quinta-feira, 27 de outubro de 2011


Seguem-se, para conhecimento do leitor, o prefácio (Olavo Machado Junior, presidente da Fiemg) e a introdução do livro (Cesar Vanucci).


Prefácio

Zé Alencar, um grande brasileiro

Olavo Machado
Presidente da Federação das Indústrias
do Estado de Minas Gerais - FIEMG

Um dia, alguém perguntou ao Zé Alencar: – De onde o senhor é, onde é a sua terra? Com o seu jeitão despachado e bem humorado, ele respondeu: – Tenho muitas. Nasci em uma cidade, trabalhei em várias, casei em outra... Minhas terras são muitas.
É verdade, e tudo começou em um pequeno povoado de nome Itamuri, no município de Muriaé, na Zona da Mata Mineira, onde o nosso Zé nasceu. Aos sete anos, já ajudava o pai, na loja. Aos 15, deixou a casa
dos pais para trabalhar como balconista em Muriaé. Aos 17 ainda era balconista, mas noutra cidade, Caratinga. Aos 18, com 15 contos de réis emprestados pelo irmão mais velho, Geraldo – história que ele nunca se cansava de contar - e emancipado pelo pai, já era dono de loja - A Queimadeira -, uma campeã de preços baixos, em Caratinga.
De lá para cá, Zé Alencar não parou de fazer o que mais sabia – empreender, empreender e empreender sempre, como cidadão, empresário e líder político.
Como empresário, depois de começar como pequeno lojista criou e fez crescer a Coteminas, transformando-a, em poucos anos, em líder de um dos maiores grupos têxteis do Brasil e do mundo. Na política, sem nenhuma experiência e militância anteriores, chegou ao Senado e, em seguida, à Presidência da República – Zé Alencar foi o vice que por mais vezes e por mais tempo presidiu o País.
Nos últimos anos de sua vida, atacado por um câncer insidioso, lutou bravamente, com a altivez que sempre o caracterizou, doando-se como exemplo aos brasileiros, como fez, por exemplo, ao recomendar cuidados preventivos com a saúde e ao recomendar ao então ministro da Saúde, José Carlos Temporão, a instalação de equipamentos apropriados na rede do SUS. É a história deste homem corajoso, múltiplo e singular a um só tempo, que se conta em “José Alencar – Missão Cumprida”, de Cesar Vanucci.
Tive o privilégio de conviver e aprender muito com o “doutor Alencar”, especialmente na FIEMG, onde nos encontramos no começo dos anos 80. Como o leitor verá nas páginas de Missão Cumprida, na Casa da Indústria ele construiu uma grande obra, levando o SESI e o SENAI para as diversas regiões de Minas. Na vida política, foi, sempre, uma voz elevada na defesa da indústria nacional. Discreto, desempenhou missão de reconhecido protagonismo na última década do século 20 e na primeira do século 21.
Como os grandes homens, Zé Alencar era movido por sonhos e, do maior deles, tomei conhecimento em uma história contada por ele mesmo, entremeada por deliciosas gargalhadas: “Ainda vou ver o Brasil ter uma moeda estável. Irei a Paris, pedirei um Borgonha de boa safra e pagarei com o nosso Real. Terei o prazer de ouvir o garçom pedir desculpa, lamentar não ter uma moeda tão forte quanto a nossa e perguntar se poderia me dar o troco em dólar ou em franco”. Este sonho, Zé Alencar ajudou a tornar realidade.
Zé Alencar foi, sim, um homem de muitas terras e de muitas atividades. No entanto, umas e outras sempre convergiram para traduzir o que, de fato, ele foi: um grande brasileiro, dedicado e apaixonado pelo seu País. É assim que me lembro do Zé Alencar. É assim que reverencio sua memória.







