sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Deu mesmo a louca...

Cesar Vanucci

“Como sabes que a Terra não é o inferno de um outro planeta?”
(Aldous Huxley)

Adeptos das teorias conspiratórias sustentam que tudo aquilo que vai ser lido na sequência faz parte de um gênero de ocorrências singulares derivadas de uma circunstância sinistra: absorção pelo organismo de partículas de estrôncio lançadas na atmosfera. Mas eles não sabem dizer quem faz isso e nem quais são os intuitos da inverossímil ação. Tá na cara que a tese não encontra aceitação no entendimento das ruas.

Mas um mundo de gente admite que, realmente, coisas assustadoramente estranhas andam pintando ultimamente no pedaço, numa escala de incomum intensidade. São incidentes insanos, de feição danada de inusitada. Episódios pontuais que explodem de repente, alvejando na base da tocaia a rotina tranquila das pessoas comuns. Produzem espanto e sobressaltos duradouros.

Não, do que se está falando aqui, não são daquelas tragédias, descomunais nas proporções, que enchem de inquietação bilhões de criaturas, criadas pela proverbial insensatez humana. Tragédias que parecem, às vezes, convalidar conceito desconcertante de Aldous Huxley, quando lembra que a Terra poderia ser, talvez, o inferno, citado nas narrativas bíblicas, de outro planeta povoado.  O objeto de atenção são aquelas tragédias da esquina; da casa, da rua, do bairro em que a gente mora; ou daquele lugar que costumamos frequentar com amigos. Acontece que esses “BO.s”, de características pode se dizer inéditas e macabras, vão se tornando, nestes tempos amalucados, alarmantemente constantes.

Alinhamos abaixo fatos extraídos do recente noticiário nosso de cada dia.

A inocente jovem, de origem humilde, estava prestes a dar à luz. Um bando criminoso sequestrou-a e assassinou-a com perversos requintes. Arrancou de seu ventre a criança para entregá-la à autora intelectual da bárbara trama. A dita cuja vinha simulando para o companheiro e familiares estar grávida, arquitetando tudo com o objetivo maquiavélico de poder exibir a criança como sua filha recém-nascida.

O vídeo na internet capta imagens arrepiantes em matéria de virulência racista. Numa praia, pedaço de chão que a Natureza dadivosamente reservou para amplas confraternizações ecumênicas e democráticas, a mulher branca, abonada financeiramente, apronta o maior escarcéu. Soltando fogo pelas ventas, espumando ódio pela boca, bota pra fora, numa saraivada de impropérios, seu inconformismo. Tudo por causa da “presença acintosa, incômoda”, próxima ao “espaço” escolhido para o lazer de seus dignos familiares, de algumas pessoas de cor negra, “gente que não aprende nunca a conhecer seu lugar”...

Nessa outra ocorrência aqui, um homem sobre quem pesava ligeira suspeita de pedofilia foi encontrado perto de sua casa com a cabeça separada do corpo.

Revoltante caso de pedofilia, bem documentado, envolveu um coronel da Polícia Militar carioca, presidente da Caixa Beneficente da corporação. O cara foi flagrado por subordinados – pasmo dos pasmos! – na prática de atos libidinosos com criança de dois anos de idade. Comparsa sua incumbia-se, há tempos, de “selecionar” meninas dessa faixa etária para que ele pudesse satisfazer seus bestiais instintos.

Uma câmera indiscreta, instalada pelo caseiro de um sítio, pilhou ex-senador da República pelo Estado de Tocantins em práticas assemelhadas. As vítimas eram menores de cinco e seis anos. Enquanto isso, noutra região do norte do país, a filha de individuo detentor de elevado cargo na segurança pública viu-se compelida, tal a suprema gravidade do ato cometido pelo genitor, a denunciá-lo. Ele havia estuprado neta de menor idade.

O tema estupro rendeu, por sinal, recentemente, uma desnorteante pesquisa. Resultados estarrecedores. Trinta e três por cento das pessoas consultadas, homens e mulheres, deixaram claramente explicitado que as sórdidas agressões são geralmente provocadas pelas próprias vítimas, por causa de “gestos e trajes indecentes, em desafio escancarado à moral e bons costumes”, minha Nossa Senhora da Abadia da Água Suja!

