sábado, 29 de janeiro de 2022

 

A Anvisa e o sentimento nacional

 

Cesar Vanucci

 

“Estamos combatendo o mesmo inimigo 

e ainda há muita guerra pela frente.”

(Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa) 

 

O vírus do negacionismo científico detectado em redutos palacianos, que parece haver contaminado o próprio titular da pasta da Saúde, médico renomado que até outro dia presidia uma importante instituição científica, está sendo enfrentado com destemor por um órgão da estrutura governamental. O órgão em questão, Anvisa, vinculado como já explicado ao Presidente da República, tem como diretor presidente o médico Antonio Barra Torres, nome de ilibada reputação, que pertence aos quadros da Marinha brasileira, ocupando posto da mais elevada graduação. Seu corpo de auxiliares na instituição, é composto de figuras altamente conceituadas nos círculos científicos dentro e fora do país. 

Reportando-se a uma desairosa observação do Chefe do Governo, Jair Messias Bolsonaro, à conduta da Anvisa na recomendação expedida sobre a aplicação de vacinas contra Covid-19 em crianças, Barra Torres tornou público magistral pronunciamento. Exigiu, em tom incisivo, uma retratação das insinuações maldosas formuladas a respeito da atuação da Agência. Já anteriormente, gerando compreensíveis mal-estar e inconformismo generalizados Bolsonaro havia cometido outro destempero verbal. Confessou-se disposto a apontar e punir os membros da Anvisa que opinaram favoravelmente à extensão da vacinação contra o coronavirus à faixa etária dos menores de 5 a 11 anos. Assinale-se, de passagem, que a aplicação de vacinas nessa faixa etária está sendo adotada universalmente por determinação de categorizados organismos da saúde pública, que classificam a medida como essencial no combate pleno à pandemia do coronavirus. 

Vale a pena conhecer na íntegra pela altivez com que foi concebido o pronunciamento do presidente da Anvisa. Aqui está. “Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário. Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente. Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho. Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter. Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar. Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente. Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário. Antonio Barra Torres, Diretor Presidente – Anvisa, Contra-Almirante RM1 Médico, Marinha do Brasil”. 

A Anvisa tornou-se, com a postura assumida, baluarte na defesa de postulados importantes na vida pública brasileira. Age, de modo impecável, em consonância com o sentimento nacional.

 

Ecumenismo, instrumento de concórdia

 

Cesar Vanucci

 

“Deus abomina o poder que alicerça dominação e preconceitos.”

(Frei Cláudio van Balen,  ex-pároco da 

Igreja Nossa Senhora do Carmo,

em Belo Horizonte, recentemente arrebatado ao nosso convívio) 

 

Em comentário de dias atrás, apontamos o ecumenismo como instrumento poderoso na remoção de impasses e obstáculos que se contraponham à concórdia universal. Ao ideal da construção de um mundo melhor. 

Sublinhamos que as religiões, todas elas, sejam cristã ou maometana, judaica ou budista, vai por aí, carregam na essência muito mais pontos de convergência do que de divergência. Disso deriva a constatação de que quaisquer manifestações de malquerenças irrompidas entre seus adeptos são ditadas invariavelmente por interpretações equivocadas, passionais, dos conceitos doutrinários esposados por umas e outras. Outra comprovação óbvia é de que a beligerância feroz, a virulência, as atrocidades e reações de intolerância registradas pela história, em não poucos lugares ainda hoje, em nome (falsamente) dos “verdadeiros princípios religiosos”, não passam de negação aviltante do sentimento espiritual autêntico, fundamento da religiosidade pura e sem contrafações. “Deus abomina o poder que alicerça dominação e preconceitos”, disse de certa feita, o saudoso Frei Cláudio van Balen, ao conceder entrevista à excelente revista “Ecológico”. 

Não constitui segredo pra ninguém que o radicalismo fundamentalista atua de forma desabrida, perversa e inconsequente. Em suas variadas colorações, mostra-se sempre receptivo a propostas racistas. Propaga em púlpitos, tribunas, cátedras, auditórios, valendo-se dos recursos da mídia, versões insanas de textos sagrados. Procura, hipocritamente, recobrir de espiritualidade conveniências escusas de mórbido cunho materialista. Atiça lutas fratricidas, desavenças étnicas sanguinolentas. Fomenta até ações terroristas. Semeia a intolerância e a discórdia. Aposta pesado no (pré)conceito “doutrinário” do “crê ou morre”. 

O fundamentalismo enxerga com suspeição hostil o ecumenismo. A mensagem ecumênica no sentido da aproximação respeitosa e fraterna, do desarmamento de espíritos, da liberdade de expressão, soa em ouvidos integristas como distorção sacrílega do “autêntico” pensamento religioso. 

Os fundamentalistas de diferentes tendências fazem questão fechada de desconhecer, por ignorância, fanatice, ou má fé, que as correntes religiosas projetam, no conteúdo, valores humanísticos e espirituais extremamente parecidos. São elas, por sinal, que dão notícia ampla disso em suas próprias invocações ritualísticas à divindade. Quando não mesmo em relatos referentes a fatos transcorridos nos tempos primevos dos cultos que representam. Quando do nascimento de Krishna, que configura do ponto de vista hinduísta a aparição terrena de Vishnu, deus supremo, um rei ciumento nos confins indianos ordenou, que nem fez Herodes, a matança indiscriminada de todos os recém-nascidos. Figuras transcendentes da mitologia hinduísta e budista vieram ao mundo em manjedouras, a exemplo de Cristo, o mais extraordinário personagem da fascinante aventura humana. Diz-se de Buda que sua concepção deu-se em corpo de mãe-virgem. 

