sexta-feira, 21 de agosto de 2020


100 mil

Cesar Vanucci

O Brasil é um caso singular de fracasso no combate a pandemia”.
(Esther Dweck, Professora universitária)

Cem mil. A esta altura, já bem mais que isso. Cifra atordoante. Machuca bastante imaginar que muita coisa poderia ter sido feita, em termos de ação política e administrativa, de modo a evitar que a questão assumisse feitio catastrófico.
O negacionismo persistente, a ponto de causar forte irritação, por parte de personagens institucionalmente investidos da indeclinável responsabilidade de conduzir o processo de combate tenaz à pandemia, fez com que ela ganhasse proporções calamitosas. É o que demonstra, irrefutavelmente, avaliações comparativas entre o que está acontecendo por aqui e o que vem sucedendo noutras paragens do mundo. Todas elas, igualmente, molestadas pelo vírus impiedoso de origem misteriosa. Em matéria de vidas preciosas, aniquiladas em curtíssimo espaço de tempo, o corona provocou “impacto Hiroshima” na história do País.

Sem que se possa enxergar ainda luz redentora no final do túnel, nessa avassaladora progressão da enfermidade, as estatísticas continuam produzindo calafrios a cada boletim noticioso. O contingente de vitimas fatais no território nacional supera a população inteira de 95% dos municípios da Federação. Estamos colocados em incômodo segundo lugar, com a “possibilidade” até de superar os Estados Unidos, no macabro “ranking” de casos de contaminação e mortes. Naquele país irmão são 4 milhões e 90 mil infectados e 162 mil óbitos. Aqui, 3 milhões, 15 mil pessoas contaminadas e, no momento em que estas linhas são digitadas, quase 110 mil vítimas fatais. Índia (mais de um bilhão e  duzentos milhões de habitantes), China (1,5 bi de habitantes), Rússia (população superior a do Brasil), México, Chile, Peru, Inglaterra, Itália, França, Espanha, Irã, Japão, África do Sul, Canadá, Argentina estão, citando exemplos, posicionados abaixo do Brasil na tétrica marcha dos perturbadores algarismos.

Os dados oficiais vindos a lume têm, volta e meia, suscitado de certo modo alguns questionamentos. Analisando o quadro universal, há quem admita que Rússia e China, por exemplo, camuflem a realidade, por conta usual de transparência política. Estariam sonegando informações. O mesmo poderia estar ocorrendo também com a China, com seu modelo fechado de governança.

Relativamente ao próprio Brasil, aqui e ali espocam desconfianças quanto aos números divulgados. Eles não expressariam a realidade nua e crua. Os jornalistas Fábio Dakabashi e Flávia Faria, comentando os desnorteantes 100 mil, asseveram que o “marco alcançado é relevante”. “Porém – acrescentam –, este marco é calcado em dados imprecisos.” “Ele (marco) desperta a oportunidade de fazer um balanço da extensão da doença, das ações de gestores e da população. Mas foi agora mesmo que se chegou aos 100.000 mortos no Brasil? Categoricamente, não!”

Seja como for, são fartas as evidências acumuladas, em observações aguçadas do problema, das devastadoras consequências da pandemia no cenário nacional. As circunstâncias de o número de habitantes em nosso país representar pouco mais de 2,5% da população universal e de o número de mortos pela Covid-19 somar quase 15% dos casos fatídicos apontados nas estatísticas globais são revelações eloquentes de que muita coisa vem funcionando de mal a pior no enfrentamento, nestes nossos pagos, do flagelo que se abateu sobre a humanidade. As causas dessa colossal encrenca político - administrativo têm “explicação”: inabilidade gerencial, autossuficiência embriagante, negligência, despreparo gritante para exercício de liderança, insensibilidade social. E por aí vai...

100.000 mortos. Já mais até do que isso. Não precisava ter sido assim! Teria bastado um pouco de bom-senso, disposição para servir e sintonia verdadeira com o sentimento nacional.

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