Introdução


Missão cumprida

Cesar Vanucci

“Até a morte, tudo é vida.”
(Cervantes, “Dom Quixote”)

A vida humana é finita. Um tremeluzir de relâmpago na vastidão da eternidade. A gente principia a morrer quando nasce. Começa a arrumar a mochila da partida na própria hora da chegada. Richard Bach explica magistralmente o indesvendável e excitante mistério da aventura humana quando registra existir um jeito muito simples de saber se está cumprida a missão de alguém: se está vivo, não está.
No caso de José Alencar Gomes da Silva – o Vice-Presidente que nos conquistou com copiosos exemplos de apreço à causa pública e que nos emocionou com a bravura indômita demonstrada em atos inequívocos de seu dia a dia, mostrando-nos que a vida é um dom precioso a ser desfrutado e preservado – a missão foi cumprida. Esplendidamente cumprida.
É disso que se procura dar notícia no material de leitura da sequência.
Estão aqui enfeixados comentários que lancei, logo após a partida do grande brasileiro, em jornais e blogs, com os quais colaboro, com destaque especial para o “Diário do Comércio”, de Belo Horizonte, e artigos, também de minha autoria, divulgados em momentos anteriores à sua morte.
O livro abre espaço para manifestações de outros amigos e olaboradores do querido personagem. Rememora, ainda, momentos em que Lula e Alencar se enxergaram parceiros de épica empreitada. A empreitada
Que conduziu, numa proeza sem precedentes, dois representantes
da imensa legião dos Silvas brasileiros, ambos de origem humilde, desprovidos do verniz doutoral universitário, mas laureados nas ásperas refregas da escola da vida, por dois mandatos consecutivos, ao supremo comando da República. Mandatos esses transcorridos num período de
realizações incomparáveis que atraíram as atenções e a admiração do mundo inteiro para o esforço irrefreável de nosso povo na conquista do futuro.
A leitura destas páginas concorrerá, de algum modo, para que o leitor, inteirando-se de mais informações a respeito da obra de Alencar em sua peregrinação pela pátria terrena, conclua como ele certamente o fez, louvado em Cervantes (por sinal, autor de sua especial predileção), que “até a morte, tudo é vida.”

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Paralisação dos médicos (1)


Cesar Vanucci *


“O incremento financeiro dos Planos de Saúde foi de 129 por cento.”
(Informação do comando de greve)

 A paralisação, já por duas vezes, em caráter de advertência, nos serviços de atendimento do assim denominado Sistema de Medicina Complementar, pede reflexão serena, em sintonia naturalmente com os anseios populares. A decisão extrema dos profissionais de saúde encerra o mérito de desnudar uma situação que carece ser enfrentada com bom senso e determinação.

A política de remuneração insatisfatória à mão de obra especializada, arrastada a exageros insuportáveis por obra das operadoras dos Planos de Saúde, constitui, iniludivelmente, uma sonegação de direitos. Um acinte, de certo modo, à dignidade profissional. Tende a afetar a qualidade dos serviços prestados. Não há contestar. Os valores pagos pelos procedimentos médicos chegam a ser chocantes. Isso vem configurado nas denúncias trazidas a lume pelos representantes da categoria. O alerta foca a valorização do trabalho profissional, a valorização da assistência ofertada pelos Planos de Saúde. Os médicos confessam-se solidários aos usuários da rede, que sofrem com as glosas e as filas de espera. As indesejáveis situações são denunciadas pela Federação Nacional dos Médicos, Conselho Federal de Medicina, Associações e Sindicatos médicos.

As 1044 operadoras de Planos de Saúde que atuam no País movimentaram, em 2010, estimativamente, 70 bilhões de reais. O número de usuários envolvidos é de quase 46 milhões, o equivalente a 24 por cento da população. Os 160 mil médicos ligados ao esquema realizam 223 milhões de consultas, acompanhando quase 5 milhões de internações.

Entre 2000 e 2009, os reajustes autorizados aos Planos acumularam 133 por cento. O indicador corresponde a 23 pontos percentuais a mais que os 106 por cento registrados no mesmo período pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (INPCA).

No mesmo espaço de tempo, os Planos alcançaram incremento financeiro de 129 por cento. Sua receita global saltou de 28 bilhões para quase 66 bilhões de reais. De acordo com as avaliações dos organismos da representação médica, o valor da consulta, nesse período de expressivos avanços nas receitas e resultados, subiu apenas 44 por cento.

Não poucas operadoras remuneram os médicos, atualmente, na base de 25 reais por consulta. A remuneração por outros procedimentos não deixa também de escandalizar. Por um cateterismo cardíaco, paga-se ao médico entre 149 reais e 305 reais. Uma cirurgia de ouvido é cotada entre 45 reais e 97 reais. Um eletrocardiograma entre 10 e 16 reais. Um ato ortopédico de imobilização de membros fica entre 6 reais e oito reais. E por aí vai...

