sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

E o mundo não acabou

Cesar Vanucci *

“Creio que não se deva julgar o bom Deus por este
 mundo, pois é apenas um esboço que não deu certo.”
(Van Gogh, pintor)

Anunciaram que o mundo ia se acabar. Disseram que um tsunami de proporções inimagináveis, com ondas de 1.5 quilômetros, iria riscar do mapa todas as cidades litorâneas, avançando devastadoramente terra adentro, fazendo o sertão virar mar. Uma outra teoria catastrófica, dentre as muitas aventadas, dizia que um corpo celeste descomunal surgiria, inopinadamente, do nada colidindo estrondosamente com este nosso planeta azul. Do impacto resultaria a eliminação de toda e qualquer manifestação de vida. Falou-se também na hipótese de uma brusca inversão da rotação da Terra, com efeitos obviamente calamitosos. A inversão súbita dos eixos magnéticos, com os polos sul e norte trocando de lugar, foi uma outra possibilidade aterrorizante levantada nas profecias sobre o final dos tempos.

Não faltou ainda na lista das previsões assustadoras a “mãe de todas as hecatombes bélicas”, a guerra nuclear. Andaram dizendo que um conflito mundial iria eclodir, desencadeado a partir das desavenças (sem solução à vista por conta de excessos de estupidez) no Oriente Médio. Tempestade solar avassaladora foi outra modalidade de destruição global anotada. Como todas as demais, fadada a não deixar sobrar ninguém pra contar história...

Pandemia provocada por vírus misterioso, proveniente do espaço sideral, ou confeccionado por aqui mesmo num dos laboratórios secretos mantidos pela paranóia da “guerra bacteriológica”, contra a qual não exista tratamento eficaz, perturbações gravitacionais na órbita percorrida pelo planeta na vastidão cósmica fizeram parte também do repertorio de desgraças composto nas pesquisas dos “profetas do Apocalipse”. A confiança dos autores dos prenuncios em suas intuições ganhou tal força que, na interpretação de textos sagrados de origens variadas, chegou-se até mesmo a indicar a data terminal fatídica: alguma hora entre 21 e 22 de dezembro do ano da graça de 2012.

Aconteceu, entretanto, que este mundo velho de guerra sem porteira não só “não se acabou”, como continuou o mesmo de sempre. Prossegue em seu giro interminável pelo oceano cósmico (repleto de inexplicabilidades) sem fim, com suas ziquiziras e cacoetes intoleráveis. Uma projeção aflitiva, afinal de contas, do jogo de contradições predominante na maneira de ser da fauna pensante que o povoa e que faz de um tudo no sentido de manter permanentemente subjugadas à sua insanável parvoíce a natureza e a vida. Isso vai, certamente, prevalecer até o dia, ardentemente aguardado, em que as lideranças da sociedade em condições de influírem no rumo das coisas deste mundo se revelarem dispostas a acolher, ajuizadamente, as propostas humanísticas, encharcadas de autêntica espiritualidade, propagadas por homens e mulheres de boa vontade, de diferentes culturas e regiões geográficas, empenhados na sacrossanta missão de acabar não com o mundo, mas com as situações perversas nele implantadas. Com as iniqüidades sociais, políticas e econômicas nascidas da intolerância, do egoísmo, da prepotência, da arrogância, que enodoando a convivência, se contrapõem aos valores que asseguram respeito à dignidade humana.


Sinto muito

As criaturas estão no caminho entre o Nada e o Tudo.
Encontram o que está acima de todos (...) pela via da oração.”
(Alceu Amoroso Lima)

Ouvi a oração numa representação teatral. Anotei na memória velha de guerra as idéias básicas contidas no sugestivo recitativo. Resolvi aqui reproduzi-lo. Não tenho dúvida quanto à fidelidade aos conceitos. Mas, não consigo garantir o mesmo quanto à qualidade da reprodução. Peço a todos, por isso, que levem em conta a (boa) intenção.

Estou falando de uma mensagem havaiana de cunho religioso. Lembra a arrebatante Oração de Francisco de Assis, na parte em que exorta as pessoas ao exercício do perdão. Perdão, numa e noutra prece, concebido – claro está - dentro da perspectiva da humildade, “base e fundamento de todas as virtudes”, sem a qual “não há nenhuma virtude que o seja”, como atesta Cervantes.

Por atravessarmos no calendário momento propicio a reflexões a respeito do sentido da vida, considerei de oportunidade repassar essa oração aos leitores, ao desejar-lhes votos sinceros de um Feliz Natal, seguido de uma passagem de ano repleta de venturas.

O texto que dei conta de rememorar diz (mais ou menos) o que vem alinhado na sequência. “Sinto muito, muito mesmo, por tudo aquilo que, partindo de mim, haja provocado, em qualquer época e qualquer lugar, sofrimento, decepção, frustração, ira, desalento, perturbação, contrariedade em pessoas de meu ambiente familiar; em pessoas de meu círculo afetivo; em pessoas de minhas ligações profissionais; em homens e mulheres, adultos e jovens, conhecidos ou desconhecidos, que cruzaram meus caminhos no curso desta caminhada pela pátria terrena. Sinto muito, sinceramente, por tudo aquilo que, em decorrência de atos ou palavras de minha autoria, possa ter dado causa a reações de pessoas de minha roda familiar, de minha esfera afetiva, nas minhas vinculações profissionais e comunitárias, que despertassem em mim rancor, tristeza, inconformismo, irritação, desejos de vingança. Rogo da Suprema Divindade que transmute todas essas emoções negativas em energias positivas. Energias que tenham o mérito de comunicar sensações de bem-estar e conforto a todos e que possam contribuir para a construção de relacionamentos humanos harmoniosos, fraternais e duradouros.

Eu sinto muito por tudo isso. Peço, humildemente, perdão por todas as reações desagradáveis que, consciente ou inconscientemente, ajudei a fomentar na convivência com os semelhantes.

Escancaro o coração à prática do amor, da fraternidade, da solidariedade e agradeço, reverentemente, por esta chance de poder lamentar, pedir perdão e exprimir o avassalador sentimento de mundo que me invade a alma.”

Não resisto, por último, à tentação de pedir a atenção dos leitores para algo que, certamente, não lhes passa desapercebido todas as vezes em que tomam conhecimento, como agora no caso desta oração do Havai, de uma forma de diálogo com o Absoluto nascida de concepção cultural da vida diferenciada da nossa. No fundo, independentemente de tempo e lugar, o que dá pra perceber é que a linguagem é sempre igual. Os cânticos de louvor ao Altíssimo alcançam sempre o entendimento universal. Brotam dos mais generosos impulsos da alma humana. Revelam que os homens, não importam a etnia, o idioma, o lugar em que vivem, os hábitos, são na essência tremendamente parecidos.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Certidão de nascimento

Cesar Vanucci *

“É a nossa certidão de nascimento.”
(Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina)

A decisão veio com respeitável atraso. Mas não deixou de constituir, verdade seja dita, um razoável avanço em direção ao rumo que, mais dia menos dia, terá que ser tomado na solução de um problemaço que vem se arrastando penosamente por décadas inteiras. Por conseguinte, houve justificativa para celebrações quando a Assembléia Geral das Nações Unidas, com alguns votos contrários – o dos Estados Unidos recebido como o mais desconcertante deles, tendo em vista as grandes responsabilidades derivadas da liderança exercida no cenário mundial – concordou, finalmente, em conceder uma “certidão de nascimento” à Palestina.