No capítulo das invocações a Deus, são bem sugestivos os textos coletados por Robert Kehl, um estudioso da história das religiões de nacionalidade suíça. Este professor de Zurique, é mencionado pelo famoso Erich von Daniken, pesquisador e divulgador de fenômenos singulares, registrados em diferentes regiões do planeta, autor de vários livros recordistas em vendagem. Kehl teve a iniciativa de coletar dados que lhe permitiram elaborar substanciosas comparações de dizeres da Bíblia com registros de escrituras sagradas de agrupamentos religiosos não cristãos. Vale a pena conhecer essas comparações.

 

sábado, 22 de janeiro de 2022

 

Marco Legal das Ferrovias 

Cesar Vanucci

 

“Uma conquista e tanto! 

Sair, agora, das palavras para a ação”.

(Domingos Justino Pinto, educador)

 

Décadas atrás estrategistas brasileiros em políticas desenvolvimentistas laboraram num equívoco deplorável. Tomaram, inadvertidamente, uma decisão despropositada, na suposição de estarem a fazer uma opção pertinente, embora no caso em tela destituída de qualquer sentido. 

A ampliação, modernização e fortalecimento do sistema de transporte rodoviário, processados satisfatoriamente, não poderiam resultar, de maneira alguma, no desmantelamento do sistema de transporte ferroviário, como efetiva e lamentavelmente aconteceu. O correto, na linha do bom senso teria sido a adoção de um projeto de crescimento econômico que contemplasse as duas modalidades de transporte, sem esquecer de uma terceira, o transporte fluvial, ainda hoje insuficientemente utilizado como instrumento capaz de gerar progresso. 

Reportamo-nos aos tempos da infância risonha, da adolescência e de um pedaço da fase adulta, para relembrar cenas bem conservadas nos escaninhos da memória, das constantes viagens de trem de ferro que nos permitiram conhecer muitos rincões de nosso país. No período das férias escolares saíamos de Uberaba rumo a Pouso Alegre, pegando o trem da Mogiana até Mogi Mirim, no estado de São Paulo. Ali, era feita uma baldeação para trem da Rede Mineira de Viação, que nos levava até o destino. Na estação da Mogiana, ainda em Uberaba, saiam comboios, diários, transportando passageiros e mercadorias para centenas de localidades mineiras e paulistas. Os trens conduziam passageiros do Triângulo Mineiro para a então capital da República, Rio de Janeiro, e outras capitais, por meio das intercessões ferroviárias existentes, que envolviam entre outras companhias a Central do Brasil e a Paulista. Tendo como ponto de partida Uberaba, os trilhos da Mogiana e RMV deixavam-nos em cidades de Minas e de Goiás. Entre Belo Horizonte e Uberaba circulava diariamente um trem. Araguari era local de embarque para regiões goianas percorridas pelos vagões da E.F.Goiás. Para nos determos em derradeiro exemplo sobre os  benefícios do transporte ferroviário, lembremo-nos de que a Capital mineira e o Rio de Janeiro estavam ligadas pelo famoso Vera Cruz. Tudo isso se esvaiu, de uma hora pra outra, sem mais essa nem aquela, com a “opção” descabida, “sem pé nem cabeça”, nascida de um instante burocrático falto de imaginação e visão administrativa compatível com a realidade deste país de vastidão continental. 

As considerações acima alinhadas, embebidas naturalmente em emoções saudosistas – como não vivenciá-las? -, têm a ver com a chegada, resfolegante, que nem locomotiva entrando em gare ferroviária, como se via comumente em tempos de antanho, da notícia da instituição recente por meio de lei votada no Parlamento, do “Marco Legal das Ferrovias”. O objetivo do projeto é atrair investimentos privados para expansão do segmento ferroviário. Cogita-se de estabelecer legislação nacional que valha, também, para operação de linhas estaduais. Entre outros pontos, o texto que comporta normas de outorga para a exploração de ferrovias, trata de operações urbanísticas a elas associadas e estabelece regras para migração das ferrovias do atual regime de concessão para o regime de autorização. Basicamente, a decisão legislativa deriva de projeto submetido à apreciação do Senado por José Serra. O Governo Federal também interveio na questão por meio de Medida Provisória recente. Na Câmara dos Deputados ainda restam depois da aprovação do projeto já ocorrida, alguns destaques que representam sugestões pontuais de alteração no texto principal. O Marco Legal das Ferrovias configura, sem sombra de dúvida, desejável retomada de uma questão relevante dentro do contexto de desenvolvimento do país.

 Marco Legal das Ferrovias (II)

 

Cesar Vanucci

 

“A próxima revolução ferroviária vai passar 

pela maiordiversificação de produtos 

carregados, que terão maior valor agregado”.

(Marcello Costa, Secretário de Transportes Terrestres)

 

É estimulante e positivo conceber que o Marco Legal Ferroviário possa recolocar nos trilhos um sistema de transporte atestadamente eficiente e econômico. 