Dia desses, na hora do lanche na repartição, um grupo de funcionários trocava ideias sobre o desconforto trazido ao cotidiano de todos nós por essa incidência de fatos ultra chocantes que vêm pontilhando a vida moderna. Alguém no grupo bradou: - Parece até que o mundo tá acabando! Foi quando a faxineira do lugar, até então arredia às discussões, resolveu também emitir seu parecer: - Gente boa, o mundo já acabou, nós é que não fomos ainda informados...


Gumercindo e Noé

Cesar Vanucci

“Os mais sagazes em matéria política conseguem ver num ponto muito mais que uma simples letra!”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Gumercindo chegou ao céu trazendo no rosto os sinais de medo de suas derradeiras experiências terrenas. Ao atravessar o túnel de luz dourada que, a se crer nos místicos e em pessoas que alegam haver retornado do estado de coma, separa este nosso mundo de infinitas provações do mundo das eternas bem-aventuranças, transportou na mala todas as emoções absorvidas na tragédia da inundação que o levou a “encantar-se”, como diria o sábio Guimarães Rosa.

Homem temente a Deus, consagrado à família, ao trabalho e à religião, Gumercindo vira ruir, de hora para outra, com a apavorante enchente do rio provocada por tromba d’água não anunciada nas previsões da Maju, todas as referências importantes de sua vida pacata e singela. Sentiu, ao desencarnar, um bocado de dificuldades em desvencilhar-se das sofridas recordações: a caudal avassaladora engolindo gente, casas, criações, plantações. Ribeirinho afeito às lidas da terra e da água, jamais pusera os pés em cidade grande. Acompanhara, com o espanto dos simples e ordeiros, a marcha trepidante da história pelo radinho de pilha. Assistiu ao “fim do mundo” mal chegado aos 80. O choque foi de tal impacto que São Pedro achou por bem encomendar para Gumercindo atenção toda especial dos plantonistas do serviço celestial de psicologia.

Nos primeiros momentos de morada celeste, ele fez questão de narrar, tintim por tintim, a quem se dispusesse a ouvi-lo, fôlego de cantador de víspora, a história inteira da descomunal tragédia que o arrancou da vidinha pacata naquele pedaço esquecido do sertão. Encontrou compreensão da parte de quase todo mundo com quem se relacionou. Ficou intrigado, entretanto, com a atitude de um residente antigo do excelso lugar. Um cidadão de longas barbas brancas, que se lhe pareceu, o tempo todo, embora cortês, indiferente aos números e dados aterrorizantes. Não suportando o suposto descaso do outro, Gumercindo resolveu queixar-se: - “Cara mais estranho, esse aí! Não se abala um tiquinho com a enchente que arrasou a minha região. Quem ele pensa que é?” A resposta do psicólogo escalado por São Pedro clareou tudo: - É o Noé, o da arca!

Conhecido meu, experimentado analista, que circula há décadas pelos desvãos da política e que ostenta no invejável currículo ativa participação em mil e uma campanhas eleitorais, reconhecido ainda como traquejado articulador de conchavos, dominando de cor e salteado eletrizantes experiências acontecidas no Brasil e mesmo no exterior, deu uma de Noé, dia desses, com o neto. O rapaz, mal chegado aos 30 anos, tomado de fascínio com o intrigante jogo político, sentiu-se de repente bastante confuso com a atmosfera pesada reinante nessa área de atividade. Enumerou um bocado de lances contundentes, incompreensíveis à uma primeira vista d’olhos, frutos de tricas e futricas de bastidores, que vêm pintando no pedaço e rendendo manchetes vistosas, de modo a confundir o espírito da gente do povo. Resolveu transmitir suas preocupações ao avô. O velho, escolado, experiente, ouviu tudo com suprema paciência, sem emitir comentário que denotasse apreensão diante dos atordoantes fatos relatados. Manteve no semblante passividade típica de bonzo recolhido a eremitério do Himalaia. Desconcertado, meio sem graça, um tanto frustrado, o neto só viu cair a ficha e manjou a postura do avô quando alguém deu-lhe a conhecer a historinha do Gumercindo. Aprendeu, no exato momento, que o aparente desdém do avô face à enxurrada de denúncias e armações soltas na praça, parte delas vinda à tona pelo estridente noticiário, recheadas de picardia política, representa, na verdade, recado na linha (diluviana) de Noé. É como se estivesse dizendo: - Vosmecês ainda não viram nada. O que tá acontecendo é café pequeno para o que vem vindo por aí...

