sexta-feira, 4 de março de 2022

 

 LÍVIA PAULINI – ARTÍFICE DA PALAVRA E DAS TINTAS


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Alice Spindola

 

                                                                   


 "Nas suas escritas, Lívia Paulini

 cultiva a história pessoal-universal que

 é infinitamente atraente e humana". 

 Elizabeth Rennó 

 

    Até o final da vida, Lívia Paulini foi uma mulher inimitável, Ela própria se reconhecia assim. Seu   falecimento se deu em 29 de novembro de 2021, aos 103 anos. 

     Em sua literatura, a palavra de grande força libertadora, carregada de tradições, plena de rara expressão de Arte. Poesia de peculiar timbre. De sua marca lírica, a palavra que canta.

          Existência deveras singular. O próprio viver, um extraordinário romance. Entre pequenos gestos e sorrisos, esta Mulher venceu tremendos obstáculos. Voz firme e determinação. Silêncio contido. Mesmo sob o ritmo incerto das relações humanas de cada País, por onde transitara, Lívia Paulini se permitiu deixar, ali, em oferenda, palavras e versos florindo enlevos.

De sons e silêncio, esta artista capta da ressonância desse tempo até nossos dias a matéria-prima de seus cantos, as cores de sua arte pictórica. Perscrutando horizontes outros, erigindo um mundo somente seu. Ali, seu pincel entinta, delineia, cinzela, como se escalavrando complexas trajetórias, quando o sensível núcleo buscado seria o Belo, ou a essência deste.

Ante um livro, acabado de editar, de uma tela, ou de um bordado, numa Amostra de Arte, seu coração batia mais forte. Não importando em que terra, seu coração tremesse, Lívia Paulini pressentia que, para emoção tão intensa, inexistiam barreiras.

Desvendando segredos seus, que ela própria ignorava, Lívia se via criando um código particular e único, só seu. Na inteireza deste impulso, intencional vitalidade enriquece sua palavra. Canto, este, pertencendo a uma mesma melodia Universal, um hino em favor da Paz no Mundo.

Ei-la revendo sua existência. Observando um patrimônio artístico especial, advindo de batalhas e de êxitos muitos. Liberta de arraigados mitos e reminiscências, surpreendia a si própria adivinhando porque lutara tanto por liberdade em toda sua vida.

Virá desta luta, a tessitura da palavra que canta, e encanta?

Entre pensamentos e lembranças, Lívia se flagra erguendo-se ilesa dos inúmeros tumultos do destino. As partidas inesperadas, difíceis, de cada continente. Transpondo um tempo transitório, urgia ter consciência de valores outros que não fossem os da hora presente. Tudo, mais que uma questão de sobrevivência, um alerta. Mais que um propósito individual, uma visão revolucionária. Nessa estranha mudança de atitudes, vencer as resistências, desatar o último elo. Porém, como? Quando?

Onze dias atravessando um mar de azul infinito. Partindo da Alemanha para o Brasil, o navio singrara sob o arfar de oceano imenso. Para trás, os insultos. Medos e aflições. Os transtornos dos ideais. A guerra.

Não adiantava mais voltar os olhos à busca de enxergar-se na pátria amada, revê-la, tudo se tornara longínquo demais. Dentro de casto sigilo, a perigosa lucidez. Ali, no navio, uma censura mural indica que o relógio e o calendário perderam a utilidade. Ali, no navio, ao fim da viagem, no entanto, mesmo em frangalhos, era-lhe permitido divisar a transparência da palavra, tal um símbolo para o caminho franqueado, gerando a ideia de felicidade.

Ter a mãe e o irmão, por perto, um privilégio. Folheando a metamorfose do destino, os pequenos milagres. A reconquista da calma. E, na inteireza da fé, prestar conta e reconhecimento àquela conexão com a energia de Deus.

O que sobra de positivo das imagens da guerra?

Era preciso ser flexível às forças dos novos rumos. Por via dos tristes reflexos do século, a descoberta da enorme necessidade de PAZ. Fluindo em sério compromisso com a Paz, tal uma exigência do próprio fluir do mundo. Fechava-se um círculo e um ciclo na vida de Lívia Paulini e de sua família. Fiel aos ideais de PAZ, esta memória, um emblema para a busca do BEM. Ela e o esposo, em constante empenho pela PAZ.

Dentro do arco da fraternidade, encontrar Dom João de Orleans e Bragança, no Rio de Janeiro. E, através dos arcos da palavra, ter notícias de seu pai, livre da prisão e vivendo na Áustria. País que se faz paisagem da esperança.

O que sobra das imagens da guerra? E da palavra justiça?