A condição de “Estado Observador” abre aos palestinos acesso a importantes agências da ONU e ao Tribunal Penal Internacional. Implica no reconhecimento de que a Palestina não vai poder continuar sendo tratada como um grupamento de pessoas de uma mesma nacionalidade, aglutinadas num mesmo espaço territorial, irremediavelmente condenado, para todo sempre, à marginalização política e jurídica no contexto internacional. Há que passar a ser vista, isso sim, como uma pátria na acepção completa do termo, uma terra regida por leis consagradas no Direito Internacional, detentora de plenos direitos e obrigações. Tanto quanto centenas de outras pátrias localizadas em todos os cantos deste planeta azul. A começar, aliás, pelo vizinho mais próximo, o Israel, um Estado que abriga nação pujante que amargou, no passado, as consequências funestas das demenciais práticas racistas do nazismo, sob os olhares complacentes e, exatamente por isso, cúmplices de um sem número de países com presença realçante no palco mundial.

Há precisamente 65 anos, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a criação, no Oriente Médio, dos Estados de Israel e da Palestina. O primeiro dos dois Estados foi devidamente estruturado. Tornou-se, em curto espaço de tempo, pelo labor de sua gente, uma potência próspera, ostentando agora índices de desenvolvimento bem acima dos outros países da região. Já no que tange à implantação em completude do Estado da Palestina, a Resolução da ONU gorou. Não saiu, até aqui, deploravelmente, do papel.

A (falta de) razão para que isso esteja acontecendo se deve a fatores os mais variados e despropositados. Destaque especial cabe na avaliação dos fatos à condição ininterrupta de beligerância reinante no pedaço. Com toda certeza, o mais conturbado pedaço de chão destes dias atuais. Essa beligerância é insuflada, o tempo todo, por radicais e xenófobos de diferentes tendências, pertencentes a trincheiras adversárias, alinhados com forças políticas e econômicas retrogradas, envolvidos, todos eles, todos, em um jogo confuso de egoísticas e espúrias conveniências. Com tanto tempo já transcorrido, o que já deveria estar sendo objeto de celebração seria o ingresso da Palestina como Estado Membro da ONU, senhora de direitos e deveres como qualquer outro país. Não o seu ingresso no órgão como mero Estado Observador. Afinal de contas, o X da tormentosa questão, que coloca o mundo em permanente sobressalto diante das coisas que costumam rolar naquele trecho sagrado do Atlas - fonte matricial de três importantes correntes religiosas monoteístas - consiste nessa demora infindável de se botar na prática aquilo que já foi decretado de longa data: a constituição do Estado da Palestina. E se isso até agora não se corporificou é porque muita gente poderosa, valendo-se de toda sorte de sofismas, lançados na mídia como valores fundamentais, dos quais não se pode abrir mão, não quer simplesmente que a Palestina exista como Estado.

Os grupos radicais que tanto influenciam as deliberações do governo de Telavive têm uma cota de responsabilidade de considerável peso nesse gigantesco esforço da turma do contra. Essa turma do contra é, por sua vez, minoritária, como tantas vezes já comprovado em reuniões da ONU, mas na verdade detém as cartas principais no embaralhado jogo das definições.

A postura do gabinete presidido por Benjamin Netanyahu, visto como aliado incômodo pela própria Casa Branca, não deixa margem alguma para dúvidas quanto à disposição dominante na esfera oficial israelita de deixar as coisas permanecerem como estão, indefinidamente. Mesmo que o cenário onde as coisas rolam seja considerado um barril de pólvora. Desrespeitar resoluções da ONU é com ele mesmo. Por conta disso, uma réplica do “muro de Berlim” foi plantada no explosivo território. Os assentamentos de colônias residenciais prosseguem. O país opõe-se terminantemente a abrir informações sobre seu programa nuclear à Agência Internacional que cuida do assunto. E por aí vai.

Sentindo-se, de certa forma, blindado pelo apoio recebido dos Estados Unidos, Israel nega-se a dialogar, repele a decisão da ONU, aprovada em votação maciça, em conceder à Autoridade Palestina participação na instituição como membro observador. Parece pouco se importar, por exemplo, com as manifestações de países com os quais mantém cordiais relações que se viram obrigados a se reposicionar, diante das decisões impertinentes que assume, ao convocarem os embaixadores israelenses para ouvir declarações formais de protesto contra os assentamentos indevidos das áreas ocupadas na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.


A profecia que deu certo

“Está na vida o mistério.”
(Henriqueta Lisboa)

Tanto quanto a morte, a vida é recheada de mistérios imperscrutáveis. É como, aliás, sublinha Henriqueta Lisboa, em sugestivo registro poético: “Não na morte. Está na vida o mistério. Em cada palavra ou abstinência.” Fatos desconcertantes e enigmáticos, inexplicáveis sob as luzes mais profusas do conhecimento consolidado, deixam gravada na memória e na emoção da gente, por vezes, uma interrogação que nos acompanha pela existência inteira. Ao longo de extensa caminhada como repórter e como estudioso de fenômenos transcendentes, pude reunir expressivo acervo de casos instigantes que, pelo tradicional enfoque da lógica racional, não passam de tremendas charadas de interpretação impossível.

Tenho, com alguma constância, relatado algumas dessas histórias neste trecho de página frequentado habitualmente pelos meus 25 benevolentes leitores. Já que há tanta profecia solta no ar, animo-me hoje a contar a historieta de uma incrível profecia que deu certo.

Abril de 1952. Eu deixava a redação do “Diário do Triângulo”, localizada na avenida Leopoldino de Oliveira, centro da cidade de Uberaba, para uma reportagem. Naquele tempo o córrego das Lajes deslizava, como sugestivo adorno, por toda a extensão da avenida. Não havia ainda sido enclausurado nas entranhas da terra, em nome de uma questionável modernice urbanística. O jornal era dirigido por Souza Junior, filho de Nicanor de Souza, pioneiro no jornalismo diário na região do Triângulo Mineiro.

Procurava um transporte, quando avistei, estacionando nas imediações o jipe de um grande amigo, o então pracista de produtos farmacêuticos José Marcus Cherém. Ele ofereceu-me carona e, atraído pelo assunto da pauta que iria cumprir, dispôs-se a acompanhar-me pelo tempo necessário na coleta dos dados.

É hora, a esta altura, de explicar que o meu deslocamento, naquela manhã, a uma casa modesta, de cinco cômodos, na região da Abadia, prendia-se à intrigante revelação de que no local vinha ocorrendo uma sucessão de fenômenos sobrenaturais que mantinham moradores e vizinhos em estado de sobressalto. Objetos se movimentavam de um lugar pra outro como se mãos invisíveis os empurrassem. Escritos a carvão eram impressos, de repente, nas paredes, ao mesmo tempo que pequenos focos de incêndio irrompiam, brusca e assustadoramente, num ou noutro ponto do lugar. Tinha-se ali bem configurado o que especialistas em parapsicologia costumam denominar de “polstergeit”, expressão vinda do alemão. Cabe, agora, esclarecer que muitos especialistas na matéria costumam estabelecer uma estranha conexão entre o fenômeno e a presença nas moradias em que ocorre tal tipo de manifestação de adolescente em fase inicial de menstruação. Para o pessoal da redondeza a casa era mal assombrada, regida por forças demoníacas.

Seguindo com máxima atenção o que vinha rolando, depois de providenciar a limpeza das paredes da sala onde a escrita a carvão era misteriosamente produzida, tranquei a porta que dava acesso à dependência por uns poucos minutos. Ao reabrir a porta, o inacreditável explodiu diante de nossos olhos. Paredes, teto e piso estavam coalhados de dizeres. A frase mais saliente, espalhada por tudo quanto é canto, anunciava: “Cherém, futuro deputado!” Tomados de assombro, pudemos testemunhar que os registros caligráficos, nos termos descritos, se repetiram por mais de uma vez, até o fenômeno, passados alguns dias, se extinguir, tão subitamente quanto começou.

