sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Truco, Ministra! 

 “Não há mais latifúndio no Brasil.”
(Ministra da Agricultura, Kátia Abreu)

 O truco é um jogo de baralho de vasta aceitação nas camadas populares, aqui no Brasil, noutros países da América Latina, Portugal e Espanha, onde, concebido por influências mouras, parece ter tido origem. O engano, o blefe, a algazarra bem humorada, sintonizada com as variações do comportamento psicológico dos entusiasmados participantes, fazem da disputa divertido entretenimento.  Tenho lembranças, recuadas no tempo, de torneios de truco animadíssimos que mobilizavam legião de aficionados em cidades interioranas. Não sei dizer se isso ainda acontece hoje.

O auge da emoção no lançamento das cartas era atingido naquele preciso instante em que o jogador, ligando ao máximo o amplificador da voz, agitando mãos e balançando o corpo teatralmente, fazia ecoar pelo recinto o brado de guerra característico da jogada supostamente triunfante: “Truco!” O “truco” berrado a plenos pulmões significava brado contestatório, questionador. Projetava no ar estrondosamente uma interrogação. Levantava dúvida a respeito da verdadeira composição do valor das cartas empalmadas pelo adversário.

Ao ouvir, outro dia, a peremptória declaração da simpática Ministra Kátia Abreu, da Agricultura, de que não mais há latifúndio no imenso território continental brasileiro – onde, ao que consta, pra ficar num exemplo, existem ainda propriedades rurais com extensão superior à da conturbada faixa de terra disputada por judeus e palestinos no Oriente Médio – pus-me a imaginar que, naquele justo momento, um punhado de patrícios, conhecedores a fundo da questão agrária, não conseguiu, por certo, resistir à tentação de deixar escapar do peito, bem alto para ser devidamente ouvida, a exclamação típica do jogo de cartas mencionado: “Truco, Ministra, truco!...”


(Ainda bem que o ilustre Ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, com a lucidez e bom senso costumeiros, ao empossar-se, retomou o tema nos termos apropriados, deixando explícito que o latifúndio improdutivo constitui ainda hoje uma amarga realidade na paisagem rural do país).


Radicalismo versus Humanidade


“O fanatismo é mais perigoso que o ateísmo e mil vezes mais
 prejudicial, pois este não inspira paixões sanguinárias,
enquanto que aquele pode levar à prática de crimes.”
(Voltaire)

Os disparos que ceifaram vidas de celebrados cartunistas franceses, produzindo comoção universal, representaram um lance abominável a mais na fieira de atrocidades praticadas por fanáticos religiosos e políticos de diferenciados matizes e tendências. Gente movida por instintos de brutalidade inauditos, firmemente empenhada no proposito nefando de convulsionar o mundo com incessantes manobras de terror voltadas para a desestabilização social.
Usam do terror verbal e da ferocidade em ações que subtraem vidas inocentes e reduzem a escombros patrimônios valiosos para tentar apavorar pessoas e submeter comunidades inteiras e até mesmo países ao reinado despótico do obscurantismo e das trevas. Disseminam o caos por onde passam. Sequestram, mutilam, escravizam, estupram, decapitam, desdenham de todas as normas civilizatórias. Agem no Oriente Médio, na África do Norte, na Nigéria, no Paquistão, no Afeganistão e muitos outros pontos de ebulição, bélica permanente. Agem também, conforme visto agora na França, na Europa, na América, enfim em todas as partes, com maior ou menor intensidade. Apropriam-se de conceitos pseudo-religiosos, que, na verdade, agridem virulentamente a essência do credo de que se autoproclamam arautos.
Embora menos desenvoltos ou mais contidos nalguns lugares, pregam sempre abertamente o ódio, a desavença, o preconceito, o racismo, a ruptura democrática, a violação dos direitos fundamentais, o ataque desabrido a todos os valores garantidores da dignidade que deve recobrir a aventura humana.
Esses fanáticos de carteirinha, não importam suas diferenças ideológicas, culturais, religiosas, são todos eles farinha do mesmo saco. Temos ali extremistas que se dispõem, num país onde funcionam satisfatoriamente as instituições democráticas, a combatê-las com ardor iconoclasta para que em seu lugar seja implantado regime tirânico. Temos acolá, noutras paragens de estruturas políticas despojadas de solidez, êmulos seus, possuidores do mesmo perverso instinto, psicologicamente habilitados a lançar granadas numa sala aula de modo a impedir sejam “desrespeitados” falsos textos sagrados sobre a instrução feminina. Uns e outros são movidos, na verdade, por um mesmo surto de insanidade que deles faz indivíduos irremediavelmente nocivos à convivência social.
O clamor universal contra o fanatismo terrorista é precioso suporte numa conjugação poderosa de vontades, envolvendo lideranças politicas e religiosas, com vistas a ações bem articuladas e eficazes no combate a essas facções incendiárias que fazem estremecer de pavor à sociedade humana de nossos tempos. Tais ações, não prescindindo obviamente nesta hora de vigorosa repressão em termos de defesa social, terão que contemplar, naturalmente, para que possam oferecer os resultados almejados, a busca empenhada de novos modelos de convivência social, inspirados na solidariedade e na fraternidade, entre nações, etnias, correntes ideológicas e crenças religiosas. 