A expansão do setor ferroviário, a partir de agora, conforme decisões do Congresso e do Governo, está acenando com empreendimentos de vulto, a médio e longo prazos.  A maioria deles, ao que tudo indica, estará centrada na priorização do transporte de mercadorias. Mas, nada impede que as estruturas férreas a serem montadas sirvam também, por uma questão de lógica e de bom-senso, ao deslocamento de passageiros. Isso atende em cheio às conveniências da população.  

Revelações trazidas por órgãos de comunicação e Ministério da Infraestrutura, o governo já assinou, com base no Marco, 19 contratos para construção de ferrovias por meio de autorização, sem a necessidade de leilão. O conjunto dos projetos abrange 6.498 km de malha nova com investimentos estimados da ordem de R$ 90,74 bilhões. Os contratos perdurarão por 99 anos, podendo ser renovados por igual tempo. Os aportes, em grande parte, serão efetivados nos 5 primeiros anos, conforme o Secretário de Transportes Terrestres, Marcello Costa. De acordo ainda com a mesma fonte, o agronegócio e o minério serão os setores contemplados com a maior fatia, com 32,8% nos perfis de cargas das ferrovias a serem construídas. O segmento de celulose e carga em geral vêm na sequência com 10% e 6,2%, respectivamente. Cabe anotar que na atualidade, 70% da carga transportada pelas linhas em operação são de minério e 15% de grãos. Marcello Costa assegura que “a próxima revolução ferroviária vai passar pela maior diversificação de produtos carregados, que terão maior valor agregado”. Admite ainda que “O contêiner, que as novas linhas já carregam, entra nessa lógica”.

Vejamos, na sequência, alguns dos projetos já aprovados nesse novo momento ferroviário, com citação dos empreendedores, quilometragem das linhas e valores investidos: 1) Macro Desenvolvimento Ltda - Presidente Kennedy/ES a Sete Lagoas/MG: 610 km de extensão - R$ 14,30 bilhões;  2) Bracell - Lençóis Paulistas (SP): 4,29 km de extensão dentro do próprio município - R$ 40 milhões;  3) Bracell - Lençóis Paulistas a Pederneiras (SP): 19,5 km de extensão - R$ 200 milhões;  4) Ferroeste - Cascavel/PR a Chapecó/SC: 286 km de extensão - R$ 6,4 bilhões; 5) Ferroeste - Maracaju/MS a Dourados/MS: 76 km de extensão - R$ 1,20 bilhão;6) Ferroeste - Cascavel/PR a Foz do Iguaçu/PR: 166 km de extensão - R$ 3,1 bilhões; 7) Grão Pará - Alcântara a Açailândia/MA: 520 km de extensão - R$ 5,2 bilhões8) Petrocity - Barra de São Francisco/ES a Brasília/DF: 1.108 km de extensão - R$ 14,22 bilhões; 9) Planalto Piauí Participações - Suape/PE a Curral Novo/PI: 717 km de extensão - R$ 5,7 bilhões. Sabe-se que outros projetos estão sendo elaborados. 

O Ministério da Infraestrutura complementa as informações referentes ao assunto com a explicação de que, os contratos não serão colocados em execução em 2022. O período será reservado para conclusão dos projetos, licenciamentos, desapropriações e outros procedimentos burocráticos. No ano corrente espera-se entregar 254,6 km de malha instalada.  Esses trilhos, entretanto, não fazem parte dos empreendimentos originários do Marco que acaba de ser instituído. São trilhos construídos por empresas que disputaram leilão e ganharam concessões. Os contratos atuais somados aos do novo marco devem mudar o perfil da carga transportada. A partir de 2035, o Ministério projeta que as ferrovias serão 40 a 45% da matriz de transportes. 

Fica aqui a esperança de que o Marco Legal represente mesmo uma revolução ferroviária nos caminhos do desenvolvimento brasileiro

 

Essas Minas bem brasileira

 

Cesar Vanucci

 

“Eu amo a dinâmica da vida! Você nunca sabe

 qual será a próxima cena. E isto é simplesmente maravilhoso!”

(Nilze Monteiro Batista, organizadora da

 “Antologia I – Contos e Crônicas”)

 

Acaba de sair do prelo - como era de costume dizer-se em tempos de antigamente – a “Antologia I - Contos & Crônicas”, de autores mineiros falando de coisas de Minas e das coisas da vida. 

A publicação, organizada com esmero pela escritora e artista plástica Nilze Monteiro Batista, presidente do INBRASCIMG, integrante do Núcleo de Relações Públicas da AMULMIG, aglutina um punhado de nomes bem representativo do opulento elenco de personalidades que se dedicam, de forma marcante, ao ofício das letras nestas nossas Minas Gerais. Que são muitas, conforme o entendimento do magnífico João Guimarães Rosa. 

“O Estado mais tipicamente conservador da União abriga o espírito mais livre”, assegura, com pleno conhecimento de causa, o poeta Carlos Drummond de Andrade. Essa situação será, com certeza, percebida no decurso da leitura dos textos alinhados na antologia. Tudo que é feito e dito nas Gerais reflete bem o estado de espirito da gente brasileira. Retrata o sentimento das ruas e dos lares. Neste pedaço de chão do colosso continental brasileiro depara-se com uma síntese admirável da alma nacional, com seu arraigado culto aos valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura humana. 

As narrativas que Minas faz da história são ouvidas com atenção e respeito. De suas lideranças mais categorizadas nascem sempre conclamações a iniciativas e realizações que apontam os caminhos a trilhar na conquista de modelos de vida sintonizados com a cultura humana e os avanços sociais, civilizatórios. 