Os dizeres a carvão tiveram força de presságio. Alguns anos mais tarde, José Marcus Cherém, optando pela carreira política, foi eleito, sucessivamente, vereador, presidente da Câmara de Uberaba, vice-prefeito, deputado estadual, vindo a exercer o cargo de Secretário de Estado. Bem provavelmente, teria chegado, por força de talento, simpatia e méritos, ao Congresso Nacional, caso não houvesse sido arrebatado prematuramente de nosso convívio por enfermidade cardíaca. Lembro-me bem: na semana que antecedeu sua partida, visitando-o no hospital, consagramos, os dois, um bom pedaço do papo fraternal entre amigos de longos anos à rememoração daquela incrível profecia, anunciada de modo tão perturbador e enigmático, numa manhã de abril do ano de 1952, no bairro da Abadia, em Uberaba.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br

sábado, 15 de dezembro de 2012

Belô, 115 anos

Cesar Vanucci *

"Mas que Belo Horizonte!"
(João Paulo II, na Praça do Papa)

As cidades são que nem gente. Possuem aura, esse mágico envoltório da matéria física, com as cores do arco-íris, intuído nas concepções místicas antes de ser aceito na experimentação científica de Kirlian.

As cidades exprimem na silhueta áurica que as envolve o estado d’alma da coletividade. O invólucro de Belô, com sua impressionante concentração demográfica para a juventude histórica ostentada, oferece as cambiantes típicas das tendências, sentimentos, emoções, inclinações, expectativas, crenças e vontades agasalhados em seu território. O tom amarronzado surpreendido aqui e ali denuncia vestígios de pobreza, alojados em morros mal vestidos, onde a ação pela inclusão social do Poder Público e da comunidade tenta se fazer presente, a cada dia de modo mais abrangente.

Azul com matiz de onda de mar

Vê-se, então, que esse tom amarronzado do desenho áurico da cidade não é capaz, o suficiente, de obscurecer o azul com matiz de ondas de mar em dia claro que traduz a contagiante generosidade praticada pela sociedade, como resposta aos perturbadores desafios largados à sua porta na tormentosa questão social.

A cidade apresenta-se, assim, para os que a conhecem, em suas realizações e imperfeições humanas, em seus instantes de glória e horas de frustração, mas que também a amam enternecidamente, com aspecto reluzente, entre o prateado e dourado, indicativos de uma aura positiva, reveladora de boa condição para se viver. Vá lá: o amor costuma turbar um pouco a visão dos fatos. Mas, se a condição de vida da cidade não é de todo a ideal, não deixa de ser, no mínimo, bem razoável, comparativamente com outros lugares importantes deste nosso conturbado mundo.

O amor é um sentimento poliglota

Quando despertou em mim o grande e incondicional afeto que sinto por Belo Horizonte, cidade que me acolheu como filho por obra e arte do ex-vereador José Domingos, aprendi valiosas lições. Uma delas: fiquei sabendo que o amor é um sentimento poliglota, exprimindo-se em diversos idiomas e dialetos. E que, também, no catálogo das vedações morais e éticas, não há lugar para condenações à "poligamia geográfica". O que sinto por Belô é forte e vigoroso, como fogo que arde sem se ver, na lírica imagem camoniana. Mas não é algo que possa subtrair ou empobrecer – e aí reside a beleza da relação – o que sinto pela minha terra natal, ou por recantos outros onde tenha pendurado meigas lembranças de um passado que armazena referências primordiais de minha preparação para o jogo da vida. Amo BH em sua vocação para a ação humanística e social, de marcante influência em meu destino espiritual e profissional. Amo Belô em seu apreço à liberdade e em seu grave senso de respeito democrático, que dela fazem centro de excelência do pensamento político nacional. Amo Belo Horizonte na manifestação soberba de sua cultura e arte erudita e popular. No seu colorido, no rompante de voz, na expressão corporal tão ricos em mineiridade e brasilidade. Amo Belo Horizonte na fraternidade da fala e gestos de seu povo que atingem, completamente, de forma apreciável, os espaços carentes que o esforço oficial não consegue ou não pode alcançar, o tempo todo, com a eficiência desejável. Amo Belo Horizonte, pelo que ela representa como cidade síntese da cultura e do humanismo de Minas e do Brasil. Amo Belô como mulher bela que é. Cheia de graça, "espanta melancolia e consola mágoas de amor", na definição tomada por empréstimo ao Livro dos Cantares.

Jeitão desconfiado da cidade

Quando cheguei a Belo Horizonte, na década de 60, vindo do interior, intrigou-me aquele ar de donzelice ciosa de castas prerrogativas, substituído, em ocasiões inesperadas, por lances de incandescência profana os mais singulares. Encabulava-me o jeitão desconfiado da cidade na acolhida ao forasteiro. Sobretudo o forasteiro das plagas triangulinas. O estado de espírito de Belô parecia-me chegado ao egocentrismo. Algo assim como de alguém que se deixasse extasiar pelo próprio umbigo, elegendo-o centro do mundo, numa overdose de autossuficiência.

Silêncio de tumba etrusca

Minhas avaliações repousavam em conceitos culturais trazidos da origem. Não conseguia, por isso, entender a dificuldade da cidade, caixa de ressonância natural das ocorrências do Estado inteiro, para assimilar os êxitos pessoais de valores que emergiram para a notoriedade nacional, valendo-se de conexões diretas com o Rio e São Paulo, sem passar por estágio belorizontino. Era assim que eu via as coisas com relação a empresários de Uberlândia e Uberaba e seus empreendimentos vitoriosos, solenemente ignorados na divulgação e no apreço da Capital. Recorrendo a alguns poucos exemplos: as pessoas, de modo geral, recebiam com um misto de surpresa e incredulidade revelações do tipo de que em Uberlândia estava plantado o mais importante polo do comércio atacadista do país. Era o caso, também, na literatura, da meteórica ascensão de Mário Palmério às altitudes acadêmicas sem que tivesse obtido o prévio reconhecimento de seu talento pelas respeitáveis elites da inteligência local. Era o caso, ainda, no campo da arte e comunicação, da vertiginosa escalada de sucessos de Augusto Cesar Vanucci não registrada com o destaque próprio por ocasião dos sucessivos títulos ganhos, primeiro no Teatro do Estudante, depois como ator de cinema e teatro, produtor de televisão, com "Emys" e "Ondas" no amplo acervo dos troféus arrebatados internacionalmente, ou como um dos criadores do famoso padrão global de qualidade. Afligia-me também, de princípio, o silêncio de túmulo etrusco estabelecido à volta da portentosa obra de pensadores da altura de Alexandre Gonçalves Amaral e de Juvenal Arduini.

Algum tempo passado, passei a perceber melhor tudo: Belo Horizonte, como toda cidade, é um estado de alma. Coisa de gente. Exprime sentimentos e emoções humanos da coletividade que abriga. Não sentimentos e emoções de deuses ou de anjos. De qualquer modo, aliás, se nos valermos das anotações sagradas e mitológicas, deuses e anjos deixam muitas vezes explodir reações que lembram bastante personagens humanos.

No caso, o sentimento da cidade traduzia melhor as características de outras partes das Gerais. Destas Minas Gerais muitas, na definição do nunca assaz louvado Guimarães Rosa. Das várias Minas, o pedaço correspondente ao Triângulo Mineiro era à época – e foi assim no curso de muitos anos – o de menor peso no conjunto das tendências e variáveis culturais, políticas e econômicas a influírem na formação do pensamento coletivo belorizontino.

Quando o amor irrompeu...

