sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Testemunho implacável

Cesar Vanucci *

“Houve um engano. Mandarei soltá-los imediatamente”.
(Ziereis, impiedoso chefe de campo de
concentração, para seus prisioneiros “voluntários”)

Muitas coisas relevantes, intrigantes, registradas em livros acabam ficando perdidas no torvelinho das informações liberadas para o conhecimento humano. Assim tem sido desde sempre. Mas, nesta era moderna de comunicação eletrônica massiva e sofisticada, responsável pela expansão contínua, numa velocidade estonteante, do volume de dados ofertados à consulta do distinto público, a incidência de fatos e flagrantes de vida expressivos, encobertos pelas névoas do desconhecimento ou do esquecimento, assume dimensões incalculáveis. Um mundão de revelações valiosas fica à deriva do conhecimento geral. Permanece oculto das atenções numa página qualquer de um livro empoeirado numa estante silenciosa.

Em “O homem invisível”, H.G.Wells, um baita contemporâneo do futuro, registra que “nesses livros poeirentos (...) existem maravilhas e milagres”. Jacques Bergier, coautor do fabuloso “O despertar dos mágicos”, dá razão a Wells quando admite, prazerosamente, que os livros científicos, as revistas científicas, entre outras publicações, estão realmente repletas de maravilhas. Basta que nos fixemos no trabalho de procurá-las. Ando fazendo isso com alguma frequência. O propósito é compartilhar, de vez em quando, com os benevolentes leitores algumas coisas interessantes não devidamente divulgadas, ou insuficientemente conhecidas, quando não completamente ignoradas.

Escolhemos para começo de papo nesta bem intencionada empreitada um relato incrível a respeito da atitude de singular desassombro assumida, em circunstâncias terrivelmente amedrontadoras, por um punhado de adeptos do movimento religioso “Testemunhas de Jeová”. A história é contada pelo já citado Bergier.

O autor foi testemunha ocular dos fatos, acontecidos na primavera de 1944 no campo de concentração de Mauthauser. Encontrava-se encarcerado naquele antro de horror devido à sua condição de judeu, vítima do nazismo. Os guardiães do sinistro lugar receberam, de certa feita, não escondendo o aturdimento, uma leva de prisioneiros fora do comum. Eles reivindicavam (e foram atendidos pelas autoridades alemãs) acolhimento, como reclusos, com todas as “regalias” inerentes à terrível condição, num campo de extermínio dos muitos criados na época pela paranóia hitlerista. Jacques Bergier toma da palavra: “Como todo mundo na Alemanha – ao contrário do que se afirmou depois – sabia o que se passava nos campos de concentração, esta atitude (dos adeptos da referida corrente religiosa) era, no mínimo, surpreendente. Por isto Ziereis, o fuhrer do nosso campo, tratou de interrogá-los logo. Ficamos sabendo bem depressa o que se passava. Os recém-chegados declararam: - Somos “Testemunhas de Jeová”. Disseram-nos que aqui são cometidos crimes. Queremos ser testemunhas diretas disto e, no dia do Juízo, colocados à direita de Deus, lhe prestaremos, pessoalmente, conta do que vimos.”

Bergier acentua, nesta parte da narrativa, que o empedernido chefe nazista, homem que parecia não ter medo de nada, estremeceu diante do depoimento ouvido. Disse às “Testemunhas de Jeová” enfileiradas diante dele: - Houve um engano. Mandarei soltá-los imediatamente.

O que sobreveio na sequência só fez aumentar a estupefação dominante. Fitando o temido carcereiro, os “prisioneiros voluntários” puseram-se a gritar em coro palavras ofensivas a Hitler e ao nazismo. Entre outras: “Morte a Hitler!”

Bergier completa o relato do incrível episódio: “Não houve escolha, tiveram que ficar no campo. Morreram todos no crematório. Contudo, não gostaria de estar no lugar de Ziereis – que abati pessoalmente no dia da Liberação – quando tiver que prestar esclarecimentos diante do Todo-Poderoso.”

A história que fala desse posicionamento destemido de membros das “Testemunhas de Jeová” frente às atrocidades cometidas nos campos de concentração acha-se inserida num dos capítulos do livro “Passaporte para uma outra Terra”. O capítulo tem por subtítulo “Os Imortais”. Os comentários expendidos pelo autor contemplam a hipótese da imortalidade física. A inserção das “Testemunhas de Jeová” no contexto decorre de uma crença alimentada por membros do movimento religioso, segundo a qual alguns seres imortais, com missão espiritual importante, já estariam habitando este nosso planeta.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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