Outro item de suma gravidade nesse relacionamento desarmonioso, conforme denunciam os médicos, diz respeito à aviltante bonificação oferecida pelos Planos de Saúde aos profissionais que se comprometam – ora, veja, pois! -  a não solicitar exames complementares nas consultas. A aceitação passiva desse inaceitável estado de coisas não pode mais perdurar em nome dos mais comezinhos princípios que regem o relacionamento profissional. Aguarda-se que, com a intervenção óbvia das autoridades responsáveis pela Saúde, o impasse gerado pela intransigência das operadoras dos Planos possa ser desfeito, sem delongas, por meio da celebração de acordos que contemplem tabelas remuneratórias em consonância com o tratamento respeitoso à dignidade profissional ao qual a classe médica faz jus.

A avaliação do que vem ocorrendo inspira também um outro tipo de reflexão, não menos importante.



Paralisação dos médicos (2)


“Uai! Mas os planos de saúde não são gerenciados pelos próprios médicos!”
(Thelma Garcia, usuária de Plano de Saúde)

No arremate das considerações feitas no artigo anterior acerca da paralisação dos médicos, em caráter de advertência, já por duas vezes, nos serviços de atendimento dos Planos de Saúde, chamamos a atenção do leitor para um aspecto essencial a ser debatido nessa questão enfocada pelos prestadores dos serviços médicos. Como é do conhecimento amplo, geral e irrestrito da sociedade, a maior operadora de planos de saúde no território nacional – a Unimed – nasceu de um trabalho de arregimentação promovido no seio da valorosa comunidade médica. Organizada louvavelmente com propósitos cooperativistas, essa instituição detém, no cenário nacional, a maior parcela de convênios na área da prestação de serviços atribuída ao chamado Sistema de Assistência Médica suplementar. A origem de outros Planos de Saúde assemelha-se à da Unimed.

Deplora-se na atuação desses organismos, nascidos sob saudável inspiração cooperativista, o caráter exageradamente mercantilista que, muitas vezes, rege suas ações, em flagrante dissonância com as nobres finalidades propostas em seus começos, objeto de aplausos por parte dos componentes da nobre categoria médica e da sociedade, de modo geral. A prevalência de critérios mercantilistas sobre outros respeitáveis valores tem sido de molde a afetar os interesses dos cooperados e também dos usuários.

Não pode passar sem reconhecimento, ainda, que a Unimed, de modo bastante especial, como outras organizações congêneres, costumeiramente geridas por colégios compostos de profissionais do segmento médico, dispõem de favoráveis condições para desempenhar papel moderador de relevância na política de preços cobrados aos usuários e de remuneração paga aos médicos pelos Planos. Faz sentido, sim, imaginar que a campanha dos médicos em favor de remuneração condigna pelos serviços prestados possa chegar de forma mais rápida aos objetivos almejados a partir do momento em que organizações responsáveis pelos Planos de Saúde, dirigidos por médicos, se compenetrem ser de seu dever alterar substancialmente as linhas da trajetória adotada no relacionamento com a classe que, afinal de contas, representam. A posição dessas instituições com relação ao palpitante assunto balizará infalivelmente a conduta de todo o importante Sistema da Saúde Complementar, criando um relacionamento bem mais positivo com a cadeia usuária.

Esse aspecto essencial no debate em tela não pode nem deve ser subestimado pelas pessoas realmente engajadas na busca de solução justa e equânime para esse  problema da depreciação constante dos valores remuneratórios dos encarregados de zelar, nos consultórios, nas clínicas e noutros pontos de atendimento, pela saúde dos usuários.


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Celebração refulgente

Cesar Vanucci *

"Despertar nos corações o desejo de servir é missão de todo
 Leão e conduz a uma sociedade participativa responsavel... "
(Rosane T. Jahnke Vailatti)


Todos os anos, no mês de outubro, sempre circundada de refulgente brilho, acontece a celebração da “Semana Mundial do Serviço Leonistico”. Trata-se da promoção de maior relevo no calendário de comemorações do Movimento dos Lions Clubes em Minas Gerais. Patrocinada pela Governadoria do Distrito LC-4 de Lions, por clubes da circunscrição, e pela Academia Mineira de Leonismo, contando com o apoio da Assembléia Legislativa de Minas e Sistema Fiemg, a “Semana” de 2011, consagrada a uma reflexão sobre o papel da Mulher na sociedade contemporânea, abrangeu extensa programação. Os atos cívicos e culturais realizados foram acompanhados com vibração por públicos numerosos.