Quando irrompeu, o amor fincou raízes, encorpou-se, espalhou ramagens, adquiriu a feição pronta e acabada de uma empreitada bem sucedida. O processo foi todo repleto de perguntas silenciosas e de avaliações também mudas. As respostas brotavam à medida que eu conseguia penetrar a envolvente matreirice mineira da cidade. Entendê-la em seu jeito de ser tão paradoxal. De um lado, a abertura, diria escancarada para o universal, o holístico. De outro, o recolhimento puritano, provinciano, suburbano até.

Foi assim, desse modo, que me amarrei, afetivamente, à Capital dos 115 anos.

Amor amadurecido, encharcado de compreensão, onde entram todas as cambiantes e entonações dos laços e entrelaçamentos humanos feitos para durar. Mais até: para permanecer. Amor feito de doces e irreveláveis segredos, mistérios e fascínios, como bem se ajusta às ligações que se pretendem eternas.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Cada qual na sua

Cesar Vanucci *

“Não queiram os representantes do Judiciário
 trasladar para a legislação (...) a sua bela atividade de julgar.”
(Alexandre Gonçalves Amaral, saudoso Arcebispo)


Retiro do baú um texto preciosíssimo, de refulgente atualidade. O autor é ninguém mais, ninguém menos do que Alexandre Gonçalves Amaral, primeiro Arcebispo de Uberaba, falecido em 2002, ao seu tempo de pleno vigor físico e intelectual considerado “o maior orador sacro do Episcopado brasileiro” na opinião de outro Prelado ilustre, Dom Benedito de Ulhoa Vieira.

O texto em referência, intitulado “Encantadora harmonia de poderes diferenciados”, divulgado em 1970, encerra uma ode à democracia e projeta, com suprema clareza e sabedoria, o que vem a ser, na verdade, a decantada autonomia dos Poderes. Deixa para os exercentes da vida pública lições lapidares.

Reveste-se de singular importância e oportunidade neste momento da vida brasileira em que assistimos pela imprensa uma polêmica envolvendo representantes do Judiciário e do Legislativo acerca de suas competências institucionais no que concerne à cassação dos mandatos de parlamentares condenados em ações judiciais.

Alexandre, autor de mais de cinco mil artigos de rico conteúdo humanístico e espiritual à espera de uma editora que se interesse pela propagação de ensinamentos que resistem à voragem dos tempos, explica no trabalho que “a harmonia vital, no conjunto orgânico, depende de que cada órgão vivo se desempenhe de toda a sua missão que lhe é assinalada, mas somente dela.” Lembra que “assim é também no organismo social”, recomendando depois aos detentores dos Poderes Públicos roteiros impecáveis de atuação.

Pontua magistralmente: “Não pretendam os legisladores imiscuir-se em questões atinentes ao Poder Executivo. Não pretendam os Agentes Executivos invadir o campo da legislação. Não queiram os representantes do Poder Judiciário trasladar para a legislação ou para a execução a sua bela atividade de julgar. Não queiram as Forças Armadas decidir questões dos outros três Poderes.”

E mais adiante: “Cada qual, na sua esfera de atividade, sem invasões indébitas de responsabilidades alheias e sem fugas covardes às próprias responsabilidades, concorrerá, serena e eficazmente, para a harmonia do organismo social.”

O artigo se alonga em considerações exemplares sobre a conduta ideal que os cidadãos têm o direito de esperar de seus representantes. Assinala, por exemplo, que “a missão de um legislador é bem mais elevada do que a remoção de funcionários públicos, que, muitas vezes pertencem a entidades que deveriam purificar-se de certas ingerências indébitas, dotadas que são de certa autonomia, no campo específico das suas atividades.” Lembra, também, que “muitas vezes, até elementos destacados da comunidade social exigem dos nossos legisladores coisas que não são propriamente da sua alçada”, acrescentando não ser raro “que sejam elogiados os nossos legisladores por realizações marginais à sua nobre função, muito mais do que pelo desempenho discreto de sua nobilitante missão.”

A leitura do trabalho de Alexandre fortaleceu bastante a opinião que tenho ajuizada a respeito do debate ora aflorado na mídia sobre a quem ficará afeta, na queda de braço dos Ministros do Supremo com os Parlamentares, a atribuição de avaliar a conveniência de cassação dos mandatos.

A competência legal, constitucional, não há fugir dessa interpretação, pertence à Câmara de Deputados. O Poder Legislativo, a seu turno, não poderá, de maneira alguma, diante de insofismável imposição moral, ignorar na apreciação do assunto, observados todos os procedimentos regimentares aplicáveis, a suprema gravidade das decisões judiciais condenatórias envolvendo alguns de seus pares. Que cada Poder assuma a parte que lhe diz respeito em sua importante missão institucional. É assim que a democracia funciona.


Recados brasileiros

“Imagino um Judiciário sem firulas, sem floreios e sem rapapés”.
(Ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF)

A qualificação profissional e a condição ilibada do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, que ganhou notoriedade nacional graças ao estilo independente e altivo de sua atuação na relatoria do “mensalão”, respaldam naturalmente a indicação de seu nome para o exercício das importantes funções. Mas as circunstâncias de ser o primeiro patrício negro a assumir o cargo confere uma dimensão extraordinária, de significado histórico todo especial, à escolha.
A democracia brasileira continua a dar provas de sua pujança. Já fez no passado de um ex-pau-de-arara, operário, um Presidente da República. Elegeu Presidente uma mulher. Coloca, agora, no comando da mais alta corte do país um negro. Que belo recado, de sentido humanístico, transmitido a um mundo que, de modo geral, confronta ainda barreiras de difícil transposição para assimilar as diversidades ideológicas, sociais, raciais, culturais, religiosas e se desvencilhar de preconceitos e intolerâncias seculares que costumam, em tantos lugares, tornar a convivência comunitária insuportável!

Na cúpula ibero-americana, em Cadiz, Espanha, a Presidenta Dilma Rousseff fixou, com bastante lucidez, a posição brasileira diante de questões momentosas que afligem a humanidade. Exortou os europeus a combaterem a crise recessiva com medidas de estímulo ao crescimento econômico e social, e não com arrochos fiscais insuportáveis e penalizações severas aos assalariados. Acenou com o exemplo brasileiro, explicitando que a política aqui executada, conferindo primazia ao social, produziu frutos compensadores.
Outra manifestação de Dilma que deixou vigorosa impressão na platéia que a aplaudiu disse respeito à postura diplomática de nosso país com relação aos acontecimentos permanentemente turbulentos do Oriente Médio. Favorável à implantação do Estado da Palestina, inexplicavelmente procrastinada há décadas, desejosos de que israelitas e palestinos consigam estabelecer as bases de uma convivência harmoniosa, os brasileiros repudiam as ações radicais de que a região é palco, desaprovando também a desproporcionalidade no emprego da força militar do Estado do Israel nas retaliações a agressões praticadas por seus opositores.
Fala de verdadeira estadista. Pena que por aqui os grandes veículos de comunicação não dispensaram aos pronunciamentos a atenção que fizeram por merecer.

