sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Os “perniciosos” quadrinhos

 “Eles eram, despropositadamente, considerados atentado violento à moral e bons costumes!”(Antônio Luiz da Costa, educador, relembrando os tempos de rejeição inquisitorial aos gibis)



Tomo conhecimento, apoderado de nostálgica amargura, de que neste ano da graça de 2014 edições antigas de revistas em quadrinhos vêm sendo arrematadas em leilões, nos Estados Unidos, por uma nota preta. Uma simples historieta, narrando espetaculosa aventura do “Super Homem”, rendeu indoutrodia 6 milhões e 500 mil reais para o feliz proprietário do exemplar.

A sensação amarga embebida de saudosismo desloca-me para tempos de uma meninice até certo ponto risonha e franca. Naquele tempo, saibam todos, os quadrinhos já exerciam fascínio muito grande no espirito infantil. Mas uma avaliação educacional distorcida, obscurantista mesmo, equivocadíssima – insista-se – quanto ao verdadeiro significado cultural das revistinhas, apontava tal gênero de publicação como deletério à moral e aos bons costumes. Juizado de Menores, Inspetorias de Ensino, direções das escolas, muitos professores e alguns pais entenderam de firmar, num dado momento, consenso em torno do fato de que os gibis causavam danos irreparáveis à boa formação escolar. Lançando mão de expedientes inquisitoriais, resolveram por conta disso colocar o “malsinado” produto “fora da lei”. Diziam-se persuadidos de que com atitude tão saudável estariam preservando valores éticos e intelectuais muito caros à sociedade. Acenavam com severas punições para os alunos que, desavisadamente, ousassem transportar nas pastas os conteúdos impressos pecaminosos.

Os pertences da garotada eram alvo, na entrada da sala de aula, de sistemática e rigorosa revista. Ái do pobre coitado que fosse flagrado com a mercadoria proibida no meio dos cadernos e livros! As iras dos encarregados em zelar pelas boas regras disciplinares instituídas desabavam estrepitosamente sobre sua cabeça. Em tempos de palmatória, o menino podia ser convocado ao temido gabinete da diretoria para receber implacável castigo. Noutros momentos, poderia ser exemplarmente punido com milhares de “linhas” após o expediente escolar, ou ser impedido de deixar a sala de aula no recreio ou, ainda, até mesmo, ganhar uma suspensão. Adicionalmente, teria que enfrentar o vexame de avisar aos pais a respeito da intenção da diretora da escola de levar um papo legal com eles, para comentários críticos alusivos ao seu comportamento indisciplinado. O combate sem tréguas aos quadrinhos atingia seu ponto culminante quando a comunidade escolar, os pais convidados, o inspetor de ensino infalivelmente presente, era chamada a participar no pátio de um ato cívico reparador: a destruição pelo fogo do “material inconveniente”. Ou seja, os gibis apreendidos. As labaredas andaram consumindo preciosas historietas que o neto aqui de dona Carlota cuidava de colecionar. As historinhas narravam, tanto quanto me recordo, feitos assombrosos do “Super Homem”, do Flash Gordon e do Buck Rogers, pioneiros astronautas, do Tarzan, do “Sombra”, do Dick Tracy e de tantos outros “heróis”.
Inadvertidamente, na mais santa ingenuidade, deixei o valioso acervo, montado com capricho e sacrifício, parar um dia nas mãos dos implacáveis guardiões da conduta estudantil careta recomendada pelos ditames disciplinares vigentes. Recordo-me muitíssimo bem de que as lágrimas a escorrerem copiosas pela face não foram provocadas, jeito maneira, pela fumaça desprendida do fogaréu.

Nasce aqui uma interrogação. Se aqueles exemplares devorados pelas chamas houvessem sido conservados, como algumas outras publicações da infância ainda hoje existentes na biblioteca lá de casa, será que eles estariam figurando agora nessa relação de preciosidades que colecionadores apaixonados passaram a adquirir por somas elevadas? Dá pra manjar por aí o baita prejuízo que sofri por culpa do pessoal da escola primária que frequentei...

Mas, verdade dita, o prejuízo amargado em consequência daquele lance recuado da escola da meninice tinha conotações diferentes. Não se tratava de perda material. O que se esvaiu, como bolha de sabão, deixando marca de sofrimento na alma, foram sonhos. Sonhos maravilhosos inspirados nos desenhos e dizeres produzidos pela imaginação fecunda dos autores dos “abomináveis” quadrinhos, com suas propostas ousadas despertando fantasias, antecipando o futuro e alargando as fronteiras do conhecimento.

Ainda bem que o tempo – senhor eterno da razão – se encarregou de desfazer o monumental equívoco contido nas restrições apostas naquela época a essa modalidade de expressão cultural tão pujante.



A semântica das urnas

“Descubra como separar o joio do trigo – ou entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral.”(Nirlando Beirão)



Nirlando Beirão, titular absoluto no escrete do jornalismo de qualidade comprometido com o sentimento nacional, herdou do pai (dirigente empresarial de saudosa lembrança), além do nome, a inteligência arguta e a verve faiscante. Deixa isso evidenciado num saboroso texto publicado na “CartaCapital”. Intitulado “Dicionário Eleitoral (para ingênuos)”, o trabalho fornece dicas que ajudam a decifrar a semântica das urnas, ou, conforme frisa, “entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral”.