De saudade e de esquecimento a eficaz sobra de desejos vários. O beijo de despedida que não houve. Um canto, apressado, que o próprio canto implorou. Justo aquele canto que – vezes tantas – ficou preso na garganta. De prazer ou de infortúnio, o pranto que a saudade obriga, ainda.

Como não agradecer à Poesia por ter consumido com irritações sem fim? Pressa – tenaz e absurda – de chegar a algum lugar? Por que ter de olhar para frente, se o destino seria lá? Lá longe. Lá por muito detrás do longe, rumo ao Sul, num outro continente, chamado Brasil.

 À Arte, em si, à família, o fato de sua presença em terras brasileiras?

Encastelados, em seu íntimo, o vigor, os objetivos futuros, as certezas e a consolação que transcendiam qualquer projeto ou desígnio que não formassem a ideia de PAZ.

Se houvera uma possível intenção de ir para os lados da América do Norte, o destino mudou sua rota. 

O Brasil, écloga de esperança e refúgio. 

Houve sofrimento. Outros, os propósitos. A língua, um entrave. Mas, desde o início, Lívia se descobre, o tempo todo, surpreendida por este Amor intenso. Verdadeiro. Empatia revelada na energia das ações, na pujança das metas, e nas entrelinhas de seu fluxo verbal. Não há como esconder! Seus olhinhos brilham Amor. –

Então, como definir Lívia Paulini? Definir essa Mulher que possuía aquele algo indefinível que vem de dentro?

Intelectual extraordinariamente ativa em diferenciados seguimentos da cultura mineira: foi editora do Boletim do Rotary Club de Belo Horizonte – Milionésimo. Presidente Emérita da Academia Feminina Mineira de Letras. Dirige o Jornal PALAVRA, desta entidade e, anualmente, sua REVISTA LITERÁRIA. Integrou os quadros do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Registrada na Academia de Ciências e Letras da Hungria.

Citada em Dicionários Brasileiros, Ingleses, Estadunidenses, Húngaros e Sul-Coreanos.

Lívia formou-se em Pedagogia e Psicologia pela Escola Superior de Györ, Hungria, 1941. Especializada em Desenho e Pintura e em Línguas, alemã e inglesa, em Budapeste em 1942.

Realizou exposições de pintura – individuais e coletivas – em nosso país e no exterior. No Rio de Janeiro e, depois de 1955, em Belo Horizonte. Quanta atividade! 

Aportou, em solo brasileiro, depois da guerra. Viagem que lhe mudou o destino, e trouxe novos impulsos aos seus objetivos. Intrépida, a coragem para deixar a Terra Natal.

Chegar ao Porto na cidade do Rio de Janeiro, justo no domingo de Páscoa, um sinal de felicidade.

Nos primeiros dias, no Brasil, contempla, com espanto, a beleza do chão de sua outra pátria. No fôlego desta admiração, descobre o quanto explodem as imagens dos futuros caminhos. De esperança e metas, o frescor de sua escrita e de seus quadros despertando-a para um amanhã incomum. 

Pintora reconhecida. Ensaísta. Tradutora. Articulista. Poetisa que carrega uma cultura plural em sua arte de encantar. Numa dinâmica cultural, seus poemas e textos são editados em outros continentes, enquanto vertia a escrita de diferentes poetas para o inglês e o húngaro. 

POUSO – REPOUSO, de sua autoria com o timbre lírico de um cotidiano de profunda intensidade e beleza.

Seu romance O ANCORADOURO – premiado pela União Brasileira de Escritores/Rio de Janeiro – obteve coroado sucesso. Autora conseguindo desenvolver uma concepção original, envolvente, viva. Raro poder de invenção. De seus recursos narrativos, uma engenharia sofisticada, mesclada de rara competência imaginativa e de pesquisa histórica aprofundada, que atrai o leitor e o leva a mergulhar na trama do romance. Lívia faz revelações do surpreendente mundo da guerra que não conhecíamos.

Prosa, entremeada daquela poesia que patenteia os sentimentos da autora. Memória. Escrita feita de rigor e exigência, qualidades que mostram o lado histórico e contemporâneo de seu arcabouço vocabular, e de suas diferentes vozes e vultos. Visível, o problema das minorias étnicas. Instigante, a romancista, com sua tenacidade e apurado estilo, tornando um drama de guerra, uma obra de Arte. Nos ângulos da palavra, uma significativa inquietude. De um ar de susto, a profundidade e a dor de uma lágrima. E a alquimia que cativa quem trilha por essa escritura.

Lívia Paulini traduziu as próprias obras: poesia. Ensaios. Reflexões. Análise de livros. Estudos diversos sobre eminentes pensadores e poetas, entre eles: Henriqueta Lisboa; o tcheco Carol Capek; o inesquecido Vivaldi Moreira. De elevada importância, antologias em que realizou a tradução dos poemas e a seleção dos autores. Assim, as trilogias:

PÉROLAS DE MINAS, coletânea de poetas mineiros. Antologia em trilíngue, 1990.