Na grande mídia nacional, exceção feita à “CartaCapital”, de onde extraio as desconcertantes revelações, nada tenho visto a respeito dos danos irreparáveis causados à saúde pelo amianto. Fico sabendo, numa entrevista dada pelo promotor italiano Raffaele Guariniello, que conseguiu a condenação a 16 anos de prisão dos empresários Stephan Sclmidheny, suíço, dono da empresa “Eternit”, e Jean Louis Marie, da “Marchienne”, que “a história do amianto é um pouco da história da estupidez humana.” Segundo o procurador, “o julgamento na Itália (sobre o assunto do amianto) foi um marco histórico.” “Os dados são inequívocos – garante, adicionando alarmante informação: o amianto causa mesotelioma, um câncer mortal, mesmo para quem aspire pequena quantidade do produto.
Outro dado inquietante, liberado pelos órgãos técnicos da ONU: o amianto mata anualmente cerca de 110 mil indivíduos em todo o mundo.
Estas declarações incisivas, estranhavelmente omitidas ao grande público, ganham enorme significado diante da constatação de que, neste preciso momento, no STF (Supremo Tribunal Federal), vem sendo discutido, obviamente sem alarde, o “uso controlado” do amianto, como desejam as empresas do ramo que operam no Brasil.
No ver do promotor italiano, no interesse da vida humana, o Brasil deveria, adotando política semelhante à que se adotou na Itália e em outros países, proibir definitivamente o emprego do produto.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Decisão recebida com alivio

Cesar Vanucci *

“O mundo inteiro está alegre.”
(Delfim Neto)

Para um punhado de pessoas com razoável grau de percepção das vivências políticas o resultado de uma eleição presidencial nos Estados Unidos não altera substancialmente coisa nenhuma. Tudo tende, no frigir dos ovos, a permanecer como dantes no quartel de Abrantes. Distinguir uma eventual mudança na Casa Branca não é mole. O sabor da alteração equivaleria, comparativamente, ao de se deixar de tomar pepsi pra beber coca-cola.

Muitos sustentam, também, arrolando exemplos frisantes, que Barack Obama deixou uma esteira de frustrações neste primeiro mandato. O desempenho do simpático mandatário mostrou-se aquém das expectativas erguidas àquela hora singular de sua chegada impetuosa, salpicada de esperanças, ao palco internacional.

Tudo isto posto, bem avaliadas as circunstâncias da conjuntura mundial, considerados os senões, alguns desacertos, os descompassos entre promessas e realizações, entre discurso e prática na postura do Presidente, não há como, entretanto, deixar de reconhecer que a escolha eleitoral dos norte-americanos foi ajuizada. Recebida com sensação de alivio em todos os cantos deste planeta azul. O triunfo democrata foi conquistado contra adversário de postura retrograda. Alguém que não hesitou em desfraldar, com ânimo de cruzado belicoso, a bandeira radical de um conservadorismo arrepiante. As teses por ele levantadas, debaixo das ovações de fiéis seguidores, revelaram-se fruto de crenças fundamentalistas desvairadas. Alvejam em cheio anseios generosos da sociedade humana, ávida por paz, desenvolvimento e prosperidade social. Visceralmente comprometido com ortodoxia econômica desalmada, insensível à problemática social, o republicano Mitt Romney deixou inequivocamente gravada no espírito das ruas a disposição de retomar, à frente dos destinos da maior potência do mundo, a mesma desastrada política intervencionista de seu correligionário, o xerife George Bush. Uma política que arrastou o país a uma crise econômica perturbadora e aos atoleiros do Iraque e do Afeganistão. Não manteve oculto, igualmente, em momento algum, o empenho em atropelar as boas políticas sociais em implantação ou expansão promovidas por Obama no âmbito interno. Disse, com clareza de atitudes e de palavras, a que vinha: incrementar o radicalismo em todas as áreas da convivência humana, adotando as regras e conceitos medievais freneticamente apregoados pelo “Tea Party”, grupo hoje dominante nas fileiras republicanas. Um tipo de gente que está para a cultura religiosa e política do conservadorismo norte-americano assim como o talebanismo está para a cultura política e religiosa do islamismo.

A histórica reeleição de Obama comporta observações que não podem passar despercebidas. Os mais de 60 milhões e 500 mil votos por ele recebidos procederam de redutos isoladamente minoritários. Grupos étnicos (hispânicos, negros, asiáticos), grupos jovens, grupos femininos, grupos comprometidos com movimentos contestatórios aos padrões de puritanismo vigentes na vida americana. As minorias compuseram um conjunto de forças majoritário, que se contrapôs, na hora da escolha, àquelas parcelas da sociedade avessas a propostas reformistas, de certa forma preconceituosas, quando não declaradamente racistas, que mesmo não representando, com toda certeza, a integralidade dos votantes de Mitt Romney, constituem parte respeitável de seu contingente de apoio.

Como salientou Delfim Neto, com a eleição de Obama o mundo está alegre. “A exceção – acentua – são os 48% brancos saxônicos e protestantes (os Wasp) que não conseguiram retornar ao século XIX.”


Até em mandarim?

 “É a nossa língua, o nosso modo normal de expressão,
a nossa língua literária e artística.”
(Rachel de Queiroz)

Já disse, já repeti e voltarei a dizer quantas vezes achar necessário. O emprego de expressões estrangeiras para classificar coisas óbvias do cotidiano representa rematada panaquice. Prova de indigência intelectual. Pauperismo cívico e subserviência cultural. Querem saber mais? Frescuragem ampla, geral e irrestrita.

Incomoda pacas, ao cidadão comum, a poluição “sonora”, em não poucas ocasiões agregada à poluição visual, de certos painéis de rua – impropriamente chamados de “out doors” -, de panfletos – impropriamente apelidados de “folders” - traduzida em mensagens publicitárias onde as palavras utilizadas, habitualmente num inglês “morolés”, só guardam similitude com o idioma falado nas ruas por conta das letras do alfabeto.

Tem nada demais levantar com constância assunto tão momentoso. Carradas de razão assistiam a Napoleão quando proclamava, com a mão mergulhada no peito sob o dólmã medalhado, que a repetição é a melhor retórica. A repetição de um conceito, de uma idéia faz, muitas vezes, nascer a luz do entendimento.

Para o cidadão comum é, também, motivo de compreensível desassossego bater com os olhos, numa loja qualquer, com o anúncio em letras garrafais, coloridas, estampado na vitrina, de queima de mercadorias com aqueles indefectíveis “sale” e “off” concebidos com base em leviandade e macaquice. O mesmo a anotar naqueles casos em que se topa, nos lavatórios de restaurantes e botecos, com arrepiantes placas de “lady” e “gentleman”.

Dias passados, percorrendo longo trecho da cidade, dei-me ao trabalho de listar, olhos fitos nos letreiros dos estabelecimentos, uma pá de barbaridades vocabulares perpetradas por conta desse modismo abestalhado. Contei mais de 150 registros fora dos trinques, distribuídos pelos logradouros principais de vários bairros. Constatei que a grande concentração das desbragadas extravagâncias, fruto de deslumbramento que garante aos autores direito a carteirinha de néscio irrecuperável, fica localizada na região sul. Provavelmente, pela impressão que se tem de ser o setor melhor apetrechado para o atendimento de demandas de consumo pretensamente requintadas e sofisticadas, ora, veja, pois... Nas outras regiões o índice das censuráveis manifestações é consideravelmente menor. Taí, convenhamos, material de primeira, manancial exuberante pra elaboração de uma tese sociológica em que possa ser avaliado o grau de comprometimento de grupos e pessoas, de variadas categorias sociais, com os autênticos valores culturais brasileiros.

O mal-estar produzido por esse linguajar de importação, composto predominantemente de anglicismos, verbalizado em doses elevadas de pernosticismo, chega até as pessoas também pelo rádio, pela televisão, jornal, convites impressos. Quantas vezes, no dia-a-dia, o pedante modismo não é praticado pertinho da gente? Vocábulos de nosso belo idioma - que é a própria pátria -, dentro desse malfadado processo de macdonaldização linguística, são descerimoniosamente substituídos pelos intragáveis e incompreensíveis “inside”, “feelings”, “brunchs”, “coffee break”, “feedback” ; “book”, “paper” e por aí vai.

