quinta-feira, 30 de setembro de 2021

 Quintana, segundo Quintana

 

Cesar Vanucci

 

“A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.”

(Mário Quintana, poeta)

 

Cai-me às mãos, trazido em meio as torrentes de informações despejadas pela internet, um texto delicioso do grande Mário Quintana. Intitulado “Mário Quintana por Mário Quintana”, ele foi escrito pelo poeta para a revista “IstoÉ” e publicado na edição de 14.11.1984. 

Vale a pena transcrevê-lo. Quintana toma da palavra com aquele jeito indômito e, ao mesmo tempo, meigo, todo seu, onde a beleza da linguagem se entrelaça admiravelmente com lampejos da verdade cotidiana. Na sequência, alguns esplêndidos achados poéticos de seu criativo repertório são adicionados à matéria. 

Assim falou Quintana:

“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.

Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas...

Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura.”

Na sequência, uma pequena lista de outros ditos inesquecíveis desse grande arauto da lírica brasileira:

Quem não compreende um olhar   tampouco compreenderá uma longa explicação. 

Não importa saber se a gente acredita em Deus:    o importante é saber se Deus acredita na gente... 

O despertador é um acidente de tráfego de sono... 

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso. 

Todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão... eu passarinho! 

Esta vida e uma estranha hospedaria de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia. 

Não te abras com teu amigo Que ele um outro amigo tem.  E o amigo do teu amigo possui amigos também... 

O tempo é a insônia da eternidade. 

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe. 

O segredo é não correr atrás das borboletas...

É cuidar do jardim para que elas venham até você. 

Bilhete

 Se tu me amas,

Ama-me baixinho.

Não o grites de cima dos telhados,

Deixa em paz os passarinhos.

Deixa em paz a mim!

Se me queres, enfim,

Tem de ser bem devagarinho,

Amada, / Que a vida é breve,

E o amor / Mais breve ainda. 

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais:  O excesso de gente impede de ver as pessoas... 

Dupla delicia. O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo temo acompanhado. 

Geografia. O mais sugestivo é que esses países afro-asiáticos sempre nos parecem afrodisíacos.

sábado, 25 de setembro de 2021

 

O melhor dos regimes

 

Cesar Vanucci

 

“A democracia está sob ataque.”

(Ministro Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE)

 

No vasto território democrático há lugar para todos. Para adeptos de todas as correntes de ideias. Espaços arejados, que permitam o tráfego desenvolto de opiniões, fazem parte da paisagem democrática, oferecendo condições para proveitoso intercâmbio de experiências, para o exercício da criatividade e para o labor construtivo, tendo por mira o progresso comunitário. Noutras palavras: o bem-estar social. 

Ninguém coloca em dúvida que o regime democrático deixe à mostra, vez que outra, em lances cotidianos, alguma imperfeição, inerente à natural falibilidade humana. Mas do sentimento popular emerge, límpida, a propósito de tudo isso, a certeira convicção de algo muitíssimo precioso. Nenhuma outra modalidade de governança política e administrativa, testada em qualquer época ou em qualquer parte do mundo, revelou-se, jamais, capaz de proporcionar as garantias de respeito à dignidade da vida inseridas no texto constitucional de uma democracia autêntica. O que a história de todos os tempos documenta, de maneira dolorida e revoltante, é que todos os sistemas regidos pelo autoritarismo, de quaisquer tendências, por conseguinte, opostos ao sistema democrático, implantados ao longo dos tempos, em diferentes lugares, tornaram-se marcos trevosos e de horrores nos registros da jornada humana. 

A democracia dá abrigo a todas as formas de expressão do pensamento. Acolhe conservadores, progressistas, liberais, direitistas, centro-direitistas, esquerdistas, centro-esquerdistas, enfim, toda uma imensa legião de cidadãos que nutrem pontos de vista os mais diversificados acerca de temas os mais variados, incluindo, logicamente, a política. 