Reportando-nos aos principais eventos, merece destaque, primeiramente, a sessão festiva do dia 1º de outubro, no auditório da Federação das Indústrias. A Academia Mineira de Leonismo empossou, na ocasião, quatro novas Acadêmicas: Carmen Lúcia Camargos Redoan, Maria Celeste Martins, Sonia Maria Queiroga Ferreira e Vilma Raid Fernandes

A presidente da Junta Comercial de Minas, ex-Secretária de Estado Ângela Maria Pace Silva de Assis, proferiu aplaudida palestra sobre as lutas e conquistas da Mulher. A parte artística esteve a cargo da Professora de canto e cantora Renata Vanucci, que interpretou canções da MPB com nomes de mulheres nos títulos. Os trabalhos foram dirigidos por Sóter do Espírito Santo Baracho, presidente da Academia.

No dia 8 de outubro, pela manhã, outra assembléia festiva foi realizada, tendo por palco o majestoso Auditório JK, na Cidade Administrativa, que ficou com as dependências inteiramente tomadas. Autoridades, dirigentes de núcleos do leonismo em Minas e no Brasil, representantes de diversificados setores da comunidade, participaram de belo encontro de confraternização, que serviu para homenagear, de acordo com a temática da “Semana”, Mulheres de singular projeção nas atividades culturais, jurídicas, políticas e sociais.

Rosane T. Jahnke Vailatti, brasileira de Santa Catarina, ex-Diretora Internacional e primeira Mulher a se candidatar à Presidência Internacional do Lions, veio especialmente de Nova Iorque para receber a comenda “JK – Cultura, Desenvolvimento e Civismo”, conferida pela Academia Mineira de Leonismo. Discursou em nome de todas as personagens femininas agraciadas na cerimônia com o troféu “Lions – Solidariedade Social”. As homenageadas com o referido troféu foram Andréia Aparecida Silva Donadon leal, escritora; Ângela Maria Pace Silva de Assis, empresária e ex-Secretária de Estado; Ângela Togeiro Ferreira, escritora; Cely Maria Vilhena Falabella, escritora; Cláudia Brenke Diniz Vieira, dirigente de organizações sociais; Cleube de Freitas Pereira, desembargadora, vice-presidente do TRT; Consuelo Oliveira Schettini, coordenadora de ações sociais; Deli Maria Bianchetti dos Santos, dirigente de trabalhos sociais; Deoclécia Amorelli Dias, primeira mulher a ocupar o cargo de Presidente num Tribunal em Minas; Emília Facchini, desembargadora, Vice-Presidente do TRT de Minas; Geny Gomes de Abreu Labanca, líder comunitária de Aglomerado; Helena Jobim, escritora; Hérica Soraya Albano Teixeira, médica, com trabalhos sociais;  Íris de Avelar Paiva, mentora de ações assistenciais; Ivana Eva Novais de Souza, dirigente de creche; Luzia Maria Ferreira, deputada estadual, primeira mulher a presidir a Câmara Municipal de Belo Horizonte; Macaé Evaristo, Secretária Municipal de Educação de Belo Horizonte; Maria Aparecida Neves Thibau (Cecy Thibau), militante de instituições culturais e humanitárias; Maria Conceição A. Parreiras Abritta, presidente da Academia Feminina Mineira de Letras; Maria de Fátima da Silva Sanson, militante de organizações humanitárias; Maria de Nazareth G.Teixeira da Costa, dirigente de organizações sociais; Maria Edite Pereira Lopes (Didi), Secretária de Assistência Social em Pompeu; Maria José Lage Ottoni, dirigente de ongs voltadas para atividades sociais; Marisa Nogueira Souto Camargos, coordenadora de ações sociais; Maria Norma Moraes Silva, médica, com atuação em obras humanitárias; Rita Jardim Carnevalli, coordenadora da Pastoral da Criança na Arquidiocese de Belo Horizonte; Rosa do Menino de Jesus, dirigente comunitária; e Vera Lúcia Bernardo Teixeira, coordenadora de grupos sociais.

A governadora do Lions, Vilma Raid Fernandes, primeira mulher a exercer o cargo em Minas, explicou o sentido da celebração no discurso de abertura da festividade. Quem também discursou, enaltecendo a promoção, foi o presidente do Conselho de Governadores do Lions, Fábio de Oliveira. Coube a este escriba, como presidente da Comissão Organizadora, também discursar. O pronunciamento será publicado neste espaço na edição vindoura do jornal.

