sexta-feira, 4 de setembro de 2020


Hiroshima, 75 anos

Cesar Vanucci*

“Bella matribus detestata – As guerras detestadas pelas mães".
(Horácio, 658 a.C)

Retiro do baú anotações com mais de duas décadas e frescor atual. Referem-se ao apavorante lance inaugural da era atômica. Ou seja, a explosão, 75 anos atrás, da bomba de Hiroshima, assunto intensamente relembrado pela mídia nestes dias.
O estoque das armas de destruição em massa é cada dia mais volumoso. O tal acordo de não proliferação de armas nucleares só vale, de verdade, para os países que ainda não as possuem. Os integrantes do fechadíssimo “clube atômico” monitoram com rigor policialesco as ações dos demais países, procurando dificultar-lhes até mesmo a aquisição de conhecimentos concernentes ao emprego da energia nuclear para fins de desenvolvimento econômico e social. Atribuem, por antecipação, a responsabilidade por uma eventual tragédia nuclear futura a terceiros, não detentores da mortífera tecnologia.
“Esquecem-se” de que na única vez na história humana em que bombas atômicas caíram sobre populações civis, destruindo cidades e matando centenas de milhares de pessoas, a iniciativa de detona-las foi tomada justamente por um dos membros do “clube”, que continuou, a exemplo dos parceiros, a armazenar novos e mais arrasadores artefatos.
Por outro lado, analistas em estratégias militares garantem que existem, presentemente, também, em poder dessas mesmas potências artefatos químicos tão “eficazes” quanto o armamento atômico. O que dá para “garantir”, se da vontade dos “senhores das guerras”, o extermínio de qualquer forma de vida sobre a superfície planetária. Uma ligeira amostra dos danos de que essa parafernália bélica é capaz de provocar tem sido dada numa série de conflitos registrados, mundo afora, posteriormente à segunda guerra mundial. É só lembrar o que sucedeu no Vietnã, no Golfo Pérsico, no confronto Irã-Iraque. Aquele mesmo em que o ditador Saddan Hussein pôde contar com copioso fornecimento de armas e sólido apoio logístico dos antigos aliados e futuros arquiinimigos estadunidenses.
Não esquecer ainda que a bomba de hidrogênio, mais potente do que a atômica, ainda não foi testada em campo de batalha. Existe em quantidade suficiente para acabar com o mundo várias vezes. As estatísticas mencionam milhares de engenhos guardados em silos subterrâneos, porta-aviões, submarinos e aviões permanentemente, por “estratégicas precauções”, preparados para decolar. São coisas assim que fazem com que os guerreiros vocacionados se imaginem sempre, em sua paranóia destrutiva, próximos do Armagedon. Farejar o Armagedon é postura natural para os espíritos deformados que fazem das guerras um bom negócio. Não sei se alguém, dentre ocasionais leitores destas maltraçadas linhas, ainda se recorda de um estapafúrdio lance, de anos atrás, estampado em jornais televisivos, quando do conflito Irã-Iraque. Um empresário paulista, cheio de empáfia, fornecedor de equipamentos bélicos a um dos litigantes, envergando uniforme de campanha iraquiano, ocupou as câmeras de televisão no ridículo papel de comentarista. Empunhando uma vareta sobre imenso mapa, vangloriou-se da eficiência mortífera dos instrumentos produzidos em suas fábricas. O homem babava de contentamento, em delirante fantasia, com as revelações sobre os estragos que as armas estariam em condições de provocar. Sentia-se um pouco dono do mundo. Uma cena arrepiante, essa proporcionada pelo mercador de armas. A história mostra que tem gente poderosa, espalhada por esse mundo de Deus onde o diabo costuma plantar seus enclaves, raciocinando e agindo nos mesmos termos do babaca citado. Nem todos talvez possuídos da ânsia tresloucada de exibir seu pendor belicista e primitivismo via televisão. Gente perigosa, sempre de prontidão para atear fogo em tudo.
Hiroshima e Nagasaki, alvos civis atingidos em cheio pela insanidade bélica, legaram-nos uma mensagem. Uma mensagem contra todas as guerras. Não só contra a guerra atômica. Um clamor pela paz, originário dos recantos mais generosos da alma humana, em todas as latitudes. Bem apreendido, pode levar o ser humano a refletir melhor sobre suas origens e seu destino. Permite-lhe até sonhar com aquele instante ideal na aventura terrena em que toda a dinheirama gasta para produzir morte seja aplicada na celebração da vida. Em favor de pesquisas e ações que elevem os padrões do bem-estar, promovam a cura de doenças e a erradicação da miséria. São essas, aliás, as guerras que precisam ser combatidas por todos.
Palavra de Hiroshima. E de Nagasaki!

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