As divergências, as discordâncias, as polêmicas estão sempre presentes nas atividades políticas numa democracia. O diálogo, na busca de soluções adequadas para flamejantes problemas de interesse comunitário, é da própria essência democrática. Pode conduzir, muitas vezes, a desacordos acalorados, sem que isso desemboque fatalmente em situações de tensão intransponíveis. o acatamento às decisões emanadas de instituições legitimamente constituídas e a aceitação de recomendações nascidas de vontade majoritária, expressa em votações processadas de acordo com os ritos constitucionais, se fazem imprescindíveis no ordenamento correto da atuação pública, consoante os ditames democráticos. 

A livre manifestação de ideias é apanágio do regime democrático. Voltaire sintetiza o procedimento que o bom-senso e a lucidez de espirito recomendam, à hora em que ocorram desentendimentos. “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até as últimas consequências vosso direito de dizer o que pensa.” Cabe aqui lembrar circunstância de obviedade ululante. Não se pode confundir liberdade de expressão com atos e palavras de teor intimidatório, que deixem visíveis ameaças de violência física, até de morte, alvejando autoridades, ou cidadãos comuns, que tenham entendimentos suscetíveis de ocasionar desagrado ou mesmo repulsa. 

Em 15 de setembro passado foi comemorado o “Dia Internacional da Democracia”. O ministro Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE, em vibrante pronunciamento, assinalou que a democracia é considerada universalmente o melhor regime de governo. 

“O melhor, mas não necessariamente o mais fácil”, acentuou, acrescentando: “Porque democracia envolve pluralismo, que é diversidade de visões do mundo e, consequentemente, respeito às opiniões contrárias”. Lembrou, também, que democracia não é regime de consenso, “mas aquilo em que a divergência é absorvida de maneira institucional e civilizada”. 

Barroso afirmou que, na atualidade, a democracia se encontra sob ataque, em razão de disfunções como populismo, extremismo e autoritarismo. Na conclusão do pronunciamento registrou: “A democracia depende de cada um de nós”.

 

As palavras e os atos

 

Cesar Vanucci 

 

“Eu vejo Deus em cada ser humano.”

(Tereza de Calcutá)

A experiência de vida de personagens com marcante presença na história de todos os tempos se reflete em iniciativas que podem ter sido ou não positivas no sentido da construção humana. E, também, em frases habitualmente edificantes que, às vezes, nesse ou naquele caso, não guardam qualquer sintonia com a real postura assumida pelos seus autores diante dos fatos ou temas abordados

Se a memória não tá a fim de trair este desajeitado escriba, pertence a Millor Fernandes, mestre na arte da comunicação, a autoria de uma proeza retórica magistral concernente a tal paradoxo. Ele produziu exuberantes provas das contradições não raras vezes flagradas entre os atos e as palavras de algumas figuras proeminentes na cena pública.

Patrono de uma turma de formandos em Jornalismo, brindou os afilhados com pronunciamento, entrecortado de estrepitosas manifestações, que consistiu numa proclamação vigorosa em defesa da democracia. O ato transcorreu em tempos políticos encobertos pelas brumas pardacentas do despotismo.

As frases proferidas contemplaram quase todos os itens da Declaração dos Direitos Humanos. O impacto foi de tal ordem que, ao final, a plateia pôs-se de pé para aplaudir o orador por seguidos minutos. Cessados os aplausos, o patrono revelou, surpreendentemente, arrancando saborosas gargalhadas, que toda aquela empolgante sequência de palavras de exaltação democrática despejadas no recinto, todas sem exceção alguma, haviam sido extraídas de discursos, entrevistas e palestras de manjadissimos ditadores. Alguém irremediavelmente emaranhado em decisões funestas que implicaram na asfixia das liberdades essenciais.

O oposto frontal a tudo isso é o que nos comunica uma coletânea de frases gentilmente encaminhadas pelo amigo Marcelo Rogério de Castro. As frases são atribuídas a Gandhi e Tereza de Calcutá. Mitos universais, dotados de aura, pode-se afirmar, de santidade, que concentraram na Índia milenar o seu apaixonado fascínio pela aventura humana. Ambos, de maneira radical e saudavelmente inversa às situações mencionadas linhas atrás, harmonizaram coerentemente a conduta, suas crenças, os exemplos de vida com as mensagens propagadas. O que eu digo é o que eu faço, esta a lição deixada. Lição diametralmente contrária aos posicionamentos de numeroso elenco de celebridades que adotam como lema o “faça o que digo e não o que faço.”