A parte artística da cerimônia, que contou como Mestres de Cerimônia com o jornalista Neymar Fernandes e a presidente do Sindicato dos Artistas de Minas, Magdalena Rodrigues, ficou entregue à magnífica Companhia de Danças do Sesiminas, dirigida pela consagrada coreógrafa Cristina Helena, e do excelente Coral da Assembléia Legislativa , regido pelo maestro Rodrigo Garcia.

Em tudo por tudo, a celebração encaixou-se nos anais do Lions como um momento de esplendor cívico e cultural, com realce para a expressiva homenagem, circundada de afeto, reconhecimento e gratidão, prestada pela instituição a conjunto valoroso de figuras femininas engajadas na construção de um mundo melhor.




Eco e Voz


“Deixei de ser eco. Passei a ser voz!”
(Elza Tamesi)

Este o pronunciamento que fiz, após as saudações protocolares, na celebração do “Dia Mundial do Serviço Leonistico” (8 de outubro), promovida pelo Distrito LC-4 e Academia Mineira de Leonismo, com o apoio da Assembléia Legislativa de Minas e do Sistema Fiemg.

“Saudamos Rosane Terezinha Jahnke Vailatti, tocados pela expectativa e esperança de vê-la galgar, em breve, na condição de primeira mulher a fazê-lo, o topo diretivo da maior organização de serviços do mundo. Recebemo-la aqui, caríssima Rosane, neste amorável encontro de confraternização, juntamente com as outras valorosas homenageadas e com nossa primeira governadora, Vilma, como um símbolo da Mulher deste século 21. Um ser humano na plenitude de suas prerrogativas, que soube sobrepujar penosos obstáculos em sua trajetória emancipacionista, erguidos por milenares despropósitos masculinizantes, nascidos de processos culturais despojados de humanismo e espiritualidade. Valho-me também da ocasião para registrar, com o mais intenso regozijo, o anúncio ontem feito da concessão do Premio Nobel da Paz deste ano, que contemplou três Mulheres valorosas. Da Libéria e do Iêmen, países um tanto quanto esquecidos do resto do mundo.


Minhas Senhoras e meus Senhores,
“Tirante a mulher, o resto é paisagem”. (Dante Milano, poeta)

A dolorida história da emancipação e promoção da mulher simboliza, melhor do que qualquer outro esforço humano de ascensão política, cultural, social, econômica, a história por inteiro das lutas pela conquista dos direitos da cidadania.
Nos óbices defrontados nessas lutas heróicas estão contundentemente inseridos abjetos preconceitos, aviltantes discriminações, asfixiantes camisas-de-força, dogmas esclerosados, presentes, a todo momento, na convivência humana. Frutos malsãos do obscurantismo, do machismo castrador, da insensibilidade para se compreender o sentimento do mundo, o sentido cósmico da vida.

Não é difícil detectar, em instantes de trevas, decretadas pelo preconceito e pela discriminação, que a mulher é invariavelmente penalizada em dobro, em relação ao homem. O racismo a alveja por ser negra, por ser cigana, por ser índia, por ser judia, ou por não ser negra, nem cigana, nem índia, nem judia, e por ser mulher. Ela paga o pato, por assim dizer, por pertencer à etnia errada, em lugares ou momentos errados, na concepção do radicalismo dominante em determinado cenário, e por ser mulher. Por pertencer à religião enjeitada, nas mesmas circunstâncias de ambiente e época, e por ser mulher. Assim por diante.

Comecinho da década de 50, uma cidade do Interior de Minas

Cena da infância, recolhida nas ladeiras da memória. Vejo desenhado ali o perfil da primeira líder feminista que provavelmente conheci. Uma moça de seus trinta anos, dona de semblante extremamente simpático e de corpo bem proporcionado. Trescalava obstinação pelos poros. Revejo-a descendo a ladeira que dava num campo de futebol improvisado, onde a molecada tocava suas peladas movidas a bola de pano, brigas inofensivas e um que outro palavrão ingênuo, às vezes punido com chinelada. A sensação passada era de que Verlaine teria descoberto naquele gracioso desfile vespertino - um gingado coreograficamente impecável - inspiração para seus versos: “Quando ela anda, eu diria que ela dança” (“Quand’elle marche, on dirait qu’elle dance”). Pontualidade, um atributo todinho seu. Podia-se acertar relógio à sua passagem. Naquele justo momento as janelas se fechavam estrepitosamente, em sinal de zanga malcontida. Olhares e murmurações recriminatórios acompanhavam-lhe a trajetória graciosa por detrás das venezianas, até que escapulisse por completo no raio de visão do falso puritanismo entocaiado. Tudo compunha clima de excitante e novelesco mistério. Mistério que aguçava demais da conta a cabeça da gente. Por que as coisas corriam daquela maneira? O que a nossa heroína andava aprontando?

