sexta-feira, 15 de março de 2019


A grama tiririca...

Cesar Vanucci

“Simplesmente inventaram o que seriam “candidatos laranjas”,
cuja única função aparente era receber verbas e transferi-las.”
(Editorial do “Diário do Comércio”, dois de março)

A corrupção, sempre com as mandíbulas expostas à desmesura, é mais antiga do que a Serra da Canastra. “Rome omnia venalia esse” (“Em Roma tudo está à venda”), já denunciava Salústio, bocado de anos antes do advento do Cristianismo. O registro pertence ao esplêndido “Dicionário de Citações” organizado no supremo capricho por Paulo Rónai. Outras frases, também inseridas na mencionada publicação, atestam a perversa longevidade da abominável prática. Aqui estão: “A corrupção do melhor é a pior das corrupções” (“Corruptio optimi pessima”). Autor? S.Gregório, O Grande, que viveu entre 504 e 604. William Shakespeare (1564-1616) bate forte, como de costume: “Ah, se as propriedades, títulos e cargos/Não fossem fruto da corrupção! E se as altas honrarias/Se adquirissem só pelo mérito de quem as detêm!/Quantos, então, não estariam hoje melhor do que estão?/Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?” Isso aí...

A corrupção, já foi dito também noutra ocasião, é que nem grama tiririca. Extraio de um poema composto no saboroso dialeto roceiro sugestiva descrição dessa planta daninha. Ilustra bem a comparação arguida. Vamos lá: a tiririca “a gente pode arrancá, virá de raiz pro ar, mais qua! Um fiapo escondido no torrão faiz a peste vicejá...” A citação do verso cobra deste desajeitado escriba uma explicação. Por bom pedaço de tempo andei admitindo que os dizeres sobre a matreira gramínea fossem da lavra do notável Catulo da Paixão Cearense, Primeiro Violão inconteste da Sinfônica Poética Brasileira. Dei-me conta do equívoco, certo dia, ao ouvir o Rolando Boldrin declamar o poema por inteiro em seu magnífico programa na televisão. Contudo, lastimavelmente, não houve como reter na memória velha de guerra o nome do verdadeiro talentoso autor.

Os corruptores e corruptos de carteirinha de todos os tempos não esmorecem em seus nefandos propósitos. Imaginação fertilíssima, valem-se de todos os estratagemas já inventados para burlar a boa fé coletiva. No andamento da operação “Lava Jato” tivemos amostras disso. Quando começaram a vir a lume as primeiras informações acerca dos malfeitos cometidos, a impressão que se tinha era de que os atos ilícitos estavam circunscritos à esfera petista. Com o andar da carruagem comprovou-se que não era bem assim. O “propinoduto” atendeu a gregos e troianos. Despejou “agrados” em todas as bandas. Por mais inverossímil que pareça, oposicionistas extremados, entre os tucanos, emedebistas e outros, que se gabavam em tom triunfal de sua conduta ilibada em meio à pororoca de denúncias, se viram, também, de hora para outra, clamorosamente pilhados com a “boca na botija”. A opinião pública, estarrecida, deu-se conta, então, das reais proporções do asfixiante problema. Empreiteiros desonestos, agentes públicos infiéis, políticos inidôneos, das mais diferentes tendências, achavam-se enredados num colossal esquema de desvio de recursos públicos.

A vigorosa expectativa e mesmo a ardente esperança da sociedade brasileira, focadas em mudanças fundamentais que consigam opor barreiras a desvios de conduta geradores de fraudes no manuseio dos dinheiros públicos, expressamente evidenciadas na campanha sucessória, já se vêem molestadas por ardilosas manobras indicativas do reflorescimento da “tiririca”. O nosso DC, no editorial estampado na edição de 2 de março, pontua magistralmente, ao se reportar à “invenção” dos “candidatos laranja”, que “mais uma vez, para desilusão talvez dos mais crédulos, a diferença entre o desejável e o acontecido foi grande e não foi preciso muito tempo para que se percebesse como partidos políticos e candidatos – nem todos é de se supor – se adaptaram aos novos tempos e com assustadora agilidade”.

Há mais coisas inconvenientes relacionadas com o vasto “laranjal”. A bancada parlamentar convocada a apoiar projetos governamentais, tal qual acontecia no passado, impôs condições - ao que parece já devidamente acertadas – para que tudo se enquadre no enredo costumeiro. Ou seja, para que tudo permaneça “como dantes no quartel de Abrantes”. O propalado “banco de talentos” não passa de rótulo novo para a antiga distribuição de cargos a cupinchas na administração pública. A liberação de “bônus” nada mais é do que a tradicional e generosa oferenda de verbas para ações de interesse estrito dos representantes parlamentares. Encurtando razões: mais do mesmo.

Um fiapo escondido no torrão faz mesmo a peste vicejar...

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