sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


             
(Esta sugestiva gravura foi extraída do blog Relicário Eclético)
 GUIMARÃES ROSA
60 anos do lançamento da 
obra-prima
"GRANDE SertãO: Veredas”      
    


Guimarães Rosa são muitos


Cesar Vanucci

“Mexendo em velhos papéis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa...”
(Luiz de Paula Ferreira, escritor)

Entendi oportuna a reprodução neste espaço de uma sequência de artigos que publiquei tempos atrás, focalizando o lado místico da obra de Guimarães Rosa. O mundo literário está celebrando, nestes dias, os 60 anos do lançamento do clássico “Grande Sertão, Veredas”. Na Amulmig, 19 de novembro, sábado, num concorrido encontro interacadêmico, a que estiveram presentes o Secretário de Estado da Cultura Ângelo Oswaldo e outros destacados personagens da seara intelectual mineira, a memória do célebre escritor foi devidamente reverenciada.

O primeiro artigo da série acima mencionada é o que se segue: Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão: Veredas”, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.

Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar - categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.

Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.

E eis aqui, agora, devidamente apresentado ao respeitável público, um Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante revelação chegou-me por intermédio de um respeitado intelectual, com apreciável contribuição à causa da cultura. O meu dileto amigo, Luiz de Paula Ferreira, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas, figura de relevo na cena empresarial. A carta que me enviou diz tudo: “Prezado Cesar, Mexendo em velhos papeis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa, publicado décadas atrás  no “Estado de Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de todos os tempos. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza, estou anexando o texto que é muito rico e merece ser avaliado e divulgado em suas crônicas. Referindo-se ao “Grande Sertão: Veredas”, ele diz: “Quanto ao “Grande Sertão: Veredas”, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito estranhas.” Do amigo, Luiz de Paula Ferreira”.

No artigo em questão, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosíssimo que deixa evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que o escritor era, indiscutivelmente, possuidor.

Na sequência, a reprodução desse texto notável.

  
O lado místico de Guimarães

Cesar Vanucci

“Sua obra suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)

Conforme contado pratrazmente, Guimarães Rosa confessou, anos atrás, em artigo no “Estado de Minas”, seu entranhado envolvimento com fenômenos ligados às percepções extra-sensoriais. Do inusitado texto ressalta claro que sua obra literária – obra que “suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor”, segundo Paulo Rónai – foi marcada, desde sempre, por intuições e impulsos mágicos, de nítida configuração parapsicológica, inexplicáveis à luz do conhecimento convencional.

Mas já é tempo de satisfazer a curiosidade do leitor a respeito da confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus singulares dons. O artigo de Guimarães Rosa tem por título “Vida – arte – e mais?”.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.

No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando em brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.

Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado freqüentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”


Acontecências paranormais


Cesar Vanucci

 “...forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito estranhas.”
(Guimarães Rosa, em artigo publicado décadas atrás)

Restou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor, reproduzido neste acolhedor espaço, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico aceito.

Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”

Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”. Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntei-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extra-sensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão: Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi”: (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Não há como negar: as desconcertantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.


Mais um texto inédito 
de Guimarães

Cesar Vanucci

“... este soneto é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.”
(Carta de Guimarães Rosa ao amigo Honório Armond, cognominado “Príncipe dos Poetas”)

Diletos amigos os responsáveis pela dadivosa ajuda, em ocasiões distintas, à tarefa cotidiana afanosa (posto que prazenteira) assumida por este articulista de colocar em letra de forma, três vezes por semana, suas prosaicas interpretações das coisas da vida. A primeira colaboração veio do conceituado escritor e empresário Luiz de Paula Ferreira. Pertence-lhe o mérito da “redescoberta” de um texto todo especial, publicado a mais de meio século, em que Guimarães Rosa confessa sem rebuços suas entranhadas vinculações com a chamada temática transcendente. O recorte de jornal que Luiz teve a gentileza de enviar-me, contendo a  intrigante revelação, rendeu as considerações alinhadas nos três últimos artigos estampados neste acolhedor espaço.

De outro estimado amigo, o respeitado escritor e professor José Dias Lara, recebi também cópias de outros textos inéditos de Guimarães Rosa, datados de 1932. Não se trata de escritos caracterizadamente literários, mas de saborosas mensagens coloquiais, com timbre bastante afetuoso, assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa. Cuidarei de reproduzi-las adiante.

