sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Quintana por Quintana




Cesar Vanucci *

“A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.”
(Mário Quintana, poeta)

Cai-me às mãos, trazido em meio as torrentes de informações despejadas pela internet, um texto delicioso do grande Mário Quintana. Intitulado “Mário Quintana por Mário Quintana”, ele foi escrito pelo poeta para a revista “IstoÉ” e publicado na edição de 14.11.1984.

Vale a pena transcrevê-lo. Quintana toma da palavra com aquele jeito indômito e, ao mesmo tempo, meigo, todo seu, onde a beleza da linguagem se entrelaça admiravelmente com lampejos da verdade cotidiana. Na seqüência, alguns esplêndidos achados poéticos de seu criativo repertório são adicionados à matéria.

Assim falou Quintana:
“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.
Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas...
Aí vai ! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura : 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura.”

E, agora, vêm alguns ditos inesquecíveis desse grande arauto da lírica brasileira:

Quem não compreende um olhar
   tampouco compreenderá uma longa explicação.

Não importa saber se a gente acredita em Deus:
   o importante é saber se Deus acredita na gente...

O despertador é um acidente de tráfego de sono...

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

Todos esses que aí estão atravancando meu caminho,
   eles passarão... eu passarinho!

Esta vida e uma estranha hospedaria
   De onde se parte quase sempre às tontas,
   Pois nunca as nossas malas estão prontas,
   E a nossa conta nunca está em dia.

Não te abras com teu amigo
   Que ele um outro amigo tem.
   E o amigo do teu amigo
   Possui amigos também...

O tempo é a insônia da eternidade.

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

O segredo é não correr atrás das borboletas...
   É cuidar do jardim para que elas venham até você.

Bilhete
   Se tu me amas,
   Ama-me baixinho.
   Não o grites de cima dos telhados,
   Deixa em paz os passarinhos. / Deixa em paz a mim!
   Se me queres, enfim,
   Tem de ser bem devagarinho,
   Amada, / Que a vida é breve,
   E o amor / Mais breve ainda.

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais:
   O excesso de gente impede de ver as pessoas...

Dupla delicia. O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao
   mesmo temo acompanhado.

Geografia. O mais sugestivo é que esses países afro-asiáticos sempre nos
   parecem afrodisíacos.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

2 comentários:

India25.000anos disse...

Parabéns pela ótima iniciativa do blog. Obrigado pelo artigo sobre o Lula. Achou que resume em poucas palavras o brilhantismo da sua passagem histórica pelo governo. Aguardamos por mais pérolas vindas da sua pena reflexiva.

Anna Angélica disse...

Transcrever e descobrir Quintana é sempre uma delícia: para os olhos, que miram a plenitude de uma vida bem vivida; para o coração, que se acalma numa inquietude ansiosa de viver e para a mente, que descobre que não existem limites para imaginar... Quintana tranpira muuita vida!

"Amigos não consultem os relógios quando um dia me for de vossas vidas... Porque o tempo é uma invenção da morte: não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira".

A SAGA LANDELL MOURA

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