sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A repulsa mundial com relação ao atentado à redação do semanário francês "Charlie Hebdo", vem retratada abaixo pelo talento de chargistas mineiros, que com verve e espírito crítico enriquecem as páginas de nossos jornais.
Os traços são dos cartunistas Son Salvador, Duke, Quinho, Janey Costa, Mario Vale.



O Papa e o Dalai Lama


“Apenas os que dialogam podem construir pontes e vínculos.” (Papa Francisco)


Confesso em boa e lisa verdade, das altitudes everestianas em que se aloja minha incondicional admiração pelo Papa Francisco, haver experimentado uma pontinha de preocupação e desconforto com a notícia de que o Vaticano não descobriu na agenda pontifícia espaço de tempo, mínimo que fosse, mode permitir ao Dalai Lama bater papo reservado com Chico. Imagino que só mesmo razões poderosas demais da conta, um tanto quanto também misteriosas, poderiam influenciar tão desconcertante atitude. Os temores de que o autoritário governo chinês pudesse vislumbrar no cordial gesto da Igreja, em recepcionando o líder budista, sinal “inamistoso” capaz de perturbar a evolução dos entendimentos diplomáticos em marcha no sentido de que a China conceda maior liberdade religiosa às minorias cristãs, parecem-me, de princípio, insuficientes como argumento para explicar aquilo que, de fato, rolou nos bastidores.

O Papa, pelo que todos nos habituamos a observar, não é alguém que contenha os impulsos generosos de seu dna diante de desafios tormentosos nascidos das incompreensões e intolerâncias mundanas, que se anteponham à caminhada em favor de uma construção humana fraterna.

Mas, diante do episódio já consumado, nada me compete fazer além deste despretensioso registro. Quem, afinal de contas, pensa ser este desajeitado escriba, com suas quimeras em torno da vida, pra querer adivinhar o que exatamente ocorreu nessa tentativa frustrada de aproximação, para diálogo inequivocamente positivo, dos dois carismáticos personagens? Maior estadista destes modernos e conturbados tempos, Francisco - desfazendo rançosos padrões de comportamento nas relações inter-religiosas e políticas - tem consagrado atenção especial à conciliação universal, a práticas ecumênicas em condições de reconectarem o mundo com sua essência espiritual e humana. Isso pesa na interpretação dos atos que promove como líder da Igreja.

Pecados jornalísticos. Recebendo no Vaticano um punhado de comunicadores ligados à televisão europeia, o Papa Francisco relacionou para os visitantes os grandes pecados da atividade jornalística no mundo contemporâneo. São estes: calúnia, difamação, desinformação. O Pontífice condenou também o alarmismo catastrófico, a falta de sensibilidade social e a tendência para relatos dos acontecimentos pela metade.
Noutra manifestação palpitante, o Pontífice conclamou as pessoas a enfrentarem por meio do diálogo respeitoso, da vivência ecumênica, os dramáticos problemas suscitados pelo fanatismo, pelo radicalismo, pelos preconceitos e intolerância existentes neste mundo tocado pela pluralidade de ideias.

  

Episódios surrealistas


“Algumas bizarrias destes confusos tempos são
mais surrealistas que as telas de Salvador Dali.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Vereadores de Belo Horizonte reavivaram recentemente uma versão, com toque bem sofisticado, do “curral eleitoral” dos tempos do voto na base do “bico de pena” ou da “marmita de cédulas”. Mode evitar eventuais deserções de última hora, que pudessem prejudicar o triunfo, tido como “favas contadas”, no pleito para a composição da mesa dirigente da Câmara, os edis comprometidos com a chapa apoiada pelo Executivo foram confinados num hotel confortável, cumulados de mordomias, até a hora de depositar os votos nas urnas. O esquema funcionou a pleno contento e apresentou, além da vantagem comparativa das comodidades oferecidas aos eleitores, um outro diferencial com relação aos “currais” de antanho. O eleitor confinado sabia de antemão dos nomes a serem sufragados. No passado, as coisas não corriam bem assim. Os votantes agrupados em “currais” desconheciam, quase sempre, as pessoas para as quais seriam destinados os votos. Se alguém, dentre eles, se aventurasse a indagar pelos nomes dos personagens a serem votados, ouviria como resposta dos encarregados em manter o “moral” da turma concentrada nos “currais”, protegendo-a de malsãs influências externas, o seguinte: - “Mas como é que a gente vai saber dos nomes, se o voto é secreto?”

“Mico” atrás de “mico” A histeria de talibãs tupiniquins continua gerando o que, no popular, é considerado “pagar mico”. Em Goiás, cidadão investido da condição de procurador revelou-se possesso ao tomar conhecimento de que o governo brasileiro estaria enviando jovens à Venezuela para receberem treinamento em prol da incendiária proposta da tal “revolução bolivariana”. Pediu em altos brados a instauração de rigoroso inquérito contra a União, exigindo do Itamaraty as explicações devidas face à gravíssima denúncia. Pouco depois de toda sua frenética movimentação, ficou sabendo que a “exportação” dos jovens mencionada pela fonte em que se louvou para fazer as veementes denúncias dizia respeito a uma região de Sucre denominada “Brasil”, e não ao país do mesmo nome. País onde vive, trabalha e desfruta de liberdade para cometer toda sorte de asneiras. Pelo que consta, o referido cidadão se recusa, até aqui, a estender a mão à palmatória, mode retratar-se da vexação.

Já esta outra aqui, também militante de falange radical, vereadora carioca, achou por bem usar da tribuna para desancar colegas “comprometidos” com o tal “movimento bolivariano”, seja lá o que isso signifique, centrando incandescentes críticas no bigodudo presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Toda explosão retórica teve como fulcro manifestação simpática de companheiros no parlamento à figura do lendário Chaves, personagem da televisão, recentemente falecido. O “carlitiano” artista mexicano foi confundido pela raiventa parlamentar com outro Chaves famoso.  Hugo, ex-presidente venezuelano, também já desencarnado.

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