Prepare-se a benevolente platéia para um baita impacto. A nossa personagem, apenas e simplesmente, foi a Mulher que primeiro ousou, naquela aprazível cidade do interior, a desfazer os laços indissolúveis e sagrados do casamento, por meio de proposta de ação de desquite, com um cidadão considerado de reputação ilibada no meio comunitário, ao se ver alvejada constantemente por atos de violência doméstica e pelo comportamento adúltero do parceiro. Ousou mais – “imaginem só o descaramento!” – foi a primeira mulher a desafiar a moral e os bons costumes da sociedade, ao sair vestida de calça comprida nas ruas. E o que é “pior”: às vezes, Santo Deus, fumava em público! Tais lembranças, até certo ponto hilárias, de simbólico surrealismo, chegam a propósito da temática que nos reúne neste amorável encontro de reflexão e confraternização.

Setembro de 2011, sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque

Pela primeira vez na historia da ONU, a Assembléia Geral das Nações Unidas é solenemente aberta com a fala de uma Mulher. Uma brasileira, a Presidenta Dilma Rousseff, Mulher torturada no cárcere, pelo terrorismo de Estado num instante trevoso da história, reconhece, sensatamente, que o Brasil, como os demais paises, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher, confessando-se orgulhosa de representar, naquele instante, todas as mulheres do mundo. As anônimas que passam fome, as que padecem de doenças, as que sofrem violência e são discriminadas, por exploração econômica, pelo farisaísmo encapuzado, por fanatismo religioso, em diferentes latitudes geográficas e culturais do planeta.

São significativos, é bem verdade, em nosso País sobretudo depois da Constituição Cidadã de 88, os avanços conquistas constatados no desenvolvimento pessoal da Mulher. A trajetória de vida de nossas homenageadas oferece, aliás, relato auspicioso dessas conquistas. Mas existe, ainda, forçoso reconhecer, um oceano inteiro de problemas a ser navegado na busca das soluções mais compatíveis, neste capitulo da aventura humana, com a dignidade das criaturas. De qualquer forma há que se celebrar a utilização, cada dia mais acentuada, do real potencial humano criador do antigamente e impropriamente chamado sexo frágil. Considerada por Heidegger, autêntica “clareira do ser”, a Mulher vem assumindo gloriosamente a palavra, como propõe Elza Tamesi ao apontar o rumo a ser seguido: “Fiz um salto na vida. Deixei de ser eco e passei a ser voz!”

E, por derradeiro, como fruto de inquietação do espírito – consciente de que o espírito humano é que nem o páraquedas: só funciona aberto, como lembra Louis Pauwells  -; e, por derradeiro, repito, trago aqui à reflexão, por parte dos que trabalham incansavelmente em favor da construção de um mundo melhor, mas também dos que, por ignorância ou  miopia social, perseveram na pratica de atos que empobrecem e aviltam a dignidade feminina, uma singela interrogação.

Interrogação que pode parecer um tanto quanto  instigante. E se, de repente, no dia do Juízo final, na hora crucial e decisiva da prestação de contas dos atos praticados em nossa peregrinação pela pátria dos homens, cara a cara com a Suprema Divindade, carregando bem nítida a imagem que do Criador de todas as coisas conservamos em razão de amadurecidas convicções religiosas pessoais, e se nessa hora precisa, a gente descobrir, embargados pela emoção, muitos até tomados de santa estupefação, que Deus é mulher?
E negra?
“Negra – evocando belíssimo poema de Langston Hughes, decorado na adolescência distante -, negra  como a noite é negra.
Negra como as profundezas d’África.”     Palavra de Leão!”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Atentado à dignidade humana

Cesar Vanucci *


“Um crime contra a humanidade!”
(Presidente Álvaro Colom, presidente da Guatemala)

Colho num canto de página de jornal, um desses espaços reservados para o despejo de calhaus, como se diz no jargão jornalístico, informação estarrecedora. Apoquenta-me bastante a forma indesculpavelmente “discreta” adotada pela mídia para divulgá-la. Os feitos narrados tiveram impactos extremamente perversos na vida de inocentes de comunidades comprovadamente desprotegidas. Gente arrolada, pela arrogância e prepotência dos “senhores do mundo”, como cidadãos de terceira classe. Alvejados impiedosamente em sua dignidade humana.

