sábado, 2 de abril de 2022

 

Duas mulheres

                                                                       Cesar Vanucci

 

“Coragem é a dignidade colocada sob pressão”

(John Kennedy)

 

A boa memória de distinto integrante de meu reduzido, posto que leal e assíduo leitorado, relembra artiguete divulgado anos atrás, sugerindo sua republicação.

Quando John Kennedy foi assassinado em Dallas, há 59 anos, vítima de conspiração que clama até hoje por explicação, uma rede de televisão dos Estados Unidos retirou do ar a programação, colocando no lugar uma vinheta com a palavra “vergonha”. Foi a forma encontrada de traduzir a santa ira da sociedade diante da ocorrência que afastou da cena mundial uma liderança carismática, comprometida com a construção de estruturas sociais e políticas mais justas.

O estado de choque causado, anos mais tarde, no Brasil, com a cassação dos direitos políticos do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira povoou os corações brasileiros de emoção bem parecida. A sensação de “vergonha” ficou estampada nos semblantes das pessoas nas ruas brasileiras. Só que, por motivos óbvios, era difícil, pra não dizer impossível, aparecer alguém com suficiente ousadia para tornar pública, como ocorreu na rede de televisão estadunidense, sua compreensível indignação.

No entanto, para espanto geral, apareceu um casal em Uberaba – educadores de escol, sem qualquer militância política – que não se intimidou com as chuvas e trovoadas da tormenta política da hora. Os nomes da destemida dupla: Alda Vanucci Loes Frateschi e Alberto Frateschi, ambos de saudosa memória. Ele, maestro renomado, ela esplêndida guerreira consagrada a causas culturais e humanitárias. Ambos fundadores do conceituado Conservatório Musical de Uberaba. Em manifesto de página inteira, estampado nos diários “Correio Católico” e “Lavoura e Comércio”, Alda e Alberto expressaram indignação e inconformismo. Deixaram cravado, para a história, em soberbo pronunciamento, o seu protesto. Um exemplo isolado e raro de coragem cívica, extremamente valorizado do ponto de vista da cidadania, por haver brotado de pessoas do povo não envolvidas em tempo algum nas engrenagens sedutoras do poder político.

Anos depois. A Polícia Militar de Minas prestava, numa bela cerimônia, tocante homenagem à memória de eminente personagem de seus valorosos quadros, o coronel Américo de Magalhães Goes. Um humanista dotado de invejável bagagem cultural. Desfrutei, na adolescência, por curto espaço de tempo, de sua convivência e sabedoria. O agradecimento pela carinhosa manifestação de apreço, nos instantes finais da cerimônia, ficou a cargo da viúva, a também saudosa Anita Rosa de Magalhães Goes. Num discurso memorável, repassado de emoção, acompanhado com atenção e respeito por centenas de convidados, autoridades civis e militares graduadas, em ambiente onde se podia ouvir o zumbido de inseto, ela falou, inicialmente, de sua gratidão. Para revelar depois, em tom de veemente lamento, expressando revolta, que naquele preciso momento um grande amigo seu, Juscelino Kubitschek de Oliveira, encontrava-se injustamente preso, depois de haver sido injustamente cassado. Mesmo os que conheciam e admiravam Anita pelos seus extraordinários dons humanísticos, autoridade moral e engajamento em causas nobres na defesa dos direitos das pessoas, ficaram surpreendidos e eletrizados com esse gesto de notável destemor.

Estou contando essas historietas, primeiramente, para realçar posturas pessoais dignas de louvor, como contribuição à memória cívica. E, segundamente, para dizer, com certa pontinha de orgulho na fala, que essas mulheres são, ambas as duas, modéstia à parte, primas deste desajeitadíssimo escrevinhador.

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