O texto de Guimarães Rosa do qual me ocuparei neste comentário chegou-me às mãos trazido pelo companheiro Roberto Henrique Corrieri, engenheiro renomado. Trata-se da cópia de uma outra manifestação, igualmente inédita, do autor de “Grande Sertão: Veredas”. Numa correspondência de próprio punho, datada de 11 de janeiro de 1935, endereçada ao fraternal amigo Honório Armond, Guimarães reporta-se a dois poemas, redigidos em francês, que lhe foram dedicados pelo grande vate barbacenense, reconhecido no mundo literário como “Príncipe dos Poetas”.

O primeiro dos poemas de Armond tem introdução em latim. Rosa, na carta, reproduz os sonetos de Armond, acrescentando comentários com toques bem humorados. Os registros que se seguem são do autor de “Tutaméia”.

Honório ingrato,

(Seguem formidáveis peças da poesia nacional):

Une femme passa (complainte)
“Tibi, carissime Johannes,
in memoriam fraternae,
amicitiae, dicat, offert,
conscient certus memor
que amicus, Honorie

 (Depois da dedicatória, em latim, vista acima, vem o poema em francês).

O soneto seguinte tem como título Mon âme a tou âme, todo, também em francês.  Guimarães Rosa capricha na caligrafia ao transcrevê-lo.  Registra, após, as considerações abaixo, que obedecem à ortografia vigente na época.

Nota do copiador: este soneto é simplesmente admirável, “chef-d´ouvre”, é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.

Prompto! Estou fremindo de enthusiasmo, e nem comprehendo como foi possível que duas maravilhas dessas pudessem ter sido dedicadas a mim!  Milagres da amizade!...

É escusado dizer que faço absoluta, terminante, feroz questão de que sejam publicados com as dedicatórias!  Veja lá!  Recomende expressamente aos seus amigos da revista!  Quando muito, você poderá, si achar melhor, encurtar a dedicatória latina da “Complainte”, si a achar muito louca!  Si forem sem dedicatória, irei ahi para desafial-o em duelo!...

Outra coisa: faço questão de receber o número da revista que os publicar!  Olhe que isso é um assumpto muito sério...  essas poesias são minhas!  Não escrevo carta, porque e ainda estou esperando resposta da minha!...

Recomendações à exma. sra.  Abraços para Zezé e Beatriz.  Um apertado abraço de seu Guimarães Rosa.

Na sequência, a reprodução dos textos de Guimarães Rosa enviados pelo professor Lara.
 
  
Receitas do médico 
Guimarães Rosa

Cesar Vanucci

“Uma pequena preciosidade!”
(Professor José Dias Lara, estudioso da obra de Guimarães Rosa)

Retorno prazerosamente a Guimarães Rosa. Ocupo-me agora de uma outra faceta da fascinante saga vivida pelo genial compatriota.

Registrei pratrazmente que o ilustre escritor e educador José Dias Lara, ex-governador do Lions Clube, membro da Academia Mineira de Leonismo, onde ocupa cadeira que tem Rosa como patrono, presenteou-me há tempos, consoante suas próprias palavras, com uma verdadeira preciosidade. Uma sequência de cartas assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa.

Datadas de 1932, redigidas em tom saborosamente coloquial, foram endereçadas a um amigo dileto do missivista, fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político na região de Itaguara. A fazenda Mambre, várias vezes mencionada nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara com Itatiaiuçu.

Ouçamos o que diz a propósito o professor Lara: “Sabe-se que Guimarães era de falar pouco e escrever muito, particularmente cartas. Era um missivista de escol. E isto já fazia bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos. Ainda era o doutor João, médico em Itaguara nos idos de 1932; são desse tempo as cartas de que lhe envio algumas cópias – uma pequena preciosidade -, uma delas até com uma fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez grande nas letras nacionais.”

O destinatário de todas as cartas, redigidas pela ortografia vigente na época, em caligrafia firme e desenvolta é – com já dito – um cidadão de nome Manoel, de Itaguara, local onde o médico Guimarães Rosa clinicou. O grau de amizade do autor das cartas com o fazendeiro era bastante acentuado, como se pode deduzir dos dizeres registrados. Acompanhando, como médico, o tratamento de alguém próximo ao amigo Manoel, o doutor João Guimarães Rosa recomenda procedimentos terapêuticos a serem observados. Adiciona, até mesmo, receitas caseiras, de uso corrente naqueles tempos.

A reprodução das duas primeiras cartas-receitas vem na sequência. As outras ficam pra depois.

A primeira carta-receita: “Itaguara, 22 maio 932. Prezado Manoel, Abraços, Seguem os apetrechos. Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo da casa o modo de usar os remédios.
Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto. Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo J. Guimarães Rosa”.

A segunda carta-receita: “Prezado Manoel, cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência, porém. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa!”