GALERIA DE ARTE
Lavadeiras
A descoberta da Terra

Portinari, 
o grande pintor 
do Brasil



Cândido Portinari foi um dos pintores brasileiros mais famosos. Nasceu em Brodowski (interior do estado de São Paulo), em 29 de dezembro de 1903. Destacou-se também nas áreas de poesia e política.
Ele estudou na Escola de Belas-Artes do Rio de Janeiro; visitou muitos países, entre eles, a Espanha, a França e a Itália.
No ano de 1935, recebeu uma premiação em Nova Iorque pelo painel "Café". Deste momento em diante, sua obra passou a ser mundialmente conhecida.
Dentre suas obras, destacam-se: mural “Gerra e Paz”, exposto na sede da ONU; "A Primeira Missa no Brasil"; "São Francisco de Assis" e "Tiradentes". Seus retratos mais famosos são: seu autorretrato, o retrato de sua mãe e o do famoso escritor brasileiro Mário de Andrade.
Características principais de sua obra:
- Retratou questões sociais do Brasil;
- Utilizou alguns elementos artísticos da arte moderna europeia;
- Refletiu influências do surrealismo, cubismo e da arte dos muralistas mexicanos;

- Arte figurativa, valorizando as tradições da pintura.(Fonte: Wikipédia)





Eu não sabia

“Portinari realiza o milagre da arte muda:
exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!”
(Otto Maria Carpeaux)

Vou buscar, na meninice descontraída e na adolescência irrequieta, lembranças soltas de pura nostalgia. Estive bem próximo, em alguns poucos momentos, nessas fases risonhas da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Com acanhada visão das coisas, na mais santa ingenuidade, revelei-me carente de um mínimo de capacidade de percepção para avaliar, na hora certa, o real significado dessas aproximações singulares, generosamente proporcionadas pelo acaso.
Seguinte: guris, ainda nos começos ginasianos, eu e o mano Augusto Cesar frequentávamos, com assiduidade, a residência de Alberto e Dute Sabino. Nossos pais eram fraternos amigos do casal. Sentiamo-nos ali como em nossa própria casa. O Albertinho, como era conhecido, atuava na área de seguros. Apreciador das artes, possuía um amigão do peito. Um cidadão de alta projeção no mundo fascinante da pintura. Morador de cidade do interior paulista. Seu nome: Cândido Portinari. Candinho pros íntimos. Os dois amigos se visitavam com frequência. Numerosas as ocasiões, quando das idas de Portinari à casa do Albertinho, Uberaba, em que Augusto Cesar e eu recebemos convite para montar um pequeno espetáculo lítero-musical homenageando o ilustre visitante. Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de um “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal anfitrião pela dupla mirim. Tanto isso é verdade que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e da. Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui.

Todo mundo passou batido. O Albertinho, eu não sei. Mas a ninguém, de meu núcleo familiar, acudiu a idéia, naqueles instantes de contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo um punhado de obras primas, brotadas de seu pincel mágico.
Falo, agora, da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Seria de se imaginar que, já adolescente, possuísse um pouco mais de discernimento em relação a certas coisas. Foi quando de minha primeira tentativa de fixar moradia em Belô. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades profissionais. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Departamento de Trânsito, graças à incrível Anita Rosa de Magalhães Góes, esposa do culto coronel Américo Góes, ambos de saudosa memória. Fui morar numa pensão ali na rua Rio de Janeiro, esquina com Tupis. A paisagem arquitetônica da região se compunha de casas de feição brejeira, muito diferente dos caixotes de cimento armado de hoje. Dividia quarto com colega do interior. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, diariamente, por horas, a extrair do pincel os frutos coloridos de sua pujante criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saiam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo. Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive, momento algum, percepção de que estava a desfrutar do privilégio de compartilhar de um mesmo espaço residencial com um mestre da pintura. De nada sabia. Ninguém, ao redor, parecia também saber. De nenhum dos outros moradores ouvi, a qualquer tempo, a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard. Querem saber duma coisa? Dá vontade, às vezes, de pedir públicas desculpas por tão supina alienação.



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