O compêndio citado constitui uma nova fala de Minas para brasileiros e para cidadãos de outros lugares interessados pela cultura deste nosso prodigioso País, deste nosso Brasil tão rico em potencialidades e virtualidades. País que, conforme antevisões compartilhadas por Darcy Ribeiro e Stefan Zweig, por Gilberto Freire e Domenico de Masi, consegue agregar condições propícias para compor as estruturas ideais de convivência fraterna a prevalecerem no futuro da humanidade. 

Participam da “Antologia I - Contos e Crônicas” levada pela organizadora, Nilze Monteiro Batista, a encontros literários na Europa (Paris e Lisboa) os seguintes escritores e trabalhos respectivos:  Maria Inês de Moraes Marreco, Presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, “prefácio”;  Adilson Mariano, “Impacto”; Adriano da Silva Ribeiro “A dupla existência da verdade”; Alice Spindola, “O violino de papai”; Amélia Luz, “Além da cerca de arame farpado, esperança”;  Andreia Donadon Leal, “As flores dormem à noite”;  Angela Maria Rodrigues Laguardia, “Descobrir a crônica e as cronistas”;  Angela Togeiro, “A primeira ceia”; Carlos Magno de Almeida, “O despertar”; Cecy Barbosa Campos, “Reação em tempo de pandemia”; Célia Lamounier de Araújo, “Comportamento social: breve exame individual”; Cesar Vanucci “Brasileiros das Gerais”; Denise Izaguirre Anzorena, “Entre o vestígio e a bruma”; Dora Tavares, “As seis cadeiras”; Elizabeth Rennó, “A invenção de Lêdo Ivo”; Fátima Quadros, “As cartas que não enviei”;  Goretti de Freitas, “Uma pausa para lembrar”; Hebe Rôla, “O divórcio do viúvo”; Jair Araújo, ”Sophia e os amiguinho do vovô!”; José Luiz Foureaux, “Marcações”; Luiz Alberto de Almeida Magalhães, “Confissões íntimas”; Marzo Sette Torres, “Momento”; Nilze Monteiro, “Sonhar com desconhecidos”;  Vilma Cunha Duarte, “A travessia”; Xúnior Matraga, “Aquele rapaz”; Zaíra Melillo, “A contenda”.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

 

Tarados por vacina

 

Cesar Vanucci *

 

“Tarados por vacina: bendito sejam.”

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

 “Tarados por vacina”, reportando-nos a uma iracunda fala negacionista palaciana, são doutos cientistas de renome mundial, alguns agraciados com o Nobel, responsáveis por estudos e experiências inseridos no processo de evolução civilizatória. “Tarados por vacina” são, também, homens e mulheres de boa-vontade que exercem funções de liderança na política, na gestão de negócios, nas lidas religiosa e classista e que se esmeram em esforços voltados para a dignificação da aventura da vida.  São médicos e outros profissionais da saúde fiéis ao juramento hipocrático que, em todos os confins do planeta integram a “linha de frente” do heróico e extenuante trabalho de enfrentamento das calamidades sanitárias, tipo pandemia da Covid-19, no exercício magnífico de salvar vidas e de acalentar, nos leitos das UTIs e enfermarias, transmitindo-lhes um sopro de esperança, enfermos em estado desesperador. “Tarados por vacina” são igualmente, pela mesma forma, chefes de família, gente de todos os escalões sociais, alvejados de forma direta ou indireta pelo flagelo virótico que se espalha, insidiosamente, por tudo quanto é canto, matando, ferindo, mantendo em permanente sobressalto milhões e milhões de criaturas, boa parte delas desprovidas de acesso pronto, minimamente eficaz diante de riscos terríveis e iminentes. Gente, por sinal, que deposita na providencial vacina criada pela ciência e aprovada por instituições cientificamente acreditadas, suas expectativas e esperanças no sentido de proteger vidas preciosas. “Tarados por vacina” são, ainda, de forma destacada entre numerosos segmentos profissionais, os jornalistas que falando, escrevendo, fotografando, filmando, acompanhando de perto os acontecimentos do dia a dia, prestando serviço de utilidade pública inestimável, garantem orientação criteriosa acerca dos procedimentos a serem adotados pela comunidade face às situações geradas pelas dramáticas questões  decorrentes da indesejável pandemia das múltiplas e amedrontadoras cepas. Educadores e pais de alunos são, eles também, - saibam, distintos cavalheiros e damas negacionistas - são “Tarados por vacina”. Receiam que a falta da picada de agulha contendo imunizante nos braços da garotada querida possa provocar novos surtos de contaminação e com isso trazer novo e duradouro recesso escolar. “Tarados por vacinas” são, enfim, todos aqueles cidadãos, independentemente de nacionalidade, crença ideológica, cor, categoria social, grau de instrução, nível cultural, que afeitos ao diálogo democrático e resilientes a preconceitos e dogmatismos rançosos, sonham  por transformações deste mundo do bom Deus em que o tinhoso consegue ainda plantar alguns insidiosos enclaves, um lugar melhor, socialmente mais justo, mais fraternal, mais solidário, acorde com as lições humanísticas e espirituais, para a celebração da vida em plenitude. 

