sexta-feira, 29 de maio de 2020


Nossa fascinante MPB


Cesar Vanucci


"Onde se toca boa música,
 não pode haver coisa má."
(Cervantes)


Nestes tempos amargos de forçada reclusão venho procurando escapulir, por instantes que sejam – sempre enlevantes -, do inevitável e impactante bombardeio midiático gerado pela pandemia, ouvindo peças musicais de compositores de meu especial agrado. Foi assim que já repassei, em agradáveis espaços de tempos, os repertórios de Vila Lobos, Ary Barroso, Tom Jobim, Dorival Caymmi, para falar de alguns poucos de uma cintilante constelação de figuras exponenciaisna criação artística. As audições serviram para fortalecer arraigada convicção pessoal.

A música brasileira representa, no reconhecimento popular, um instante mágico, privilegiado, de elevação na escala da criatividade universal.

Não existe neste mundo do bom Deus, onde o diabo costuma armar barraca pra aprontar malvadezas, quem ouse não se confessar encantado com os sons cheios de vida, líricos e coloridos, lembrando imenso calidoscópio, de infinitas e variegadas emoções, produzidos à mancheia pelo time dos artistas brasileiros da música. Um time, sem qualquer sombra de dúvida, da maior competência, preparado para ganhar tudo quanto é copa de que venha participar.

Quando se fala dos sons musicais brasileiros, dos versos primorosos reunidos em milhares de composições do melhor quilate, não há como esquecer também do ritmo malemolente, único, saído dos instrumentos de percussão. Ele é inconfundível e, também, irreproduzível em outras plagas, mesmo por craques na arte de extrair ruídos sonoros dos tambores. Produz um barulho de fala muito especial. Junto com os da melodia e letra, que são barulhos que pensam, conforme o clássico conceito de Victor Hugo, ajuda a mostrar, de modo exultante, a riqueza cultural fabulosa da gente brasileira.

Em tudo quanto é canto deste planeta azul, as músicas brasileiras enternecem e arrebatam. Ary Barroso e Tom Jobim, pra ficar no registro de dois nomes transcendentes da populosa nação dos compositores brasileiros talentosos, deixaram as digitais impressas nos repertórios das mais famosas orquestras, dos grandes instrumentistas e vocalistas. São assobiados nas ruas. Ouvidos com prazer em todos os lugares onde se toca boa música, lugares, conforme Cervantes, em que não pode haver coisas más.

Os turistas brasileiros são, vez por outra, envolvidos em suas andanças pelo exterior por inesperadas ondas de simpatia, que ajudam a quebrar o gelo da recepção costumeiramente oferecida, sobretudo em paragens europeias. É quando a música brasileira pinta no pedaço. Algo assemelhado com o que ocorre, também, quando o futebol aflora nas conversas. Nossa música popular e nosso futebol – de passado recente fantástico -têm o condão de identificar lá fora, admiravelmente, o nosso jeito de ser. E produzem, como nenhuma outra ação construtiva consegue fazer, aproximações enriquecedoras e saudáveis.

Acode-me, a esta altura, a lembrança de uma situação singular que experienciei (ora, epa!) em 1995, no Tibete.

Disponho-me, adiante, a contar o que aconteceu, aqui neste espaço, se não me falha a memória, pela segunda vez. A repetição, assinale-se logo, vem robustecer os argumentos da defesa apaixonada que estou fazendo da cultura musical brasileira neste de hoje e no próximo artigo.

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