Indaoutrodia inteirei-me de um desconcertante conflito romântico provocado por essa onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Relato a história, alterando os nomes dos personagens. Hildo e Marion estavam de casório marcado. Proclamas publicados, igreja, florista, fotógrafo, canto coral, coquetel contratados, padrinhos convidados, viagem de núpcias paga, convites expedidos. Dias antes do badalado evento, a coisa melou. O noivo arrepiou carreira de repente. Não mais do que de repente. Provocou, naturalmente, uma pororoca de contrariedades e transtornos. Foram cobrar do moço explicação acerca do inusitado gesto. Mandando o constrangimento inicial às favas, ele resolveu contar tudo, tintim por tintim. Informou haver alertado a noiva, em repetidas oportunidades, sobre seu desagrado pessoal com relação às expressões de carinho, por ela – adepta fervorosa desse modismo ridículo - desovada aos berros, em instantes especiais de intimidade. O aborrecimento do noivo decorria, sobretudo, do fato de serem emoções transmitidas em versões estrangeiras. Tipo: “I love you”, “Je t'aime”, “Quiero te mucho”. Mas o que decretou mesmo a discórdia definitiva foi a fala de Marion no clímax do último encontro dos dois. Aos brados, ela sapecou uma frase esquisitíssima e, pelo que se ficou sabendo mais tarde, extraída do mandarim que a moça vem aprendendo com uma professora chinesa do prédio em que mora: “Uo ran ai mi”.

Segundo o Hildo, “o clima passou de verão primaveril brasileiro a espesso outono siberiano. O encantamento escorreu pelo ralo, a relação espatifou. “Uo ran ai mi” foi demais. Não deu pra segurar.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Histórias inventadas

Cesar Vanucci *

“Muitos acontecimentos reais parecem
 inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)


A Internet abriu para a criatividade humana horizontes de amplitude inimaginável. Ruth de Aquino, colunista da revista “Época”, brinda-nos na edição de 8.10.12, no artigo “Sexo, mentiras e Internet”, com um conjunto de informações saborosissimas, recolhidas em meticulosa avaliação que se deu ao trabalho de promover em torno de algumas histórias inusitadas, propagadas com intensidade nas redes, que não passam, no frigir dos ovos, de invencionices armadas com o intuito de divertir. Mas sem que a maioria dos leitores se dê conta, minimamente, de seu teor fantasioso.

Como é explicado, com riqueza de pormenores no artigo, um bocado de pessoas com pendores para relatos engraçados, tem feito uso permanente dos inesgotáveis recursos dessa engrenagem midiática fabulosa, para exercícios delirantes de ficção, revestindo-os enganosamente, com certo charme, de um manto de veracidade. O embuste acaba colando e, muitas vezes, produzindo reações em cadeia inacreditáveis.

O protagonismo do Professor Fabio Flores, capixaba, 39 anos, escritor talentoso, nesse tipo de atividade intelectual, recebe atenção especial da articulista. Esmiuçando seu trabalho, ela o apresenta como um confesso criador de notícias falsas que não pretendem causar mal algum. Aliás, na concepção do próprio, inventor de historinhas que compõem um 1º de abril eterno, não se trata de notícias falsas, mas de notícias fantasiosas.

Muitas delas são conhecidas, por certo, da maioria dos leitores, tendo em vista o grau da repercussão alcançada, até mesmo no exterior. O autor dá nomes, cita lugares, descreve situações, fornece referências. Torna tudo, à uma primeira leitura, irrepreensível, fechando as portas para dúvidas.

Confessa-se verdadeiramente realizado, como criador de cenas e personagens, naqueles momentos especiais, quando, por força da divulgação assumida pelo caso, a história ganha vida própria, desencadeando discussões, provocando reações, sendo trazida a debate público. Essa passa a ser uma hora de comemoração. A invenção adquire a “legitimidade” desejada. Como os personagens só existem mesmo na cachola de quem as escreve, os relatos tendem a não causar dano a ninguém. O alvoroço levantado pelos “causos” pode, sim, dar vaza a efervescente troca de opiniões, a teses, como tantas vezes já ocorreu, mas não deixa de proporcionar aos envolvidos nas eventuais pendengas frutos de natureza pedagógica.

São numerosas as histórias boladas por Fabio e outros comunicadores que atuam nessa mesma excitante linha ficcionista que ganharam ressonância. Aqui estão algumas.

Lembram-se daquele cara que se separou da mulher, numa pequena cidade do interior, para convolar núpcias com o cunhado, um pastor? Foi um desses relatos inventados que tomou espaço considerável na mídia, inclusive no estrangeiro. E aquela outra história da mulher que impetrou ação judicial contra um sacerdote que se recusou a casá-la sob a alegação de que ela não estaria usando calcinha na hora de subir ao altar? Ou, ainda, aquele caso de outra personagem feminina que também bateu nas portas da Justiça, pedindo indenização pela circunstancia de haver sido dispensada do emprego sob a alegação do patrão de que se masturbara no banheiro durante o expediente? Se a memória do leitor está afiada, ele haverá de se recordar que esses dois temas, por incrível que possa parecer, foram parar na televisão, com bate-papos acalorados.

Não será, igualmente improvável que o próprio leitor surpreendido com o conhecimento dessas impensáveis “invenções de moda” já não tenha, nalgum momento, sido chamado, numa roda de conhecidos, a externar sua opinião sobre um desses episódios inusitados, passados marotamente ao distinto público como verazes. E, ao fazê-lo, não haja até se socorrido de argumentos sólidos para defender ou contestar o fato. Isso aí, gente boa. A vida é assim. Muitos acontecimentos reais parecem inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer, como lembra o Professor Antônio Luiz da Costa.


Quem ganhou as eleições


“Nesse pleito, Lula confirmou o que já é do conhecimento
 até do mundo mineral. (...) Trata-se da personalidade mais
 forte da história política do País. (...)Dilma segue-lhe os passos.”
(Mino Carta, jornalista)

Por mais que a grande mídia nativa, por indisfarçável pirracice, se recuse a admitir, Lula e Dilma, seguidos de líderes da base aliada governamental, foram os grandes vitoriosos das eleições. Soou embaraçoso e, mais do que isso hilário, o frenético e sintomático esforço de alguns comentaristas de televisão, durante a marcha das apurações, no sentido de comparar o estrondoso triunfo eleitoral alcançado em São Paulo e adjacências com as derrotas sofridas pelo lulismo em Diadema e Salvador. O lance foi visto, ao lado de outros, como amostra loquaz da resistência obstinada que setores influentes na formação da opinião pública costumam oferecer à idéia de reconhecer a popularidade avassaladora, sem precedentes, em nossa história política, do ex-pau-de-arara e ex-metalurgico por duas vezes eleito Presidente. Resistência essa – não dá pra ocultar com sofismas – ancorada, antes de tudo mais, no preconceito cultivado quanto à sua origem pau-de-arara e operária.

Estabelecida essa constatação, há que se admitir também que os resultados eleitorais, face à complexidade das engrenagens políticas, oferecem sempre margem a interpretações as mais variadas. Isso conduz, no tocante ao pleito recente, à admissão de que a lista dos vitoriosos com visibilidade nacional está acrescida de outros nomes mais. A começar de confessos aliados de Lula e Dilma. O governador Eduardo Campos, neto de Miguel Arrais, desponta entre eles. Figura de maior expressão do PSB, partido da base, expandiu consideravelmente sua influencia na vida política brasileira, com vitórias bastante expressivas, algumas até em posição confrontante com a do governo central. Cacifou-se para voos mais ousados no cenário político. Outro governador de Estado, também engajado nas hostes governamentais, que viu aumentar o peso de sua participação nas decisões partidárias e na ação administrativa central, é Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro.

