sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quem diria, quem diria...

Cesar Vanucci *

“Os vícios de outrora são os costumes de hoje.”
(Sêneca – 55 a.C a 39 d.C)


Pegando mundo e meio de surpresa,o Papa Bento XVI, do alto de sua cátedra atrelada a valores exageradamente conservadores pro gosto da maioria, mesmo católica, resolveu soltar o verbo. Em entrevista transformada num livro pelo jornalista alemão Peter Seewald, opinou sobre um tema comumente encarado como espinhoso. Justificou o uso da “camisinha” quando o objetivo seja evitar a contaminação da aids. Palavras textuais do Pontífice: “Trata-se de um primeiro passo na direção de uma moralização, de tomada de responsabilidade, mas não é realmente a maneira certa de enfrentar o mal da contaminação pelo HIV.” Porta-voz do Vaticano complementou a declaração, dizendo ser a mesma válida para todos: homens e mulheres heterossexuais, homossexuais e transexuais. Com um porém, todavia, contudo: o veto ao preservativo para fins contraceptivos permanece...

A manifestação papal, recebida com relativo alívio por ativistas de direitos humanos, causou grande repercussão, como não poderia deixar de ser. Fez também aflorarem na lembrança de muita gente episódios embaraçosos, de épocas não tão distantes assim, relacionados com o uso de preservativos. Na crônica de hoje e na que se lhe segue reporto-me a dois episódios retirados do baú.

Candinho era o que se poderia chamar de moleque endiabrado. Nove anos de peraltices. Falo de um tipo de travessura inofensiva, tempos da escola risonha e franca, comecinho da década de 40, quando o golquiper do Uberaba Sport se chamava Yé. O danado do menino morava na rua Alaor Prata, Uberaba. Colegas de escola, participávamos das peladas de rua, movidas a bola de pano, um pouco de briga, palavrões, de quando em vez interrompidas por conta de um chute mal calibrado estourando a vidraça da casa de dona Lili.

Naquele dia, Candinho entrou em casa carregando uma vareta de bambu com estranhos objetos dependurados na ponta. Chegou até a cozinha, onde Gertrudes, a mãe, quitandeira de mão cheia, assídua e pontual frequentadora da missa das seis na Igreja dos dominicanos, preparava um bolo de fubá afamadíssimo, cuja receita se recusava, egoisticamente, a passar pras conhecidas. No minuto em que, ajeitando os óculos, se deu conta da natureza dos penduricalhos trazidos pelo filho, a santa criatura quase teve um troço.O que saiu da garganta foi mais um uivo de animal ferido. Reboou por toda rua. Ameaçando o filho com o chinelo, afogada em lágrimas, a bondosa mulher perdeu o fôlego, tendo que recorrer aos sais aromáticos. O que se introduzira naquele lar honrado, guardador de acrisoladas virtudes, temente a Deus, eram mercadorias repulsivas cuja citação a moral e os bons costumes desaconselhavam em roda de família. Como os tempos são outros, prá não espichar a curiosidade do leitor, vou dando logo nome aos artigos causadores do bafafá, artigos reservados para pecaminosas ações, despojados ali do invólucro de papel, soltos ao vento: camisinhas de vênus. Um punhado. Ficou óbvio que o guri não tinha consciência da real serventia do material. Tanto que, sem propósito de fazer troça, assustado, sugeriu candidamente fosse "colocado ar naquilo prá virar bexiga", ou, então, que se fizesse linguiça "daquelas tripas", enchendo-as de pedaços de lombo. Na casa tomada por pequena e alvoroçada multidão alguém comentou com Jerônimo, pai de Candinho, convocado às pressas no serviço, que as camisinhas haviam sido dadas pelo dono da farmácia da esquina. O já transtornado Jerônimo virou bicho. Todos se assustaram ao vê-lo anunciar um acerto de contas, garrucha na cinta, a costumeira mansidão de boi transformada em fúria de leão. Guilhermina, respeitada pelos dotes de benzedeira, persignando-se, bradava para quem se dispusesse a ouvi-la, seu refrão predileto: "O mundo tá perdido! De mil passou, mas a dois mil não chegará!" Descobriu-se, adiante, com a mediação do pároco, que a história do farmacêutico tava mal contada. Os preservativos haviam sido largados, isso sim, num terreno baldio perto da farmácia. O pai injuriado foi dissuadido de tomar satisfação. Por via das dúvidas, o farmacêutico saiu de circulação, arranjando viagem súbita a Sacramento até a poeira baixar.

Isso aí, gente boa! O hilário confronto dessas imagens da meninice com o pronunciamento pontifício ou com os reclames institucionais do governo para os momentos carnavalescos – o do preservativo ajustado a robusto recipiente de suco de uva, de alguns anos atrás, é um deles - revela, de modo impecável, como são desconcertantes e inesperados os rumos da história no trepidante capítulo do comportamento e costumes. Quem não cuida de se preparar para as novidades à espreita, dá uma de dona Gertrudes. Tem um troço.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

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