Isto posto, passemos logo, para deleite certeiro dos leitores, às reflexões carregadas de humanismo e espiritualidade desses dois seres humanos iluminados.


Tereza de Calcutá primeiro.

Sobre o desperdício. “Quando vejo o desperdício, sinto raiva dentro de mim. Eu não aprovo eu mesma sentir raiva. Mas é algo que não se pode evitar de se sentir após vermos a Etiópia.”

Sobre a pobreza. “Periferia de Calcutá. Às vezes pensamos que a pobreza é apenas fome, nudez e desabrigo. A pobreza de não ser desejado, não ser amado e não ser cuidado é a maior pobreza. É preciso começar em nossos lares o remédio para esse tipo de pobreza.”

Sobre a fé. “Tenha fé nas pequenas coisas, pois é nelas que a sua força reside.”

Sobre o amor. “Não pense que o amor, para ser genuíno, tenha que ser extraordinário. O que é preciso é amarmos sem nos cansarmos de fazê-lo.”

 

Agora, Gandhi.

Fé e amor. “A minha fé mais profunda é que podemos mudar o mundo pela verdade e pelo amor.”

Religiões. “Para mim, as diferentes religiões são lindas flores, provenientes do mesmo jardim. Ou são ramos da mesma árvore majestosa. Portanto, são todas verdadeiras.”

Felicidade. “Dai-me um povo que acredita no amor e vereis a felicidade sobre a terra.”

Futuro. “É ocioso pensar sobre o justo e o injusto, o certo e o errado e os feitos passados. O útil é analisar, e se possível extrair uma lição para o futuro.”

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

 

Lenda viva do Leonismo

                                                                                         Cesar Vanucci

 

“Gosto da vida.”

(Daniel Antunes Jr – 100 anos)

 

A Academia Mineira de Leonismo, em concorrida assembleia, realizada virtualmente, homenageou Daniel Antunes Junior por seus cem anos de vida. Designado pela presidente Maria das Graças Amaral Campos, dirigi ao homenageado a saudação reproduzida na sequência.

100 anos.  36.500 dias, um pouco mais a levar em conta os anos bissextos. 5.200 semanas. 876.000 horas. Estes números cobrem, na dimensão de tempo, a trajetória trilhada –, querendo Deus, com ainda bom pedaço de chão a percorrer –, de um ser humano muito especial, entre o dia 17 de setembro de 1921 e o dia 17 de setembro de 2021.

Permitam-me, então, contar, em singelas palavras um pouco da história deste personagem: Sua peregrinação pela pátria terrena – peregrinação imposta a todos por desígnios superiores – acumula, neste caso de Daniel, esplêndido acervo de feitos. Frutos de fecundos labores e criatividade intelectual.

Escritor, com um punhado de livros editados, todos merecedores de louvores, Daniel marca presença reluzente na cena cultural, como historiador, poeta e cronista. Neste seu “primeiro centenário” ele já alcançou a “imortalidade literária” como membro atuante da Amulmig, Instituto Histórico e Geográfico MG, Arcádia e nossa Academia Mineira de Leonismo.

Nas lidas profissionais, atuou como bancário, banqueiro, dirigente de um sem número de empresas vinculadas ao setor financeiro. Dedica-se, ainda hoje, a atividades agropastoris.

Com seus 50 anos bem vividos, comemorados pela segunda vez consecutiva, é possuidor de muita lucidez e nobreza de espírito e dono de invejável dinamismo. É o decano do quadro social do Leonismo. Decano também dos Governadores de Lions.

Em sua gestão à frente do Distrito LC-4 foi responsável pela criação do maior número de Clubes num único período administrativo.

Casado com a saudosa Conceição, dama de acrisoladas virtudes, falecida em 2020, constituiu núcleo familiar que desfruta de elevado apreço no seio comunitário. Dele fazem parte os filhos Dante, Silvana, Daniel, Sérgio e Sandra.

