sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Chorando de barriga cheia

Cesar Vanucci

“Se colocarmos 2 milhões, 569 mil veículos um atrás do outro o tamanho da fila dará para cobrir o percurso entre os limites extremos, no sentido norte-sul, Oiapoque ao Chui, do continente brasileiro.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Acontece, por vezes, de os números e as estatísticas embaralharem o entendimento no trepidante mundo dos negócios. Isso dá causa a temerárias conclusões, interpretações que pecam por não exprimir com justeza a realidade.

As avaliações ouvidas acerca do desempenho do setor automobilístico no momento documentam a pertinência da observação. A impressão que se procura passar ao respeitável público, da parte de uns com matreirice, é que neste nosso Brasil – país, sem dúvida, um tanto quanto fora de ritmo na atualidade -, o importante segmento vê-se às voltas com devastadora intempérie, alvejado em cheio pela turbulência econômica. Mas, bem medidos, os fatos não sustentam pessimismo. Os índices estampam, verdade, declínio de produção. Nem por isso, entretanto, a atividade deixa de ostentar senhora vitalidade. O Brasil posiciona-se em honroso sétimo lugar no ranking global da fabricação. É superado apenas pela China, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Índia, Inglaterra. Estivemos, em tempos recentes, na frente dos três últimos países. Já a Rússia, França, Itália. Espanha, Canadá, Coreia do Sul, Austrália, Turquia, México, Argentina aparecem na relação com volumes de unidades inferiores.

Apesar dos pesares a quantidade de carros comercializados em 2015 mostrou-se elevada: 2.569.000. Comparativamente com  2014, a variação pra baixo foi de 25%. Os emplacamentos a partir de 2006, excluídas as motos, proporcionam visão assaz positiva sobre comportamento mercadológico. Em 2006, foram 1.927.318 carros. Em 2007, 2.462.410; ano depois, 2.819.909. A expansão levou em 2012 a recorde histórico: 3.801.180 veículos. De lá pra cá, ligeiras quedas. Em 2013, o emplacamento apontou 3.767.188 veículos. Já em 2014 a soma apurada foi de 3.497.805.

Os dados dizem respeito a carros novos. O avantajado esquema de vendas de seminovos, usados de modo geral, movimentou nesses anos todos, 2015 incluído, um mundão de dinheiro. A elevação percentual relativa a esse tópico tem sido sempre significativa. De outra parte, as exportações, tanto de veículos leves quanto de caminhões e ônibus, acusaram ano findo robusto incremento: 19%.

À vista de tudo isso, qualquer sinal de desalento em torno da performance do setor, desprezando-se elementos analíticos tão preciosos, carece  totalmente de fundamento. Anos a fio, o Brasil tem representado para as montadoras verdadeiro “eldorado”. Parece até, em termos de rentabilidade, que suas sedes centrais acham-se aqui localizadas. Não há como olvidar também que as fábricas, desde os inolvidáveis tempos de JK, foram instaladas graças a abundantes benefícios governamentais. Falar verdade, apoio exagerado. Deu origem, nalguns casos, a abusos. O crescimento, na produção e comercialização, no curso dos tempos, não encontra paralelo em canto algum. Não se pode ainda desconsiderar a circunstância de que os valores praticados na comercialização interna foram e continuam sendo infinitamente superiores aos padrões universais. Vêm daí os balanços invejáveis das empresas. E não se venha com a manjada cantiga de que os preços elevados decorrem de taxação fiscal pesada. Estamos todos carecas de saber que isso não passa de papo furado. O carro custa mais caro, nestas bandas do sul do Equador, pela simples razão de que a cadeia de negócios do segmento acostumou-se a auferir bem maiores ganhos aqui do que noutras paragens.

Mais coisas podem ser ditas. De anos pra cá, a movimentação de veículos nas ruas está associada às imagens das frenéticas coreografias de cardumes em época de desova nas águas de nossos caudalosos rios. Noves fora, obviamente, para o rio Doce por lamacentos motivos. Pergunta inevitável: Onde, então, responda quem se animar, enfiar mais carro nessas ruas apinhadas, de fluxo complicado e estressante, com espaços insuficientes para parar, com vagas de estacionamento custando o olho da cara por força da despudorada ganância dos que exploram tão despoliciado ramo de serviço? Outra indagação: Será que com tanto veículo rodando, não chega fatalmente uma hora em que a cadência de vendas tende a diminuir? E, por derradeiro, se o negócio não é mais sedutor, por que cargas d’água, então, mal pergunte, a indústria continua acenando com a implantação de mais fábricas a curto prazo?