As próprias hostes oposicionistas, que experimentaram no conjunto, assinaladamente, o sabor acre de contundente derrota nas porfias mais importantes, nada obstante o alentador apoio midiático recebido de forma maciça no curso da campanha, puderam apontar, no final das apurações pelo menos uma situação triunfal entre suas grandes lideranças. É o caso do senador Aécio Neves. Menos pelas vitórias obtidas numa que outra cidade mineira em que deixou explicito seu apoio a candidaturas, o ex-governador viu-se alçado, pelas circunstâncias especiais do desempenho sofrível das lideranças tucanas paulistas, à condição de protagonista central de seu grupo partidário no jogo político brasileiro, daqui pra frente.

As eleições criaram também oportunidade para que outra liderança, apesar da derrota sofrida, ganhasse curiosamente chance toda especial de ascensão no cenário político. Caso do Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, fundador e dirigente do PSD.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A aventura vital de JK

Cesar Vanucci *

“De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos.”
(Afonso Arinos)

Recebi, via Internet, um punhado de mensagens para votar em JK, na consulta popular recentemente promovida pelo SBT. A consulta como sabido, acabou apontando no topo das preferências a figura, por todos os títulos admirável, de Chico Xavier como o maior brasileiro de todos os tempos.

Avaliando os feitos do grande estadista, (110 anos transcorridos de seu nascimento, agora em outubro) não me atenho em dúvidas ao proclamar, que o Nonô, de Diamantina, foi o personagem mais fascinante e influente da vida nacional do século XX. Acode-me à lembrança, a propósito, um presságio bastante lúcido de Afonso Arinos, adversário do genial construtor de Brasília, ao admitir que, dos políticos de sua geração, Juscelino seria o mais reverenciado futuramente na memória popular, por sua extraordinária aventura vital. As comemorações de seu 110º aniversario, neste justo momento, atestam o acerto da previsão.

A primeira imagem que dele conservo remete-me à sua apresentação ao eleitorado de Uberaba, como candidato ao governo de Minas. Gabriel Passos, brilhante opositor, havia passado por lá dias antes, deixando vigorosa impressão. No comício de JK aconteceu algo eletrizante. Uma espécie de prenúncio daquilo que aprenderíamos a identificar como marca registrada inconfundível dos tempos de euforia cívica que estavam chegando O comício teve todos os ingredientes típicos de uma boa festa do gênero. Faixas, banda, rojões, palavras de ordem ditadas pelo alto-falante. Entre uma e outra execução musical – marchas trepidantes culminando com o indefectível “Oh, Minas Gerais” – os oradores procuravam aquecer o público com tiradas retumbantes, na tentativa de suplantar o bom desempenho anterior do palanque adversário. Esmeravam-se na preparação da entrada em cena da estrela principal. Nesse aspecto, como em tantos outros, o time do PSD revelava-se mais competente que o da UDN.

Pintou o grande momento. O locutor, a voz empostada, caprichando na pronúncia dos “erres” e “esses”, anunciou pelas poderosas “ondas” da emissora local “ a palavra do futuro governador do Estado de Minas Gerais, o excelentíssimo senhor doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira!”

O que aconteceu na sequência não dá pra contar em todos os detalhes. A comunidade assistiu, emocionada, o mais empolgante espetáculo político de seus então quase cem anos de emancipação política. As palavras jorravam com a impetuosidade de uma catarata, lavando a alma das pessoas, tocando os brios da cidadania, povoando de esperanças animadoras perspectivas de trabalho, inundando de entusiasmo redivivo crenças adormecidas no amanhã do país. Todos se comportavam como parceiros orgulhosos na arregimentação das forças vivas da sociedade para uma aventura diferente em termos de progresso. Era o que estava sendo proposto por aquele quase desconhecido. Nos semblantes, olhares cúmplices, a sensação deleitosa da descoberta fascinante de uma nova e carismática liderança.

Cada qual se sentia mais gente, mais capaz e confiante. Então o Brasil era ou podia ser tudo isso e a gente, bestamente, não sabia de nada? Instante de pura magia. Atmosfera contaminante de benfazejo entusiasmo. Um entusiasmo que acabaria por envolver, com o correr dos tempos, o Brasil de norte a sul. O magnetismo do orador traçava impecável roteiro de trabalho, encharcado de humanismo e poderoso aceno social. E o que não dizer do toque lírico da palavra incomparável? As tais borboletas que ele sabia como ninguém introduzir nos textos de conteúdo mais áspero. Corações e mentes iam sendo conquistados para a causa do redescobrimento do Brasil.

O momento culminante no comício de Uberaba correu por conta de incrível exagero retórico, acolhido em atmosfera de delírio própria de conquista da Copa do Mundo. Tantos anos passados, as palavras acodem-me ainda com exatidão. Assim falou JK. Abre aspas. Ao sobrevoar hoje esta maravilhosa cidade, lembrei-me de Chicago. Fecha aspas.

O discurso acabou ali. Não deu pra segurar. Uma meia dúzia de uns três ou quatro mais ousados, escalaram pela frente o palanque, balançando-lhe a estrutura. Entre eles, se bem recordo, estavam o Braz, dono de cafeteria, o Bolão, dono de banca de açougue no Mercado, o Maurício, pintor de paredes, dono de uma voz que enchia de encantamento as noites de seresta da turma chegada à boêmia. Juscelino refez-se da surpresa inicial e caiu na gargalhada ao ser arrancado pra fora e carregado em triunfo diante do aturdimento dos companheiros. A cidade viveu um carnaval temporão mais animado do que o convencional. Algo parecido com festejo carnavalesco de avenida carioca.

Exagero retórico à parte – a oposição saiu a trombetear que a comparação com Chicago fora empregada, do mesmo jeitinho, dias depois, no palanque de Uberlândia, mas a revelação não abalou em nada as convicções ufanistas do povão – o que acabou ficando guardado na memória e no coração das pessoas é que estava surgindo um cidadão com papo novo sobre a realidade mineira e brasileira.

  
Anos dourados

“A partir de Juscelino, surge um novo brasileiro.”
(Nelson Rodrigues)

JK – já acentuamos - foi o brasileiro mais fascinante e influente do século passado.

O homem acreditava (e sabia passar essa crença adiante) nas potencialidades do país e nas virtualidades de seu povo. Revelava-se um político que não embarcava na cantilena derrotista de tantos outros políticos que se acostumaram a enxergar os defeitos brasileiros com descomunais lentes de aumento e que só faziam apontar o cidadão aqui nascido, antes de tudo, como um fraco. Um tipo condenado inexoravelmente a destino desprovido de grandeza, submisso eterno, sem perdão, na capacidade de produzir bens, a decisões de gente mais sábia, viventes d’além-mar. JK mostrava-se um nacionalista diferente, que vinha mostrando, já com relevantes atos, a existência, sim, de uma luz no final do túnel. Um homem que transmitia a todos que a obscuridade nos caminhos, passageira, circunstancial, era fruto de obscurantismo, de visão retrógrada do mundo e das pessoas, e não resultado de adversidade fatalísticas e inapeláveis. Que dizia ser preciso passar do discurso para a ação. Os bem-intencionados deviam abandonar o excesso academicista que condenava as propostas sociais a um imobilismo teórico, deixar de lado as fórmulas estereotipadas com seus chavões inócuos, para arregaçar as mangas de verdade e botar pra fazer. Estimular todo mundo a fazer o futuro com engenho e trabalho. Muito trabalho, sem que ninguém se desse por suficientemente trabalhado, por mais que trabalhasse.

Quando ele se lançou candidato à Presidência, o cenário morno, acomodado da vida política nacional, começou a ser revolvido por uma pregação revolucionária, cristalinamente democrática, inspirada em propósitos de autêntica promoção social. Em sua lúcida propagação de idéias novas ele se revelava detentor do conhecimento de que uma sociedade livre não pode deixar de ajudar os muitos que são pobres, pois não sendo assim jamais conseguirá salvar os poucos que são ricos.