 Irradiando sempre contagiante simpatia, afável e prestimoso no trato cotidiano, Daniel se destaca também, como “contador de causos”, já não fosse prosador festejado nos círculos intelectuais.

Algum tempo atrás, Daniel descreveu de forma bem-humorada, seu jeito de ser.

Trago aqui trechos dessa “autobiografia...”. “Comprazo-me de ser um homem normal, limpo, enxuto, de hábitos saudáveis. (...)” “Não babo, não fungo, não tenho o bafo de onça dos pinguços, já que bebo com moderação, dando preferência aos vinhos.

Também não exalo o ranço sarrento da nicotina, pois não fumo” (...); “Não sou gordo nem magro. Meu peso é normal, eis que tenho l,78 m de altura e há 30 anos peso 78 quilos. Apenas tenho uma barriguinha de veludo”. (...); “Não sou acanhado, nem assanhado, nem enxerido.” (...) “Gosto de ver as estrelas, dos perfumes discretos, das flores, das frutas, da chuva, da música, das mulheres, dos cães, da amizade e da sinceridade, da cor verde, das minhas coisas.” (...) “Creio que a minha família é a melhor do mundo”. (...) “Gosto da vida e, quando partir desta para outra, sentirei saudade dela. Creio que este mundo é o melhor de todos os que conheço...”

Caros companheiros, concluo, agora, a tarefa de saudar, com respeito, carinho e apreço, o nosso inquebrantável companheiro.

Pode ser assim resumida sua participação na aventura da vida. Cidadão inatacável, de grandeza moral rara. Criatura permanentemente de bem com a vida. Sabedoria incomum, evidenciada em tudo que diz e faz. Uma lenda viva do leonismo.

Ouso dizer que se fosse exigida do Lions uma carteira de identidade, é certo que a foto 3X4 colada ao documento seria dele, Daniel. Ele personifica magnificamente, com sua postura humanística, as excelsas virtudes que a filosofia Leonistica, espalhada por todos os cantos, propaga em favor de um mundo melhor, mais fraternal e socialmente justo.

 Vigorosa reação democrática

 

Cesar Vanucci

 

“Ninguém fechará esta Corte.”

(Luiz Fux, presidente do STF)

 

Sua Exa., presidente Bolsonaro, desperdiçou chance magnífica para comunicar ao povo seus planos para enfrentar a avalanche de problemas que sacode o país. Os olhares da nação estiveram focados nos pronunciamentos de 7 de setembro. A frustração popular foi descomunal.

Não se ouviu do mandatário a mais leve alusão a qualquer uma das questões que enchem de sobressalto os lares. Nada se falou sobre a “gripezinha” que já matou 600 mil, contaminou mais de 20 milhões e expôs a fragilidade do governo numa crise humanitária.   Nada se disse a respeito da inflação que anda roçando dois dígitos, ou sobre a expansão avassaladora das multidões de despossuídos sociais, patrícios despojados de acesso a padrões mínimos de bem-estar. Nadica de nada se comentou a respeito das filas nas portas das empresas, à cata de oportunidades de trabalho que garantam renda para sobrevivência de milhões. Sobre a crise hídrica e energética e as alterações tarifárias dela decorrentes, sobre as ameaças de apagões ou racionamento, coisa alguma também foi registrada. Idem, idem, com a mesma data, quanto às devastações florestais que tanto desgastam a imagem do país no exterior. Não se ouviu patavina sobre os custos insuportáveis dos gêneros de primeira necessidade. Nenhuma palavra foi dedicada à incessante escalada de preços dos combustíveis, nem tampouco dos medicamentos.

Outros momentosos assuntos, sob foco constante nas preocupações das ruas, foram, pela mesma forma, solenemente ignorados. O Brasil real ficou consideravelmente distanciado da fala de seu dirigente maior em eventos supostamente organizados com o fito de celebrar o “Dia da Pátria”.