Mais receitas do doutor 
Guimarães Rosa

Cesar Vanucci

“... aplicar angús quentes no logar da dor.”
(Prescrição para paciente tratada pelo escritor-médico)

Esta crônica, assinalando o epílogo de uma série produzida com o objetivo de celebrar singelamente os 60 anos do lançamento da obra prima “Grande Sertão: Veredas”, ocupa-se de novos textos inéditos de Guimarães Rosa. Não se trata, como visto no artigo anterior, de escritos literários, mas de mensagens coloquiais, em tom afetuoso, na ortografia vigente à época, assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa. Ele exercia a profissão em Itaguara, interior deste imenso país das Gerais. O destinatário, amigo dileto, era o fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político conceituado na região. A fazenda Mambre, citada várias vezes nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara e Itatiaiuçu.

Em carta de 25 de maio de 1932, Guima refere-se ao amigo como “um bom enfermeiro e um bom informador” e recomenda à paciente sob seus cuidados “lavagem intestinal” com “água fervida, ou cozimento de rosas”. Este o texto:

“Itaguara, 25 de maio de 932 Prezado Manoel, Um abraço apertado. Primeiramente, ardorosos parabens, pois você tem sido um bom enfermeiro e bom informador. Quanto à doente: deve ir se alimentando com canjas, caldo de frango, mingáu de fubá com leite, café com leite, sopa de macarrão bem cozido etc, porque a moléstia é demorada e a doente necessita de manter as forças. Mesmo sem appetite, deve insistir. Deve fazer nova lavagem intestinal, com litro de água fervida, ou cozimento de rosas. Vão novos papeis para lavagens vaginaes. A injecção não póde falhar nenhum dia, amanhã póde falhar a informação, só isso. Quando a febre estiver mais alta, a doente deverá tomar um banho morno de corpo todo, enxugando-se bem depois. Os remédios (poções) devem ser tomados sem interrupção, e, terminado o conteúdo dos vidros deve vir o portador para reformal-os. Continue: - Hygiene.... Hygiene.... si fôr possível. Abrace todos os seus em meu nome. Do amigo Guimarães Rosa.”

Na carta seguinte, 29 de maio do mesmo ano, o médico Guimarães Rosa fala de seu imenso carinho pelo pessoal da fazenda.

“Distinto Manoel, Gloria! Fico bem satisfeito de saber das melhoras apresentadas pela doente – melhoras devidas em parte aos cuidados enérgicos do amigo, que tem sabido informar-me magnificamente da marcha da moléstia. Si as dores nas pernas continuarem, veja si há alguma novidade no local dolorido (inchação branca e dura), pois pode tratar-se de uma phlebite puerperial. De qualquer maneira, caso a dôr continúe, a doente deverá manter-se em repouso rigorosissimo, podendo applicar angús quentes no logar da dor. No mais, continue, que está bem orientado. Distribua um punhado de abraços entre o pessoal do Mambre, sendo um abraço maior para o seu Chico e um outro para você. Até outra vez. Guimarães Rosa.”

Na missiva posterior (03.06.1932), o médico Guimarães Rosa prescreve uma receita caseira, indicando os ingredientes da manipulação a ser feita.

“Prezadissimo Manoel, cordiais cumprimentos. Seguem novos remédios para a enferma. É preciso que ella vá se alimentando bem, com as devidas cautelas, naturalmente, para que a causa não desande em vez de andar. Não deixe de mandar informações por mais uns três dias, principalmente temperatura e pulso. Mande fazer diariamente uma lavagem intestinal. E, fallo sem intuito de envaidecel-o, póde você estar certo de que a cura da doente deverá, em grande parte, ser agradecida ao enfermeiro. Pudesse eu ter sempre á mão um auxiliar assim! Quanto á crioula, si você quizer experimentar ainda, póde dar a ella: Uso interno Elatério  -  0,50 .....; Rhuibarbo preto  -  1,0 gr; Estr. de fel de boi  -  qsp para 20 pilulas. Dar 1 de 2/2 horas. Conjuntamente devem ser dadas umas 3 injecções de óleo camphorado. Provavelmente o resultado será bom. Até breve. Abraça por mim a todos os mambrenses, principalmente o velho. Do amigo Guimarães Rosa  Itaguara, 3 de junho de 932.”

Interessantíssima, sem dúvida, essa série de cartas-receitas que o professor José Dias Lara, estudioso da vida e obra de Guimarães Rosa, teve a gentileza de enviar-me e que com satisfação trago ao conhecimento de meu reduzido, posto que leal e assíduo, leitorado.

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