2022. Esse 2022, sei não! Entrou com impetuosidade negativa, revelando-se um tanto parecido com 2021, apontado na convicção de muita gente como “o pior ano de nossas vidas”. Apesar do avanço vacinal, ainda insuficiente em termos globais (A África, esquecida dos homens e dos deuses, com seus ridículos índices de imunização é uma amostra contundente dos fatos), combatida com ferocidade pelo fundamentalismo negacionista, a pandemia do coronavirus continuou sua mortífera expansão. Para isso contribuiu – é certo – a insensatez humana evidenciada nas não recomendáveis aglomerações dos festejos de fim de ano. Junto com o flagelo, chegaram as chuvas com características “diluvianas”. Inundações de cidades inteiras, transbordamento de rios, desabamentos de moradias, interdição de estradas, destruições e muitas vítimas fatais, sobretudo em áreas menos providas de recursos de infraestrutura urbana. Outra caudal avassaladora que está deixando todo mundo em pânico é o da elevação de preços para tudo que seja produto e bens de consumo. Na esteira dos abusos altistas, da inflação descomedida, já se podem apontar na curva de chegada mais desemprego, aumento da pobreza extrema, afinal um formidando conjunto de situações socialmente clamorosas.

2022, uma quinzena já transcorrida, vou te falar...


domingo, 16 de janeiro de 2022

 

A Anvisa e o sentimento nacional

 

Cesar Vanucci

 

“Estamos combatendo o mesmo inimigo

 e ainda há muita guerra pela frente.”

(Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa) 

 

O vírus do negacionismo científico detectado em redutos palacianos, que parece haver contaminado o próprio titular da pasta da Saúde, médico renomado que até outro dia presidia uma importante instituição científica, está sendo enfrentado com destemor por um órgão da estrutura governamental. O órgão em questão, Anvisa, vinculado como já explicado ao Presidente da República, tem como diretor presidente o médico Antonio Barra Torres, nome de ilibada reputação, que pertence aos quadros da Marinha brasileira, ocupando posto da mais elevada graduação. Seu corpo de auxiliares na instituição, é composto de figuras altamente conceituadas nos círculos científicos dentro e fora do país. 

Reportando-se a uma desairosa observação do Chefe do Governo, Jair Messias Bolsonaro, à conduta da Anvisa na recomendação expedida sobre a aplicação de vacinas contra Covid-19 em crianças, Barra Torres tornou público magistral pronunciamento. Exigiu, em tom incisivo, uma retratação das insinuações maldosas formuladas a respeito da atuação da Agência. Já anteriormente, gerando compreensíveis mal-estar e inconformismo generalizados Bolsonaro havia cometido outro destempero verbal. Confessou-se disposto a apontar e punir os membros da Anvisa que opinaram favoravelmente à extensão da vacinação contra o coronavirus à faixa etária dos menores de 5 a 11 anos. Assinale-se, de passagem, que a aplicação de vacinas nessa faixa etária está sendo adotada universalmente por determinação de categorizados organismos da saúde pública, que classificam a medida como essencial no combate pleno à pandemia do coronavirus. 

Vale a pena conhecer na íntegra pela altivez com que foi concebido o pronunciamento do presidente da Anvisa. Aqui está. “Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário. Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente. Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho. Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter. Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar. Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate. Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente. Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário. Antonio Barra Torres, Diretor Presidente – Anvisa, Contra-Almirante RM1 Médico, Marinha do Brasil”.

A Anvisa tornou-se, com a postura assumida, baluarte na defesa de postulados importantes na vida pública brasileira. Age, de modo impecável, em consonância com o sentimento nacional.

 


 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

 

Vem vindo aí o 5G

 

Cesar Vanucci

 

“Os avanços tecnológicos tornam o fantástico real”.

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

O leilão para a exploração do chamado sistema 5G suscita uma torrente de lembranças marcantes alojadas nas ladeiras da memória, bem como um efervescente exercício de imaginação referente as prodigiosas projeções futurológicas da comunicação digital. 

O que vem vindo aí é uma revolução tecnológica incrível, fantástica, extraordinária. Chega às raias do inimaginável. Acode-me incontrolável tentação de sair dizendo por aí que são coisas que parecem extraídas de historietas de quadrinhos. Ou de filmes de ficção científica de alucinante concepção. Mas esse tipo de reação leva a uma indagação perturbadora, digo mais, tremendamente instigante para a qual parece não existir, de imediato, uma pronta resposta convincente. Esta a indagação. Como é que os autores dos quadrinhos e da ficção cinematográfica ficam sabendo, antes de todo mundo, dessas inovações técnicas assombrosas que lançam em suas narrativas para mero entretenimento e lazer dos leitores e espectadores? Seja lembrado que Flash Gordon e Buck Rogers exploraram o espaço sideral muito antes do voo orbital de Yuri Gagarin ou da criação da Nasa. O arguto detetive Dick Tracy já nos idos dos anos trinta fazia uso do relógio de pulso para transmitir e receber chamadas a longa distância. Du-vi-de-o-dó que naquela quadra da história humana, houvesse em qualquer parte, algum grupo de elevada capacitação científica engajado ou empenhado em pesquisas, experiências, capazes de permitir, punhado de décadas depois, o surgimento de um aparelho ao alcance hoje de qualquer garoto, conhecido por celular.  