A sociedade não ouviu o que queria ouvir. Mas teve que escutar uma saraivada de afirmações chocantes, que não desejava, de maneira alguma, escutar. Esbravejante, utilizando belicosidade incompatível com a dignidade de suas funções, trazendo para o palanque clima tenso, impróprio até para comício político, quanto mais para uma celebração de caráter cívico, o presidente alvejou em cheio as instituições democráticas. Extrapolou em demasia os limites das amplas prerrogativas correspondentes ao cargo. Gerou no seio da opinião pública perplexidade e inconformismo. Atraiu reações em todos os segmentos da vida nacional.

Emblemático assinalar que das concentrações de que participou, em Brasília e São Paulo, ambas convocadas por seguidores, muitas pessoas, pertencentes com certeza a alguma “variante tupiniquim” do “coronavírus talibanista”, carregavam cartazes e faixas de inocultável teor antidemocrático. “Pediam”, extravagantemente, “em nome da democracia”, entre outras absurdidades, “o fechamento do Supremo Tribunal Federal”, a “prisão dos ministros”, o “fechamento do Congresso” e “a volta do AI-5”...

Um coral vigoroso de protestos se fez ouvir, imediatamente, em todos os rincões do país, em contraposição ao descabido procedimento do ocupante do Planalto. As manifestações dos ministros Luiz Fux, presidente do STF,  e Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE, do jurista Celso de Mello, até recentemente decano da Alta Corte, dos presidentes da Câmara dos Deputados e Senado, dirigentes políticos e de organizações representativas de setores influentes na lida comunitária, deram o tom do geral desagrado da Nação quanto ao que aconteceu.

O brado retumbante que ecoou nos céus da Pátria projetou inquestionável fidelidade aos sagrados valores democráticos e republicanos, por parte da esmagadora maioria da gente brasileira.

Oxalá o “mea culpa” do presidente, nascido de um entendimento com o ex-presidente Michel Temer e estimulado por vários de seus correligionários, traduza disposição sincera de mudança de rumos no gerenciamento das questões pendentes, relacionadas com seu mandato constitucional.

sábado, 11 de setembro de 2021

 

O protagonismo do Senador

 

Cesar Vanucci

 

“Não admitiremos qualquer retrocesso”.

(Rodrigo Pacheco, Presidente do Senado)

 

Constatação feita do posto de observação solitário deste escriba, louvado apenas naquilo que percebe no noticiário de cada dia e não em acesso privilegiado a “fontes bem informadas” que abastecem de pistas valiosas a comunicação social.

A atuação do Senador Rodrigo Pacheco vem sendo acompanhada com crescente simpatia pela opinião pública. O presidente do Senado, brasileiro de Porto Velho, Rondônia, representante de Minas Gerais, está adquirindo, de algum tempo a esta parte, singular protagonismo no incandescente enredo político-administrativo. Suas intervenções comedidas, fala serena e polida, têm contribuído para o apaziguamento dos espíritos em horas de exacerbação, provocadas, predominantemente, por gestos e palavreado turbulento e dissonante, originários dos arraiais palacianos.

São reveladoras da chegada ao primeiro plano do cenário político, de alguém possuído da firme disposição de influir nos debates travados pelas lideranças de todas as áreas em torno das magnas questões enfrentadas pelo país. As declarações reiteradas que tem formulado, na tribuna e em abordagens da imprensa deixam à mostra seu perfil conciliador e seu apego aos valores democráticos. “Não admitiremos qualquer retrocesso”. A frase sintetiza sua opinião sobre o momento político. Repelindo quaisquer propostas, insinuações, gestos, manifestações, que sugiram ruptura com as instituições democráticas e republicanas que nos regem, ele afirma, categoricamente, que “O Brasil não precisa de candidatos, mas de presidente para unificar o país”. A postura lúcida do Senador sobre candentes temas da pauta está documentada em entrevista ao “O Globo”, (ed.29.8). Tomamos a liberdade de reproduzir alguns trechos do pronunciamento, formulado na base de perguntas e respostas.

P. “Os ataques constantes do Presidente ao sistema eleitoral podem colocar as eleições em 2022 sob algum risco? R. Os ataques ao sistema eleitoral, sem fundamentos, são muito ruins, porque jogam em descrédito um sistema que, até pouco tempo atrás, era dado por nós como um orgulho nacional. Mas não considero que isso seja capaz de deslegitimar o resultado eleitoral. As eleições de 2022 vão acontecer, porque elas são fundamentais para a democracia.”