Abaixo, de forma adaptada e resumida por este desajeitado escriba, alguns “verbetes” do divertido “dicionário”. 1)Alternância de Poder – só é essencial à democracia quando o nosso adversário está no poder. 2) Aparelhamento do Estado – os adversários nomeiam apaniguados. Nós, os melhores quadros técnicos. 3) Corrupção. Os outros a praticam de forma perene. Nossos aliados cometem apenas pequenos deslizes. 4) Visão de Deus. Todos os candidatos dizem ter fé. Os mais fervorosos são aqueles que não acreditam. 5) Delação premiada. Ela só tem valor se vazada para atingir o concorrente. Se no meio do lamaçal, surgir o nome de um aliado, o correto é dizer que as denúncias são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento da delação premiada constituir também crime (...), bem esqueça.” Cenário internacional. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. 7) Marquetagem. Se o adversário sobe nas pesquisas isso se deve a ação mistificadora dos marqueteiros. Sem essa de lembrar que o nosso candidato igualmente possui um exército de especialistas em marquetagem. 8) Ano eleitoral. As ações do adversário não passam de medidas eleitoreiras. As nossas ações são decisões de governante seriamente comprometido com suas funções. 9) Velha política. Só os adversários a praticam. 10) Coligações. Promovidas por nós, deixam estampada aguda sensibilidade política, negociação de fino trato. Promovida pelos outros, denotam falta de escrúpulos, atroz barganha de princípios por conveniências.
Tamos falados.
· Dinheirama desviada para “paraísos”.
Anotem a cifra: 77 bilhões e 500 milhões de reais. Segundo a “Global Financial Integrity”, tal valor representa estimativa confiável do dinheiro ilicitamente amealhado (evasão de impostos, emissão ilegal de divisas para o exterior, atividades negociais clandestinas, corrupção e por aí vai) desviado pela bandidagem que opera no Brasil para os assim denominados “paraísos fiscais”. Com destaque especial, evidentemente, para o sistema bancário suíço, reconhecidamente um refúgio de “altíssima confiabilidade”, ao longo dos tempos, para fortunas adquiridas em inimagináveis patifarias. Essa dinheirama toda circulante fora dos controles legais equivale, presumivelmente, a 1,5% da produção econômica brasileira. Ajuda a “explicar”, no entendimento de muita gente, o motivo pelo qual o CPMF foi tão ferozmente combatido até a extinção.


Tolerância zero

“Nenhuma qualidade humana é maisintolerável na vida comum (...) que a intolerância.”(Leopardi)



Incidentes de teor antidemocrático, indicativos de gestos repudiáveis de intolerância, criaram ainda recentemente ensancha oportunosa, como diziam os antigos, para saudáveis lições de cidadania.

A suprema boçalidade de um grupo numeroso de torcedores presentes ao estádio do Grêmio, em Porto Alegre, no jogo com o Santos, desencadeou reações contra o racismo que poderão perfeitamente, daqui pra frente, desestimular a prática asquerosa da ofensa a atletas negros, tão disseminada por aí. Sabe-se que a punição aplicada pela Justiça Esportiva, implicando na exclusão do clube da Taça Brasil, foi encarada em respeitáveis ambientes jurídicos como demasiadamente severa. Mas, cá pra nós, não se pode negar à decisão o mérito de haver fixado uma advertência clara no sentido de que acaba de ser instituída a “tolerância zero” mode interromper a sequência de atos racistas em nossas arenas futebolísticas. De outro lado, a fulminante ação da polícia, identificando os responsáveis pelas agressões verbais ao atleta Aranha, também merece ser reconhecida como elemento pedagógico com relação às deploráveis manifestações racistas de intolerância em competições esportivas.

Anotamos adiante outro episódio desagradável com desfecho bastante positivo. Referimo-nos à pronta reação da Casa Civil da Presidência da República ao instaurar sindicância e apontar, sem titubeios, o autor daquelas alterações feitas, com intuitos indesculpáveis, por meio da utilização de equipamentos públicos, dos perfis de jornalistas na Wikipédia. Assim que levantada a questão, rodeada de compreensível repercussão, o Governo Federal determinou a constituição de um grupo de investigação, estipulando prazo para parecer final. O grupo atuou com rapidez, trazendo ao conhecimento da opinião pública a identidade do responsável pelo delituoso procedimento. Nota da Casa Civil esclareceu também que o servidor, afastado do cargo comissionado, responde a processo administrativo disciplinar, o que pode levar à sua demissão do serviço público.

Há mais caso a registrar, dentro dessa linha reveladora do salutar inconformismo expresso pela sociedade diante das atitudes radicais de pessoas e grupos lesivas à boa convivência humana. Numa carta aberta à Presidenta da República, estampada na primeira página dos jornais, o Grupo Santa Casa de Belo Horizonte apresentou pedido formal de desculpas por “lamentável ato de sabotagem ocorrido na Clínica de Olhos da instituição”. A sabotagem consistiu na ampla divulgação de um refrão de cunho político pejorativo à figura de Dilma Rousseff, distribuído a pacientes em material impresso com o timbre da instituição. A veemente reação provocada por esse ato radical constitui também louvável gesto de exaltação da cidadania. Pelo teor do pronunciamento, percebe-se, que os dirigentes da Santa Casa se dispõem a transmitir à opinião pública informações complementares concernentes ao detestável incidente, tão logo encerrada a sindicância aberta para a apuração dos fatos e identificação do responsável pelo malfeito.

Isso aí. A construção democrática exige das lúcidas lideranças da sociedade posicionamentos, a exemplo dos mencionados, que denotem inarredável compromisso com o sentimento nacional. O sentimento das ruas rejeita posturas radicais de toda e qualquer origem.


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