Mas de que notícia se está mesmo a falar? Desta aqui: Comissão especial constituída pelo Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a chocante conclusão de que pelo menos 83 cidadãos foram mortos em experiências médicas secretas, promovidas por órgãos governamentais norte-americanos na Guatemala. Aconteceu na década de 40. O relatório a respeito explica que, aproximadamente, 5.500 guatemaltecos foram submetidos a exames e, desses, um total de 1.300 acabaram sendo infectados deliberadamente com doenças venéreas no curso de um programa de cunho alegadamente “cientifico”, elaborado e coordenado pelo “National Institute of Health”, agência vinculada ao Departamento de Saúde estadunidense.

O programa teve desdobramentos entre os anos 1946 e 1948. Os “pesquisadores” norte-americanos, chefiados por um “cientista” de nome John Cutler, usaram cobaias humanas, vários deles portadores de doenças mentais, para apurar se a penicilina, recém descoberta, poderia ser empregada na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. A ação “científica” consistia na inoculação de bactérias de blenorragia e sífilis nos elementos “selecionados”, na maioria, prostitutas. As “cobaias” foram estimuladas a manter relações sexuais com soldados, detentos, doentes mentais, por ai. Os “pesquisadores” acompanharam cuidadosamente a “evolução” dos experimentos, com vistas a compor um alentado acervo de “informações úteis” que pudessem vir a orientar ações terapêuticas futuras em ambientes sociais “mais refinados”, povoados obviamente por cidadãos de primeira classe.

O Presidente Obama, dias atrás, apresentou um pedido formal de desculpas ao Presidente da Guatemala, Álvaro Colom. Este, por sua vez, depois de classificar o apavorante incidente de “crime contra a humanidade”, ordenou fosse feita por cientistas guatemaltecos uma outra investigação.

Fica difícil, pacas, entender o comportamento indiferente, distante, da mídia com relação a assunto tão sério. A desnorteante história lança, também, no ar uma pergunta repleta de sombrios pressentimentos: a experiência levada a cabo pelos “cientistas malucos” teria ficado adstrita única e exclusivamente ao território da Guatemala, ou acabou se estendendo também a outras paragens, igualmente desguarnecidas na época (só naquela época?), do vasto “quintal” latino-americano?





Crise econômica e política


“O problema tem componentes políticos fortes.”
(Paul Krugman, Nobel de Economia, sobre a crise estadunidense)

Muitos consideraram inusitada a afirmação da Presidenta Dilma Rousseff classificando o rebaixamento da avaliação de risco dos Estados Unidos da categoria AAA para AA+ de “precipitado e incorreto”. O rebaixamento em questão, feito pela agência de risco “Standard & Poor’s”, equivale a dizer que o país, em termos financeiros, deixou de ser 100% confiável.

Mas Dilma não está sozinha nesse posicionamento crítico ao diagnóstico da agência. O Presidente Barack Obama, como é compreensível imaginar, foi o primeiro a rebater a reclassificação. “Nós sempre fomos e sempre seremos uma Nação AAA. Apesar de todas as crises, temos as melhores universidades, as melhores empresas e os mais inventivos empreendedores”, jactou-se. E não sem poderosos motivos, forçoso reconhecer.

As agências de risco, para muitos uma excrescência criada com intuitos sombrios a serviço da mega-especulação, costumam cometer equívocos terríveis. O Brasil que o diga. Essa aí mesmo, a “Standard & Poor’s”, ostenta em seu currículo, seguramente sem qualquer laivo de orgulho, a anotação de haver contribuído, de forma enfática, para a turbulência financeira que estremeceu o mundo a partir de 2006, com a assim denominada “crise da subprime”. Essa crise, como se recorda, produzindo reações em cadeia em diversas partes do planeta, lançou os Estados Unidos nos braços da recessão. A recessão se fez mais aguda nesse país com as ameaças de concordata, em 2008, de 274 poderosas instituições financeiras. Todas tiveram que ser socorridas pelo Tesouro, em controvertido processo de ajuda, de modo a conseguirem sobreviver. O “valioso contributo” da mencionada agência à formação da bolha que resultou na quebradeira generalizada consistiu no respaldo proporcionado a organizações que se achavam à beira do colapso total. A essas organizações, a agência não titubeou, na véspera da hecatombe, em atribuir, irresponsavelmente, notas de risco generosas.