P. “O senhor disse que a rejeição do pedido de impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes seria um “marco de restabelecimento da relação entre os Poderes. No dia seguinte, Bolsonaro criticou a sua decisão e atacou Moraes. Como será possível retomar a harmonia?  R. São duas situações. Primeiro, a crítica do Presidente da República à decisão de arquivamento do processo de impeachment é natural. Ele teve uma pretensão resistida e indeferida. A segunda parte, que é a manutenção de críticas muito ostensivas à Suprema Corte e aos seus integrantes, realmente não contribuem. Isso dificulta o processo de pacificação institucional que buscamos.”

P. “Acha que está isolado ao insistir em uma nova reunião entre os Poderes? R. Não. Tenho absoluta certeza de que o pensamento do Deputado Arthur Lira (Presidente da Câmara) é o mesmo, de apaziguar. Sei também da disposição do Ministro Luiz Fux (Presidente do STF) de fazer o mesmo. Há uma comunhão de vontades nesse sentido.”

P. “Por que não citou o residente Bolsonaro entre as autoridades dispostas ao diálogo? R. O Presidente Bolsonaro tem falado e agido no sentido de afirmar suas próprias convicções. Espero que ele possa contribuir para esse processo de pacificação, porque há inimigos batendo à nossa porta, que não somos nós mesmos, mas a inflação, o aumento do dólar, o desemprego, o aumento da taxa de juros e a crise hídrica e energética, que pode ser avassaladora. É importante que tenhamos um freio naquilo que não interessa para cuidar do que importa ao Brasil.”

O Presidente do Senado procura interpretar o sentimento nacional.

 

O sentimento das ruas

 Cesar Vanucci

 

“O que todos desejam é paz para o trabalho, retomada

do desenvolvimento e respeito às instituições democráticas”.

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Despautérios incessantes. São de tal monta que acabam colocando todo mundo em desassossego. Muita “gente equilibrada”, que prefere manter-se equidistante do alvoroço político, chega a duvidar da veracidade dos fatos narrados. Custa-lhe crer que as palavras merecedoras de crítica no seio da opinião pública hajam sido mesmo pronunciadas. Muito menos pelo personagem apontado como autor, dada a relevância da função que exerce.

Mas, eis que de repente essas pessoas se convencem, estupefatas, de que tudo é doloridamente real. Não se trata, não, de informação falsa. De “intriga da oposição” articulada com perverso intuito de abalar a reputação do adversário. Aí, então, os viventes não afeiçoados a embates políticos, acabam lançando no ar, mais do que pergunta, um brado de lamento. Evidentemente, sem preocupação com resposta: - “Mas o que vem a ser esse diacho de coisas, santo Deus?” Lastimavelmente, “esse diacho de coisas” não para. Quase todo dia rende notícia. Nos jornais de 29 de agosto, S.Exa., o presidente que elegemos por larga maioria de votos, sem mais essa nem aquela, joga mais lenha na fogueira com outra enigmática mensagem: “Há três alternativas para o meu futuro. Ser preso, ser morto ou ter a vitória”. Criticando decisões do Judiciário, reclama de “medidas arbitrárias” adotadas por “uma pessoa ou duas”, acrescentando que “jamais será preso”. Horas antes havia montado extravagante charada com as expressões “fuzil” e “feijão”, objeto de “edificante diálogo” nas redes sociais.

A instabilidade política, percebida até pelo “mundo mineral” – como diria Mino Carta -, coloca em polvorosa, naturalmente, o mundo dos negócios. A situação econômica e social vai de mal a pior. Os indícios acham-se estampados nos semblantes tensos dos chefes de família, dos empregadores e empregados, da multidão dos despossuídos sociais, enfim, dos cidadãos de todas as categorias sociais, tendências políticas e religiosas que compõem a paisagem populacional do Brasil. O bom-senso reclama mudanças urgentes. A imagem do país lá fora afeta o agronegócio e outras atividades de importância vital, engajadas no esforço de exportação e no suprimento das necessidades do consumo interno. Enquanto as discussões estéreis se alongam, provocando generalizado mal-estar, temas essenciais às ações estratégicas que levam ao crescimento econômico com seus benfazejos efeitos sociais são deixados à deriva. Até para problemas de menor complexidade revelam-se escassas a criatividade gerencial, as iniciativas burocráticas de rotina.

