sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Desatinos racistas

Cesar Vanucci*

“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam
e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.” (Carlos Manuel Treviño Núñez, politico mexicano, em ofensa racista a Ronaldinho Gaúcho)


O racismo é praga daninha. Uma espécie de tiririca. Essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente recitado pelo Rolando Boldrim. Lamentavelmente, não consigo guardar o nome do autor desse poema. Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar...”.

O racismo contamina, produz devastadores estragos. Na escala dos defeitos humanos mais abjetos atinge topo everestiano. Quer dizer, situa-se acima, muito acima, da dose máxima de tolerância caridosamente suportável.   

O que o babaca mexicano acima citado andou dizendo, na boçal ofensa a Ronaldinho Gaúcho, referindo-se à aglomeração de torcedores na apresentação do jogador em seu novo clube, o Querétaro, é uma amostra loquaz da maneira abominável de ver as coisas demonstrada por indivíduos de maus bofes, com suas doentias regras discriminatórias.

Todos os dias, aqui e alhures, defrontamo-nos com ferozes manifestações de intolerância merecedoras de vigoroso repúdio. A constatação impele-nos a ir buscar no baú histórias já narradas anos atrás neste mesmo espaço. Servem elas para documentar a incômoda permanência da temática racista no rol das preocupações humanas mais angustiantes. Vamos principiar os relatos por um incidente estarrecedor ocorrido nos Estados Unidos.    

O autor do desatino, racista empedernido, milita seguramente numa das facções fundamentalistas que, volta e meia, tornam mais ostensivas suas interpretações radicais e preconceituosas da vida. Um pessoal da pesada que costuma povoar de sobressaltos as mentes de personagens que representam condignamente o pensamento liberal e as vivências democráticas estadunidenses. Ocupando cargo oficial relevante, o cara mencionado cismou de botar pra fora, tempos atrás, toda ferocidade de seu credo racista. A plenos pulmões bradou, com todas as letras, que os casos de aborto no seio da comunidade negra são a maneira mais eficaz de reduzir os índices da criminalidade no país. Minha Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja! Como é que pode?

A extensão do desvario provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental, agarrada à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam, em tempos de agora, ações isoladas no contexto comunitário. Uma tese, visto está, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia que relata confrontos de rua sangrentos produzidos constantemente pela virulência racista.

Às pessoas atentas não passa despercebido, por outro lado, o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por trique-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.


Mais desatinos racistas

Cesar Vanucci*


“Há realmente raças humanas? (...) Não se trata de raças, senão
 da variedade de uma mesma raça, de uma mesma espécie.”
(Anatole France).


Voltamos a falar de preconceito racial, essa praga daninha difícil de ser extirpada.
Vamos deslocar agora o holofote das atenções para perturbadoras cenas de rua captadas por câmeras indiscretas. Elas foram mostradas num soberbo trabalho de investigação jornalística por uma tevê americana. Escancaram de modo inapelável faceta inimaginável de intolerância.

Interessados em apurar tendências do comportamento das ruas, experimentados repórteres postam-se numa movimentadíssima avenida de Nova Iorque. Na calçada, acompanhados em seus movimentos pelas câmeras, um negro e um branco disputam, aos berros, fazendo uso de toda a gesticulação e mímica a que têm direito, as atenções dos motoristas que trafegam pela via entupida de carros. A totalidade dos motoristas, entre eles alguns negros (atentem para o desconcertante pormenor), faz questão fechada de ignorar por completo a ruidosa encenação do cidadão de tez escura, posicionado alguns metros à frente do branco. Rendem-se, incondicionalmente, à opção de carregar o passageiro de cútis clara.

Os repórteres não se dão por satisfeitos. Partem para outro esquema. O cidadão branco é deslocado para a posição em que estava o cidadão negro e vice-versa. Os carros de praça (como é que fomos deixar expressão tão saborosa ser substituída pela feiosa denominação de táxi?) da leva seguinte não vacilam: atendem, pressurosos, todos eles, à chamada do cidadão claro. Fica evidenciado, de forma irrespondível, não se tratar, positivamente, de uma simples questão de melhor visibilidade ambiente à média distância.

Dispostos a avançar mais fundo no estudo comportamental abordado, os argutos repórteres bolam mais uma estratégia. Branco e negro retomam as posições do início da experiência. O negro é visto envergando um traje requintado. O branco aparece com roupas despojadas. Nem assim. Todos os veículos, sem exceção, passam ao largo do suplicante apelo do cidadão de cor para se deterem diante dos acenos, dessa vez mais comedidos, do outro. Na sequência, os participantes do teste são oficialmente apresentados ao público telespectador. O negro é um ator famoso, ganhador de “Oscar”. O branco, um traficante de drogas condenado pela Justiça.

É isso aí, gente boa. Recordam-se daquele empedernido racista do começo do papo no artigo passado? O imbecil que andou acenando com uma politica abortiva no seio da comunidade negra de modo a “estabelecer” um “processo eficaz” para reduzir os índices da criminalidade nos EUA?  É duro ter que admitir. Mas, desafortunadamente, ele não anda sozinho em sua sinistra empreitada. Constatação desoladora. Há muito mais trogloditas comprometidos com a paranoia racista, espalhados por este mundo velho de guerra sem porteira, do que jamais conseguirá imaginar nossa vã filosofia.
Nos artigos que se seguirão contaremos mais casos de intolerância registrados na área esportiva. Relataremos outros incidentes ocorridos em clubes apoderados de “complexo ariano”, refratários à ideia de abrir as portas a membros da comunidade negra.






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