sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Pulga atrás da orelha...

Cesar Vanucci

“As coisas que deixam a gente com a pulga atrás da orelha
são tantas, que já não dá mais nem pra saber quantas”.
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Na animada e tradicional roda de papo aos sábados, à volta da mesa de bar em Santa Efigênia, entre umas e outras comedorias e bebericagens, sem exclusão de talagadas da legítima – aquela que prostrou o guarda -, a moça rechonchudinha, de olhos verdes faiscantes e sonhadores, analista de sistema de profissão, emprega nos argumentos expendidos, mais de uma vez, a expressão “pulga atrás da orelha”. É indagada acerca da origem do dito. Confessa não saber, prometendo explicação pra depois.

No encontro da turma, semana seguinte, ela traz as informações solicitadas. Esclarece havê-las colhido na internet. “Estou (fico, ando) com a pulga atrás da orelha” é expressão bastante antiga. Há quem garanta que sua origem está plantada no finlandês antigo, mais especificamente nos termos “Tati pulgui nai trai orei”. Teria surgido de contexto envolto em mistério, vinculado a lendas vikings. Significa ter suspeitas de alguma coisa ou de alguém, alimentar desconfiança sobre um fato específico, mostrar-se intrigado quanto a determinado dado ou revelação.

Por bom pedaço de tempo da história a pulga molestou bastante os seres humanos. Verdadeira praga, favorecida pela inexistência de “inseticidas”, venenos ou qualquer outra substância eficaz para espantá-lo, o inseto se alojava em tudo quanto é canto. Formava verdadeiras colônias em almofadas, armários, infernizando a vida de todo mundo. Nos países onde predomina o idioma espanhol – que não passa mesmo de “português cadenciado por castanholas”, segundo estudiosos de linguística -, a pulga é substituída por mosca, sem que se conheça do motivo.

A expressão soa então assim “tener la mosca detras de la oreja”. Pulga ou mosca, não importa. A sensação é sempre a mesma, quando a gente se surpreende em desconforto, desconcertada, intrigada face a inesperadas circunstâncias.

Voltemos ao encontro dos sábados no bar de Santa Efigênia. Satisfeita a curiosidade acerca da sentença proferida na prosa anterior pela moça rechonchudinha de olhos verdes, faiscantes e sonhadores, alguém da patota lembrou que a conversação fiada dos sábados, contemplando temas variados, fomenta sempre substanciosos debates. Sugeriu, à vista disso, aos presentes a anotação, ali, na hora, de casos da atualidade suscetíveis de deixarem pessoas “com a pulga atrás da orelha”. Acatada de pronto, a proposta rendeu desdobramentos assaz interessantes, abaixo mencionados.

O primeiro a tomar da palavra declarou-se desconfiado “coisa que preste”, com lance, em seu modo de entender, provocado pelos critérios carregados de perfídia da geopolítica. Não há como entender – enfatizou - o silêncio sepulcral mantido pela mídia em torno do que vem rolando presentemente na Síria conflagrada. Até bem pouco tempo atrás – pontuou - o conflito, de características genocidas, era explorado em estrondosas manchetes, dia sim, outro também. De repente, não mais que de repente, caiu em total esquecimento, como se as escaramuças houvessem cessado e a paz tivesse sido alcançada. Por qual motivo?

Na mesma linha de raciocínio do colega, outro integrante da turma - de descendência espanhola, fez questão de frisar – se disse incomodado, com “la mosca detrás de la oreja”, por causa do comportamento indiferente da mídia e lideranças mundiais com relação a mais um fato perturbador.  As ações do famigerado EI (Estado Islâmico) parecem inteiramente concentradas, de pouco tempo pra cá, na banda de lá do planeta. Ou seja, em países periféricos do Oriente. Isso dá o que pensar. Dá margem a sinistra suspeita.  Será que, entre patrocinadores ocultos dos fanáticos extremistas e dirigentes das potências providas de poder suficiente para combatê-los e eliminá-los, não teria sido estabelecida uma trégua forjada em sombrios bastidores? Uma negociação de cláusulas mafiosas, implicando em espúrias conveniências, vantagens e concessões, mode quê impedir temporariamente fiquem alguns países do Ocidente de fora das nefandas agressões praticadas pelos desvairados terroristas? Essa é de dar calafrio, não é mesmo?

Do mesmo tipo de raciocínio se valeu o encarregado do comentário vindo na sequência. Disse ele: “A ferroada que sinto atrás da orelha fala igualmente do súbito emudecimento midiático a propósito do que vem ocorrendo nas sofridas paragens venezuelanas do caudilho Nicolas Maduro. Por quê parou o noticiário atinente aos graves problemas existentes por lá? Parou por quê?”

O que se ouviu de mais um integrante do grupo seguiu a toada dos companheiros: “Reporto-me a outra coisa danada de instigante. Incomoda-me, como cidadão, não ver ninguém de expressão exponencial na esfera internacional se esforçando por explicar o gritante desinteresse que prevalece neste momento acerca do que acontece nos chamados centros de detenção para imigrantes instalados na fronteira dos Estados Unidos com o México”. O comentário crítico foi complementado com a estarrecedora narrativa de que centenas e centenas de crianças, até de colo, separadas dos pais há um tempão, bem como adultos, de diferentes nacionalidades, recolhidos a esses centros de detenção, vêm comendo “o pão que o diabo amassou”. Vivem (modo de dizer) em “guetos” que recordam aqueles destinados a “alojar” judeus na tenebrosa era nazista. Mas – pasmo dos pasmos! - não se ouve, por parte das grandes lideranças da comunidade internacional, o clamor vigoroso contra tamanhos absurdos reclamado pela indignação da consciência humana.

Sobraram pra depois as observações do restante do grupo atinentes a coisas que andam rolando por aí e que têm deixado viventes de sensibilidade social aflorada “com a pulga atrás da orelha”.

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