Crise sanitária, crise econômica, crise social, crise energética, crise que não acaba mais em tudo quanto é canto. Entrementes, espalhando dardejante desconforto, aí estão as ameaças às instituições democráticas. Frases soltas de inequívoco sentido, vez por outra de dubio significado, atitudes belicosas explícitas colocam a descoberto chocante propósito de retrocesso político. Afortunadamente, jubiloso registrar, tais atitudes são repelidas com veemência pela consciência cívica da Nação.

Em razão do inquietante cenário, lideranças altamente representativas da vida empresarial, classista, intelectual, política, cultural, estão trazendo a público, continuamente, manifestações resolutas, em que propõem o desarmamento dos espíritos, serenidade e competência no manejo dos negócios públicos, diálogo propositivo em torno das magnas questões que dizem respeito aos sagrados interesses coletivos. Tais pronunciamentos exprimem com fidelidade o sentimento das ruas. 

Este sentimento projeta ardente esperança: que a busca das soluções para as angustiantes questões que nos atormentam se processe em clima de divergência civilizada e pacífica, segundo os saudáveis ditames democráticos. Essa a maneira sensata de aproveitar os pródigos recursos de que é o país detentor para cumprir sua vocação de grandeza.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

 

Tal filho, tal pai!

 

Cesar Vanucci

 

“As entidades estarão em boas mãos, de um

empresário que tem seriedade, competência e força.”

(Paulo Skaf, referindo-se a Josué Christiano Gomes da Silva)

 

Com consagradora votação, Josué Christiano Gomes da Silva, mineiro de Ubá, acaba de ser eleito presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). Tomará posse em janeiro de 2022, assumindo para mandato de três anos o comando da mais poderosa entidade classista nacional, como sucessor de Paulo Skaf, ex-candidato ao Governo de São Paulo, que a dirigiu por 17 anos consecutivos. Josué preside um dos mais importantes conglomerados industriais têxteis do mundo, a Coteminas, com unidades fabris, a começar por Minas, Montes Claros, em diversas regiões do país, além dos Estados Unidos, Argentina e México. É filho de José Alencar Gomes da Silva e dona Mariza Campos Gomes da Silva. O saudoso José Alencar é personagem legendário na vida pública brasileira.

Como se recorda, foi vice-Presidente da República no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Deixou marcas indeléveis de atuação austera, arrojo empreendedor e desassombro cívico na história do País. Conquistou a simpatia e o apreço das ruas, de maneira nunca até então vista com relação a exercentes do cargo ocupado, pelas atitudes assumidas como autoridade e como cidadão.  Acumulou na vice-presidência, por algum tempo, o cargo de Ministro da Defesa. Anteriormente, representou Minas Gerais no Senado da República. Notabilizou-se, na lida classista, pelo trabalho fecundo executado na presidência da Federação das Indústrias de Minas Gerais. Na condução da Fiemg, Sesiminas e Senai-MG, cobriu o território mineiro de obras sociais e de iniciativas culturais que produziram benefícios comunitários sem conta. Integrou o quadro dirigente da Confederação Nacional da Indústria como vice-presidente, sendo escolhido presidente Emérito da Fiemg e Presidente Emérito, igualmente, da Fiesp, entidade a ser, como já foi dito, presidida por seu filho.

Josué Christiano é apontado, nos setores empresariais, classistas, políticos, culturais, como uma liderança jovem altamente capacitada. Ostenta, em invejável currículo, referências que provocam admiração e simpatia. É Engenheiro Civil pela UFMG, colou grau em Direito pela Faculdade Milton Campos, Belo Horizonte, concluiu Mestrado de Administração de Negócios pela Vanderbilt University, em Nashville, EUA. Demonstrou singular brilhantismo em todos os cursos frequentados. Na atualidade, é Presidente do Conselho e Diretor-Presidente da Companhia de Tecidos Norte de Minas - Coteminas, fabuloso complexo industrial que opera no Brasil e no exterior, e que possui um quadro de 16 mil servidores. Analistas de negócios consideram a organização que Josué comanda modelar, quanto à produtividade, resultados financeiros e políticas sociais praticadas. Louvam o estilo dinâmico, ao mesmo tempo simples e austero, que norteia as atividades da organização no panorama industrial. 