  
Cunha e a delação premiada

Cesar Vanucci

“Acho que algumas pessoas podem, sim, ter medo de uma delação...”
(Deputado Paulinho da Força, político bastante 
chegado ao ex-deputado Eduardo Cunha)

Vamos lá. Não há um único vivente deste território continental, noutros tempos chamado Pindorama – incluídos aí os aborígenes das remanescentes tribos amazônicas a serem ainda contatadas pelos sertanistas da Funai -, que ignore o potencial demolidor contido numa eventual “delação premiada” do “malvado favorito” de tanta gente, hoje recolhido ao cárcere de Curitiba. Comparativamente falando, um acordo de Eduardo Cosentino da Cunha está para os pactos firmados com a Lava-Jato por Dulcídio Amaral e por Sérgio Machado (ex-presidente da Transpetro), assim como os efeitos dos disparos de mísseis de um caça de última geração estão para os estrondos e estragos produzidos por meia dúzia de bananas de dinamite.

Bastante compreensíveis, por conseguinte, a nervosa expectativa geral que se formou no seio da opinião pública e o clima de inocultável apreensão detectado nos arraiais políticos desde que anunciada a detenção do ex-presidente da Câmara dos Deputados. A possibilidade de que ele possa, então, promover retaliações a desafetos e, sobretudo, antigos aliados, em sua ótica considerados “infiéis” nestes seus desditosos momentos, é considerada coisa perfeitamente factível.

Desde que afastado da Presidência do Legislativo pelo Supremo Tribunal Federal, situação agravada com a cassação do mandato em acachapante votação em plenário, Cunha vem alimentando o noticiário com a perspectiva de bagunçar pra valer o coreto. Prometeu lançar livro com explosivas revelações. Interpelado sobre quem poderiam vir a ser os personagens centrais da narrativa, respondeu enigmaticamente: “Todo mundo!”

Em entrevista concedida, dias depois da perda do mandato, alvejou “dileto companheiro” de frutíferas caminhadas políticas ainda recentes. O responsável pelo sistema de Parceria dos Programas de Investimentos do governo, Moreira Franco, apontado como um dos políticos de maior influência no núcleo central do poder em Brasília, foi por ele acusado de envolvimento em maracutaia que teria ocorrido no financiamento das obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Não deixou a acusação por menos: “Na hora em que as investigações avançarem, vai ficar muito difícil a permanência dele, Moreira, no Governo”.

Enquanto isso, partidários do ex-parlamentar deixavam subentendido, em sibilinos registros, que os temores circulantes nos redutos políticos acerca de denúncias envolvendo próceres destacados de diferentes siglas, poderão, sim, se converter, de hora para outra, em libelos acusatórios capazes de molestar a reputação de muita gente. De um desses leais seguidores de Cunha ouviu-se, dias atrás, a seguinte frase: “Acho que algumas pessoas podem, sim, ter medo de uma delação...” Para analistas experimentados da cena política, a declaração mais do que externando um ponto de vista pessoal de alguém ligado a Cunha, soa como ameaçador recado do próprio a pessoas que, ainda recentemente emaranhadas em seus projetos e maquinações políticas, optaram pelo “salve-se quem puder” na hora em que o barco começou adernar.

Astuto, maquiavélico, estrategista, desafiador, ousado, desconhecedor de limites éticos nas aprontações, Cunha reúne condições de encrencar um mundão de cidadãos de diferentes legendas partidárias. As informações privilegiadas que detém, como protagonista e testemunha ocular de ilicitudes intensamente praticadas na vida pública brasileira de largo espaço de tempo para cá, tornam-no um verdadeiro “arquivo vivo”. Na avaliação de qualificados observadores, ele dificilmente deixará de utilizar esses elementos, pacientemente estocados ao longo dos anos, na tentativa de procurar aliviar a “barra pesada” que ora incide sobre sua vida e sobre sua esposa, também ré numa das ações da “Lava-Jato”.


Uma outra circunstância confere especial dramaticidade ao episódio que levou, após tantos meses de espera, Eduardo Cunha à prisão preventiva. A impressão nutrida por muitos conhecedores da hermenêutica jurídica é de que esse ato representaria  prólogo de uma decisão destinada a alcançar enorme repercussão na vida nacional: a detenção do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

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