O recado continha a pureza da água de regato de montanha intocada pela poluição. Fora do desenvolvimento econômico global, que aproveita a todos como patrimônio comum da sociedade, não há salvação pra ninguém. Mais: o desenvolvimento é filho dileto do trabalho, da educação, da mobilização das virtudes humanas e capacidade criativa do povo. E mais ainda: o objetivo do desenvolvimento é sempre social. Assim falava JK.

As gerações mais novas não viveram os anos dourados do enorme surto de progresso contínuo, o maior até então, que o país já havia atravessado. Os saltos dados, excepcionais, irrepetíveis em anos imediatamente subsequentes, alcançaram pontos essenciais. Mas mesmo para essas gerações, pelas experiências decepcionantes e crises de auto-estima vividas, não fica difícil hoje imaginar o que uma pregação dessas fez fervilhar nos ambientes infensos a inovações progressistas, nas rodas fechadas do imobilismo social, aferradas a paradigmas engessados pelo tempo.

Pra cima de JK, que tinha como aliada a opinião pública consciente, desabaram tormentas de imprecações e “iras santas” muito parecidas, senão mais virulentas, do que esses tornados que, volta e meia, andam explodindo em tantas regiões deste planeta azul para mostrar aos homens que a Natureza não anda nada satisfeita com o que eles andam inventando de desatino contra o meio ambiente.

Quando Brasília foi anunciada, a fúria adversária atingiu níveis tais de paroxismo que a sensação surgida era de que o Brasil iria mesmo acabar. Tribunas e jornais deram curso a afirmações tão disparatadas que a gente se surpreende, tantos anos transcorridos, dentro de análise serena dos fatos, no direito de supor que certos opositores teriam sido recrutados na ala de maior risco de alguma clínica psiquiátrica destinada a pacientes irrecuperáveis. Recorda-me o dito vociferante de um escritor famoso bradando, do alto de embriagadora autossuficiência, a disposição de beber, gota por gota, toda a água que viesse a jorrar no terreno sáfaro onde se estava implantando o lago artificial. Outro cidadão, com muito rancor no coração, coisa nada própria de brasileiro, acusou Juscelino pela morte, em acidente de helicóptero, do então governador fluminense Roberto Silveira, lançando mão de argumento inacreditável. O presidente adotara, desde os tempos de governador de Minas, o “hábito irresponsável” de fazer incursões administrativas com a utilização de helicóptero. O governador do Estado do Rio resolveu imitá-lo, “num gesto de macaquice”. Conclusão “lógica”: o culpado da morte de Roberto Silveira tinha de ser, justamente, Juscelino. Sandices do gênero eram disparadas diariamente na grande mídia, por oposicionistas, políticos invejosos e por colunistas comprometidos com as idéias obscurantistas de uma elite mais falsa que uma moeda de três cruzeiros.


Marcha impetuosa das idéias

“Já não se fazem mais Juscelinos como antigamente.”
(Carlos Chagas, jornalista)

Continuamos falando da legendária trajetória de JK.

Patrazmente, aludimos às sandices sem conta que desafetos e adversários do Nonô disparavam diariamente contra o grande líder, com a ajuda prestimosa da grande mídia, acusando-o de irresponsabilidade gerencial, de favorecimentos ilícitos, de corrupção, por aí afora. Seus colaboradores mais próximos, caso do inesquecível Israel Pinheiro, um homem de bem, administrador de alta competência, eram alvo permanente, como hoje ainda acontece com relação a algumas lideranças populares carismáticas, de grosserias sem conta e acusações as mais despropositadas.

Essa saraivada de doestos não foi suficiente, todavia, para deter a marcha das idéias, a conquista do Planalto Central, a interiorização do desenvolvimento, a industrialização acelerada. A Nação passou a crer em sua força. As atividades produtivas se expandiram. A democracia se fortaleceu. Os investidores estrangeiros apareceram. Nas tratativas internacionais passamos a ser vistos com mais respeito. Os latino-americanos acompanhavam esperançosos os exemplos promissores do país irmão de fala portuguesa.

Costuma-se dizer que somos um povo desmemoriado. Sei não. O caso de Juscelino parece desmontar a tese. Em qualquer lugar deste país, em qualquer tipo de reunião, a citação de seu nome costuma provocar emoções muito fortes. A associação de seu nome com a idéia de progresso, com o desenvolvimento, com promoção humana e social, com o Brasil de nossos sonhos, é aceita como definitiva. Mais do que qualquer outro homem público, JK encarnou, no século passado, o verdadeiro espírito brasileiro, a genuína alma nacional, o sentimento solidário e generoso que povoa as ruas, e até mesmo as qualidades e os defeitos de nossa gente.

Quando a mídia eletrônica levava uma mensagem sua aos lares, despejando todo aquele otimismo, esta mensagem era recebida como aposta certeira em nossa vocação de grandeza. O estado de ânimo popular crescia. As bolsas acusavam alta. As vendas do comércio e da indústria aumentavam. Os empreendimentos brotavam. A palavra do homem infundia respeito e impunha simpatia. Nada dos usuais artifícios enganosos que notabilizam tantos da classe política.

Abra-se parêntese para recolher um exemplo frisante. Aquele do presidente vindo, anos atrás, das Alagoas, arrogantemente arvorado em herdeiro do ideário cívico de JK. Num debate público, gesticulante, furibundo, contando com a cumplicidade maciça da grande mídia, alertou a Nação para a grave ameaça que, segundo ele, estaria para ser perpetrada contra a economia popular pelo seu então oponente, o Lula, de confiscar a poupança, caso viesse a ser eleito. O líder dos trabalhadores – recorde-se - negou peremptoriamente o que lhe estava sendo gratuitamente atribuído. De nada adiantou. E quem foi mesmo que acabou tornando realidade o ignominioso processo? Quem foi mesmo o responsável pelas medidas que levaram aos lares e atividades produtivas frustração dolorosa e desalento? Recolha-se aí prova mais do que provada de que a palavra e os atos, na vida pública, costumam com freqüência palmilhar itinerários inesperados. A generalização pode ser perigosa. Mas, na maioria das falas de graudões políticos, o que se extrai mesmo é desaponto e desesperança. A ponto de, em numerosas vezes, por vivência sofrida, o homem simples do povo adotar procedimentos práticos exatamente inversos dos que lhe costumam recomendar as lideranças.

Não foi assim nos tempos de JK. A confiança popular era total. Ele tinha visão da grandeza de seu País. O Brasil era para ele como o mar. Contemplando-o em sua imensidão e beleza, não fica bem falar-se apenas dos enjôos das travessias de curta duração.

Mas mesmo sendo o ser humano que foi, mesmo realizando o que realizou, mesmo alcançando, ainda em vida, por força de arrojo, idealismo e competência, lugar de proeminência na gratidão e no reconhecimento das ruas, JK não deixou de ser impiedosamente e injustamente alvejado pelas forças minoritárias do obscurantismo intelectual e político que se antepuseram ao seu fecundo e criativo trabalho e às suas crenças democráticas. Cassaram-lhe o mandato parlamentar, baniram-no, num instante trevoso, da contenda política. A grande mídia revelou-se impiedosa e injusta na avaliação de sua obra.Retiraram-lhe os direitos políticos. Mas não conseguiram apagar da memória da Nação seus ditos e feitos.

E quanto aos desafetos rancorosos? Haverá hoje quem deles recorde um ato positivo qualquer, eventualmente praticado?

 * Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Não precisava ser assim   Cesar Vanucci “Esse nosso infernal cotidiano!” (Domingos Justino Pinto, educador) Carga pesada. Isso...