Em diversos instantes do passado recente, o nome de Josué Christiano Gomes da Silva aflorou no noticiário, com citações de reconhecimento pelo seu tino administrativo, poder de liderança e talento, como figura ideal para eventual indicação a algum posto relevante na administração dos negócios públicos. Aos olhares de qualificados observadores – e sua recente escolha para Presidente da Fiesp fortalece essa conjectura - serão registrados fatalmente, mais à frente, acenos convidativos para que, como aconteceu com o pai, marque também presença no importante e atraente espaço político.

A opinião pública brasileira mostra-se ávida pela identificação de novas lideranças. O jovem empresário alçado à Presidência da Fiesp faz parte, obviamente, de seleta lista de nomes respeitáveis, detentores de virtualidades suficientes para atrair, em momentos vindouros, os holofotes da atenção pública.

Josué Christiano carrega nas posturas pessoais e profissionais traços visíveis da personalidade de José Alencar. Tal filho, tal pai!

 

Cortina de fumaça

 

Cesar Vanucci

“As magnas questões nacionais estão ausentes

dos acalorados debates políticos da atualidade.”

(Antônio Luiz da Costa)

 

Ultrapassada (?) a efervescente discussão em torno da extravagante proposta de alteração no sistema de votação eleitoral, proposta essa rechaçada pela consciência cívica nacional, eis que o Planalto volta à carga com uma outra questão, igualmente desprovida de bom-senso. O intento visível é promover, mais uma vez, agitação nos arraiais político-administrativos.

 O anúncio do encaminhamento, ao Senado, de queixa-crime envolvendo Ministros do STF, numa tentativa de impedir que exerçam suas funções institucionais, não passa, claro está, de mais um estratagema no sentido de desviar os olhares da opinião pública das questões de magnitude. Questões que, neste momento, atormentam pra valer a gente do povo, em todos os segmentos comunitários. A situação desenhada representa, na verdade, uma “cortina de fumaça” visando desfocar atenções do inimaginável drama dos já quase 600 mil casos fatais de Covid, parte deles provocados pela ineficiência gerencial na condução do processo de combate à pandemia, conforme está sendo flagrantemente documentado na CPI do Senado. Outro problemaço “inconveniente”, que às rodas palacianas desagrada ver constantemente inserido nas pautas das discussões é o da danosa estagnação econômica, com seus impactantes desdobramentos sociais.

Aos analistas dos acontecimentos políticos não padecem dúvidas quanto ao fato de que, rejeitada, como fatalmente não deixará de ser, mais essa esdrúxula proposição, alguma outra situação qualquer será trazida para discussões públicas acaloradas. O que importa mais é desviar as atenções dos temas cruciais, sobretudo das pessoas menos informadas e desavisadas.

Deplorável, muito deplorável tudo que vem rolando no pedaço. Mergulhada em crises de toda ordem, a sociedade constata, desolada, que nos escalões decisórios superiores ninguém cuida da elaboração de um grande projeto nacional de desenvolvimento. Ninguém cogita da mobilização das forças com capacidade criativa e empreendedora à volta de programas de trabalho, de planos de atuação que favoreçam a retomada urgente do crescimento econômico. Ninguém enfatiza a possibilidade do aproveitamento, com engenhosidade, zelo e competência, do esplêndido potencial de riquezas que o país oferece, de maneira a assegurar, a curto, médio e grande prazos, padrões de bem-estar coletivo condizentes com as virtualidades de seu povo.

A SAGA LANDELL MOURA

  Luiz Carlos Abritta   Cesar Vanucci   “A morte é a curva da estrada.” (Fernando Pessoa)   O poeta Fernando Pessoa, volta e m...