente?

Sem querer apelar para trocadilho: haja pressão!

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