Da mesma certeza externada pela nossa Presidenta quanto à inconveniência da reclassificação de risco do EUA partilham outros governantes e figuras exponenciais do mundo das finanças. Paul Krugman, detentor de um Prêmio Nobel de Economia, faz parte do time dos que condenam a atitude da agência. Crítico constante da política econômica de Obama, não deixa por menos: chama a “Standard” de “cara de pau”. Vai mais longe. Sustenta que o problema de seu país, neste momento, não se confina apenas ao jogo financeiro. É um embate declaradamente político. “Nossos problemas – assegura – são causados por um único lado. Mais especificamente pela ascensão de uma direita extremista que prefere criar crises a ceder um único centímetro em suas exigências.”

O que Krugman – volte-se a registrar, crítico veemente da ação política de Barack Obama – tenta passar é a idéia de que o problema que ora atormenta a maior economia do mundo tem componentes políticos fortes. Não se reveste das proporções que se lhe estão sendo dadas.

No Brasil, os ex-Ministros Delfim Neto e Luiz Carlos Bresser, entre outros personagens de destaque na vida econômica, estão também persuadidos de que a decisão da agência revelou-se errônea.

E como fica, afinal de contas, nessa encrenca toda, em cenário tão conturbado, a situação brasileira? É pergunta que se ouve com constância. “O Brasil está hoje mais bem preparado do que no passado para suportar um agravamento da crise mundial” – afiança o Ministro da Fazenda Guido Mantega.

Ele está com a razão.  Falaremos disso na sequência.




ËËËËËËËËËË




POEMA DO ACADÊMICO UBIRAJARA FRANCO

Recebemos, com satisfação, esta colaboração do Acadêmico Ubirajara Franco, da Academia de Letras do Triângulo Mineiro. Poema extraído do livro de sua autoria “O Grito da Terra”:


O CANTO DO UIRAPURU


De repente era um lamento...

Dentro da mata gigante,
como também no deserto,
qualquer barulho incerto,
é enredado pelo vento...

Da velha árvore imponente,
pela cruel serra abatida,
era o clamor inocente
de uma triste despedida.

De estalo em estalo tombando,
num triste adeus à floresta,
a silhueta  de seus galhos
eram mãos postas rezando.  

Os pássaros assustados,
seus ninhos abandonados,
partiam todos gritando...
E também a bicharada,
fugia em debandada,
a todos atropelando!...

E aquela virgem floresta,
que ficava bem à beira
do grande Rio Madeira,
viu quando o IRAPURU
-  pássaro sagrado  -
diante dessa malvadez,
partiu, voando de vez...

E aquela parte da mata,
ficou vazia de animais,
de pássaros e de aves,
que foram pra nunca mais...

E o que das árvores resta,
já não se chama floresta.
Quase todo santo dia,
por maldade, por ambição,
alguma daquelas velhas árvores
é morta sem compaixão!

Nunca mais do lobo o uivar,
naquelas noites de lua,
ou da pantera o rosnar,
que sua força acentua...
Não mais o tamanduá  as formigas devorando;
não mais fétido gambá,
seu predador espantando...
Também falantes araras,
enfeitando o azul do céu,
e o bando de capivaras,
nadando no brejo ao léu...
Ou o lamento do sofrê, o grito do gavião;
os arrulhos das juritis, o assobio do azulão.
Não mais aquela mina, a escorregar cristalina,
e também a cachoeira,
colorindo a mata inteira!...

E naquele santuário, fez-se pista clandestina,
onde pousam aviões, transportando  cocaína!
E o canto do UIRAPURU,
desde então entristeceu,
e, cada vez, mais baixinho,
EM SEU PEITO EMUDECEU...

 
                               

A SAGA LANDELL MOURA

  As duas frentes de luta na Amazônia   Cesar Vanucci   “A Amazônia corre risco permanente por causa da devastação e por causa da ...