sábado, 27 de junho de 2020


Zote e a penhora previdenciária

Cesar Vanucci

“O amigo Zote tornou-se figura lendária nas finanças da cidade.”
(João Gilberto Rodrigues da Cunha, em “O Triângulo de bermudas”)

O Zote, com sua matreirice roceira, seu filosofar maroto em sintonia com a fala das ruas, esmerilhado nas duras refregas da vida, foi personagem que fez lenda no cenário de Uberaba. São muitos os causos engraçados, recolhidos nas rodas de prosa, que o apontam, com seu jeitão acaipirado, como protagonista. No livro “Triângulo de bermudas”, do João Gilberto Rodrigues da Cunha - meu companheiro de Academia de Letras do Triângulo Mineiro -, que faço questão de recomendar, como leitura de qualidade, rica em colorido humano, aos meus confessos 25 leitores, alguns desses causos são relatados com graça e senso de humor.

O homem que, conforme já contei aqui, pediu ao marechal-presidente no aeroporto, para manerar mode que a barra tava pesando coisa que preste, era considerado, no consenso comunitário, um phd em astúcia. Como vem revelado noutro saboroso episódio que extraio do “Triângulo de bermudas”. Episódio esse – constato aliviado – que cai na medida certeira para preencher o número de toques digitados necessários ao fechamento deste meu arrazoado de hoje.

Antes de passar à descrição de artimanha bolada pelo Zote para enfrentar uma penhora previdenciária, João Gilberto reconhece-o como figura lendária nas finanças. “Vindo de uma bicicletaria, onde ganhou seus primeiros trocados, ascendeu por méritos próprios e enorme trabalho” a uma invejável posição de saúde e tranquilidade financeiras. Não foi nada mole. “Das bicicletas que consertava e alugava, rodou por postos de gasolina até ter a sua empresa de ônibus interestadual, uma usina de açúcar e suas fazendas de cana e boi.”

Os detalhes da tal penhora são narrados na sequência.

“O caso da penhora previdenciária na usina de açúcar do Zote serve para ilustrar a sua astúcia nos seus apertos. Foi pouco depois de vender sua empresa de ônibus e comprar a açucareira. Apertado pelo rabo de muitas dívidas, Zote ia pagando as urgentes e fatais. Como explicou depois, centralizou no Cartório de Protestos os seus pagamentos – para evitar dispersão bancária, afirmou. Com isso, o Inps da usina ficou esquecido, e veio a execução e pedido de penhora, justo na hora em que ia moer a sua primeira safra e última esperança. Zote ponderou como receber a intervenção e penhora de jeito a continuar vivo e combatente. Nos fundos da sua usina, encontrou um velho e obsoleto motor alemão, tamanho duma locomotiva da Mogiana, ainda cheio de canos de bronze e latão, selo e armas da República. Iluminou a cara. Mandou puxarem o mondrongo pra casa das máquinas, deu-lhe uma guaribada feroz, lustro e óleo dos mais bonitos. De mentira, ligou-lhe fios e canos, relógios e manômetros os mais brilhantes e modernos. Por cima meteu-lhe uma lona, e na porta, um grande cadeado.

O fiscalzinho chegou no dia seguinte, sentença e sorriso a bordo, aquela cara de importância de quem vai puxar a alça da guilhotina, novo no serviço e virgem de Zote. A mostra da usina foi geral. Com cuidados e mesuras, Zote ia mostrando as dornas, o secador, moendas, tudo serve pra penhora, dizia. E toda hora passando em frente ao barracão, que jamais abria. Nos finais da visita, o neofiscal sorriu: Tudo bem, seo Zote, estou avisado das suas tretas e sabedorias. Agora, o senhor faz o favor de abrir aqui este barracão. Quero ver o que tem dentro.

Zote fez cara de desespero. Tem nada moço. Aqui fora tem tudo que o senhor precisa pra garantir minha dívida!
- Abra seo Zote!
Trêmulo, Zote errou três botes da chave no cadeado. Afinal abriu.
- A lona, seo Zote!
A lona saiu, e o motorzão reluziu quase tanto quanto a cara do fiscal.
Zote ainda arriscou:
- Doutor, esse é o pai e a mãe dos meus filhos...
- Penhorado! Penhorado!
Dias depois, verificado o desatino, o mocinho fiscal voltou, pedindo ajuda e mudança.
Zote faz sentença final:
- Doutor, de negócio ruim eu arrependo fácil. De negócio bom, nunca. O motor é seu.”

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