À parte estas ruminações, puxando ainda pela memória, relembro cenas na recuada infância dos serviços de telefonia utilizados pelas pessoas financeiramente mais abonadas da comunidade. As ligações de um ponto a outro passavam forçosamente por diligentes funcionárias do posto telefônico central. As telefonistas desfrutavam de notoriedade e respeito no seio comunitário. Havia quem as imaginasse, com algum receio quanto ao fato, detentoras de informações sigilosas, face ao acesso que tinham aos contatos interpessoais. Lá pelos anos quarenta, a chegada do chamado telefone automático ampliou consideravelmente o alcance da comunicação telefônica. 

Num trabalho sobre o desenvolvimento da telefonia no Brasil, saído na internet, Guilherme Pereira, Henrique de Oliveira e Rubens Marangom, do Instituto Superior de Ciências Aplicadas, de Limeira,  (SP), explicam o seguinte: “Com o surgimento das centrais automáticas os telefones passaram a ser providos de “discos” para envio da sinalização.” (...) “Esta tecnologia prevaleceu até o final da década de 60 quando começaram a surgir os telefones com teclado eletrônico. Os telefones com teclado facilitavam a “discagem”, pois demorava menos para registrar um número. Foram desenvolvidos teclados que enviavam os pulsos de sinalização decádica conforme a tecla acionada.” (...) “Atualmente vem crescendo o uso da telefonia pela internet.” 

 O sistema da comunicação telefônica, a partir desse ponto, como sabido, passou a oferecer assombrosas facilidades ao usuário. Novidades incessantes inseriram as pessoas num cenário tecnológico que descortina possibilidades de acesso a fatos e informações impensáveis até bem pouco tempo. 

Especialistas esclarecem, ser o 5G uma novíssima geração de internet móvel. Uma evolução da conexão 4G. Agora, quando 5G começar a operar em plenitude, provavelmente por volta de meados de 2022, outras situações incríveis começarão a ser vivenciadas. As melhorias de velocidade, tempo de resposta e confiança na rede prometem abrir leque de aplicações. Tecnologias como os carros autônomos e a telemedicina devem avançar com o 5G, bem como a chamada "indústria 4.0" com toda a linha de produção automatizada. Cirurgias feitas remotamente, por exemplo, serão mais confiáveis. E por aí vai...

 

 

Por falar em pesquisas eleitorais

 

Cesar Vanucci

 

“Entender o que não se compreende, assim a política.”

(Beaumarchais, pensador francês)

 

O jogo político é repleto de inexplicabilidades. Uma situação que, em dado momento, se afigura devidamente consolidada ao olhar perspicaz de analistas traquejados, pode, às vezes, sofrer bruscas alterações, gerando espanto que se desvanece, logo adiante, com o surgimento de algum outro marcante lance que fomente discussões. 

As pesquisas sobre intenções de voto são parte indissociável do processo eleitoral numa democracia pujante. Merecem atenção e respeito. Mas não podem ser supervalorizadas, nem tampouco subestimadas. Traduzem o sentimento popular numa determinada circunstância.  Refletem anseios e aspirações captados num preciso instante. As reações colhidas podem ou não perdurarem. Os resultados dessas consultas por amostragens tecnicamente corretas serão ou não serão confirmados em outras ocasiões. Tudo passa a depender do comportamento pessoal e dos posicionamentos dos candidatos a respeito de questões relevantes para a sociedade, de estratégias de persuasão dos votantes montadas pelos comitês partidários responsáveis pelas campanhas de cada um deles. Já aconteceu, em várias oportunidades, de os números apurados nas confiáveis urnas eletrônicas da Justiça Eleitoral coincidirem em cheio com os indicadores das pesquisas pré-eleitorais. No pleito presidencial de 2018, Bolsonaro liderou, o tempo todo, as pesquisas organizadas por todos os institutos de opinião. E já aconteceu também, em mais de uma ocasião, de os resultados do pleito contradizerem os das pesquisas, numa reviravolta causada por fatores imponderáveis.

Um caso bem frisante diz respeito à eleição que conduziu Célio de Castro à Prefeitura de Belo Horizonte. As consultas prévias de opinião davam-no, até a véspera da eleição, em segundo lugar entre os candidatos. 

Tudo isso posto, cuidemos de comentar pesquisas recentemente divulgadas com vistas à sucessão presidencial. Todas elas sinalizam que na hora presente os ventos sopram favoráveis à candidatura, ainda não confirmada oficialmente pelo próprio, de Luiz Ignácio Lula da Silva. Ele mantém folgada margem de liderança na preferência dos votantes consultados com relação a prováveis competidores, a ponto de se admitir até a possibilidade de sua vitória já em primeiro turno. Na hipótese de ocorrer um segundo turno, o dirigente petista sairia vitorioso em confronto com quaisquer outros oponentes. 

Jair Messias Bolsonaro aparece em segundo lugar em todas as pesquisas. Chama, a atenção dos observadores, de modo especial, o elevado grau de rejeição apresentado ao seu nome, ainda também não oficialmente lançado como candidato. Na suposição de eventual participação sua num segundo turno, Bolsonaro, consoante as pesquisas, seria derrotado por todos os outros possíveis candidatos apontados, Ciro Gomes, João Doria, Sérgio Moro e, como já citado, Lula. 