PÉROLAS DO BRASIL [Brazilia Gyöngyei] – Brasileiros, em antologia trilíngue [Português, Inglês e Húngaro]. Belo Horizonte, 1993.

PÉROLAS REVERBERANTES, seleção de poemas vertida para o francês por Elizabeth Rennó, completando a "Trilogia das Pérolas", destinada para a divulgação da poesia contemporânea brasileira.

COLETÂNEAS DE POEMAS, vertidas para o inglês e para o húngaro e que foram publicadas nos Estados Unidos.

Tradutora, por excelência, transpôs para o húngaro o discurso PRÊMIO JUAN RULFO, de autoria da Acadêmica Nélida Piñon. E um livro inteiro da lavra de Alice Spíndola – VERSEK/Poemas.

Além de CIDADÃ HONORÁRIA DE BELO HORIZONTE, pela Câmara dos Vereadores, por suas ações em prol da cultura mineira, valoradas experiências e obras literárias e pictóricas, Lívia Paulini veio a ser agraciada com insignes títulos, prêmios, medalhas e outras distinções. Vale ressaltar: a MEDALHA DA INCONFIDÊNCIA, pelo Governo de Minas Gerais. MEDALHA CLARA RAMOS outorgada pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. MELHOR TRADUTORA, pela Associação dos Escritores Internacionais. MEDALHA COMEMORATIVA DO CENTENÁRIO DO PALÁCIO DA LIBERDADE, pelo Governo de Minas Gerais. MEDALHA JOÃO PINHEIRO, pelo Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Distinguida com a MEDALHA "PAUL HARRIS" do Rotary Internacional.

Em diferenciadas paragens, além-mar, por onde passou, seja morando ou em visitas culturais, Lívia Paulini deixou sua marca, trabalhando em favor da Educação, seja escrevendo livros; enviando resenhas; dirigindo revistas, jornais ou entidades. Seja em Wartenberg, na Alemanha. Seja na Coréia do Sul. Na América Latina. Em Springfield, nos Estados Unidos. Em Bellaggio, na Itália. Ou na Hungria, de seus outroras.

Líderes, Lívia Paulini, quanto Stella Leonardos, amiga e confreira, se almaram de coragem e de esperanças para enfrentar os desafios do ofício. Espantoso, o entusiasmo de ambas pela literatura brasileira. Como Cidadãs vivenciaram, com audácia, os reflexos de um século.

Mulher de personalidade ímpar. Lívia Paulini soube ser grata a Deus pela vida, pela família, pelos momentos de ternura. Contou com a alegria de amigos e de vizinhos para reavivar seu cotidiano. Intelectual conseguindo integrar-se em diversificados contextos, e em locais vários onde se cultiva a literatura e a arte do pincel.

Sabe-se, ainda, que esta dama das Letras e das Tintas, fez-se notável, também, como avó e mãe sem par. Anfitriã maravilhosa, e a amiga de todas as horas. Em seu apartamento, em Belo Horizonte, no corredor da escada, do primeiro andar, para o andar de cima, a exposição permanente de suas telas. À mesa, iguarias de indescritível sabor, singular feitio.

Um dos prazeres da família: a música. De encanto especial, ouvir, ao violino, o neto Zoltan Paulinyi – violinista e compositor – também, Spalla da Orquestra Filarmônica de Brasília. Sim, o Zoltan e a fagotista Iracema Simon, sua esposa.

Instantes de reflexão, poesia e música. Enlevos e gestos. Troca de olhares entre o Dr. Ernest, o marido, Lívia e Helene, a filha. Ali, todos juntos se embriagando de carinho. Enquanto notas de uma sinfonia esbanjam dádivas, um fio de lendas húngaras acorda um raro estalo de sensibilidade, carícia tecida em seda. Arrebatamento, em que folhas/vida deste universo de bem-estar folheiam a sagração do Amor.

De herdados hábitos húngaros, essa brasileira não parou de nos surpreender a cada passo – com a simpatia à flor da pele – ao nos acolher, como amiga de longa data, quando, aberta a porta de sua residência, abraçava-nos com saudade.

Em suas obras, a permanente lembrança de suas ações, de seu sentimento a cerca deste Brasil que vibrou, multicolorido, em seu coração e em sua Arte. Alegria, sua, contagiando-nos até a alma, nos replena de emoção, hoje, ainda.

Para Lívia Paulini, os merecidos aplausos por sua poesia e por sua luta em obséquio da cultura húngaro/brasileira.


* Alice Spindola

Membro da Academia Municipalista de Letras



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