Chororô de barriga cheia não cola. Lamúria de mentira atrai ziquizira. Dá incontinência urinária e intestinal e depressão. Tudo amontoado.


Os investimentos estrangeiros

Cesar Vanucci

“O fluxo de investimentos globais não retornou aos índices de 2007.”
(Luiz Afonso Lima, analista econômico)

Em que pesem os solavancos do acidentado percurso econômico, com seus indesejáveis desdobramentos no campo social, o Brasil ainda não perdeu, em termos relativos, a condição de mercado atraente para investimentos. Esta a leitura correta a ser feita, malgrado o colosso de informações negativas circulantes sobre a conjuntura econômica, em função de dados liberados recentemente pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

Na acumulação de 12 meses, os investimentos diretos aportados no Brasil atingiram, em dólares, no ano de 2014, a soma de 62 bilhões e 500 milhões. Comparativamente com os números de 2013, houve na verdade uma ligeira queda (2.35 por cento). O valor alcançado foi de 64 bilhões de dólares. Entretanto, ao proceder-se a uma análise meticulosa do fluxo de investimentos estrangeiros no mundo segundo o destino do capital, chega-se à constatação de que o retrocesso nas aplicações teve caráter global. Todos os países com potencial para aplicações se viram afetados. A marcha à ré não foi apenas nos domínios brasileiros. Foi geral.

Alinhamos na sequência os indicadores demonstrativos da situação real enfrentada pela economia. No mundo inteiro o volume de investimentos estrangeiros totalizou, em 2013, 1 trilhão, 467 bilhões e 200 milhões de dólares. Em 2014, a redução chegou a quase 17 por cento: 1 trilhão 228 bilhões e 300 milhões de dólares.

Fixando o olhar nas frações canalizadas para os chamados países desenvolvidos, a relação entre os dois períodos foi essa aqui: 696 bilhões e 900 milhões de dólares em 2013; 498 bilhões e 800 milhões de dólares em 2014. Redução, por conseguinte, de 28,43 por cento. Utilizando o mesmo modelo de avaliação no tocante à América Latina e Caribe, detectamos  investimentos da ordem de 186 bilhões e 200 milhões de dólares em 2013 e de 159 bilhões 400 milhões de dólares em 2014, queda de 14.37 por cento. Desses totais, como já explicado, 64 bilhões foram carreados para o Brasil em 2013 e 62 bilhões e 500 milhões em 2014. Ressalte-se que, no nosso caso, o índice de redução foi bem menor do que nos demais cenários analisados.

Pelos elementos divulgados pela UNCTAD revela-se que apenas no item “países em desenvolvimento” ocorreu ligeira elevação (1.58%) de investimento estrangeiro segundo o destino. As aplicações no caso foram de 670 bilhões e 800 milhões em 2013 e 681 bilhões e 400 milhões no ano seguinte.

Uma outra indicação de que o Brasil conservou a condição de mercado sedutor para investimentos estrangeiros está representada na circunstância de o País haver galgado em 2014, segundo também a UNCTAD, o sexto lugar no ranking dos países mais procurados para investimentos, posição superior à do ano precedente.

Há um outro aspecto interessante a ser considerado nessa modalidade de análise. O Banco Central do Brasil adota, ao que parece, uma metodologia diferente da UNCTAD no que diz respeito à captação de investimentos estrangeiros. É o que se pode deduzir de um quadro estatístico por ele divulgado, no qual se comprova que a situação, como se imagina, já foi melhor, mas onde os números mostrados, relativos a 2014, diferem dos números apresentados pela agência da ONU. De acordo com esse quadro, em dezembro de 2014 os investimentos diretos no Brasil em bilhões de dólares, na acumulação de 12 meses, alcançaram a cifra de 96 bilhões e 900 milhões, bem superior aos 69 bilhões e 200 milhões de dólares registrados em dezembro de 2013 e, igualmente, maior do que os números anotados, agora, em outubro de 2015: 70 bilhões e 700 milhões de dólares.

A respeito do que rola atualmente no plano internacional, no capítulo dos investimentos, é oportuno conhecer elucidativo comentário de Luiz Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), em depoimento à jornalista Juliana Elias, da “CartaCapital”: “O fluxo de investimentos globais não retornou aos níveis de 2007, anteriores à crise. As economias centrais ainda estão com capacidade ociosa, demanda fraca e alguns países continuam muito endividados. É uma crise sistêmica do capitalismo. E isso, agora, se espalha para os países emergentes.”




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