Sérgio Moro até aqui só mencionado, por motivos óbvios, numa única pesquisa, coloca-se em terceiro lugar, à frente de Ciro Gomes, João Doria e outros. O índice de rejeição ao seu nome está sendo considerado bastante elevado (30%). Ciro e Doria alcançam percentuais parecidos, ainda com pouca chance de alavancagem. O mesmo pode-se dizer de Simone Tebet e Luiz Henrique Mandetta, ambos já considerados pré-candidatos. 

Política, repita-se, não é ciência exata. Os caminhos eleitorais são inçados de imprevisibilidades. Aquela manjada história, volta e meia citada no tagarelar político, da nuvem que, repentinamente, se desfaz, ou muda de lugar, faz todo sentido como definição das mudanças repentinas suscetíveis de ocorrerem na vontade dos protagonistas do enredo eleitoral. Tem muita água ainda pra rolar debaixo da ponte.




 

Artigo do Acadêmico Antônio Pereira Silva

 

O TELEFONE CHEGA A UBERABINHA

 

                        Um dos pioneiros da telefonia no Triângulo foi o nosso admirável Fernando Alexandre Vilela de Andrade que construiu uma linha particular de sua fazenda até a fazenda de Joaquim Carvalho, interligando-as com sua residência na cidade de São José do Tijuco (Ituiutaba). Isso em 1903 ou 4. E foi valiosa essa iniciativa porque, pelo telefone, ele soube que um grupo de jagunços, vindo de Mato Grosso (distrito de Tupaciguara), pretendia atacá-lo por vingança, pelo fato de ele ter deposto em juízo contra um dos membros da quadrilha que assassinara um joalheiro. Vilela deixou a fazenda e avisou a cidade que enviou três praças armados e mais uma turma de amigos para proteger-lhe a propriedade. Não deu em nada. Antes de chegarem ao Tijuco, os bandidos foram desbaratados pelo cel. João Chaves.

                        Mais tarde, em 1916, Fernando Vilela estendeu fios telefônicos ao longo de suas estradas e inaugurou a primeira linha de 112 quilômetros ligando diversas cidades servidas por suas estradas de rodagem além de colocá-las em tráfego mútuo com a companhia telefônica daqui ligando aquelas comunidades a Uberabinha, Araguari, Santa Maria, Prata, Bom Jardim e Sobradinho.

                        Bom, mas e aqui, como é que foi?

                        No dia 11 de janeiro de 1909, Manuel Caldeira e outros entraram com requerimento na Câmara Municipal solicitando concessão para o estabelecimento de uma linha telefônica no Município. A Comissão de Obras Públicas analisou o pedido e despachou favoravelmente. No dia 15, a Câmara aprovou, mas quem não apareceu para fazer as instalações foi o requerente. E essa oportunidade que a cidade teve para começar a fazer comunicações rápidas, pelo menos dentro do Município, foi por água abaixo.

                        Quem, enfim, começou a instalar telefones na cidade foi Lázaro Ferreira, a partir de 1911. Não consegui saber se ele comprou a concessão dada ao Manuel Caldeira ou se fez outro pedido.

                        O fato é que ele começou a fincar pelas ruas uns postesinhos miúdos, raquíticos, tortos que o jornal da época chamou de “infantis, ridículos e bons para o fogo.” Noutras notas dizia que os fios passavam tão baixos que serviriam para as lavadeiras pendurarem suas roupas pra secar. Mas aí, pelo menos, o povo já começou a conversar à distância.

                        A inauguração dos serviços telefônicos foi no dia 2 de julho de 1911. O povo aglomerou-se em algum lugar, certamente em frente à sede da empresa. Houve muito discurso e muita música pela Banda União Operária. Por certo, alguém fez o uso inaugural de um aparelho assistido pelo povo estupefato. Infelizmente não há pormenores da inauguração.

                        Acho que o Lázaro não se deu bem com o negócio, tanto que em setembro do mesmo 1911, passou a concessão para Oliveira & Cia. Essa firma era de Araguari, de modo que as duas cidades já começaram a se falar por telefone. Foi o Oliveira quem comunicou ao povo de Uberabinha, pelo jornal, que a novidade da união telefônica entre as duas cidades se daria dentro de pouco tempo. Informou também que o centro telefônico atenderia das 6 às 21 horas, todos os dias, e durante a noite, só por motivo de forma maior, como chamar médico ou farmácia.

                        O negócio, à época, não parecia muito bom, tanto que o jornal “O Paranahyba”, de novembro de 1914, publicou que alguns dos seus leitores pediam-lhe que chamasse a atenção do co-proprietário Francisco Coelho para o mau estado em que se encontravam as linhas.

                        Segundo Tito Teixeira, em 1917 entra outro empresário “na linha”: o português José Monteiro da Silva, industrial do algodão, que também não resistiu muito tempo repassando a empresa para o Tito Teixeira e Arlindo Teixeira Jr. por trinta contos de réis. A essa altura, já passados alguns anos de sua instalação em Uberabinha, a empresa só possuía cinquenta assinantes.

                        Mas o Tito e o Arlindo aguentaram alguns anos juntos. Enfim, em 1932, o Arlindo Teixeira Costa (que tinha mudado o seu nome para manter a razão social de uma outra empresa sua, atacadista de secos e molhados), passou sua parte para o Tito e surgiu a conhecida “Empresa Telefônica Teixeirinha” que se manteve em atividade até 1954, quando a CTBC assumiu o seu controle acionário. Daí para cá é o que todo mundo já conhece. (Fontes: jornais da época, Atas da Câmara Municipal, Tito Teixeira).

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Poema da Acadêmica Célia Laborne Tavares

 

NOITE CLARA

 

Rondas noturnas velam pela paz.

Dorme comigo o cheiro das estradas

e o brilho das estrelas se impregna de vida.

 

Um espectro adeja sobre as águas

e procura romper a santidade desta noite,

mas há luz no coração e há paz na emoção.

 

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Poema do Acadêmico João Bosco de Castro

 

 Farpas de um Natal!

 

Um dia, tanto pecado

Deste Mundo tão boçal

Fez nascer um Menininho

̶  Assinzinho, qual mindinho  ̶  ,

Nas estivas dum curral,

Muito frio e emborrascado!

 

Nasceu, ali, entre reses,

Longe de plumas e painas,

E deu asilo aos pastores,

Amáveis contempladores,

E reanimou-lhes as fainas

Diárias, com bons jaezes!

 

Era, uma vez, um Menino!...

Era, uma vez, um minúsc’lo!...

Era, uma vez, um Divino

Que, sempre, será Maiúsc’lo!...

 

Enfrentou grandes torpezas,

Cultivou dotes gentis,

Não adulou as riquezas,

Mas perdoou gentes vis!

Coisou de cabras montesas,

Engalanou bem-te-vis,

Fez prodígios de proezas:

Amou verdugos hostis!

 

Ensinou a reis minazes,

Com seus verbos muito amáveis,

E enxotou ladrões vorazes,

Com chibatadas placáveis

̶  Pra que, na Paz, haja pazes

E momentos memoráveis!...  ̶  ,

Em favor da Inteligência,

Contra qualquer violência!

 

Mas não pregou a discórdia,

Nem sustentou a injustiça,

Nem adotou a incúria,

Sequer a falácia e a injúria!

 

 Não fez a mentira nem a preguiça,

Mas semeou a rosa da concórdia,

Da tolerância e do amor:

Da autodoação desinteressada!

Refutou hosanas e pilatarias,

Améns e quaisquer vilanias.

Não inventou a ganância

E a discriminação materialistas

E lucristas deste Natal faraônico,

Enganoso e antiCristo,

Que não Lhe pode ser a Festa

De Sua Santa Nascença,

Por injusta e por funesta,

Porque nos traz a descrença

E porque mutila a alegria

De milhões e milhões de criancinhas

Pobres e abandonadas,

A se mirrarem... Vexame!... :

“Eli! Eli! Lamma Sabactani!”,

Travos de vinagre e fel

Que espinham o coração e a vontade

Recôndita do mísero proletário,

Contra o vinho e o fino mel,

Que mais assanham ao onzenário

A cupidez marginalizadora

E esgorjante do poder econômico!

 

Um dia, todo o pecado

Desta Terra tão boçal

Fez nascer um Menininho

̶  Assinzinho, qual mindinho  ̶  ,

Em borrascas, num curral,

Que tentou curar o Mundo,

Pestiloso, podre e imundo,

Mas não criou o Natal!  

 

Belo Horizonte-MG, 10 de dezembro de 1987


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Poema de Ubirajara Franco

 

VENDINHA DA ESTRADA

 

​Já não sou advogado,

isto é assunto encerrado!

Sou agora o proprietário,

sem ser latifundiário,

da vendinha lá da estrada,

que só me traz alegria,

e por mim arrematada

em concorrido leilão.

 

       Não falo de rodovia

       porque a estrada é de chão,

       margeada pelos dois lados,

       por arbustos de capim,

       onde cobras serpenteiam,

       saracuras gorjeiam,

       e há lagartos assustado,

       em disparada sem fim...

 

E onde passam cavaleiros,

(eu não disse cavalheiros)

pedestres e carroceiros,

e também carros-de-bois,

sem pressa de chegar,

pois se nada atrapalhar,

vão chegar muito depois...

 

       Para lá estou mudando,

       e para sempre ficando

       longe do computador

       que me causa pavor.

 

       Da música estridente

       do meu vizinho de frente,

       que é a razão dos meus ais!

 

       Das etiquetas sociais,

       da lâmpada fluorescente,

       do meu cliente que enguiça

       pelo atraso da justiça,

 

       Daquele falso sorriso

       que me dão quando é preciso

       favores solicitar...

 

 - O que? Tudo abandonar?

(diz a minha secretária)

E aquela ação temerária,

com data já marcada?

E a audiência trabalhista

para amanhã designada?

 

       Qual audiência, qual nada!

       E o Dr. Juiz está ciente

       que não pedirei mais vista

       dos autos de nenhum cliente!

       E desse FORUM a escada,

       com minha pasta pesada,

       nunca mais hei de subir,

       disposto para até mentir,

       com testemunhas compradas,

       já de mim envergonhadas!

 

Não mais o meu parecer

para o Juiz convencer

que a verdade do meu cliente

é a verdade verdadeira,

porque a SUPREMA VERDADE,

está naquela vendinha,

a casa toda branquinha,

bem ao lado da paineira,

onde em preguiçosa tarde,

a patativa anuncia

a hora da AVE-MARIA.

 

E os homens da freguesia,

suas mãos cheias de calos,

ficam pitando... assuntando...

enquanto os seus cavalos

com seus rabos afugentam

os mosquitos que os atentam!...


A SAGA LANDELL MOURA

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